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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dèja-vú

Estava recentemente examinando a Estatistica de Instrucção de 1916. O documento contém um bom resumo do que tentou-se fazer pela educação até então. Uma das declarações mais interessantes é a de Dunshee de Abranches:
"E' convicção geral que não é possível permanecer por mais tempo a instrucção nacional no estado miserando a que se acha condemnada, atravez da indifferença dos governos que vão se succedendo na suprema administração do paiz [...]. A triste verdade é que as creanças sahem da escola primária abominando as lettras. Nos cursos secundarios só pensam os estudantes em acabar os alinhavados preparatorios, que lhes abram as portas das carreiras liberaes. Nas faculdades superiores, finalmente, de anno a anno, se vão tornando os diplomas acadêmicos os tropheós baratos da incompetencia laureada."(Exames geraes de preparatorios, pag 31 – apud Annexos ao Relatorio do Ministerio da Justiça e Negocios Interiores, de março de 1904)
Algo mudou?

sábado, 27 de dezembro de 2008

Consumo no Natal

Apesar da crise, o consumo do natal foi o maior dos últimos anos, segundo a Zero Hora de hoje, jornal de Porto Alegre. O varejo está comemorando as vendas. A previsão de crescimento do PIB para esse ano continua alta (maior do que 5%): a crise só deve bater ano que vem.

Lembro-me da época em que precisava estudar consumo. É importante tentarmos explicar o que acontece. Por um lado, os consumidores podem estar com a percepção de que a crise vindoura será passageira ou fraca, com pouca influência em suas rendas reais. Por outro lado, os consumidores podem não levar isso em conta (em um processo de auto-engano coletivo). Nesse último caso, teríamos uma função de consumo keynesiana tradicional. Talvez algum outro leitor desse blog tenha mais palpites. Faz tempo que eu não estudo essas coisas.

***

Na festa de Natal que juntamos quatro famílias, muitos presentes foram distribuídos. Se os presentes dados ali fossem os do agente representativo da economia, o povo do comércio estaria também bem feliz. Em um momento, entretanto, lembramos do verdadeiro motivo das festas, geralmente perdido em meio ao reencontro familiar e aos infindáveis presentes. Como dizia Lutero:

"Creiam que Cristo nasceu para vocês e que o nascimento aconteceu para o bem de vocês. Pois a Escritura Sagrada não afirma apenas: Cristo nasceu, mas diz: nasceu para vocês. Também não afirma apenas: eu anuncio uma alegria, mas diz: eu anuncio uma alegria para vocês. Creiam que Cristo nasceu para vocês".

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Relembrando filosofia da ciência

Há tempos não lia sobre um assunto que sempre me interessou bastante, desde a disciplina de Metodologia da Ciência que fiz na graduação: filosofia das ciências sociais. Qualquer ciência tem o dever de pensar sobre si mesma, o que não significa que não devamos fazer coisa alguma enquanto não chegamos a uma conclusão. Mas refletir um pouco é importante.

O grupo de estudo de história econômica que montamos lá na FEA-USP de repente resolveu estudar um pouco de filosofia. Nada mal. Lemos um capítulo de um livro de Martin Hollis chamado "Philosophy of Social Sciences: an introduction". Sucintamente, Hollis faz um apanhado geral sobre as idéias de Popper, Quine e Kuhn. Embora introdutório, o texto não é a coisa mais simples do mundo para quem não está acostumado. Mas parece ser bem legal e deu vontade de lê-lo inteiro.

O assunto é fascinante. Mas sempre que leio sobre isso, a impressão que fica é a de que nem mesmo quem passa o dia pensando nisso sabe se os fundamentos de nossa ciência são seguros ou não. Não há resposta confiável para perguntas como "deve-se empregar um mesmo método tanto para o estudo das ciências naturais quanto às sociais?". Ou ainda, nunca sabemos responder se a ciência está progredindo (como ainda sustentava Popper). A tentação da queda no relativismo total é muito grande. E é mais ou menos isso que está na moda hoje em dia, não apenas em filosofia da ciência.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Escandinavos e o conflito Igreja-Estado

É curioso passar pelos países escandinavos, considerados muito progressistas, e ver a relação simbiótica que suas igrejas nacionais mantêm com o Estado. O conflito Igreja vs. Estado é um conflito antigo. Detectamo-lo, por exemplo, nas diversas disputas acerca da educação: se ela deveria ser pública e laica, ou se deveria ser mantido pela iniciativa privada, principalmente a Igreja.

Não interessa muito que igreja. O conflito pode ser visto tanto em países de maioria católica como o Brasil, como também ocorreu em países como Estados Unidos e Inglaterra. Não é preciso falar de França e outros países, onde essa guerra foi forte.

Acontece que na Suécia, a Igreja da Suécia separou-se em 2000 do Estado. A Igreja da Noruega ainda é parte do Estado. Perguntei como era possível que os escandinavos fossem tolerantes e progressistas para muitas pessoas do alto escalão da Igreja da Noruega (que assim como a Igreja da Suécia é evangélica-luterana). No fim, eles não conseguiram me explicar direito. A tolerância leva necessariamente a uma perda de poder da igreja, embora tolerância seja desejável. Ao mesmo tempo, pode ser um fruto positivo de algo que tem muitas desvantagens: a secularização da própria igreja e da sociedade em geral.

Enquanto isso, suas economias são sólidas e apresentam os mais altos índices de desenvolvimento humano. A Suécia tem importantes setores industriais, enquanto a Noruega, que era um pouco mais pobre e dependente da pesca, teve a sorte de encontrar petróleo. Só que o petróleo norueugês é taxado em cerca de 70% se não me engano, que são redistribuídos. Excesso de intervenção do Estado? No Brasil eu sei que seria complicado, mas lá parece funcionar e poucos reclamam...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Impressões sobre alguns países

Os limites da ação estatal são sempre um tema polêmico, principalmente quando observamos o alto padrão de vida alcançado por grande parte da população nos estados de bem-estar social europeus. É patente que os países que visitei essa semana (Noruega, Suécia e Alemanha) conseguiram, às expensas de alta carga tributária e esquemas redistributivos, resultados bastante significativos.

Diferentemente do Brasil, a alta carga tributária de fato financia a saúde e a educação da população desses países. A intervenção na economia chega a níveis curiosos: à exceção da cerveja, que não é nem considerado bebida alcóolica na prática, a venda das demais bebidas alcoólicas nos países escandinavos é monopólio estatal. Entrei semana passada em um shopping ao lado da estação de trem em Oslo e lá estava o tal do "Vinmonoplet". Essa loja não tinha preocupação alguma com sua imagem, logomarca ou coisa parecida. Obviamente, apresentava uma grande quantidade absurda de bebidas alcoólicas expostas. (Detalhe: no mesmo shopping, havia uma loja muito legal que tinha tudo que é camisa de futebol do mundo, mas isso não tem nada a ver com o resto do post).

Esquemas de compensação social que lembram muito as idéias de justiça de Rawls ou Sen são muito freqüentes. Pessoas com deficiência recebem ajuda do Estado: uma espécie de compensação por terem tirado os números errados na "loteria genética". Casais que têm mais filhos na Alemanha pagam bem menos impostos para o governo, a fim de incentivar maior natalidade. Uma série de intervenções são aceitas pela população em geral por garantir bem-estar mínimo.

Talvez nossos leitores libertários não se sintam à vontade com tais intervenções. Mas são escolhas feitas por esses sistemas políticos, muito melhores do que o brasileiro. Os europeus reclamam de coisas que nos parecem pouco importantes, mas quem me dera poder reclamar do que eles reclamam.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Vítimas das enchentes em SC

Prezados leitores,
Peço um momento para divulgação de importante informação. Em breve, devo escrever sobre Noruega e Suécia. Grato pela paciência.
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Em adição às contas da defesa civil (estão mais abaixo), a direção da igreja luterana (a qual pertenço) também abriu conta para ajudar diretamente no trabalho, até porque há uma enorme presença de nossa igreja por lá. Mas não interessa quem são as vítimas, todas precisam de ajuda. Seria legal que todo mundo colaborasse um pouquinho, nem que seja com 1 real. Acredito que a Defesa Civil fará bom uso dos recursos, mas quem quiser fazer uma doação mais direta:

Favorecido: IECLB Camp Calamidade SC
CNPJ: 92.926.864/0001- 57
Banco do Brasil
Ag. 0010-8
C/C: 40.000-9

http://www.luteranos.com.br/articles/10841/1/Carta-de-apelo-do-P-Presidente-as-enchentes-de-SC/1.html

A Defesa Civil de Santa Catarina abriu contas correntes em vários bancos para receber doações para ajudar a resolver alguns problemas criados pela catástrofe recente.

- Caixa Econômica Federal: agência 1877, operação 006, conta 80000-8
- Banco do Brasil: agência 3582-3, conta 80000-7
- BESC: agência 068-0, conta 80000-0
- Bradesco: agência 0348-4, conta 160000-1
- Itaú: agência 0289, conta 69971-2
- Santander: agência 1227, conta 430000052

O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ 04.426.883/0001- 57.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Professor Kang?

Faz parte da vida do mestrando uma experiência como monitor em alguma cadeira da graduação. Os cursos de pós-graduação strictu sensu geralmente requerem que o aluno seja assistente de algum professor. Fui monitor oficialmente de Formação Econômica e Social do Brasil II, mas não havia muito a ser feito. Substitui nesse semestre o monitor de Microeconomia II. Semestre que vem, estou escalado para ser o monitor de Econometria I.

Nesse semestre, ser monitor de Microeconomia II foi muito gratificante. De fato, corrigir provas e fazer gabaritos de listas dá muito trabalho. E a percepção do alto custo é mais forte ainda quando se sente que a dissertação está sendo deixada de lado. Por outro lado, estar em sala de aula e interagir com os alunos é legal, mesmo quando não se tem grande afinidade com a matéria, como é o meu caso. Apesar de meu subdesenvolvido raciocínio microeconômico, os alunos parecem não ter problemas comigo e inclusive gostam da monitoria, uma vez que eu e o outro monitor, o Wander, preparamos a monitoria do jeito que podemos.

Inclusive surpreendi os alunos quando disse-lhes que minha área de pesquisa era em história econômica. Particularmente na FEA-USP, onde a visão que os alunos têm de história econômica é bastante associada ao estudo detalhista da escravidão em certas regiões, eles parecem às vezes não acreditar que existem outras formas de se fazer história econômica. Não conseguem conceber que um historiador econômico possa achar microeconomia um assunto importante, embora não seja de fato sua matéria predileta.

Recentemente, o prof. Abramovay, que é responsável pela disciplina de Introdução às Ciências Sociais, pediu-me que eu apresentasse as idéias de Amartya Sen para seus alunos, a maioria do primeiro ano da graduação. Embora eu tenha tentado traduzir vários conceitos de Sen de forma simples, acredito que foi uma aula com excesso de informação para eles. Pelo menos tentei interagir com a turma e eles participaram. Claro que não entenderam bem a crítica de Sen à economia do bem-estar, nem a idéia de capacitações. Mas poucos economistas sabem desses assuntos mesmo. Pelo menos, falei de algo que sei. Obviamente sinto-me muito melhor assim e espero ter incitado pelo menos a curiosidade de alguns para o campo do desenvolvimento humano.

De qualquer forma, as duas experiências são e foram boas, apesar do problema do tempo para preparar, corrigir, etc. A única recomendação para futuros monitores é que preparem as aulas. Minha monitoria pode não ser fantástica, mas os alunos parecem reclamar que tiveram monitores em outras matérias que não se preocupavam em preparar as coisas. Um simples preparo de 1h pode ser toda diferença para esses alunos, além é claro de uma certa clareza para passar as informações.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Educação nos EUA

Meu orientador Renato Colistete chamou atenção para a seguinte coluna do New York Times. Vale a pena ler. Segundo o autor da coluna, os professores Claudia Goldin e Lawrence Katz de Harvard colocam a educação como o principal fator a explicar a diferença que existia entre os EUA e o resto do mundo. Isso até a educação entrar em estagnação por lá.

Erro da ANPEC

A prova da ANPEC esse ano se superou. Um concurso que decide a vida de futuros mestrandos não pode ter falhas tão grandes em sua organização.
Uma série de erros seguidos foi responsável por prejudicar a vida de muitos. Em primeiro lugar, houve atraso na divulgação dos resultados. Logo em seguida, descobriu-se que alguns centros receberam a classificação com os pesos errados. Assim, os resultados divulgados que já estavam atrasados tiveram que ser retirados. Logo, publicou-se o que seriam os resultados com os pesos corretos. Como se não bastasse, o pior veio no final: houve erro na correção e diversos alunos estavam com as notas erradas, prejudicando toda a classificação.
Até então a USP já tinha ligado para muitos convidando-os para a reunião. Era evidente a indignação de professores que passaram a tarde ligando para alunos confiando na classificação divulgada. A classificação correta só veio à tona na terça, quando USP e FGV-EESP faziam suas reuniões com os alunos chamados anteriormente. EPGE-FGV e PUC-Rio resolveram adiar suas reuniões em uma semana.
Aqui não se deseja achar culpados, mas apenas dizer que erros desse tipo não podem acontecer.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O que mudou com o mestrado?

Estamos em vias de conferir a divulgação da classificação do exame da ANPEC, que vai definir o rumo de muita gente nos mestrados em economia. Na terça-feira que vem, a USP deve reunir os possíveis futuros alunos, assim como farão também alguns outros centros. Todos vão vir com aquelas expectativas de sempre, com milhares de dúvidas e sem saber o que se espera deles.

O mestrado é um curso importante, embora possamos ter muitas reclamações. Sempre temos aquela maneira de olhar para o passado imaginando um contrafactual do tipo: "aquilo lá poderia ter sido melhor". De fato, o curso não é perfeito. Mas o mestrado aqui na USP, e também em outros lugares de qualidade, certamente permite um avanço enorme no conhecimento. Às vezes, não aprendemos tanto com as disciplinas na hora que as cursamos. Lemos e estudamos para as provas usando livros de difícil compreensão em uma linguagem com a qual não estamos nem um pouco acostumados. No entanto, sente-se a diferença na leitura posterior de livros de graduação, que após dois anos de sofrimento tornam-se leituras de cabeceira como se fossem histórias em quadrinhos ou Harry Potter (com todo respeito aos fãs do jovem mago, representados também na pós-graduação aqui da FEA-USP).

Livros como Varian ou Gujarati, que antes tinham algumas (ou muitas, dependendo do aluno) partes obscuras (confesso que não entendia o Gujarati direito), parecem agora ser livros muito simples. É isso que permite que os alunos do segundo ano no mestrado consigam ser monitores de disciplinas da graduação com relativa facilidade.

É claro que ler as coisas do mestrado continua complicado. Estudo em nível de pós-graduação é um processo de aprendizado lento e às vezes sofrido, mas que é muitas vezes recompensador. De fato, mudar-se, sair de casa e abandonar amigos e amores são custos altos. No entanto, não é em vão. Acredito que a FEA-USP foi uma boa opção, conquanto possamos sempre ter reclamações. Há desorganizações, há situações que achamos injustas. Mas no final das contas, creio que tive um bom curso.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Escandinávia, uma pedra no sapato

Os nórdicos são sempre uma pedra no sapato dos economistas. Não sei o que causa o sucesso deles, mas não deixa de ser engraçado os propósitos de um centro de estudos em igualdade, organização social e desempenho econômico da Universidade de Oslo. Muitos pesquisadores conhecidos como Acemoglu, Robinson, Bowles e Loewenstein são associados a esse centro. Segundo o site deles:

The Nordic countries seem to violate what the economics profession views as necessary requirements for an economy to prosper. They have too small wage differences, too high taxes, too large public sectors, too generous welfare states, and too strong unions. Despite of these violations, they have for decades been doing extremely well. What most economists see as a recipe for serious economic trouble seems, in the Nordic countries, to be consistent with high growth, low unemployment, low inequality, and a fairly efficient allocation of resources. How come?

Has economics got it wrong? Or, is it rather a question about timing and luck? If the Nordic success stories are just luck, the renewed interest for the "Scandinavian model" in Europe and elsewhere is misguided. If economics has got it wrong, it is important to know how and why.


Um dia vou estudar esses países. Nesse exato momento, estou me informando acerca do sistema educacional sueco.

domingo, 19 de outubro de 2008

Conferência no Uruguai: algumas impressões de minha estréia em eventos acadêmicos internacionais

Acabo de voltar de Montevideo, capital do Uruguai, onde ocorreu a II Conferência sobre Desenvolvimento Humano e a Abordagem das Capacitações. Cheguei na segunda e dei muitos passeios pelas ruas da Ciudad Vieja de Montevideo. Mas na quarta, começou a coisa séria: iniciou-se a conferência.

Houve excelentes palestras sobre a temática da desigualdade e do desenvolvimento humano. O evento contou com a presença de pessoas de renome nesse assunto. A filósofa Adela Cortina de Valencia e meu ex-professor Flávio Comim lançaram algumas questões polêmicas para o público sobre a abordagem de Amartya Sen. Sabina Alkire (Oxford) também foi muito bem, atualizando-nos na fronteira das tentativas de mensuração de pobreza multidimensional. Um bom expositor também foi Francisco Ferreira, brasileiro no Banco Mundial e ex-professor da PUC-Rio, que mostrou um trabalho empírico sobre mensuração da desigualdade de oportunidades baseado em um belo modelo de John Roemer. (Os filósofos sempre se surpreendem com a paixão dos economistas pela estética do modelo).

Além disso, na quarta-feira foi o dia da apresentação de meu paper. Acredito que meu paper destoava um pouco dos outros da mesa por seu caráter não-inovador (é apenas um resumão tentando juntar explicar conjuntamente as questões filosóficas e econômicas na abordagem de Sen) e por ser em português. Além disso, a maioria da mesa e do público tinha formação filosófica. Comim e Cortina estavam lá presentes, o que aumentava a minha responsabilidade. Apesar da barreira linguística, creio que a apresentação foi clara o suficiente. Pelo menos foi a impressão que tive dos alunos uruguaios presentes, que balançaram a cabeça em sinal de aprovação quando perguntei se estava sendo entendido. Para mim, não houve perguntas (graças a Deus). Os outros trabalhos, uma vez que tinham algo de novo, incitaram mais perguntas.

De resto, foi uma boa viagem em que encontrei uma amiga uruguaia metodista e fui recebido de forma muito acolhedora por sua família e amigos. Também conheci algumas pessoas muito legais na própria conferência, além de conhecer a cultura uruguaia, em muitos aspectos, semelhantes com a gaúcha. Aliás, os uruguaios sim bebem muito mais mate do que gaúchos ou argentinos. Em qualquer esquina, sempre há um com a térmica e a cuia. O mais curioso é que não se planta erva-mate no Uruguai: eles basicamente importam a erva do Rio Grande do Sul. Qual não foi minha surpresa ao ver que a erva que eles consideram uma das melhores vem de Encantado-RS.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Krugman

Saludos del Uruguay. Estou em um pequeno hotel na Ciudad Vieja de Montevideo e usando um teclado espanhol. Desculpem os erros ortográficos nao intencionais. Daqui, escrevo um post para dizer que o prêmio para Krugman me parece justo. Alguns podem nao gostar do que ele escreve no New York Times ou de suas posicoes politicas. Mas suas contribuicoes sao inegáveis do ponto de vista acadêmico. Acredito que poucos discordariam.
A fundamentacao científica com um pequeno survey sobre estudos de comércio e Nova Geografia Econômica, os assuntos que Krugman trabalhou, está aqui apresentada no site oficial.
Bom, este blog errou. Apostei em Barro porque acreditava que a militância polìtica de Krugman atrapalhá-lo-ia. Ledo engano.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

E o Nobel?

A família de Alfred Nobel não gosta muito do pretenso Nobel em Economia. Não obstante, ele ganhou status de Nobel, mesmo não sendo um prêmio instituído por Alfred e sim uma criação do Banco Real Sueco. Na segunda que vem, anuncia-se o vencedor e as apostas obviamente já começaram.

Há muito se fala em Fama. Confesso que nunca li nada desse economista. Outros que aparecem fortes nas apostas são Robert Barro, Thomas Sargent, Peter Phillips, Jean Tirole, Lars Hansen, entre outros.

Recentemente, muitos prêmios foram dados ao pessoal que trabalha com teoria dos jogos. Também não acho que o pessoal de Finanças como Fama leve o prêmio. Possivelmente, teremos um econometrista ou um macroeconomista, embora Phelps tenha sido premiado há dois anos. Podemos, no entanto, ser surpreendidos. É evidente que economistas como Krugman merecem tal prêmio. No entanto, ao tornar-se um ativista político, Krugman pode ter praticamente abdicado do prêmio, embora suas contribuições à Economia Internacional e à Nova Geografia Econômica sejam de fundamental importância (acho que quem comentou isso foi o Leo Monastério). Outro que corre por fora é o novo-institucionalista Oliver Williamson. O prêmio dado ao pessoal de desenho de mecanismos ano passado, uma aplicação da microeconomia, pode sinalizar que Williamson não será premiado.

Meu chute vai pra Robert Barro então.

sábado, 4 de outubro de 2008

Mentiras e princípios em debate

Escrevi um pequeno e didático texto (pelo menos eu queria que fosse didático) tomando posição contrária a uma ética puramente baseada em princípios. O exemplo foi a questão da mentira. Este texto gerou um pequeno debate na internet, com o post do Richard em resposta ao meu e, posteriormente, com o post do Igor. Em resposta ao Igor, Richard rebateu.

É um debate interessante para aqueles mais amigos da filosofia (amigo da filosofia é algo redundante, mas enfim). Os economistas strictu sensu não precisam se arriscar.

sábado, 27 de setembro de 2008

Monitoria

Fazem parte da vida do mestrando as atividades de monitoria. Todos os alunos da pós-graduação em Economia na FEA-USP são obrigados a dedicar um tempo aos alunos da graduação. Nesse semestre, a disciplina de Microeconomia II parou nas minhas mãos por intermédio de meu colega Richard.

Certamente, a atividade mais chata e cansativa da monitoria são as correções de provas. Por vezes, corrigir provas é como assistir ao horário eleitoral. É chato, mas eventualmente, aparece alguma bizarrice engraçada. Também mexe com a empatia, os sentimentos: assim como estupefatos assistimos às figuras que pretendem ser vereadores ou deputados, também muitas vezes dá pena dos alunos que conseguem criativamente escrever os absurdos mais diversos.

A parte que acho realmente divertida é dar aulas. Talvez os alunos não digam o mesmo: sempre há aquele grupo de alunos catatônicos sentados ao fundo, que às vezes nem parecem saber o que é um monopólio ou uma curva de custo marginal. Proporcionei-lhes uma rápida e pouco didática apresentação do equilíbrio de Nash.

Este post é mais um daqueles dedicados aos que se interessam por seguir em uma pós-graduação. Um resultado da falta de inspiração de alguém que passou metade da tarde corrigindo uma questão de prova.

domingo, 21 de setembro de 2008

Congressos, história econômica e pensamento econômico

Recentemente, ocorreu na FEA-USP um Simpósio de Pós-Graduação em História Econômica. Tive a oportunidade de participar com um artigo sobre educação e poder político no Brasil de 1930 a 1964. Como era um simpósio de pós-graduação, foi como um jogo na série B, mas minha primeira apresentação mais séria.

Uma lida nos resumos da maioria dos artigos do evento, no entanto, gerou um misto de preocupação e divertimento. Nos resumos já era evidente que muitos trabalhos ali deveriam ter qualidade muito aquém do esperado em cursos de pós-graduação sérios e bem conceituados que a maioria dos apresentadores representava. Não significa que meu trabalho fosse excelente, mas um nível de qualidade mínimo deveria ser exigido, e ali definitivamente não havia muitos trabalhos que satisfaziam esse requerimento. Muitos resumos eram inclusive hilários, tamanha era a falta de qualidade.

É preocupante que a pesquisa em história econômica no Brasil, além de voltada autisticamente para sua própria literatura, ignorando o que é publicado no exterior a respeito, esteja definhando sistematicamente em termos de qualidade. Talvez pela falta de interesse dos bons estudantes de Economia e História no assunto. Um bom sintoma disso é a pouca prioridade dada pela ANPEC em seu congresso para a área de história econômica: apenas seis trabalhos da área foram selecionados, em comparação com os 18 trabalhos da área de pensamento econômico, metodologia e economia política. E todos sabemos que pensamento econômico, à exceção de alguns poucos pesquisadores de excelência, é uma área muito mal estudada no Brasil.

Falando nisso, meu trabalho em justiça e desenvolvimento na concepção de Amartya Sen, embora não contribua com novidade alguma, foi selecionado para a conferência latino-americana sobre capacitações que ocorrerá no Uruguai em outubro. Infelizmente, a área de pensamento econômico na ANPEC não gostou muito. Dessa vez, não vai dar para ir para Salvador.

Cardeal Kasper fala de Lutero

Notícia veiculada na Ecumenical News International:

Catholics can learn from Luther too, says Cardinal Kasper


Frankfurt/Wittenberg (ENI). Roman Catholics can learn from the 16th-century Protestant reformer Martin Luther, the Vatican's top official for Christian unity, has said, as Protestant churches in Germany prepare to launch a 10-year series of events leading up to the 500th anniversary in 2017 of the Lutheran Reformation. In an interview published in the Frankfurter Allgemeine Zeitung newspaper, Cardinal Walter Kasper encouraged Catholics to read Luther's commentaries on the Bible, and his "hymns full of spiritual power". The cardinal said he also hoped Protestantism would return to the faith of Martin Luther, "who would have been deeply averse to all of today's liberal tendencies". [457 words, ENI-08-0756]

sábado, 13 de setembro de 2008

Matemática e Teoria Econômica

Semana passada, tivemos a oportunidade de assistir mais um dos seminários promovidos pelo ex-ministro Delfim Netto. Professor emérito da casa, Delfim sempre convida dois economistas, um da FEA e outro de fora, para debater assuntos de interesse acadêmico. Desta vez, o seminário foi sobre o papel da matemática na teoria econômica.

Não são tão poucos os que rejeitam completamente o uso da matemática na Economia, pelo menos no Brasil. É claro que esse preconceito tem se esvaecido com o tempo. Amartya Sen e Paul Krugman, economistas um pouco (apenas um pouco) menos rejeitados por setores heterodoxos, já falaram bastante da utilidade da construção de modelos e das vantagens do instrumental matemático. Não é de se surpreender que mesmo alguns pós-keynesianos tem usado modelos matemáticos, sem contar alguns marxistas analíticos.

O professor que representou a FEA no seminário foi o Chiappin, doutor em Filosofia, Física e Economia. Um professor excelente e de currículo invejável, cuja hiperatividade acadêmica lembra a dos renascentistas. Ele simplesmente quer saber sobre tudo. Antes dele, apresentou o professor da EPGE/FGV, Aloísio Araújo, um dos economistas brasileiros mais conhecidos no exterior por sua proeminência na área de Economia Matemática. O mérito de Araújo na preleção foi mostrar que os teoremas, corolários e proposições dos livros de microeconomia da pós-graduação têm alguma aplicação prática. Seus exemplos foram através de seu trabalho com a Lei de Falências utilizando o ferramental analítico da micro. O demérito foi que os pobres alunos da graduação que lá se encontravam estavam mais perdidos que "cusco em tiroteio".

O professor Chiappin resolveu misturar tudo então. Falou das suas áreas: filosofia, física e economia em uma palestra só. Foi fascinante ver aquele aquela interdisciplinaridade toda em uma pessoa só. Praticamente me convenceu que o grande desenvolvimento científico dos últimos séculos deriva-se da junção de geometria (a matemática à moda grega) com a álgebra (o jeito árabe) através de René Descartes e a superação de diversas concepções aristotélicas. Lembro que no Colégio Militar tive aulas de desenho geométrico: resolvíamos equações do segundo grau utilizando compasso e régua. No entanto, como disse Chiappin, só se sabia multiplicar até três dimensões com a geometria. Com a correspondência entre álgebra e geometria, a ciência simplesmente deu um salto.

A mensagem foi mais ou menos a seguinte: a matematização é um caminho muito rápido para o desenvolvimento da ciência, inclusive a Economia. No entanto, somos ainda amadores perto de físicos. Um bom motivo é que fenômenos econômicos e sociais são mais difíceis de serem modelados. A esperança é que se consiga cada vez mais avançar na matemática sem perder poder explicativo, o que às vezes parece acontecer.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

U2, Tolerância e Relativização

Ontem fui assistir o show U2 3D, utilizando a nova tecnologia de projeção que permite que vejamos as cenas como se tivessem profundidade, ou seja, três dimensões. Não obstante a novidade e a utilidade desta nova tecnologia (recomendo fortemente que vocês vejam um filme nos cinemas com essa tecnologia), vou tratar de outro assunto aqui. Um assunto diretamente relacionado so show do U2, uma banda que tem muito de suas letras e atitudes inspiradas em sua fé cristã.

Um conceito que ficou muito famoso nos shows do U2 é a idéia de coexistência: não importa em que acreditamos, devemos coexistir com os demais. Em resposta às guerras e conflitos religiosos, principalmente entre as grandes religiões monoteístas, todas relacionadas ao patriarca Abraão, o U2 tenta mostrar nos shows o quão estúpidos são esses conflitos. Sendo cristãos, eles enfatizam que cristãos, judeus e muçulmanos são filhos de Abraão e que essas brigas não faze sentido algum. Mais do que isso, em um momento do show, Bono relativiza o conceito de verdade dizendo que todas essas religiões são verdadeiras.

A história do U2 é fortemente ligada a suas origens cristãs. Até hoje é nítido que a fé deles está relacionada a seus posicionamentos políticos. Em muitas de suas letras, muitas vezes de forma ambígua, algumas vezes de forma clara, eles falam de sua fé em Cristo. Seus shows da última turnê terminaram com um crucifixo pendurado no microfone. Eles têm até uma canção que fala sobre a graça (Grace) magistralmente.

No entanto, embora goste muito do trabalho do U2, minha mente cartesiana e convencional não comporta a relativização da verdade, pelo menos ainda. É evidente que concordo com a idéia de coexistência, que é uma idéia de tolerância religiosa. A tolerância é fundamental nas sociedades e em nada contraria qualquer princípio ou idéia cristã. Muito pelo contrário, acredito que uma fé que prega o amor justamente vai ao encontro da idéia de tolerância, por mais que discordemos da posição dos outros. Entretanto, para eu tolerar o outro, eu não preciso necessariamente relaxar minhas convicções. Posso até fazer isso, mas a tolerância não decorre da relativização.

Como disse um ortodoxo americano em uma reunião sobre diálogo inter-religioso na Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas em 2006, pregar a relativização como único caminho para a tolerância é um tiro no próprio pé para a unidade cristã. Sempre haverá setores religiosos que não relativizarão, causando divisões dentro dos próprios cristãos. Nem por isso esses setores devem deixar de tolerar aqueles professam outra religião. Muito pelo contrário, quando pregamos a tolerância entre religiões, devemos justamente fazer as pessoas entenderem que a tolerância é aprender a conviver com o diferente. Se todos relativizam, temos uma mesma massa. Nesse caso, a tolerância não é mais necessária.

O U2 não precisa dizer que tudo é verdade para que aprendemos a tolerar uns aos outros. Eles não vão conseguir fazer todos se tornarem relativistas. Eles talvez devessem é dizer que não importa no que acreditamos, tolerar é necessário. A vida é mais importante que os dogmas, mesmo que acreditemos firmemente neles.

*Agradecimentos ao P. Cláudio Kupka pelo convite para ver o U2 3D e por suas palestras sobre a relação entre U2 e fé cristã.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Contrafactual

Contrafactual para um historiador é praticamente um pecado. Conjecturas sobre o que teria acontecido caso um fator x ou y não tivesse existido são comumente mal vistas. O historiador, mesmo o econômico, não deveria tratar do que não aconteceu, afinal isso não é história.

William Summerhill resolveu falar sobre os contrafactuais hoje. Enquanto ele falava, eu, Felipe e o Prof. Renato apenas trocamos olhares. Recentemente discutíramos a respeito do tema lendo um texto clássico de Robert Fogel, Nobel em Economia de 1993*. Para mim ficou evidente lendo aquele texto a falácia da negação do contrafactual. Como afirma Fogel, sempre que afirmamos que um fator x foi de crucial importância para a ocorrência de tal processo histórico, estamos dizendo implicitamente que, sem aquele fator, as coisas teriam ocorrido de forma significativamente diferente. A única diferença então é que alguns, conscientes de que estão sempre fazendo suposições contrafactuais, explicitam isso. Outros, aqueles que pregam o erro do uso de contrafactuais, usam-nos implicitamente.

É um assunto longo que precisa ser mais debatido. Summerhill falou em Fogel e confirmou nossas idéias a respeito. É muito melhor explicitar os contrafactuais, pois assim possibilitamos que nossas hipóteses possam passar pelo crivo dos outros pesquisadores que lêem nossos trabalhos. Explicitar os contrafactuais é deixar claro nosso argumento, que fator estamos dando maior importância na explicação de certo fenômeno empírico, mesmo que não pertença àquilo que chamamos de história econômica.


* Fogel, R. W. (1967). "The Specification Problem in Economic History". The Journal of Economic History, 27 (3), Sept., p. 283-308.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Atraso econômico e "pecado original" (não é teológico)

Hoje iniciou um mini-curso em história econômica com o Prof. William Summerhill, do Departamento de História da UCLA. O curso trata especificamente do crescimento de longo-prazo e do atraso latino-americano. A primeira aula foi interessante: ele discutiu algumas das teorias para o atraso baseado em instituições.

Depois de Summerhill apresentar extensivamente o trabalho de Acemoglu, Johnson e Robinson (2002) e criticar alguns de seus aspectos, alguns de nós começamos a discutir acerca do determinismo dessas teorias. Todas elas buscam uma explicação no começo da colonização para o surgimento das subseqüentes instituições que teriam levado ao atraso latino-americano.

Afinal, é pelo início da colonização que se explica o atraso? A sensação geral é de uma idéia de "pecado original" e que, portanto, não é possível melhorar muito a situação. Até que ponto ou qual a proporção do atual atraso que podemos atribuir a fases iniciais da colonização?

Apenas uma questão para os leitores refletirem.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Ética e mentiras

Como acontece com muita gente, cresci ouvindo de meus pais que havia claramente o certo e o errado. Preto no branco. Uma questão de princípio. Balizas. Limites intransponíveis. Mentir é errado, por exemplo. Parece-me que para crianças, ensinar leis dessa forma é algo apropriado. Apenas depois é que temos condições de refletir melhor e avaliar as situações.

Acredito que todos aqui já mentimos por questões consideradas nobres. Obviamente também já mentimos apenas para satisfazer nossos interesses mais egoístas. Entretanto, eu justificaria algumas das mentiras que já disse por aquilo que considerei ser um bom motivo.

A mentira é apenas um exemplo entre tantos outros, mas bastante ilustrativo. Posso até afirmar categoricamente que a mentira é sempre algo ruim. O problema é quando a conseqüência de não mentirmos é algo pior do que a própria mentira. Imaginemos a situação em que dizer a verdade resulta na morte de alguém. Embora mentir seja ruim, podemos considerar a morte de alguém muito pior (acho que isso é razoável). Quando a escolha é entre o mal e o mal, recorrer somente a princípios não nos leva a lugar algum. Os princípios são importantes, mas não podem ter prioridade absoluta em uma decisão. Afinal, não mentir pode levar a um mal ainda pior. Se os princípios se tornam prioridades absolutas, desconsideram-se os verdadeiros dilemas e não existem respostas satisfatórias para as situações concretas que vivenciamos. Mentir quase sempre é um erro, mas podem existir situações (poucas) em que mentir seja necessário.

Esse debate ético é a discussão que ocorre entre aqueles que advogam uma ética baseada em princípios e aqueles que defendem uma ética conseqüencialista. Em termos técnicos que talvez não sejam familiares a muitos leitores (ou seja, passem por cima das próximas duas frases se quiserem), conseqüencialismo não é o mesmo que utilitarismo, embora todo utilitarista seja conseqüencialista. O utilitarista em geral desconsidera princípios, enquanto que certas vertentes conseqüencialistas consideram princípios como um tipo de conseqüência. Tendo a me inclinar a essa última idéia e acredito que ela é mais próxima daquilo que a ética cristã ensina. Afinal, "o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado" (Mc 2.27).

Entendo, no entanto, que nem o conseqüencialismo nem os princípios respondem corretamente a todas as questões. Apenas Deus tem conhecimento acerca do bem e do mal, e nós seres humanos não podemos ter a pretensão de saber isso - não sabemos de todas as conseqüências possíveis, afinal não podemos prever com 100% de exatidão o futuro. É essa pretensão que nos tira da comunhão com Deus, que nos afasta dEle em vez de cumprir suas ordens. É na relação com Deus e na obediência que podemos tomar as atitudes de fato corretas. Como se relacionar com Deus é outra questão, que precisamos trabalhar muito mais.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Sobre o mestrado

Estou há cerca de um ano e meio em São Paulo devido a meus estudos em nível de mestrado na FEA-USP. Recentemente, um visitante deste blog questionou-me acerca das possibilidades que a USP oferece para um doutorado no exterior. Além disso, perguntou-me se tive um bom curso. Aí vai a minha resposta.

O doutorado no exterior é cada vez menos incentivado pela política governamental. Segundo tenho ouvido, as verbas destinadas a bolsas integrais de doutorado fora tem diminuído como fruto da constatação de que os doutorados nacionais estão fortes o suficiente. Tenho visto muitos cartazes sobre bolsas-sanduíches: aquelas que financiam o estudante que faz o doutorado no Brasil durante um período fora em alguma universidade no exterior. Uma alternativa bem mais barata para o governo. Não obstante, ainda há gente sendo mandada ao exterior evidentemente e a FEA-USP tem excelentes professores que podem indicar pessoas ao PhD fora. Da turma anterior a minha, que não tem um perfil muito acadêmico (poucos tentaram o doutorado fora), uma foi mandada para Yale, outro para UMass. Da turma de dois anos atrás, sabemos pelo menos de um em Columbia e de outro indo pra LSE agora (não conheço os outros). Ademais, acredito que a FEA-USP tem boas cartas de recomendação para Yale, Chicago, LSE, UCLA e algumas outras pelo menos.

Quanto ao curso, minha turma teve um curso bom, apesar de que vi alguns problemas pequenos. Acredito que esses problemas foram sanados neste ano com a nova turma. Econometria é uma das áreas mais fortes, mas temos também times muito fortes em Macroeconomia, Microeconomia Aplicada e Economia Regional e Urbana. Para aqueles que desejam quem sabe ir para o exterior, a FEA-USP me parece ser uma boa alternativa, assim como PUC-Rio e EPGE. A PUC-Rio tem uma tradição forte em mandar gente pra fora, mas acho que, se alguém quiser e mostrar serviço, a FEA tem boas cartas. Não sei dizer se as escolas do Rio estão mais fortes ou não nisso, é preciso ver com quem estuda lá.

A vantagem da USP continua sendo seu corpo de professores mais plural e diversificado em relação a áreas de estudo. Praticamente todos os campos têm gente muito boa para orientar, sejam eles da geração antiga ou dos "novos doutores", sejam eles das alas heterodoxas ou dos ortodoxos (que predominam).

Aqueles que quiserem mais detalhes, sintam-se a vontade para comentar ou até me mandar um e-mail. É só dar uma olhada no meu perfil. De qualquer forma, mantenham IPE-FEA-USP entre suas opções pra ANPEC e ponderem com calma se conseguirem passar entre os primeiros.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Economia bíblica

Até mesmo no Israel do Antigo Testamento se conhecia bem a lei da escassez. A história abaixo é sobre uma fome que houve em Samaria devido a um cerco feito pelos siros e a posterior abundância com o fim do sítio (2 Reis, cap. 6 e 7):

"Houve grande fome em Samaria; eis que a sitiaram, a ponto de se vender a cabeça de um jumento por oitenta siclos de prata e um pouco de esterco de pombas por cinco siclos de prata." (2 Reis 6.25).

"Então, disse Eliseu: Ouvi a palavra do Senhor; assim diz o Senhor: Amanhã, a estas horas mais ou menos, dar-se-á um alqueire de flor de farinha por um siclo, e dois de cevada, por um siclo, à porta de Samaria" (2 Reis 7.1)

"Então saiu o povo e saqueou o arraial dos siros; e assim, se vendia um alqueire de flor de farinha por um siclo, e dois de cevada, por um siclo, segundo a palavra do Senhor". (2 Reis 7.16)


Nas notas de rodapé de minha Bíblia de Estudo, está escrito o seguinte para ajudar os não familiarizados com o raciocínio econômico que o autor do livro bíblico acreditava não ser necessário explicar: "A queda dos preços era sinal de abundância; assim o profeta anunciava o fim do cerco".

terça-feira, 15 de julho de 2008

Dias tensos

Estou em dias tensos. Após um casamento em BH no sábado, tenho apenas até sexta para entregar um trabalho para o Congresso de História Econômica que ocorrerá na FEA-USP em setembro (durante a semana da pátria). Além disso, na segunda a ANPEC está encerrando inscrições para o Encontro Nacional de Economia que vai acontecer em Salvador no final do ano. No sábado, parto para o Congresso Nacional da Juventude Evangélica da IECLB (Luterana). Enfim, isso explica a desatualização desse blog.

No próximo post em breve, vou discorrer sobre meu "1 ano e meio" como mestrando da FEA-USP, a pedido de um visitante recente.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Mudanças na península

Segundo o NY Times, há mudanças ocorrendo na península:

North Korea Destroys Nuclear Reactor Tower, South Korea's MBC Reports

SEOUL, June 27 (Reuters) -- North Korea on Friday brought down a cooling tower at its Soviet-era nuclear plant, said South Korean broadcaster MBC, which has a crew at the site.

The move was part of a process of dismantling the state's nuclear program in return for easing its international isolation.

Pyongyang on Thursday handed over an account of its nuclear program, fulfilling a key requirement in six-nation talks on halting North Korea's nuclear weapon program and creating a nuclear-free zone on the Korean peninsula.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Amigos administradores

Aos visitantes administradores, levem na esportiva.

Carta de Eugênio Gudin para o ministro da Educação Gustavo Capanema, após passagem pela Universidade de Harvard, onde encontrou os professores do departamento de Economia para perguntar sobre a criação de uma faculdade de Economia no Brasil:


Perguntamo-lhes [aos professores de Economia de Harvard] também sobre a conveniência ou não de separar as duas faculdades, a de economia e a de administração. Eles nos levaram à janela para mostrar-nos, do outro lado do rio, a faculdade de administração, admiravelmente instalada aliás, e nos recomendaram que se não tivéssemos um rio, abríssemos um canal [...] para separar as duas faculdades.

Carta de Gudin a Capanema, 21/8/1944. GC 38.09.17 doc 22, série G.



In Schwartzman, S.; Bomeny, H.M.B.; Costa, V.M.R. Tempos de Capanema. 2 ed. São Paulo: Paz e Terra: FGV, 2000, p. 240.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Sobre os males da desigualdade - parte 2

Em sua resposta ao meu último post nos comentários, Joel do Terra à Vista defende que o poder político, seja lá de quem for, seja diminuído, porquanto poder político seria a influência de grupos de pressão sobre o Estado em relação à alocação de recursos. Tais interferências estatais distorceriam o funcionamento natural do mercado, levando a uma situação injusta no sentido procedimental. Richard do "Depósito de", claro adepto de concepções deontológicas, advoga o mesmo e vai além: "é altamente recomendado que países com grande desigualdade social não busquem diminuir tal desigualdade através de programas estatais".


Do mundo ideal sem Estado advogado pelos neo-austríacos, a passagem para o mundo real é normalmente problemática. É difícil conceber uma situação de extrema desigualdade de recursos econômicos sem que a parcela privilegiada da sociedade utilize desses recursos para criar instituições que lhe favoreça. Uma vez que o poder político momentâneo dessa parcela, derivado de sua renda muito maior, pode desaparecer no período seguinte, é natural que ela crie instituições políticas que permitam a persistência dessa distribuição de poder, que posteriormente beneficiá-la-á economicamente. Afinal, por que a parcela com muito mais recursos que a outra não criaria um Estado que os favorecesse? Talvez porque seja eticamente errado. Difícil. Embora ética possa influenciar o comportamento humano, dificilmente chegaria a esse ponto.

Quando os libertários querem falar do real, acabam tomando posições viesadamente conservadoras na minha opinião (e no mau sentido). Richard afirma que o Bolsa-Família não é um programa de redistribuição de renda, uma ilusão, uma vez que pelo outro lado, o governo estaria distribuindo benesses aos já privilegiados. De fato, isso ocorre no Brasil. Mas o ponto fundamental é que, apesar do desenho insuficiente dos programas assistenciais do governo, melhor com eles do que sem eles. Sem esses programas destinados aos pobres, só teríamos os privilégios. Não quero entrar no mérito do Bolsa-Família. Mas falo de programas redistributivos buscando menor desigualdade em geral. Dizer que programas estatais não devem ser utilizados para diminuir a desigualdade é absurdo na prática da sociedade, uma vez que a elite não costuma deixar de pedir pela manutenção de seus privilégios. Eu sei perfeitamente que tanto Joel quanto Richard são contra qualquer tipo de redistribuição via Estado - tanto pró-elite quanto pró-pobre. Todavia, a minha posição é de que não devemos pensar em uma sociedade ideal e compará-las com a nossa. Nossa noção de justiça não deve ser transcendental, como nos ensina Sen ( "What do we want from a theory of justice", Journal of Philosophy, 2006). Esse vai ser um ponto fundamental do seu livro sobre justiça a ser lançado em breve, contrariando tanto Rawls quanto os libertários.


A pregação da ausência do Estado é irreal e é uma noção transcendental de sociedade. O livre mercado obtém excelentes resultados em termos de eficiência, mas o ótimo de Pareto independe da distribuição. É possível obtermos resultados eficientes com nada para um dos lados e tudo para o outro. O libertário pode até considerar isso justo. No entanto, não pode esperar que um Estado não surja em primeiro lugar nessa situação, nem pode esperar que haja estabilidade política automática. Esquecer a política é tratado teológico. Nesse caso, recomendo "A Cidade de Deus" de Agostinho.

* Perdão pela minha ácida ironia nesse post. Prezo muito o debate com meus amigos Joel e Richard.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Sobre os males da desigualdade - parte 1

Joel do Terra à Vista escreveu há algumas semanas acerca das benesses da desigualdade social, contrariando a moda reinante. Em resposta, seguirei um pouco mais a tendência popular a ver com maus olhos a desigualdade.

RawlsÉ evidente que Joel tem razão quando afirma que um certo grau de desigualdade é necessário para sabermos que setores estão sendo mais remunerados, orientando a oferta para os setores em que a demanda mostra-se relativamente excessiva. É o próprio mercado que cria essas desigualdades. Nenhum economista negaria que essa desigualdade em níveis razoáveis é positiva.

Aliás, são poucos os teóricos igualitários que desconsideram esse ponto. O Princípio da Diferença advogado pelo liberal-igualitário John Rawls em sua influente obra "Uma Teoria de Justiça" permite que haja desigualdade quando ela favorece a parte da sociedade menos avantajada em relação a uma situação de igualdade estrita. Assim, Rawls não defende a igualdade estrita, uma vez que ela acabaria com os incentivos, como ocorreu em muitos países de economia socialista. Defender a igualdade estrita é um patente absurdo devido a questões de eficiência, mesmo para boa parte do igualitarismo.

AcemogluQuando reclamamos da desigualdade, não estamos reclamando de pequenas desigualdades. Joel temerosamente afirma que "só com uma mudança radical de foco conseguiremos, quem sabe, formular medidas que ajudem nossa população a sair da pobreza. E quando isso acontecer, mesmo que 10% continuem a concentrar 75% da riqueza, estaremos todos muito melhor". De fato, estaremos todos muito melhor. O problema é que a manutenção de uma distribuição tão desigual acirra os conflitos sociais e impedem a cooperação para um bom desempenho econômico como dizem North (1990) e Acemoglu e Robinson (2004). Recursos econômicos distribuídos de forma muito desigual geram distribuição desigual de poder político de facto. A tendência é que os grupos com maior poder criem instituições políticas elitistas, gerando desigualdade na distribuição de poder político de jure. Posteriormente, essas instituições influenciam na futura distribuição de recursos e na performance econômica de forma negativa.

James RobinsonFelizmente, o institucionalismo tem aproximado a ciência politica da economia. A análise do Terra à Vista é puramente econômica, o que pode ser limitante para tratarmos fenômenos reais. Com isso, não estou afirmando que entender a economia pura com clareza é inútil. Muito pelo contrário: embora não encontremos no mundo real estruturas concorrenciais puras, o conhecimento do modelo de concorrência perfeita é essencial para que possamos entender modelos mais complexos e mais próximos da realidade. Max Weber criou tipos ideais para que pudéssemos analisar os fenômenos com mais clareza, apesar de ter ciência do fato de que a realidade apresenta uma mistura de características de vários tipos ideais. Da mesma forma, a economia não pode prescindir da ciência política para entender as implicações da desigualdade.

Em post posterior, discorrerei sobre a questão da tributação e do gasto social relacionando-as à produção e à desigualdade.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Considerações sobre educação pública

A comunidade universitária costuma debater em termos de "público vs. privado" quando se fala de educação superior. Muitos economistas costumam dizer que os países prósperos investiram em educação primária primordialmente, tendo ocorrido o contrário no Brasil. Assim, economistas são considerados como aqueles que querem acabar com a universidade pública.

Não obstante alguns economistas realmente queiram acabar com universidades públicas, não é exatamente esse o ponto do argumento quando analisamos empiricamente. O problema não é a universidade ser pública e o Estado gastar recursos em sua manutenção. Quando se soma isso à falta de gastos no primário é que é preocupante. Muitos países prósperos também investiram em universidades públicas, mas não existe país próspero que não tenha investido maciçamente em educação básica.

Lindert (2003, p. 325-6) propõe algumas medidas para detectarmos quando as políticas educacionais estão claramente favorecendo a elite: (1) taxa de suporte ao ensino primário = (fundos públicos para ensino primário/total de crianças com idade para cursar o primário) dividido por PIB per capita; (2) Taxa relativa de suporte ao ensino terciário = suporte público para a educação terciária por aluno dividido pelo numerador de (1).

A segunda medida não vê problemas em investir em educação superior, desde que o ensino primário tenha prioridade. Ou seja, isso não significa que queremos "acabar com a universidade pública". Significa apenas que o ensino primário é prioritário, pois possibilita maior igualdade real de oportunidades. Como diz o mesmo Lindert (2003, p. 327):

"The calculated social rates of return are lower for tertiary education than for primary, and there is no clear externality argument in favor of subsidizing higher education more than primary education in a lower income setting".

Infelizmente no Brasil, é bem provável que observemos taxas bastante "elitistas" devido à falta de investimentos no ensino fundamental, o que certamente contribui para a persistência da desigualdade no país.

Lindert, Peter H. (2003). "Voice and Growth: Was Churchill Right?" Journal of Economic History, 63 (2), June.


segunda-feira, 2 de junho de 2008

Resposta ao Diego: ética e crenças

Diego Rodrigues falou de seu posicionamento favorável acerca das pesquisas com células-tronco embrionárias. Se pudéssemos votar nessa questão, nossos votos coincidiriam. No entanto, Diego disse coisas com as quais discordo profundamente e achei que valeria a pena postar meu comentário por aqui também. Quem quiser entender a discussão, leia o texto dele e leia a minha resposta abaixo:

Diego, vou ter que discordar profundamente de ti em algumas questões. Até agora, tenho sido a favor das pesquisas, embora considerando que a decisão não é simples.

No entanto, a forma que tu atacou o pensamento religioso não faz muito sentido quando tu quer falar sobre ética. Ética tem a ver necessariamente com nossas concepções de mundo, sejam elas religiosas ou não. Podemos atribui-las a Deus, a filósofos ou a quem quer que seja.

Tu dizes que "o ético não pode ser confundido com a crença, com a bíblia, com os valores e ideologias que sustentam concepções de mundo e de vida". Mas o ético trata justamente de valores e de crenças: é nisso que consiste a ética. Se as pessoas baseiam seus valores na Bíblia, em Nietzsche ou em Marx não interessa. Elas têm o direito de defender suas posições. Tu pode perfeitamente discordar das concepções católico-romanas (como eu também discordo muitas vezes), mas nem por isso vou dizer que basear concepções éticas na religião é algo proibido pelo simples fato de que tal proibição não faz o menor sentido.

Deixando bem claro: uma coisa é discordância de crenças ou concepções de mundo (sejam elas seculares ou religiosas). O que tu disse ali em cima não foi isso. Tu disse que o ético não pode ser confundido com o religioso. Mas isso é absurdo pra alguém que professa alguma religião, uma vez que suas concepções estão necessariamente ligadas à religião. E mais, muitas (ou quase todas) das tuas próprias concepções éticas, uma vez que tu vive na sociedade brasileira, provêm da religião - principalmente da católico-romana.

Ora, se os católicos são contra as pesquisas com células-tronco embrionárias, eles que sejam. Discorde deles à vontade. O que caracteriza a sociedade democrática é a tolerância, não o sepultamento das idéias ditas conservadoras ou coisa parecida. Bem, os conservadores são moralmente contra a homossexualidade. Eles podem ser, desde que sejam tolerantes. Eu não concordo com várias atitudes, nem por isso acho que as pessoas que as tomam devam ser desprezadas. na verdade, muito pelo contrário.

Abraços,
Thomas

terça-feira, 27 de maio de 2008

Células-tronco embrionárias (atualizado)

O STF está em vias de aprovar a pesquisa com células-tronco embrionárias, apesar dos protestos das alas conservadoras (e com esse termo não estou procurando desqualificá-las) principalmente ligadas ao catolicismo romano. Quatro dos juízes parecem estar inclinados a votar contrariamente à permissão, mas espera-se que o lado a favor das pesquisas vença, uma vez que o STF é composto por onze ministros, sendo que alguns, como a Ellen Gracie, já anteciparam seu voto a favor. Não conheço a fundo os argumentos de ambos os lados, mas tentarei expor o que sei a respeito.

Os argumentos contra a liberação baseiam-se em princípios bem claros. Recorrendo à concepção de que a partir da fecundação temos uma vida humana, as pesquisas acarretariam necessariamente em homicídios com os experimentos. Esse é um argumento baseado em princípios. No entanto, os que são contrários apóiam-se também no fato de que as pesquisas feitas com células-tronco embrionárias não chegaram a qualquer resultado positivo até hoje, ao contrário do que ocorreu com as células-tronco adultas. Com as poucas perspectivas, seriam vidas desperdiçadas em vão, muito embora as células não venham a se desenvolver. Esse último argumento é apenas acessório: o ponto é o homicídio. Eles sabem que essas células não se desenvolveriam. No entanto, precipitar sua morte continua ferindo o princípio. Basicamente, é um argumento parecido daquele contrário à eutanásia, embora o caso da eutanásia tenha uma especificidade fundamental: não se trata de uma célula embrionária.

A oposição, que deve sair vencedora, tem argumentos mais pragmáticos. Muito embora se possa discutir a partir de onde há vida, eles afirmam que, uma vez que essas células jamais se desenvolverão, não há problemas em realizar as pesquisas. Existe a possibilidade de que essas pesquisas possam colaborar para que se encontre a cura de doenças graves, embora maiores resultados não tenham sido alcançados ainda. Assim, talvez valesse a pena arriscar e sacrificar esse princípio para abrir a possibilidade de salvar mais vidas no futuro - vidas que passaram de seu estado embrionário, que para alguns, vale mais do que células-tronco embrionárias. Ou seja, atribuem-se pesos diferentes a diferentes estados. É um argumento de ordem mais conseqüencial. Na realidade, sem relativizar princípios, muitos dos que são a favor acreditam que a vida não começa na fecundação, posição corroborada por muitos embriologistas, alguns dos quais afirmam até que a vida começaria na organogênese, muito depois da fecundação. Alguns do lado contrário às pesquisas sabem que a possibilidade de se encontrar algo positivo com a liberação existe. No entanto, como explicou meu amigo Stein dos Rabiscos, tal liberação abre um precedente perigoso com a relativização do valor da vida humana. Em que situações podemos matar? Algo parecido como incentivar o batismo de adultos e acabar esquecendo do conceito de graça presente nesse sacramento.

É uma questão muito difícil. Embora eu tenha, como economista, desenvolvido um lado mais conseqüencialista e ache perigoso um legalismo exagerado baseado em princípios, não posso deixar de considerar o princípio da inviolabilidade da vida humana, tão bem expresso no quinto mandamento vetero-testamentário. Jesus sempre alertou para a escravidão da Lei, mas para que ela fosse de fato cumprida com base no agape. Hoje estou inclinado a ser favorável às pesquisas, mas confesso que é com o mesmo sentimento que tive ao ter que votar na última eleição entre Alckmin e Lula, uma vez que estava bastante descontente com as alternativas. Entretanto, uma decisão era necessária.

Contrariamente ao catolicismo romano e a diversas facções evangélicas, o protestantismo histórico, com suas inúmeras correntes, não dá respostas claras a respeito de muitas das questões éticas mais polêmicas. E para muitos, não pretende dar respostas categóricas mesmo, pois isso seria um erro ainda maior. Ainda tendo a acreditar que podemos liberar as pesquisas por algum tempo a fim de que possamos ver que resultados surgem. A ética não pode ser estabelecida fora do caso concreto, o que não significa ignorar completamente os princípios. Talvez alguém me convença de que tais pesquisas não são corretas. Mas espero que Deus possa nos ajudar para que a sociedade tome decisões mais próximas do desejo dEle, o único que tem conhecimento absoluto acerca do bem e do mal.

Se as argumentações apresentadas tiverem alguma falha, por favor me avisem. Meus agradecimentos à Mariana Rieck por alguns esclarecimentos.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Comentário metodológico ao Rabiscos: equivalência Barro-Ricardo

Comentário aos posts do Rabiscos, o primeiro de autoria do Ph e o segundo de autoria do Stein, sobre a equivalência Barro-Ricardo (bem explicada no post do Stein):


De fato, a equivalência Barro-Ricardo é uma teoria logicamente bem construída. Faz todo sentido e não duvido que os fãs da praxeologia miseana achem essa teoria bastante interesssante por dois motivos: (a) ela é lógica e (b) ela não é pró-governo.


Tirando as provocações de lado, uma teoria bem construída como esta deve estar na nossa prateleira caso precisemos dela ao analisar certo fenômeno econômico.David Ricardo No entanto, embora eu não tenha analisado o artigo que o Ph indicou, se a evidência empírica é fraca, a teoria não serve para muita coisa por enquanto. Pelo menos, não para pensarmos em política. Isso não invalida a teoria como algo que deva ser aprendido: como eu disse, Barro-Ricardo deve estar ao nosso alcance: em alguma situação mais próxima dos pressupostos do modelo (como pequena imperfeição no mercado de crédito), é possível que venhamos a observar o fenômeno previsto pela teoria ao menos parcialmente. Eu, como bom empirista em relação à ciência econômica, não acredito que devamos entronizar uma teoria quando ela não mostra maiores evidências de ser verdade, o que não significa dizer que ela não é importante.


Hume também pensou logicamente no equilíbrio do balanço de pagamentos, mas ele sempre disse que o que importava era aRobert Barro evidência. Como herdeiros do Iluminismo Escocês de Hume e Adam Smith, acredito que os economistas devam seguir esse método. Teorias lógicas podem ser úteis, quando a evidência as corroboram. Com isso, não estou pregando o verificacionismo do século XIX como critério de cientificidade, nem o critério popperiano do falsificacionismo. Estou tentando ser um pouco mais pragmático ao invés de procurar as imutáveis leis apriorísticas da Economia.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Resposta: protecionismo e fim das políticas

A controvérsia de indústrias nascentes remonta a Hamilton e List, que advogaram protecionismo temporário para indústrias que tivessem potencial. Contra eles, levantam-se os argumentos pró-livre comércio, que encontram eco hoje em economistas como, por exemplo, Anne Krueger (ela tem alguns artigos na AEA sobre isso). Um bom caminho é de repente ler um livrinho que eu só li um pedaço, de autoria do Jagdish Bhagwati chamado "Livre-comércio versus protecionismo" ou coisa parecida. Só pra lembrar, Bhagwati é mais favorável ao livre-comércio. Em inglês, está disponível na Livraria Cultura.

O ponto é: pelo que tenho lido, o protecionismo no Brasil e na América Latina em geral não teve o caráter temporário e racional advogado por List e seus sucessores. Por ter sido uma proteção pouco criteriosa, mais preocupada com a deterioração do balanço de pagamentos e com a substituição a qualquer custo com tendências autárquicas, entramos no pior dos mundos. Sejam defensores do livre-comércio ou dos teóricos do protecionismo, ambos hão de concordar que o protecionismo feito aqui foi falho e, provavelmente, deu margem a ineficiências, embora as evidências ainda precisem ser mais estudadas.

Quanto à industrialização (ou outra política qualquer) ser considerada um meio e não como um fim em si mesma, como argumentado pelo Diego, essa é uma proposição bastante influenciada pelos escritos de Amartya Sen. Como disse o Ricardo, isso é recente e parece ser a nova tendência, dada a morte da velha linha de teorias de desenvolvimento econômico (Development Economics): aquela de Rosenstein-Rodan, Nurkse, Myrdal, Hirschman, entre outros. Concordo plenamente com o Diego que o fim deve ser o bem-estar das pessoas e, por enquanto, sou favorável a abordagens como a de Sen (capacitações). Em breve, estarei mandando um texto sobre o pensamento de Sen para alguma revista que toca justamente nesse ponto.

*Em memória às vítimas do terremoto na China, acho que todos devemos nos lembrar da necessidade do desenvolvimento econômico trabalhar para minimizar danos causados por eventos do tipo.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Protecionismo exagerado e ineficiência na América Latina

Críticas à industrialização via substituição de importações ocorrida em vários países da América Latina são inúmeras quando se olha pelo retrovisor. O interessante é observar como em meados dos anos 60, as críticas a certos aspectos do processo já eram bastante comuns. Com a estagnação dos anos 60 e as diversas crises, é ponto comum entre autores como Macario (1964), Hirschman (1968) e Baer (1972) de que a incapacidade de exportação e a ineficiência da indústria manufatureira era um sério problema, sem contar os problemas no balanço de pagamentos que perseguiram o processo durante todo o período, o chamado estrangulamento externo (Tavares, 1972).

Segundo Macario (1964) e Baer (1972), o protecionismo foi exagerado na América Latina. É possível se discutir possíveis vantagens do protecionismo, se feitas moderadamente. Alguns dirão que não há vantagem alguma em qualquer tipo de protecionismo, como argumentado já em alguns comentários em posts anteriores. No entanto, mesmo que você seja defensor de algum tipo de protecionismo, você chegará a conclusão que a política foi feita da pior forma possível. A América Latina em geral conseguiu proteger praticamente todos os seus produtos a taxas aviltantes comparadas ao resto do mundo. A proteção não estava confinada a setores estratégicos e comumente os setores mais protegidos eram os que menos necessitavam de proteção. O seguinte parágrafo de Macario (1964, p. 67) é bastante claro quanto a isso:

Hence the structure of import duties and charges in most of the Latin American countries is characterized by its lack of rationality and by the prevalence of excessively high rates [...]. [...] the ways in which the extreme and indiscriminate protection granted to domestic industry in the Latin American countries, and the disproportionate emphasis laid on import substitution, have redounded to the detriment of their economic development and their trade balances.


Apesar disso, o Brasil teve sua época de maior crescimento justamente alguns anos depois, a partir de 1967. O que podemos dizer sobre o "Milagre" diantes do que os contemporâneos diziam? Talvez a resposta esteja nas reformas institucionais do PAEG, as quais deram novo fôlego à indústria brasileira. De qualquer forma, é preciso investigar o que aconteceu com a eficiência e a produtividade durante o "Milagre" para chegarmos a conclusões mais interessantes acerca da industrialização brasileira - o que certamente teve reflexos na nossa atual condição.


Baer, Werner. “Import substitution and industrialization in Latin America: experiences and interpretations”. Latin American Research Review. 7 (1), Spring 1972, p. 95-122.
Hirschman, Albert. “The political economy of import-substituting industrialization in Latin America”. Quarterly Journal of Economics. 82 (1), February 1968, p. 1-32.
Macario, Santiago. “Protectionism and industrialization in Latin America”. Economic Bulletin for Latin America. 9, 1964, p. 61-101.
Tavares, Maria da Conceição. “Auge e declínio do processo de substituição de importações no Brasil”, in Maria da Conceição Tavares. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro, Zahar, 1972..

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Auto-promoção: Kang fala sobre Amartya Sen


O Lucas Mendes do blog Austríaco tem estudado os escritos de Amartya Sen, uma vez que ele tem trabalhado com Rawls e os libertários em seu mestrado em Filosofia Política pela UFSM. Não acho que eu seja o mais indicado, mas o Lucas achou que eu poderia falar sobre Sen para o seu blog, apesar do blog Austríaco ser um divulgador de idéias libertárias. Vocês podem achar a entrevista que concedi clicando AQUI. (Agradeço a dica do Enoch).

De qualquer forma, agradeço a oportunidade: foi boa pra relembrar Sen, que foi deixado um pouco de lado após a conclusão de meu trabalho sobre Teorias de Justiça em janeiro.

Enquanto isso, vou aproveitando o fim de semana chuvoso de turismo no Rio de Janeiro...

terça-feira, 29 de abril de 2008

Suecos

Conheci uma sueca, doutoranda em ciência politica, quando estava em New York por ocasião da Conferência da Human Development and Capability Association. Disse ela que na Suécia, um politico que pegasse um táxi usando dinheiro público poderia gerar manchetes nos jornais, uma vez que ele deveria ter pegado um ônibus. Apesar do clima inóspito, suecos são ricos e considerados um dos povos mais igualitários entre as democracias. A qualidade de vida deles é atestada pelos resultados do IDH, onde estão sempre entre os primeiros.

Suecos e noruegueses costumam ser muito educados, pelo menos os que conheci. Certamente, minha amiga Sibeli que está lá trabalhando por três meses com a Igreja (Luterana) da Suécia poderá nos falar mais sobre o país em breve. De qualquer forma, as instituições e a performance esconômica escandinavas, invejadas por muitos, tem origens no passado. Esses países estavam longe da prosperidade no começo do século 20. Algumas coisas aconteceram desde então, e após a II Guerra, algumas medidas macroeconômicas tornaram-se importantes.

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Gösta Rehn e Rudolf Meidner eram economistas de sindicatos na Suécia. Esses dois caras, pouco conhecidos por aí, foram responsáveis por delinear as medidas macroeconômicas que nortearam a economia sueca pouco tempo depois da II Guerra.

Sua política consistia basicamente no seguinte: uma política fiscal rígida e uma política salarial solidária, tentando combinar estabilidade de preços e pleno emprego. Segundo comentários que ouvi, as empresas tiveram que pagar salários altos a seus empregados, ao mesmo tempo em que eram expostas a concorrência internacional, uma vez que precisavam exportar seus produtos, dada a pequena extensão do mercado nacional. Impedidos de baixar salários, as firmas ganharam em eficiência. O Estado entrava ativamente através de proteção social para o desemprego que naturalmente poderia ocorrer com os altos salários e a quebra das empresas ineficientes.

Nunca ouvira claramente a respeito e, provavelmente, é algo que merece ser estudado. Os países escandinavos são sempre alardeados por sua igualdade política e opulência econômica também eqüitativamente distribuída. É claro que há exageros, mas sem dúvida os paises escandinavos conseguiram resultados invejáveis para a maioria das nações, apesar da carga tributária elevada (alguns leitores desse blog devem achar a Suécia um horror devido a suposta imoralidade de sua tributação).

No entanto, estranhamente, poucos no Brasil ouvem falar em Rehn e Meidner. Algo que merece alguma atenção, mesmo que seja para depois criticarmos a idéia. Afinal, será que podemos dizer que o sucesso sueco ocorreu apesar das medidas econômicas dos social-democratas?

sábado, 26 de abril de 2008

Fontes primárias

A pesquisa em história econômica é por vezes cansativa. Examinar as leis da República para ver se houve alguma mudança institucional relativa à política educacional no Brasil é como procurar uma agulha no palheiro. Principalmente quando descobrimos que, durante quase toda a nossa história, o ensino básico fora da capital ficou a cargo das províncias. Documentação primária cansa e, por vezes, desanima.

Inúmeras obras consideradas de referência hoje em história econômica não tocam em um documento primário. A partir do que outros escreveram, alguns autores como Lourdes Sola (1998), lançam outra interpretação para a economia e a política de meados do século 20 no Brasil. Um texto do Newton Bueno (2007), publicado na "Estudos Econômicos" ano passado também lança nova interpretação para a Revolução de 1930 baseada nas idéias da Nova Economia Institucional (ação coletiva, especificidade de ativos, etc.) sem referência a documentação primária (o autor reconhece isso). É claro que isso não invalida a publicação: conseguir ter uma idéia alternativa de interpretação apenas a partir da teoria já é algo interessante (a idéia do Bueno é bem divertida, por exemplo). Mas é claro que, para que ela possa adquirir mais credibilidade, é necessário ainda muita "mão na massa".

A conclusão é que a pesquisa em fontes primárias é necessária, apesar de todo o trabalho que precisa ser feito. É nessas horas que seria bom ter um bolsista, haha. Nesses momentos, lembro de colegas como o Diego, que era bolsista do Prof. Nogueirol em trabalhos sobre escravidão que, através de pesquisas em arquivos, conseguiram resultados bons e prêmios em salões de iniciação científica. Uma boa pesquisa primária cansa, mas vale a pena.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Sobre livre comércio e história

Cai em erro crasso quem, através de um ou outro exemplo histórico, afirma saber a receita para o desenvolvimento. É muito comum defensores do protecionismo darem o exemplo de um ou outro país hoje desenvolvido que teria protegido sua indústria nascente; por outro lado, há os outros que sempre buscam "provar" que o livre comércio é o caminho da prosperidade.

Sob o critério da falsificação atribuído a Popper (sem entrar no mérito da cientificidade ou não do critério), não é possível dizer muita coisa. É evidente que protecionismo pode ser nefasto, há resultados ruins na história. Logo, protecionismo não significa necessariamente crescimento - pelo menos, não qualquer protecionismo, o que é bastante óbvio. No entanto, há muitos exemplos aparentemente a favor do protecionismo, como o inglês, discutido no post anterior. Nesse caso, a questão que fica é: a Inglaterra cresceu apesar do protecionismo ou cresceu devido ao protecionismo? E, é claro, se o protecionismo pode ser benéfico, como deve ser feita essa proteção?

Quando estudamos história, tudo depende da interpretação dos fatos. Pensemos na década de 1930 no Brasil, em que não tratamos de protecionismo, mas tratamos de comércio. A interpretação clássica de Furtado fala em "deslocamento do centro dinâmico" após a crise de 1929. A Grande Depressão teria feito com que o Brasil se "voltasse para dentro", praticando políticas pré-keynesianas de sustentação da demanda agregada. O ponto fundamental é que o choque, o qual diminuiu o comércio externo, fez com que o país se voltasse às manufaturas, ou seja, houve um ponto de inflexão com a interrupção do comércio. A interpretação de Peláez contraria Furtado afirmando que a crise não teria sido benéfica e que as políticas governamentais teriam retardado a recuperação da economia. No fundo, a questão fundamental é: o livre comércio é sempre bom?

Trabalhos mais recentes têm rejeitado defender com tanto afinco esta ou aquela posição extrema. No entanto, todas as explicações não passam de tentativas razoavelmente fundamentadas ou não. Assim, a história não serve para provar muito quando o que está por detrás da discussão é algo mais fundamental e polêmico.


A única mensagem desse pequeno post é um pedido para que todos fiquem com um pé atrás quando o argumento de autoridade é histórico. Se há coisas que a história não pode resolver de uma vez por todas são esses debates. A história e a estatística podem apenas nos dar evidências a respeito: se somos convencidos ou não, depende em última instância de algo além da objetividade. Isso não significa, como dizem alguns, que história e estatística para nada servem ou que são acientíficas. Há coisas que não podemos provar e nem devemos procurar provar. Com estudos cada vez mais acurados e cuidadosos, as interpretações melhoram e temos evidências melhores. E, assim, ficamos mais preparados para nos posicionar a respeito dessas questões básicas da ciência econômica.



domingo, 20 de abril de 2008

Por que os ingleses bebem cerveja?

Essa é uma das fundamentais perguntas que John Nye, historiador econômico da George Mason University, tentou responder na sexta-feira em sua palestra sobre seu novo livro "War, Wine and Taxes". O livro trata sobre os conflitos e as políticas comerciais de Inglaterra e França. Desafiando o que sempre se diz, Nye percebeu que a política britânica foi bem mais protecionista do que a francesa, o que explica porque ingleses bebem cerveja e não vinho.

A palestra foi muito boa (uma das raras vezes que temos bons seminários), uma vez que Nye tem um bom senso de humor, além de explicar de forma clara e audível. E é claro, pelo assunto ser interessantíssimo. Isso não significa que todas suas conclusões estejam certas, mas deu vontade de ler o livro.

Como conclusão, Nye sustentou que a Inglaterra cresceu apesar das restrições ao livre comércio. No entanto, isso não pareceu derivar logicamente de sua argumentação. Talvez o livro possa esclarecer um pouco disso.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Seminários da semana

Em primeiro lugar, minhas desculpas por estar afastado da blogosfera recentemente. Pretendo contribuir mais com textos sobre história econômica, filosofia política, cristianismo, além dos tradicionais posts acerca da vida de mestrando na USP.

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Da vida de mestrando, posso apenas comentar que anteontem tivemos a presença do Prof. Philip Arestis, do Department of Land Economy da University of Cambridge. Sua palestra, aproveitando sua passagem no Brasil para o I Congresso Brasileiro Keynesiano, foi sobre a macroeconomia britânica nos últimos anos e algumas críticas a algumas proposições consensuais. Nada diferente do que esperamos de um pós-keynesiano. Alguns professores estavam visivelmente incomodados com o que Arestis disse.

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Nesta semana, temos também a presença do historiador econômico John Nye, da George Mason University. Bati um papo com ele na quarta-feira, momento no qual ele deu algumas opiniões acerca de meu projeto de dissertação. Hoje em breve, teremos um seminário com ele sobre a politica tributária e o crescimento britânico no século XIX. O texto está disponível no site http://www.econ.fea.usp.br/seminarios/2008_1/18_04_08_John_Nye.pdf

Lembrando que Nye, um historiador novo-institucionalista, era professor da Washington University in St. Louis, onde trabalhou por muitos anos com o Nobel Douglass North, também historiador econômico e líder da Nova Economia Institucional.

domingo, 16 de março de 2008

Educação básica na República Velha (2)

Warren Dean escreveu diversos livros sobre a história econômica do Brasil, todos magistralmente escritos. Suas obras sobre a devastação da Mata Atlântica ou sobre a organização das lavouras em Rio Claro são bastante conhecidas. A sua outra obra famosa, "A Industrialização de São Paulo" (1971), entra no debate das origens da industrialização brasileira. Além de sua interpretação revisionista em relação ao papel dos choques adversos (para ele menor do que considerado por Furtado, por exemplo) e a importância do comércio cafeeiro para a industrialização, Dean descreve um pouco de outras características da sociedade da época. Ao falar sobre a educação, afirma o autor:

"O governo do Estado ignorava as necessidades dos que não possuíam terras com a mesma efetividade que favorecia as dos fazendeiros. Não tentou criar uma classe alfabetizada, estável ou especializada de cidadãos, quer nas cidades, quer no interior. Não havia política pública de redistribuição de terras, nem instrução universal, nem direitos políticos ampliados que tivessem podido eliminar a dependência dos trabalhadores e técnicos importados ou induzissem os imigrantes a encararem o Brasil como uma nova pátria. Os gastos do Estado com a instrução primária não excediam, em média, 65 cents (três mil-réis) per capita, ao ano, entre 1890 e 1900. Em conseqüência disso, as classes da sociedade que não possuíam terras se viam privadas de uma das principais vias de mobilidade ascendente. Por outro lado, as oportunidades educacionais dos filhos da elite eram muito extensas. A aprendizagem técnica no estrangeiro tornou-se corriqueira, e novas escolas superiores de Engenharia Civil, Medicina e Agricultura foram acrescentadas à tradicional faculdade de Direito. O ingresso nessas escolas era limitado, pois quase todos os colégios secundários pertenciam a particulares" (p. 53-54).



Uma pena que Dean faleceu prematuramente em um hotel no Chile devido a um vazamento de gás. Talvez tivéssemos mais livros escritos por ele, sempre de agradável leitura e com informações detalhadas que demonstram a sua seriedade na pesquisa em história econômica. O trecho acima apenas confirma a estupidez da política educacional brasileira desde os seus primórdios, sempre favorecendo as elites.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Educação básica na República Velha

Um aspecto fascinante do estudo da história econômica é que descobrimos que os debates atuais não são tão atuais assim muitas vezes. Se haviam metalistas e papelistas na Primeira República, como temos hoje seus respectivos netos intelectuais, também na discussão sobre o investimento em educação no Brasil as coisas parecem se repetir. A Estatística de Instrucção de 1916 encomendada pela Diretoria Geral de Estatística aponta para o seguinte problema da educação no Brasil:

“Apontando as causas que parecem ter influído para o atrazo notável da cultura intellectual de grande parte dos brazileiros, solicita a citada monographia a assídua solicitude do poder legislativo nacional, assim como do poder executivo, relativamente à causa do ensino superior, e até certo ponto da instrucção secundaria, constrastando com esse amparo a escassez de providencias quanto á cultura primaria e ao preparo do pessoal incumbido de ministral-a. Até 15 de Novembro de 1889, no seu conjuncto, as medidas de ordem didática visaram, ‘antes de tudo, o progresso dos estudos acadêmicos; em segundo plano, os interesses da instrucção artística e da secundaria; enfim, e só muito subalterna e acessoriamente, a causa do ensino elementar’”. (p. 2)

Não é de hoje o descaso em relação ao ensino primário. Não só isso, até mesmo a consciência quanto ao patente negligência governamental ao ensino básico não é de hoje, o que é assustador, dado que pouca coisa mudou desde então.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Políticas públicas e conseqüências

Costumamos debater pelos lugares onde passamos, geralmente em bares ou nas universidades. Política pública é um assunto comum: cotas, aborto ou Bolsa-Família são assuntos recorrentes. No entanto, muitas vezes nos deparamos com pessoas que parecem simplesmente papagaiar frases ditas por outros. Algumas vezes, são conceitos simplesmente passados de geração em geração, repetidos por filhos de um proprietário de terras ou de um ex-militante comunista.

Talvez uma das grandes vantagens de se estudar Economia é a possibilidade de refletir melhor sobre as questões através da imensa literatura publicada em revistas da área a respeito de políticas públicas. Não que os estudos determinem fatalmente qual é a posição correta a ser defendida: a análise econômica, que tem algum poder para descobrir que conseqüências certas políticas podem gerar, é muito útil para refletirmos, embora não seja a palavra final em termos de certo ou errado. O julgamento da política ultrapassa isso, embora a análise conseqüencial seja um bom caminho a ser considerado.

É fácil, repetindo o que dizem alguns, que o bolsa-família é meramente assistencialista e cheio de falhas. Também é fácil dizermos o oposto, que ser contrário a tal política é coisa de burguês. O que pouca gente sabe é que, de acordo com o Paes de Barros, economista do IPEA não comprometido com o governo Lula, o grande mérito do Bolsa-Família é ter identificado quem são os verdadeiramente pobres. Salvo algumas exceções que costumam virar escândalo em telejornais, os beneficiados do bolsa-família são de fato as pessoas mais pobres desse país. Isso não significa que devemos necessariamente louvar o programa. Mas pelo menos, temos um dado aparentemente positivo a ser avaliado. Significa também que, de repente, embora o programa possa até estar equivocado, poderíamos melhorá-lo a fim de tranformá-lo, fazendo-o deixar de ser "meramente assistencialista".

É fácil sermos contra ou a favor de cotas baseando-nos nessa ou naquela ideologia. O que pouca gente sabe é a enorme literatura em ações afirmativas existentes nas principais revistas de Economia. Analisar as conseqüências e os incentivos de tais políticas pode ser importante antes de tomarmos uma posição definitiva - que pode ser em geral uma papagaiada. Confesso que não li essa literatura e que, mesmo assim, tenho minha opinião sobre as cotas (contra). Mas não a defendo com unhas e dentes e tenho muito curiosidade de ler a respeito.

Como eu disse, levarmos em consideração algumas conseqüências de certas políticas não implica que defendamos isso ou aquilo. Pensemos no aborto: Segundo Levitt no seu "Freakonomics", a aprovação da lei do aborto diminuiu substancialmente a criminalidade cerca de 17 ou 18 anos depois. Esse resultado, se confirmado (há contestações a respeito), não deve ser ignorado. No entanto, não me sinto por isso inclinado a defender o aborto como política geral (posso discuti-la em casos específicos). Existem outras formas de diminuir a criminalidade que não ferem o direito à vida. Conseqüências como a alta da criminalidade são importantes, mas direitos básicos também podem ser considerados em uma análise ética (até mesmo em uma ética conseqüencial: podemos dizer que direitos são abarcados como conseqüências, como defende Amartya Sen).