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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sentimentos morais

O post anterior sobre a morte de Kim Jong-Il gerou intensa controvérsia. O principal motivo foi a minha alegação de que, embora qualquer pessoa possa não gostar e inclusive protestar contra o regime norte-coreano, sentimentos de "nojo" contra o regime deveriam ser monopólio das que se sentem de fato atingidas pelo regime.

Essa afirmação foi de fato um exagero. Acredito que podemos nos sentir revoltados moralmente por três motivos ao menos: (a) porque nos sentimos diretamente envolvidos com o problema, (b) porque nos sentimos indiretamente envolvidos com o problema (simpatia ou empatia), (c) porque uma situação é patentemente injusta, não interessando nosso grau de envolvimento com o caso. Essas alternativas não são necessariamente mutuamente excludentes. Evidentemente, não estou me lembrando de fontes acadêmicas confiáveis sobre o problema e, portanto, os leitores podem comentar.

Um dos comentadores do post anterior deu o exemplo da pedofilia como um caso em que, mesmo não nos envolvendo direta ou indiretamente, podemos achá-lo revoltante em termos morais, inclusive expressando sentimentos de extrema ojeriza contra esse ato vil.

Acredito que meu post anterior deva-se à diferença de sentimentos morais que existem entre a revolta moral tipo (a) e tipo (b) ou (c). Uma pessoa que passa por uma determinada situação tem uma visão diferente de outra que apenas ouviu falar da situação. Essa diferença é captada claramente por Adam Smith, em sua Teoria dos Sentimentos Morais (1759), [edição de 2009 com introdução de Amartya Sen]:

But if you have no fellow-feeling for the misfortunes I have met with, or none that bears any proportion to the grief which distracts me; or if you have either no indignation at the injuries I have suffered, or non that bears any proportion to the resentment which transports me, we can no longer converse upon these subjects. We become intolerable to one another. I can neither support your company, nor you mine. You are confounded at my violence and passion, and I am enraged at your cold insensibility and want of feeling. (p. 27).

É possível entender porque o filósofo moral Adam Smith considerava esse o seu livro mais importante, ao invés de "A Riqueza das Nações".

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Sobre a nota do PCdoB

Permitam-me sair das questões mais técnicas no dia de hoje. Acredito que alguns esclarecimentos precisam ser feitos acerca do post anterior, principalmente no que diz respeito à Coreia do Norte. 

Muitos amigos, ao verem a carta do PCdoB, concordaram comigo que a mensagem do partido foi estúpida e anacrônica, além de imprudente do ponto de vista eleitoral (a Manoela d'Ávila provavelmente sofrerá com isso nas próximas eleições). Nas redes sociais, vi declarações de todo o tipo: tanto de repúdio ao ditador morto quanto de elogios à carta do PCdoB. 

Pasmem que ambos os posicionamentos me exasperam. Não porque eu seria partidário do "politicamente correto", como acusou-me meu estimado colega Diego Rodrigues. Espero ser mais claro dessa vez.

1. Ser favorável a carta do PCdoB é indignante. Certo amigo meu disse que a carta tinha sido "uma manifestação ideológica do PCdoB". Até aí concordo. O amigo em questão afirmou que isso era "legal". Mas não sei o que tem de bom nisso. A defesa de uma ideologia por um princípio, ignorando todas as suas consequências, é moralmente questionável até em situações bem mais inocentes que essa. Na situação em questão, temos um regime totalitário e considerado talvez o mais fechado do mundo, em que presidentes são tratados como ídolos e que desde a década de 1950 impede que meu pai veja ou ao menos saiba alguma coisa sobre a existência de familiares seus. Tal regime não me parece defensável sob qualquer ponto de vista. Embora meu último argumento tenha sido do ponto de vista pessoal, essa história certamente se repete em muitas famílias coreanas. As marcas do regime e da guerra perduram nas relações pessoais e familiares. A dureza com que pessoas como os norte-coreanos encaram a vida depois do que sofreram é perceptível mesmo para quem não esteve lá como eu. Dizer que "há países capitalistas muito piores" e que tudo não passa de "uma briga da mídia com comunistas" é uma afirmação ignorante por dois motivos: (a) porque provavelmente está errado: a Coreia do Norte não apenas é extremamente pobre, tendo passado por um surto de fome na década de 1990, como também tem uma elite abastada e liberdades políticas extremamente restringidas e (b) porque por mais que países aliados aos EUA e com governos bastante autoritários, como a Arábia Saudita, não sejam atacados pela mídia, é difícil afirmar que seja pior que a Coreia do Norte. E mesmo que seja, não sei como o erro de países capitalistas tirânicos justifica a carta do PCdoB em apoio ao regime mais autocrático atualmente existente. 

2. Por outro lado, sentimentos de "nojo" e "horror" ou desejar que o Kim Jong-Il "vá para o inferno" não me parece uma atitude razoável para brasileiros de classe média alta ou alta que não tem qualquer envolvimento emocional com a Coreia do Norte. Todos nós podemos achar muito errado a ditadura norte-coreana. Talvez se você tiver um parente que sofreu com a ditadura militar brasileira ou qualquer outra possa realmente se revoltar um pouco com a tirania norte-coreana, ou ainda se você é uma pessoa muito sensível e consegue empaticamente colocar-se no lugar de um cidadão norte-coreano. Se não é o caso, acho que manifestar que você é contrário ao regime norte-coreano é mais do que legítimo, é até necessário e eu inclusive agradeço por isso. Mas não vejo motivo para essas pessoas odiarem o Kim Jong-Il ou terem "nojo" dele. Acho que meu pai e outros tantos coreanos que nunca mais viram seus familiares podem falar em "nojo" e "ódio" do Kim Jong-Il e do regime norte-coreano - isso é outro patamar de crítica.  O resto me parece balbúrdia ideológica, quase no nível de uma carta do PCdoB em apoio ao regime.  

Não se trata de ser ou não "politicamente correto". Quanto à Coreia do Norte, quais são seus reais sentimentos para que se revolte a ponto de desejar o inferno pro Kim Jong-Il? Eu tenho os meus motivos. Se você tiver seus motivos (que sejam parentesco, identificação cultural, direitos humanos, empatia, etc.), está tudo bem. Mas acho que a maioria que fala por aí não tem e trata o caso como se fosse um time de futebol. Entendo que minha opinião possa estar errada, mas acho que os leitores entenderão que esse é um assunto sensível para descendentes de coreanos. [parágrafo reescrito em 24/12, 18h46min].

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Comunistices

  • Tenho assistido com certa ojeriza as declarações raivosas mandando Kim Jong-Il para o inferno. Não  sou comunista obviamente. Mas quem quer mandar uma pessoa para o inferno por ódio ideológico iguala-se a um ditador. Pessoas que não tem em seu círculo próximo pessoas que sofreram com o totalitarismo talvez devessem pensar antes de fazer declarações de ódio a um ditador. Deixem isso para quem viveu com o comunismo. Melhor argumentar racionalmente.
  • Tenho estudado recentemente as políticas econômicas cubanas e o processo de mudança institucional ocorrido com a Revolução de 1959. A equipe de Castro acabou com a burocracia e mandou a maioria dos técnicos embora do governo, na tentativa de comandar um país como se fosse uma guerrilha. Obviamente não deu certo, mas também não deu certo com o planejamento central estilo stalinista, aplicado posteriormente. E também os problemas econômicas de Cuba nos anos iniciais não podem ser creditados ao embargo, uma vez que as compras soviéticas de açúcar mais do que compensaram as perdas do embargo. Talvez o problema mesmo tenha sido o fim dos mecanismos de mercado. Apesar da redução da desigualdade e da extensão dos serviços sociais, o tradeoff eficiência x equidade esquecido pode ser um problema para o crescimento sustentável no longo prazo. 
  • ATUALIZAÇÃO:  PCdoB se solidariza com o povo coreano pela morte de Kim Jong-Il. É inacreditável.
  • ATUALIZAÇÃO: Lembrei agora do Peter Lindert e seu Free Lunch Puzzle. Pode ser que políticas sociais sejam pró-crescimento. Mas daí o debate é longo...

sábado, 17 de dezembro de 2011

Escola de Verão (de novo)


Anunciando aqui que a FEA/USP divulgou o resultado da Escola de Verão em Desenvolvimento. Seguramente, um dos maiores cursos de verão existentes por aí - é só ver o número de selecionados. Se há gente que acompanha esse blog e estará lá presente, pode comentar aí embaixo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dois assuntos: "Occupy Wall Street" e Aprendizado Infantil

1. Talvez Dani Rodrik tenha dito a coisa mais sensata nos últimos dias sobre o movimento protagonizado por estudantes de Harvard na disciplina de Introdução à Economia ministrada por Greg Mankiw. O próprio Mankiw tem falado o que pensa, mas acho que Rodrik capturou muito bem o ponto aqui.

2. O outro link importante da semana foi fornecido pelo Prof. Sabino da UFRGS, divulgando um documento sobre Aprendizado Infantil publicado pela Academia Brasileira de Ciências. Sem dúvidas, um recurso fundamental para políticas públicas no futuro de nosso país.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Dois posts por semana

A irregularidade deste blog tem prejudicado os leitores. Então vamos dar um jeito nisso e tentar atualizá-lo duas vezes por semanas: terças e sextas em geral.

Para compensar a falta de posts, indico uma leitura interessante e curta sobre o perfil de Amartya Sen. Para quem gosta de seus trabalhos, foi uma interessante leitura que revela os motivos pelos quais a pesquisa de Sen tomou os caminhos que tomou.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

PIB zero

Um dos diretores da ESPM-Sul me chamou atenção para a manchete do Jornal do Comércio, um periódico econômico local. A manchete dizia o seguinte: "País pode ter PIB zero no terceiro trimestre". PIB zero deve ser o Armageddon, o fim do mundo maia antecipado ou coisa parecida. Comecei a pregar o arrependimento no pátio da ESPM. Felizmente, meus queridos alunos de Macroeconomia da RI reclamaram no site e assim respondeu o JC:


Ganhei meu dia.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

FEE

Este blog esteve parado porque, na semana passatda, assumi cargo de pesquisador na Fundação de Economia e Estatística. A FEE é um órgão ligado à Secretaria de Planejamento do RS que cuida de pesquisas econômicas e é responsável por estudos e divulgação de dados estatísticos do estado. Fui alocado para o Núcleo de Políticas Públicas e trabalharei com pobreza. Não se surpreendam se esse blog começar a falar mais de pobreza.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Prêmio BNDES!

Desejo meus parabéns ao Gervásio Ferreira dos Santos, primeiro colocado do Prêmio BNDES de Economia desse ano para a categoria doutorado. Não convivemos muito, mas conheci o Gervásio na FEA-USP.

Mas eu não poderia deixar de dar meus parabéns ao Raphael Rocha Gouvêa, segundo colocado na categoria mestrado do mesmo prêmio. Raphael foi meu colega de mestrado na FEA-USP, na última turma de Economia das Instituições e Desenvolvimento. Foi um amigo importante naqueles anos de muito estudo e pouco dinheiro em São Paulo - e continua sendo. Sei da competência do Raphael, que sempre soube dividir seus conhecimentos com os colegas e que se destacava no grupo naturalmente, sem artificialismos ou convencimentos. Sua modéstia, companheirismo e inteligência são difíceis de se achar juntos. Mais do que merecido esse prêmio. Agora ele é um homem casado e pesquisador no IPEA - desejo-lhe um grande futuro nesses novos caminhos.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Aumento do IPI para automóveis importados - parte 2

No post anterior sobre o tema, um leitor contestou o fato de eu ter utilizado a hipótese de concorrência perfeita na análise dos excedentes. Acredito que os pressupostos utilitaristas da economia do bem-estar são muito mais questionáveis do que a hipótese de concorrência perfeita. Sob concorrência monopolística ou com economias de escala, os resultados não mudam muito. Em qualquer situação, há perda do excedente do consumidor, embora possa haver ganhos líquidos para o país na forma de uma política beggar-thy-neighbour.   
De qualquer maneira, isso por si só não significa que a proteção deva ser descartada de antemão. Como dissemos anteriormente, há o argumento da indústria nascente, cuja origem já discutimos no post passado. Dentro do arcabouço teórico do mainstream, o argumento é válido se assumirmos que há imperfeições de mercado. Em primeiro lugar, é preciso que a tarifa protecionista impeça a firma de ir à falência devido à concorrência internacional. Com o processo de learning-by-doing durante esse período em que o setor é protegido (lembrando que Arrow foi um dos economistas que chamaram atenção para o learning-by-doing), a empresa pode se tornar mais eficiente tecnicamente a ponto de poder deslocar para baixo sua curva de custo médio no longo prazo. Pensemos no Leste Asiático, onde várias empresas aprenderam protegidas e fazendo "engenharia reversa". 

Mas isso por si só não é suficiente para dizer que a proteção é válida no caso de indústria nascente. Em primeiro lugar, é preciso perguntar porque o setor privado não é capaz de fornecer empréstimos a essas indústrias enquanto elas ainda produzem a custos altos se elas têm capacidade para se tornar eficientes mais tarde. Se temos imperfeições no mercado de crédito (e muitas vezes há), temos uma possível justificativa para a atuação do governo. Mas além disso, é difícil sabermos quais setores merecem proteção, como sempre costumam dizer aqueles que destacam o papel das falhas de governo - que seriam tão ou mais maléficas que as falhas de mercado. Por outro lado, a existência de externalidades positivas, tais como transbordamentos (spillovers) para outras firmas e setores durante a proteção também deve ser levada em conta. De qualquer forma, todos esses beneficios precisam ser maiores que as perdas que a proteção gera para os consumidores no curto prazo.

Os estudos empíricos sobre proteção mostram que houve casos bem-sucedidos e mal-sucedidos. Enquanto na China parece que a proteção tem dado certo, o caso da proteção à indústria brasileira de computadores é mundialmente conhecido por sua ineficácia. Mas quem sabe deixamos a China, que é um caso interessante, para o próximo post.

sábado, 29 de outubro de 2011

III CLADHE

Recebi ontem o seguinte email:
Estimados todos, Adjuntamos la convocatoria al Tercer Congreso Latinoamericano de Historia Económica (CLADHE III)y las XXIII Jornadas de Historia Económica de la AAHE a realizarse en la Universidad Nacional del ComahueSan Carlos de Bariloche (República Argentina) del 23 al 27 de octubre de 2012. Saludos cordiales,

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Aumento do IPI para automóveis importados - parte 1

O decreto presidencial 7567 de 15/09/2011 aumentou na prática o IPI para automóveis importados. Semana passada, o STF julgou como inconstitucional a aplicação imediata do decreto, que só pode vir a ser aplicado 90 dias depois. De qualquer modo, o decreto colocou o debate da proteção em pauta novamente. Os blogs na internet comentaram a respeito - pretendo comentar a respeito tentando me abster ao máximo de fazer posicionamentos categóricos sobre o tema. A ideia é dar mais suporte teórico e histórico ao debate.

Os maiores atingidos pelas medidas são os carros asiáticos, que vinham ganhando mercado recentemente no Brasil. Outros carros vindos do México ou do Mercosul não são onerados com a tarifa, uma vez que já tinham acordos prévios estabelecidos com o Brasil. Japão e Coreia já enviaram questionamentos à OMC, uma vez que o Brasil é signatário dos acordos que preveem a não-discriminação. Europa, EUA e Austrália também reforçaram a questão. 

Afinal, a tarifa aumentou em cerca de 30 pontos percentuais. Mas isso não significa que tudo seja repassado ao consumidor, uma vez que no caso de mercados com demandas relativamente elásticas (ou seja, bastante concorrenciais), podemos até ter pouco repasse para o consumidor. A Kia, por exemplo, tinha aumentado em média sua tabela de preços em cerca de 8% apenas. Se o Brasil tiver grande poder de mercado enquanto demandante, a tarifa não prejudica tanto assim os consumidores. De qualquer maneira, há uma evidente perda para os consumidores, principalmente para os ramos mais elásticos da demanda, em que costumam estar as pessoas mais pobres. Essas terão problemas para comprar carros, uma vez que as demais montadoras poderão elevar seus preços ou mantê-los onde estão - ao invés de baixá-los devido à concorrência cada vez maior.

Mas até que ponto os ganhos da proteção não superam os malefícios? Segundo a economia do bem-estar (em que pesem todos os questionamentos acerca de sua validade, uma vez que uma série de pressupostos éticos precisa ser analisada), não há ganhos imediatos evidementente - apenas perda para os consumidores no curto prazo. O produtor nacional e o governo ganham parte do excedente do consumidor, mas não há ganhos líquidos para o país pequeno que não influencia o preço internacional - se estivermos supondo concorrência perfeita. Embora a análise tenha sérias limitações, sabemos que alguém paga o preço da proteção - e este pode ser alto, principalmente para nós consumidores.

A proteção só faz sentido se pensarmos em uma espécie de teoria de "proteção à indústria nascente". A ideia não é nova. Hamilton nos EUA a advogou no século XIX, List seguiu com a defesa em 1841 para a região que hoje é a Alemanha, Stuart Mill também a mencionou nos seus escritos. A CEPAL falou também disso no século XX e mesmo o mainstream não nega a possibilidade. Dani Rodrik e Joe Stiglitz mencionam sua utilidade. O'Rourke e Williamson inclusive já computaram ganhos da aplicação de tarifas em certas situações, embora Irwin costume refutar tais ideias em seus trabalhos. Mas talvez essa ideia mereça aprofundamento apenas no próximo post.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Notas sobre Vargas, Goulart e educação

Acabo de sair de uma palestra de Juremir Machado da Silva sobre a Campanha da Legalidade. A palestra era dirigida aos alunos da RI da ESPM, que gostaram bastante da apresentação - pelo menos foi a impressão que tive. Além de detalhar o contexto histórico, ele contou inúmeras anedotas dos episódios do período. Em suma, foi uma excelente palestra. Alguns pontos para reflexão:

  • Em termos gerais, concordei com o palestrante quanto ao governo Vargas, embora Juremir tenha uma opinião muito mais favorável a Vargas. Juremir destacou a questão educacional no governo Vargas, que criou o Ministério da Educação em 1930. De fato, é verdade isso, assim como é verdade que as décadas de 30 e 40 significaram mudanças na educação com as Reformas Campos e, posteriormente, com as Leis Orgânicas de Capanema. Todavia, em termos comparativos internacionais e mesmo latino-americanos, a melhoria educacional foi pífia. A ênfase no ensino técnico e o descaso com o ensino primário mostra que se tratava de uma política top-down bastante míope. Embora Capanema defendesse no discurso o ensino primário e este ser atribuição dos estados, sabe-se que a prioridade do ministro da Educação entre 1934-45 era a educação das elites (Ver o livro "Tempos de Capanema" de Schwartzman e associados; ou quem sabe, a minha dissertação de mestrado).
  • Juremir mencionou diversos casos anedóticos: alguns novos para mim, outros nem tanto. Eu já sabia que Jânio usava vassouras em sua campanha e que utilizava talco para simular que tinha caspa. Mas não sabia da conversa que Jânio tivera com Carlos Lacerda antes de sua renúncia, nem que Lacerda era conhecedor de vinhos.
  • Juremir respondeu-me por que motivo Goulart tinha contato com os sindicatos. Eu não sabia se o contato era anterior a seu cargo de Ministro do Trabalho no Segundo Governo Vargas - aparentemente, Vargas o preparou como líder e habilmente Goulart ganhou espaço junto aos trabalhadores com esse cargo. 
  • O palestrante concordou comigo que as reformas propostas por Goulart eram apenas reformas e talvez mais semelhantes à social democracia europeia do que a qualquer tipo de comunismo. Ainda ouço esse tipo de comentário: que se Goulart continuasse, teríamos nos tornado comunistas. Evidentemente, o contrafactual é complicado, uma vez que a pessoa sozinha não decide o rumo do país - tanto é que o resultado foi o golpe. No entanto, não era intenção de Jango a instauração de um comunismo, apesar da polarização que caracterizou o período da Guerra Fria. Em países latino-americanos, onde a Cortina de Ferro não era uma ameaça presente como era na Europa Ocidental, a construção de uma social-democracia não era necessária. Logo, qualquer reformismo poderia ser vinculado com comunismo. Mas certamente, essa minha opinião tem as influências do Pedro Fonseca e do Renato Colistete, meus ex-orientadores. Os dois até agora têm me convencido cada vez mais disso.


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Escola de verão na FEA/USP


Anunciado o nova Escola de Verão em Economia do Desenvolvimento na FEA/USP. Fiquei empolgadíssimo com os cursos e tive vontade de participar. Entretanto, o foco é para alunos de pós-graduação (algo que eu tenho que voltar a ser algum dia), embora quem tenha feito mestrado nos últimos cinco anos possa também participar - vamos ver se eu arranjo tempo pra isso. Os cursos abrangem áreas muito diversas da economia como microdesenvolvimento, jogos evolucionários, equilíbrio geral computável e história econômica! É realmente bastante completo e diversificado. Confiram as ementas e a bibliografia. Está tudo lá!

Obrigado pelo email do Renato Colistete divulgando essa louvável iniciativa.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Justiça de gênero?

Para os que se interessam sobre questões de filosofia política contemporânea, fiz uma confusa e incompleta sistematização sobre justiça de gênero na família. Os comentários dos filósofos políticos de verdade do blog Desenvolvimento e Justiça prometem.

domingo, 25 de setembro de 2011

Blog novo: Desenvolvimento e Justiça

Aproveito aqui para divulgar um blog relativamente novo.

Um grupo com membros oriundos da filosofia política, direito e economia, tem discutido questões relacionadas a desenvolvimento e justiça distributiva. Estamos nos reunindo na Casa Ethos! Nesse blog podemos encontrar não apenas a memória de nossas reuniões (não é uma ata, apenas uma descrição do que temos estudado), mas também diversos links e textos relacionados ao tema. Também estarei postando lá eventualmente quando tiver algo sobre o tema. 

sábado, 24 de setembro de 2011

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Volta do blog

Esse blog ficou parado por muito tempo, mas agora é tempo de retomar as discussões. Uma série de acontecimentos me motivou a postar novamente por aqui. Algumas das discussões econômicas recentes têm sido bastante passionais por conta de: (a) mudança das regras do Bolsa Família; (b) queda da taxa de juros; (c) aumento da tarifa para importação de carros.
Espero poder dar alguma contribuição nessas e outras discussões.

Por outro lado, gostaria de apenas fazer auto-propaganda e divulgar que meu artigo "Justiça e desenvolvimento no pensamento de Amartya Sen" foi publicado pela Revista de Economia Política. Foi enviado em meados de 2008 e após sofrer alterações e adiamentos, chegou a sua forma final apenas nessa edição. Lamentavelmente, o acesso ainda é restrito a assinantes da revista, mas em breve estará no Scielo.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Novo Doutorado em Desenvolvimento

Esse blog está de férias ainda - o blogueiro está com um número excessivo de horas-aula na Escola Superior de Propaganda e Marketing-Sul e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não é muito simples dar 22 horas-aula por semana e ainda orientar um TCC. Principalmente se você leciona Microeconomia, Macroeconomia, Economia Internacional e Introdução à Economia...

Mas a boa notícia é que a FEA/USP reformulou seu doutorado em Economia do Desenvolvimento. E ficou muito bom. Confiram aqui:


As inscrições vão de 2 de maio a 10 de junho. Mais informações e o
edital estão aqui:

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pausa

Este blog tem sofrido com algumas interrupções ultimamente. Agradeço aos leitores, mas precisarei parar por algum tempo devido a algumas tarefas com as quais me comprometi recentemente, além de problemas familiares.

No devido tempo, avisarei via redes sociais e blogs amigos (se eles quiserem me ajudar) a volta deste aqui. Demais leitores podem se inscrever como seguidores e ver as atualizações.

Agradeço desde já.
Thomas Kang

sábado, 12 de fevereiro de 2011

História econômica do século XX

Muitas vezes, pessoas interessadas em história econômica mas que não pesquisam na área tem interesse em aprimorar seus conhecimentos. No entanto, muitas vezes papers e livros da área são carregados de dados e descrições - o que é correto, uma vez que evidências são necessárias. Aliás, em meu processo de redação de minha dissertação, o primeiro rascunho sempre carecia de dados segundo o meu orientador.

Estou lendo agora o livro "Global Capitalism" de Jeffry A. Frieden (que tem tradução pro português, mas obviamente comprar a versão em inglês paperback é sempre mais barato). Esse é um livro que eu recomendo também para aqueles que querem ler história econômica sem se estressar muito com descrições exaustivas. Até agora tem sido uma leitura relativamente leve, resumindo a literatura existente - com as referências sempre em notas de fim. O livro é uma história econômica do século XX que merece ser lido por quem é e por quem não é da área.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Lara-Resende sobre desigualdade e bem-estar

*** ATUALIZAÇÃO
O site do Ministério do Planejamento disponibilizou o artigo do Lara-Resende que não conseguimos ler no site do Valor (como está escrito abaixo). Clique aqui e leia!

***

A coluna de André Lara-Resende, um dos pais do Plano Real, no caderno "Eu&Fim de semana" do Valor Econômico é sobre desigualdade e bem-estar. Um interessante artigo que debate não apenas os efeitos diretos da desigualdade sobre o bem-estar, como também questões de valor que estão sempre envolvidas nesse debate. Infelizmente, o site do Valor não permite que leiamos o artigo inteiro (eu recebi por email de um colega). Se você não tem login do Valor ou não tem o jornal em casa, vá à biblioteca da sua faculdade de Economia e leia a coluna.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Justiça Global?

Quando comecei a estudar justiça distributiva lá na cadeira de Política e Planejamento Econômico com o Flávio Comim, comecei a ter contato com as ideias de Rawls. Só aprofundei um pouco o conhecimento no assunto a partir de uma disciplina na Ciência Política da USP sobre o tema com o Álvaro de Vita. No entanto, nunca tive a oportunidade de estudar com mais profundidade o tema da "globalização justa" (apesar do Prof. Álvaro entender do assunto, mas eu não consegui me aprofundar). A pergunta é: como lidar com as questões de justiça em um mundo cada vez mais interligado?

Comecei a ler "One World" do filósofo Peter Singer (clique aqui para ver a versão em português do livro), um livro sobre a ética da globalização. Já no primeiro capítulo, Singer critica Rawls por se limitar à justiça dentro (within) de uma sociedade em um livro gigante como "Uma Teoria de Justiça". Embora Rawls tente lidar com o tema em "O Direito dos Povos", Singer vê como insuficiente a visão de Rawls, uma vez que as unidades de decisão continuam dentro de estados-nação. Embora a extensão do segundo princípio de Rawls para o mundo seja algo bem igualitário e progressista dentro da visão política norte-americana, nas páginas 8 e 9, Singer ressalta que o modelo de Rawls é de uma ordem internacional, não de uma ordem global. "This assumption needs reconsidering", afirma ele.

Há muito a ser dito sobre o tema. Filósofos como Thomas Pogge tentam trabalhar o assunto da justiça global. Sen, em seu livro sobre justiça, tenta tocar no assunto, embora de forma aparentemente não-sistemática. No Conselho Mundial de Igrejas, com o qual eu tenho trabalho, o foco é exatamente esse. Comentários sobre o tema são bem-vindos.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Ética, cooperação e equilíbrios

O papel da ética no desenvolvimento tem sido discutido há muito tempo na história do pensamento econômico, ainda que os advogados do egoísmo ético como Stigler e Friedman continuem a seguir à risca os passos de Mandeville, afirmando que “vícios privados” geram “benefícios públicos”, como bem mostrou Giannetti (Vícios Privados, Benefícios Públicos: a ética na riqueza das nações. São Paulo: Companhia das Letras, 2007). Na economia contemporânea, os benefícios da cooperação passaram a fazer parte da agenda de pesquisa através de trabalhos como os de Olson (1957) sobre ação coletiva, Arrow (1959), entre outros. O recente Nobel dado a Oliver Williamson e Elinor Ostrom também está relacionado a essa agenda. Temas como capital social, em que se destacam Putnam (1993) e Coleman (1988), tem tudo a ver com o papel da ética na economia – em que pese diretamente a contribuição de Sen (Ética e Economia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999).

O teólogo Valério Schaper das Faculdades EST me chamou atenção para o fato de que a confiança e a cooperação não seriam necessariamente valores, uma vez que, em uma economia de mercado, esses supostos valores trazem benefícios. Dessa maneira, o argumento fica parecido com a dos defensores do egoísmo ético. Mas essa explicação tem dois possíveis problemas:

(1) por que alguns países estão em um equilíbrio cooperativo ótimo (pensando em termos do “dilema do prisioneiro” da teoria dos jogos), enquanto outros países estão em equilíbrios subótimos?

(2) Onde a cooperação é predominante, o que motiva a ação dos indíviduos? É apenas o ganho posterior que motiva a ação, sendo portanto egoísta, ou há um valor por trás? (Digamos, o indíviduo acha correto ser honesto, sendo honesto mesmo quando acredita que corre o risco de ser prejudicado).

A primeira pergunta merece cuidadosa reflexão. Em países como o Brasil, em que reina o subótimo, parece ser individualmente vantajoso jogar não-cooperativamente – e, portanto, as pessoas passam a perna uma nas outras. Mas em outros países também deveria ser assim então; o que os elevou de patamar? É possível conjecturar que valores como lealdade e honestidade impostos de fora (cultura ou religião) possam ter tido papel crucial nessa passagem de um equilíbrio para o outro. Mesmo considerando que a manutenção do equilíbrio ótimo tenha sim a ver com a percepção de que há benefícios em agir corretamente, é preciso explicar essa passagem – e a ética pode ter sido essa diferença para que pudesse ter havido a ação coletiva necessária para o alcance do equilíbrio superior. E, assim, nesses países há maior confiabilidade no mercado e as instituições funcionam melhor.

A segunda pergunta ainda vale, mesmo quando a sociedade já percebeu os benefícios da cooperação. Certamente há indivíduos que só cooperam porque recebem benefícios, principalmente no momento atual em que valores são relativizados e culturas se chocam com a globalização, mas também certamente há indivíduos que agem por motivações éticas – mesmo que isso os prejudique. A questão da motivação já estava presente em Weber, que separava ações racionais em racionalidade instrumental e racionalidade de valor, enquanto que Sen (1977) em seu “Rational Fools” (publicado na Philosophy and Public Affairs) também ressaltou a importância de se considerar a motivação ética. Esses trabalhos ajudam a mostrar que também não é apenas o sentimento de culpa que move as ações para um suposto comportamento ético – se isso acontecesse, seria apenas mais uma forma de egoísmo ético. Uma análise introspectiva pode muitas vezes mostrar que tem certas coisas que você não faria – e não apenas por medo da culpa - apesar de que fazê-las talvez gerassem benefícios individuais.

Portanto, dizer que a confiança e a cooperação em mercados não representam valor algum pode ser um exagero. Há provavelmente ambos os componentes – tanto o ético quanto o egoísta – no comportamento dos agentes do mercado. Pode ser que isso tenha sim papel na determinação dos equilíbrios. A mudança de equilíbrio parece exigir bastante comportamento ético, embora a manutenção dele talvez exija-o em menor grau.

domingo, 23 de janeiro de 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Volta das Férias


Registrado pelo Thales o tour que fizemos por arquivos hoje em Porto Alegre. Este blog esteve novamente parado, mas é que o cérebro do Thomas estava de férias. Na foto, Thales, Fábio Pesavento e Thomas Kang no arquivo da Santa Casa de Misericórdia em Porto Alegre na tarde do dia 17 de janeiro. Os termômetros chegaram a passar dos 35 graus. É a luta pela busca de dados na história econômica. Alguém tem que fazer o trabalho com as traças.