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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Mercado, mérito e rendimentos

Acho que a motivação original desse post  é o livro "What Money Can't Buy" de Sandel. Na minha opinião (e na de muitos outros), um livro bastante inferior ao "Justice". Em particular pelos crassos erros econômicos ao longo da análise: só para dar um exemplo, no começo do livro, Sandel já conceitua errado o termo "eficiência". Não obstante a crítica a eficiência como único ou mais importante critério moral deva ser feita, a fonte correta para isso não é Sandel.
 
Por essa razão também, ao invés de ler Sandel, nosso grupo de Justiça e Desenvolvimento resolveu ler um outro texto. A Daniela Tocchetto sugeriu um texto do Sen de 1985, "The Moral Standing of the Market" da Social Philosophy & Policy, 2, Spring.
 
Nesse texto do Sen, encontramos talvez vários motivos para (i) entender que o mercado de fato é importante, mas também (ii) que existem várias razões para questionar alguns resultados trazidos pelo livre mercado. Além da tradicional crítica ao utilitarismo clássico ou a teorias deontológicas, Sen entra na questão do mérito e da distribuição. Como usualmente se ouve em classes de graduação, a teoria da firma justificaria a desigualdade com base na determinação dos rendimentos de um fator de acordo com a produtividade marginal. Ou seja, se o salário real é igual à produtividade marginal do trabalho, então esse salário está ok - mesmo que esse salário seja muito baixo em termos relativos. Esse argumento está em Bauer (1981), descrito da seguinte forma por Sen:
In Bauer's system, the output is produced not only (nor, in any Lockean sense, "ultimately") by labor, but by the different factors of production (including capital). And the marginal productivity theory is given an interpretation of real contribution, as opposed to having only allocational usefulness in terms of counterfactual calculations (Sen, 1985, p. 15)


Sen então passa a criticar o argumento de Bauer, mostrando que a igualdade entre rendimento real e produtividade marginal nada tem a ver com contribuição real - e tampouco merecimento:
 


If production is an  interdependent process, involving the joint use of different resources, it is not generally possible to separate out which resource has produced how much of the total output. There is no obvious way of determining that "this part" of the output is due to resource 1, and "that part" due to resource 2, etc. The method of attribution according to "the marginal product" concentrates on the extra output that one incremental unit of the resource would produce, given the amounts of the other resources (Sen, 1985, p. 15)

E no final, Sen chega ao âmago do cálculo marginal. Embora esteja ali a ideia de escassez relativa de fatores, isso não tem relação direta com a utilidade marginal decrescente (que é o outro lado, o do consumidor).

In fact, the marginalist calculus is not concerned with finding out who "actually" produced what. Marginal accounting, when consistent, has an important function in decision making regarding the use of resources, suggesting when it would be appropriate to apply an additional unit of resource, and when it would not. To read in that counter-factual marginal story one of "actual production" - who in fact produced what part of the total output - is to take the marginal calculus well beyond its logical limits (Sen, 1985, p. 16)
Acho que vale mais a pena ler sobre moralidade do mercado com Sen do que com Sandel. De fato, o seu salário não é necessariamente a contribuição real - nem em teoria, quanto mais na prática, em que outros fatores, como os institucionais, interferem na determinação dos rendimentos. Essa vai para a discussão que tive hoje com o Pedro Zuanazzi.
 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Métodos quantitativos: tem que ser bem feito

Embora métodos quantitativos como a econometria não possam ser aplicados  de forma satisfatória em todas as pesquisas, a rejeição total aos métodos quantitativos é absurda. Assim como também é absurdo o endeusamento desses métodos. Muitas vezes, por conta desse excessivo entusiasmo, rodam-se muitas regressões por aí sem pé nem cabeça - e sem as devidas ressalvas ou o reconhecimentos dos possíveis problemas que há nos resultados encontrados.

Tenho estudado recentemente um pouco da econometria que não tinha estudado no mestrado. Eu nunca tinha estudado profundamente os dados em painel, embora eu soubesse o básico sobre o tópico. Utilizei um modelo de efeitos fixos para dados em painel na minha dissertação, acreditando nos livros de graduação. Acredito que a minha crença era correta, mas certamente os problemas de identificação que tive não poderiam ser resolvidos sem maior conhecimento das hipóteses de modelos de efeitos aleatórios, fixos e de primeira diferença. E até agora não foram resolvidos (quem sabe em breve).

Dou esse alerta: o entusiasmo que as pessoas têm com os métodos quantitativos  sem o devido estudo pode se tornar uma armadilha. Até agora estou lutando com os resultados que encontrei em minha dissertação, que não são convincentes do ponto de vista da identificação. Acredito que há formas de resolver o problema, mas isso vai exigir maior estudo no mínimo. Não basta utilizar o método quantitativo sem cuidado, a academia não aceita o uso indiscriminado de métodos quantitativos sem levar em conta as devidas hipóteses de identificação, devido principalmente à inconsistência estatística dos resultados, além dos problemas de inferência.

A questão não é se o trabalho tem ou não tem uma regressão. O método deve ser utilizado com cuidado, para que as conclusões sejam realmente coerentes com a pesquisa feita - seja o método quantitativo ou qualitativo.

É claro que em nível de graduação, aceita-se um trabalho com regressões sem maiores cuidados apenas por uma questão de exercício. Mas apenas como exercício. Cuide com o entusiasmo e estude bem estatística, para pelo menos poder se defender. Como? Primeiro, pegue o Wooldridge baby, depois vá para livros como o Mostly Harmless e, se quiser maior formalização estatística, o Wooldridge da pós é uma boa.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Congresso na Europa de História Econômica

Olhem aí!


Tenth Conference of the European Historical Economics Society (EHES)
Call for Papers

The Tenth European Historical Economics Society Conference will be held at the London School of Economics, Friday-Saturday, 6-7 September 2013.

The Conference Programme Committee consisting of Stephen Broadberry (London School of Economics), Herman de Jong (University of Groningen), Giovanni Federico (European University Institute) and Sybille Lehmann (Hohenheim University) invites proposals for individual papers on any aspect of European or global economic history covering a wide range of periods, countries and regions.

The Society encourages submissions from young scholars. There will be 10 bursaries of €500 each to help PhD students cover the costs of travel and accommodation. Further details are available on the EHES website.

For each proposed paper, an abstract not exceeding 500 words together with the institutional affiliation and e-mail address of the authors should be uploaded by 6 February, 2013 via the Society’s website (
www.ehes.org).

All submissions will be acknowledged. Notices of acceptance will be sent to corresponding authors by 6 April, 2013.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Minorias e democracias


Estou recebendo boas lições de filosofia política com um livro de bolso de David Miller da coleção da Oxford. Aliás, recomendo a série. Pelo menos até agora não me decepcionaram.

Embora eu conheça o argumento antigo da "tirania da maioria", creditada à Tocqueville (segundo o que aprendi anos atrás), acabei nunca pensando mais detidamente acerca das minorias em regimes democráticos. É talvez uma questão crucial - o bom senso faz a gente pensar nisso, mas não de forma sistemática. Miller coloca bem o problema no seu capítulo sobre democracia (capítulo 3).

O filósofo coloca dois problemas que a votação por maioria pode trazer na democracia, afetando nossas noções de igualdade política:
  1. a maioria pode ser menos afetada do que a minoria ou tem menos interesses em jogo (intense minority).
  2. um grupo é persistentemente minoritário quando rodadas de votação são feitas (persistent minority).

Como resolver isso?
  • garantias constitucionais de respeito a certos direitos: nesse caso, uma autoridade especial, em geral uma corte constitucional, teria poder para julgar os casos. A maioria não pode violar esses direitos apenas por ser maioria.
  • criação de subcomissões que fazem o grupo que tem mais interesses em jogo se tornar majoritário (em cada subcomissão).
  • permitir que haja discussão pública para que um ouça o outro e considere a visão da minoria (até para garantir que todos sejam ouvidos e considerados, uma vez que todos podem ser minoria em um determinado assunto).

Essas soluções são as que Miller levanta nesse livro introdutório. Evidentemente, pessoas com maior formação em filosofia e ciência política podem contribuir mais. O livro me ensinou, por exemplo, que o termo idiota vem do grego e designava a pessoa que vivia uma existência privada e não se ocupava dos assuntos da pólis (p. 48). Nesse sentido, acho que esse livro é uma boa maneira de nos afastar um pouco dessa categoria.

domingo, 18 de novembro de 2012

Instituições e a Revolução Industrial

A Revolução Industrial sempre foi um dos assuntos mais discutidos, mas continua sendo um dos  mais inquietantes da história econômica. Principalmente depois do livro "The Great Divergence" de Kenneth Pomeranz (termo cunhado por Huntington aparentemente), a história econômica tem se perguntado por que a Revolução Industrial ocorreu na Europa e não em outros lugares como a China. Mas a pergunta anterior, que se refere ao pioneirismo britânico na Revolução Industrial, ainda está em debate. Quando a causa chama-se instituições, o clássico artigo de Douglass North e Barry Weingast (1989) é sempre o ponto de partida.

Neste paper, publicado na Journal of Economic History, North e Weingast ressaltam o papel da Revolução Gloriosa de 1688, que teria mudado drasticamente as instituições no período ao diminuir o poder absoluto do rei, dando maior voz ao Parlamento e ao Judiciário, equilibrando os poderes e levando-os a cooperarem entre si. Com maior enforcement dos contratos, mercados (como, por exemplo, o financeiro) teriam se desenvolvido mais, como mostram as evidências (ainda que escassas) dos dois autores. Embora eles não afirmem que esta é a causa da Revolução Industrial no século seguinte, os autores levantam essa hipótese nas considerações finais do texto. Ou seja, ao modificar suas instituições antes de seus vizinhos, os britânicos teriam tido vantagens para iniciar primeiro a industrialização.

O debate subsequente é muito rico. Em especial, reeditando o debate ocorrido no Congresso Mundial de História Econômica ocorrido em 2009, vale a pena comentar rapidamente as ideias de Joel Mokyr e Bob Allen, que têm se destacado nesse debate.

Para Mokyr, a ênfase nas instituições formais dada por North e Weingast é exagerada. Em um de seus textos sobre o tema, Mokyr tenta convencer o leitor de que instituições informais também importariam, afirmando que a cultura do cavalheirismo britânico na época e a ascensão do Iluminimo (que apesar de ser um fenômeno pan-europeu, teria tido papel nas ilhas) não pode ser simplesmente ignorado para favorecer a hipótese das instituições formais. Aproximando-se da posição de McCloskey, as ideias seriam importantes para o surto de inovação tecnológica ocorrida na Revolução Industrial. Embora instituições que garantam contratos e direitos de propriedade sejam importantes para a eficiência do sistema, isso não explicaria suficientemente o avanço tecnológico. A linha escolhida por Mokyr é claramente inspirada na ideia de que acumulação de capital não é suficiente para gerar inovação tecnológica e economias de escala, características do moderno crescimento econômico, o que também é enfatizado pelos modelos teóricos de crescimento endógeno (cuja inspiração teórica vem do insucesso da acumulação de fatores explicar o crescimento de acordo com os resultados empíricos de testes com o modelo de Solow).

Já para Allen, cujo argumento está bem detalhado aqui, temos o seguinte: mais do que instituições formais ou ideias/cultura, os preços relativos são a mais importante explicação. A evidência de que o carvão era relativamente barato e de que salários nas ilhas britânicas eram relativamente altos, facilitaram a industrialização, uma vez que a maior utilização de capital em termos relativos seria favorável à inovação, adoção e difusão de novas tecnologias. Seria uma questão de otimização microeconômica que, no longo prazo, levaria a maiores inovações.

É possível que, na verdade, as ideias de North e Weingast, Mokyr e Allen tenham todas seu papel na explicação do pioneirismo britânico. O debate continua em aberto e, aparentemente, tem estimulado alguns dos nossos alunos na ESPM-Sul, que têm comparecido e debatido no nosso clube de história econômica. A experiência tem sido muito positiva.

PS: Talvez ler o Instituional Revolution do Douglas Allen ajude a elucidar algumas coisas, o que não fiz ainda!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas.

Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre).

Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55), listo aí as três fontes tradicionais de endogeneidade em econometria aplicada:

  1. Variáveis omitidas: se há uma variável omitida no modelo, ela acaba sendo incorporada ao erro. Caso esta variável omitida seja correlacionada com alguma das variáveis explicativas que já está no modelo (o que é bem comum), necessariamente haverá correlação entre variável explicativa e erro.
  2. Erro de mensuração: se há apenas uma variável com erro de mensuração e não temos a variável sem erro que deveria estar no modelo, podemos ter correlação entre a variável que temos (com erro) e o erro (porque o erro contém uma parte daquilo que não foi mensurado corretamente). Isso depende da relação entre a variável que temos (com erro) e a que não temos mas gostaríamos de ter (sem erro).
  3. Simultaneidade: quando uma das variáveis explicativas é determinada pela variável explicada no modelo. Ou seja, x influencia y, mas y também influencia x simultaneamente. Nesse caso, x e o erro geralmente possuem correlação entre si. 

E qual é o problema da endogeneidade? Além do viés, o grande problema que podemos ter é a inconsistência. Nesse caso, nossas estimativas não convergirão ao parâmetro populacional. Para que então rodar uma regressão? O importante de uma estimativa amostral é que, através dela, possamos dizer algo sobre a população.

PS: Agradeço algumas correções feitas pelo Prof. Fernando Sabino. 

domingo, 28 de outubro de 2012

Clube de História Econômica

Uma das melhores coisas que tem acontecido nesse semestre é que eu, Fabio Pesavento e Thales Pereira temos conseguido nos reunir semanalmente para discutir história econômica. Mais do que isso, temos alunos que também discutem o tema conosco. O Clube de História Econômica da ESPM-Sul tem sido bem-sucedido e tivemos até agora excelentes discussões.

Nos últimos três encontros, conseguimos discutir cada uma das três mais conhecidas vertentes de explicação das causas do crescimento de longo prazo: geografia, instituições e cultura. A fim de não exigir demais também dos alunos, que estão tendo seu primeiro contato com história econômica geral em sua maioria, pegamos um texto representativo de cada tópico. Para a geografia, escolhemos um capítulo do livro clássico de Jared Diamond (Armas, Germes e Aço); para as instituições, o texto escolhido foi o do trio Acemoglu, Johnson e Robinson ("Reversal of Fortune...", QJE, 2002); e, para cultura, discutimos o texto de Nathan Nunn ("Culture and the Historical Process", Economic History of Developing Regions, 2012). Enquanto os dois primeiros são textos clássicos, o último é um survey sobre a pesquisa recente sobre o papel da cultura.

Embora o grupo de professores fechem uns com os outros afirmando a importância do papel das instituições, temos algumas divergências sobre qual o peso de cada uma das vertentes. O Thales acha que o papel da cultura é praticamente nulo, eu acredito que a situação inicial (que inclui a cultura pravelente) pode levar a diferentes trajetórias dado um mesmo choque.  Mas o fato é que não sabemos os valores dos coeficientes se tentássemos traduzir isso em uma combinação linear a*geografia + b*instituições + c*cultura + erro.

A discussão tem sido produtiva e com contribuições muito interessantes dos alunos. O próximo assunto é Revolução Industrial, em que discutiremos os textos de North e Weingast (JEH, 1989); Joel Mokyr (2010) e Bob Allen (EHR, 2011). Certamente todos aprenderemos bastante com o clube nas próximas semanas.

Aliás, aqui vai a primeira parte do documentário Guns, Germs and Steel da NatGeo. Bom entretenimento!



quarta-feira, 24 de outubro de 2012

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Novo qualis de economia

Eu mudaria bastante a lista.

Acho que o Leo Monastério está certo em dizer que há menos distorções do que em outras áreas. Entendo também que o processo de escolha do qualis é tanto técnico quanto político. E sei também que cada indivíduo pode vir como um ranking diferente do meu (sabemos como é difícil agregar preferências...). Mas tenho alguns pontos que deveriam ser considerados.

  • Primeiro, a defesa da minha área. As melhores revistas de história econômica, no caso a Journal of Economic History, a Explorations in Economic History e a Economic History Review amargam posições B no ranking (B1, B1 e B2 respectivamente). Enquanto isso, revistas também voltadas a públicos específicos como a History of Political Economy (A1), Journal of Post-Keynesian Economics (A1) ou Cambridge Journal of Economics (A1) estão muito à frente.
  • Isso não significa que eu ache que as revistas de história econômica tenham que ser A1. Mas outras revistas de públicos específicos e de impacto relativamente baixo, por mais que publiquem excelentes artigos, não podem ser igualadas a AER, QJE, JPE ou Econometrica na minha opinião.
  • Revistas de história econômica que já estão com boa inserção internacional como a Revista de História Económica ou a European Review of Economic History nem figuram na classificação.

Ficarei apenas com essas observações, embora eu pudesse discutir mais sobre isso.




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Seminário: Educação e Expansão das Capacitações



Nesta sexta-feira (manhã e tarde) e no sábado pela manhã, teremos o seminário Educação e Expansão das Capacitações. O evento é promovido pelos PPGE-UFRGS e pelo PPGFil-UFRGS, com apoio da FEE. 

O seminário vai se tratar de um diálogo entre economistas e filósofos sobre a questão da educação. Teremos papers de economia de educação, filosofia política, instituições e educação, etc. Embora nem todos papers tratem de capacitações, a ideia é fazer um diálogo a respeito disso. A mesa principal, com a presença de convidados de fora, tratará diretamente do tema. 

Inscrições no site: http://www.ppge.ufrgs.br/educacao/

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Estado da arte no comércio

Apenas recentemente consegui ler alguns dos artigos do simpósio sobre comércio internacional publicados na Journal of Economic Perspectives deste ano. A JEP sempre é a salvação quando você precisa de uma atualização rápida na fronteira da ciência econômica. 

A volta da abordagem ricardiana aos modelos de comércio para tentar entender melhor os novos padrões de comércio com a expansão de economias de renda média é talvez um dos assuntos mais interessantes. O modelo ricardiano era recentemente encarado apenas como uma maneira didática de introduzir posteriormente modelos mais complexos como o de fatores específicos ou o próprio Heckscher-Ohlin. Ademais, com a importância nos anos 80 e 90 do comércio intra-indústria e o sucesso empírico da "equação da gravidade", os modelos que mais chamavam atenção eram aqueles de concorrência monopolística e economias de escala (à la Krugman-Helpman). No entanto, Eaton e Kortum (2002) trouxeram à tona modelos inspirados em vantagens comparativas oriundas de diferenças tecnológicas (à la Ricardo), mas com hipóteses mais fracas, abrindo novos caminhos na pesquisa sobre comércio. 

Já em edições anteriores da JEP, a questão das firmas exportadoras estava em voga - o que é novamente contemplada nessa edição em artigo de Melitz e Trefler. Afinal, nem todas as firmas exportam. Entender melhor as características micro dos setores que exportam é outro ramo da investigação recente em comércio internacional.

O artigo de Hanson nesse JEP talvez faça as perguntas interessantes em suas considerações finais. Entre elas, tentar explicar a hiper-especialização que tem havido recentemente (em parte devido ao boom das commodities, que tem explicado em boa parte nosso crescimento recente) e entender se o boom de commodities impactou ou não sobre o padrão de vida dos países de baixa renda. Questões fundamentais na agenda de pesquisa sobre comércio internacional.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Tapando o sol com a peneira na educação

A divulgação do resultado do IDEB com o RS abaixo da expectativa (e abaixo dos vizinhos catarinenses) foi motivo para que a secretaria da educação do Estado se manifestasse. Afirmou-se que:


Críticas ao IDEB podem ser feitas, mas não adianta tapar o sol com a peneira. A educação básica no Rio Grande do Sul tem ficado em segundo plano por sucessivos governos, sejam eles de esquerda ou direita. Esse resultado não é do governo atual ou do anterior, mas o resultado do conjunto da obra. E querer fazer um novo índice apenas gaúcho que não pode ser comparado não parece solucionar o problema educacional: 


No resto do Brasil, a solução para a educação parece ser outra ainda. De acordo com a Folha de São Paulo, a proposta é a seguinte:


Mais uma mudança que seria inócua. Professores não tem formação para isso e poderia prejudicar o sistema de avaliação. Ademais, provavelmente seria executado "nas coxas", como ouvi de um ex-professor meu ao debater o assunto. Ainda com aqueles que defendem que o aumentar salário de professor não é a solução (é claro que não é no curto prazo, mas acreditar que a elasticidade da oferta de trabalho no setor não responde no longo prazo é dizer que a lei da oferta e da demanda é uma piada), ficaremos sempre nas soluções "sem custos". O Brasil quer melhorar a educação sem gastar mais. Indicadores novos, reformas curriculares, nada funcionará se educação não se tornar prioridade política. Nesse caso a única solução distributivamente equitativa são as cotas - embora totalmente ineficiente e que deveria ser aplicada apenas no curto prazo.



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

50% de quotas?

A aprovação pelo Senado de uma lei que reserva 50% de cotas nas vagas das universidades federais para alunos que cursaram o ensino médio inteiro em escolas públicas gerou uma grande controvérsia nos meios de comunicação, inclusive entre os blogs.

Logo que a lei foi aprovada, o Mansueto se manifestou. Ele não é contrário às cotas como tais, mas devido à significativa discrepância entre a escola pública e a privada na educação básica, ele acha que essa lei é temerária. O ponto que incomoda a todos é a questão da qualidade. Em artigo no Estadão, Fernando Reinach também argumentou contrariamente à aprovação dessa lei. Os argumentos dos dois que citei tem força e devem ser levados em conta no debate.

Assim como o Mansueto, não sou contra medidas redistributivas ou ações afirmativas. Acredito que este tipo de ação serve para reparar injustiças no que se refere à igualdade de oportunidades, embora apenas como medida paliativa no curto prazo. Para o longo prazo, é evidente que a solução é a melhoria da educação pública no ensino fundamental - com aumento de gastos, mais eficiência no gasto, valorização da carreira do professor, assistência antes das crianças entrarem nas escolas, aulas de reforço, etc. Maior igualdade de oportunidades sem necessidade de cotas.

Mas indo além dos textos indicados, eu gostaria de sugerir algumas ideias que também podem ser levadas em conta no debate.

  • Por que antes de aprovar essas cotas, o poder público brasileiro nunca investiu de fato na educação básica? O evidente desinteresse dos governos ao longo da história pode estar relacionado à falta de poder político das massas. Quem detinha o poder não se importava muito com a escola dos pobres. Mas então por que as cotas foram aprovadas agora?
  • Será que a adoção de cotas altas como essas da lei recentemente aprovada pode incentivar a melhoria da educação pública? A volta de parte da classe média para o ensino público poderia ensejar melhorias via "voz" (nos termos de Hirschman), tudo o mais constante (ou seja, se as universidades públicas continuarem boas). Quem sabe a obrigação não ajuda a escola pública?
  • Como indicado no ponto anterior, se a adoção de cotas baixar muito a qualidade do ensino superior público, pode haver o fortalecimento do ensino superior privado - onde não há cotas. Nesse caso, não podem as cotas piorar todo o sistema? 
  • Os dois itens anteriores partem de um ponto de vista consequencial. Do ponto de vista do processo, a correção de injustiças históricas é um argumento válido, mas o problema meritocrático continua em pauta do outro lado. Os custos de um processo excessivamente polêmico, com o acirramento da concorrência, podem ser prejudiciais por não ensejarem um nível mínimo de cooperação social.
  • A criação de uma elite que venha de camadas pobres, incluindo negros e indígenas, podem ter efeitos positivos no longo prazo. Se as cotas servirem para isso, temos um benefício.
  • Se cotas são medidas de curto prazo, por que não se adotam cotas que vão diminuindo ao longo do tempo? Isso para que os governos não esqueçam de investir na educação básica, achando que, com as cotas, já fizeram a parte deles.
  • E nunca esqueçamos o problema da autodeclaração de raça, ainda que eu ache que poucos de fato se aproveitem disso.

A impressão que eu tenho de todo esse debate é que sofremos de sérios problemas de desigualdade de poder político e riqueza desde sempre. Infelizmente, a persistência institucional é forte e corrigir essas distorções podem gerar outras distorções. Se essas outras distorções tiverem custos menores que a primeira, está valendo do ponto de vista consequencialista.

Todas essas ideias sofrem também com o problema da restrição política. Por que priorizar a educação básica parece ainda algo distante, sendo mais fácil aprovar as polêmicas cotas? Eu gostaria de ver as duas políticas em ação, com cotas moderadas. Mas pelo jeito, isso é politicamente inviável. Cotas é a maneira não custosa em termos financeiros de incluir as pessoas na democracia, mas que também podem provocar muitas distorções se os devidos cuidados não forem tomados. E, de uma maneira ou de outra, precisamos educar melhor nossas crianças - com ou sem cotas.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Instituições, Geografia, Cultura, Demografia, etc?

Um blogeiro nem sempre está atualizado, o que é um problema. Mas com essa discussão que sempre temos acerca da causa principal do crescimento de longo prazo, que está claramente em evidência com o Why Nations Fail, achei alguma coisa aqui.

Essa reportagem de 2007 discorre sobre o livro do Greg Clark, A Farewell to Alms. O livro básico de interpretação malthusiana do processo de crescimento em que questões demográficas e hábitos tornam-se elementos centrais.

Na minha ânsia de classificar e correndo o risco de dizer bobagem, acho que podemos dizer que há essas hipóteses:

Pergunto-me se há mais alguma. Jeff Williamson e a questão do comércio ajudam a responder essa questão? A expansão dos mercados é algo que vem lá do Braudel, mas parece estar pouco em debate. As interpretações para a Revolução Industrial por parte de Joel Mokyr ou Bob Allen parecem estar em algum lugar no meio disso tudo. Talvez os leitores possam me ajudar e, quaisquer erros, favor me avisar!


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Escolha social, bem-estar e teoremas

Ontem iniciamos um novo grupo de estudo sobre questões de justiça. O grupo, com gente da área econômica, filosófica e jurídica, decidiu estudar alguns textos básicos do Amartya Sen. Fui responsável ontem por apresentar a palestra por ocasião da entrega do Nobel a Sen em 1998. "The Possibility of Social Choice" está disponível no site do Nobel, além de ter sido publicado pela AER no ano seguinte.

Quem estudou os capítulos normativos de algum manual de microeconomia acaba conhecendo os teoremas do bem-estar e o Teorema da Impossibilidade de Arrow. Talvez a grande vantagem de ter lido o texto do Sen é descobrir que há vários problemas em todos esses teoremas: não no que se refere à sua validade matemática, evidentemente. Mas mudando suas hipóteses, ou seja, através de um outro ponto de vista normativo, é possível chegar a resultados mais interessantes. Sen comenta que há diversos resultados de possibilidade de escolha social. Em "Sobre Ética e Economia", Sen desenvolve mais críticas à economia do bem-estar, mas que em parte já aparecem nesse texto de 1998.

Meu ponto aqui é que os manuais de microeconomia deveriam ao menos mencionar que a história não acaba nesses teoremas.

Os diversos artigos de Sen sobre Escolha Social não fizeram parte da bibliografia que utilizei quando escrevi um artigo sobre Sen para a REP. É o ponto que falta.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Instituições e diferenças dentro dos estados

Se Naritomi et al. (2012) querem ver o efeito de diferentes atividades econômicas em todo o Brasil, por conta das diferentes estruturas institucionais criadas por tais atividades, má ideia não é verificar o que acontece dentro de estados brasileiros. O Rio Grande do Sul é um excelente caso. Em parte, quem tratou disso foram o Irineu e o Leo Monastério nesse paper aqui, já publicado online pela Regional Science and Urban Economics.

Resolvemos recentemente aqui na FEE e observar os dados de pobreza absoluta no RS. O Marcos Wink já publicou a respeito na Carta de Conjuntura da FEE em janeiro. Lá, na página 2, temos um bonito mapa mostrando onde estão os clusters de pobreza no estado: é o mapa aí em cima. Em algumas regiões, a incidência de pobreza é notória (quanto mais escuro, maior a incidência de pobreza). No norte do estado, por exemplo, temos vários pequenos municípios, destacando-se Redentora, com 23,45% de população em pobreza extrema. Por outro lado temos no sul do estado uma enorme área de municípios em que se destaca Canguçu, com 7,25% da população em pobreza extrema (mais de 3700 pobres!).

Mais estudos regionalizados podem ajudar-nos a decifrar o que houve nessas regiões. Há uma série de regiões no Brasil ainda não contempladas pela literatura. Será tudo sempre uma questão de "instituições, instituições, instituições", como insistem Acemoglu e Robinson?




sexta-feira, 27 de julho de 2012

Comentários sobre Naritomi et al. (2012)

Resolvi ler ontem a versão final do paper de Naritomi, Soares e Assunção (2012), finalmente publicada pela Journal of Economic History, depois de anos de versões anteriores circulando por aí. No final das contas, embora os resultados façam sentido, corroborem Engerman e Sokoloff, AJR e até Caio Prado Jr., não me dei por satisfeito. O paper trata de ver o efeito de atividades econômicas importantes sobre diversas variáveis como distribuição de terra, governança e provisão de bens públicos. Essas atividades teriam criado instituições extrativas que poderiam ter afetado negativamente os municípios ligados ou próximos aos centros dessas atividades.

Os resultados são intuitivos: regiões próximos ao açúcar em desvantagem no que se refere a desigualdade de terra, assim como alguns resultados negativos advindos da extração aurífera (em termos de acesso à justiça e governança). Ademais, as regiões antigas do café também tiveram alguma desvantagem. O novo no artigo é uma metodologia quantitativa, uma espécie de teste para a tese Engerman-Sokoloff. Mas meu problema foi outro. Em particular, o uso de uma variável "distância de Portugal" para captar o grau de controle da métropole sobre a localidade me pareceu um exagero. "Distância de Portugal" em termos práticos não é muito diferente de "distância do Equador". "Distância de Portugal" pode inclusive estar captando clima, latitude, etc. E se há mais variáveis geográficas, multicolinearidade poderia até ser um problema, apesar da amostra ter sido grande de fato.  

Acho que para o Brasil, ainda há muito a ser feito com relação a ideia de instituições e desenvolvimento de longo prazo. Esse paper é um bom passo, mas precisávamos de mais trabalhos nessa linha. Parabéns aos autores. É difícil ver brasileiros na Journal of Economic History. Acho que o último foi o Renato Colistete, isso lá em 2007



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sobrevivendo ao congresso

Kruiskerk, local das palestras principais
Estive em silêncio durante minha estadia em Stellenbosch. Voltamos do XVI World Economic History Congress na cidade sul-africana próxima à Cape Town. O frio era muito semelhante ao de Porto Alegre, até porque exatamente como aqui, não havia calefação. A diferença é que as cidades do Western Cape são muito bonitas. Praias e montanhas fazem parte da paisagem da região, além das cidades serem bem mais organizadas que as brasileiras - pelo menos nas partes centrais.

Como esperado, recebi comentários interessantes em relação aos papers, tanto elogiosos quanto críticos. No primeiro dia, apresentei meu paper sobre educação no Brasil entre 1947 e 1962. Não mudei muito o que apresentei em relação à Tübingen em 2010. Talvez até por isso, o Peter Lindert (UC Davis) tenha feito uma forte crítica em relação a alguns detalhes econométricos: ele acha que a utilização de efeitos fixos nas minhas regressões está modificando os resultados que ele esperaria. Fiquei feliz por não ser o único: parece que o Lindert deu pancadas em todo mundo na outra seção sobre desigualdade. De qualquer maneira, não achei a crítica válida na hora porque acredito ter variabilidade suficiente na minha variável explicativa. Ao tomar cerveja com os demais colegas de sessão, confirmei o que pensava com os demais. Felizmente, Jeff Williamson (Harvard), que assistia a sessão, ficou quieto. Só comentou comigo no dia seguinte sobre o que Lindert dissera. Numa boa.

No último dia, apresentei o paper sobre Cuba (ou "o que teria acontecido com o PIB cubano se não tivesse havido Revolução"), que escrevi em coautoria com Felipe Garcia e Guilherme Stein. Eu podia ver nos rostos de alguns que ao menos a metodologia (controle sintético) que utilizamos lhes parecia divertida. Nos comentários, Alexander Moradi (U. Sussex) disse não acreditar muito na metodologia e que precisava saber o que essa metodologia adicionava, mas a famosa Deirdre McCloskey gostou do paper - principalmente por explicitar um contrafactual. Foi o que ela comentou pessoalmente comigo. De qualquer forma, foi uma experiência interessante.

Thomas, Felipe, Alexandre e Svante (nosso sueco brasileiro)


 A experiência de congressos acadêmicos como esse é importante. É muito comum vermos os alunos muito nervosos quando desafiados em suas bancas de artigo, TCC, dissertação ou mesmo tese. Mas é para isso que servem congressos e bancas. Comentários e críticas é o que precisamos, por mais que precisemos de outros incentivos (talvez praias, lugares aprazíveis, etc) para ir a congressos. Com meus colegas Fábio Pesavento, Felipe Loureiro e Alexandre Saes (os três aí embaixo), parece que tudo deu certo também.Também devemos reconhecer a participação de nosso amigo Svante Prado, sueco casado com uma brasileira que estava sempre conosco nas cervejas e vinhos.

Fábio, Felipe e Alexandre - delegação brasileira no aeroporto de Johannesburg






terça-feira, 17 de julho de 2012

XVI World Economic History Congress

Primeiras notícias de Stellenbosch. Escrevi esse pequeno post quando estava na África do Sul, mas por algum motivo, o blogger.com não queria publicar.

Stellenbosch University

  • Confusa a primeira palestra de James Robinson sobre África. A palestra foi proferida na Kruiskerk (uma igreja), a exemplo do que ocorrera na edição passada do WEHC em Utrecht. Acemoglu também palestrou em uma igreja. Como estávamos na África, a ideia foi discutir os motivos do atraso econômico na África. Evidentemente, Robinson falou o tempo todo em instituições.
  • Stellenbosch é uma cidade muito simpática, onde é nítida a forte influência holandesa. O Afrikaans é uma língua bastante interessante e incompreensível.
  • Eles têm uma boa cerveja, a tal de Black Label. Superior às que temos no mercado industrial.
Black Label
  • Comentário interessante de Steven Broadberry sobre o Why Nations Fail, criticando-o evidentemente...
  • Palestra de Deirdre McCloskey sobre o papel da ideologia na Revolução Industrial. Pra ela, essa história de instituições formais (North and Weingast), carvão (Allen) e outros não está com nada. Continua com o humor de sempre.
McCloskey falando sobre a Revolução Industrial e o papel das ideias


  • Gareth Austin, no seu debate com James Robinson, ressaltou que, além das instituições, características geográficas atuaram como condicionantes. Eu não conhecia o seu trabalho, mas tive uma ótima impressão da palestra.
Debate sobre África: James Robinson (Harvard) e Gareth Austin (Geneva)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Sobre o regime cubano

Outro paper que apresentarei no XVI WEHC será o controle sintético que aplicamos para Cuba. Antes que opiniões surjam por aí sobre as conclusões de nosso paper, vou colocar aqui meu posicionamento pessoal acerca da situação em Cuba. Meus coautores não tem qualquer relação com as minhas opiniões.

1. Segundo nossas estimativas, se Cuba não tivesse adotado o regime comunista, acabando com instituições de mercado, Cuba teria, ao longo do período 1959-1974 um nível de PIB maior do que o apresentado de fato - embora possivelmente fosse sofrer mais com a crise internacional se sua economia estivesse aberta. É apenas isso que o controle sintético encontra e nada mais, sem extrapolações políticas adicionais. De qualquer maneira, a fase que é considerada por alguns (Brundenius, 2009) como bem-sucedida (os primeiros 25 anos de Revolução), não teria sido tão boa assim de acordo com o que encontramos. Nossa conclusão não difere de Ward e Devereux (2011). Para explicar isso, utilizamos argumentos qualitativos de que o problema foi institucional e relacionado ao fim dos mecanismos de mercado.

2. O argumento refere-se somente a PIB. Em nenhum momento, essa relação pode ser estendida para outras variáveis relacionadas a educação e saúde, por exemplo. Na minha opinião pessoal, as políticas cubanas de educação parecem ter sido positivas, embora possa se questionar o conteúdo ideológico, etc. Não podemos, no entanto, esquecer que os dados cubanos já eram muito bons em termos de indicadores sociais antes da Revolução - mas as melhorias continuaram após a Revolução. Isso é extensivamente documentado pela literatura (ver McGuire and Frankel, 2005, por exemplo).

3. Aparentemente, houve redução das disparidades sociais em Cuba com a Revolução, embora possa se dizer que todos permaneceram pobres. No entanto, essa alocação de recursos atual pode ser positiva para uma posterior abertura cubana, uma vez que a dotação inicial afeta bastante os resultados finais com a entrada do mercado. É só não termos um processo de privatização como o russo, que criou uma máfia.

4. Eu visitei pessoalmente Cuba devido à uma reunião do Conselho Mundial de Igrejas e vi que havia pobreza. Mas também entendi o sentimento nacionalista de um país que sempre sofrera interferência da invasiva política externa norte-americana, fato que também é extensivamente documentado (Pérez-Lopez, Mesa-Lago, etc.). Nada justifica a adoção de uma ditadura, seja ela de direita ou de esquerda, em qualquer país. Também entendi que a boa educação e saúde é algo que eles de fato valorizam e, embora sem certas liberdades políticas, acredito que muito brasileiro em pobreza extrema no sertão nordestino, poderia preferir nascer em Cuba. Em nenhum momento estou defendendo o regime cubano, que é injustificável - assim como o de qualquer outra ditadura. Mas nós no Brasil somos piores em várias dimensões e isso deveria contar se nossa visão de sociedade não é unidimensional ou lexicográfica (com prioridade absoluta para liberdades políticas).

5. Como Cuba, tão perto dos Estados Unidos, pode se beneficiar disso no futuro sem que se torne uma espécie de colônia norte-americana? Não é simples anti-americanismo. Mas talvez essa seja a pergunta mais problemática para alguns cubanos. Não é simples nacionalismo, mas o direito à autodeterminação. Não acho que o preço a ser pago sejam as liberdades políticas individuais (que também são problemas em ditaduras de direita). Mas essa é uma questão - que eu discutiria com prazer, pois é um assunto difícil. Do ponto de vista puramente econômico, ser uma economia satélite dos EUA seria talvez a melhor coisa. Mas nem sempre é só isso que importa. O que importa? Só perguntando para o povo, que hoje não tem muita condição de responder. Porto Rico ao menos faz plebiscito e escolhe continuar sendo Estado associado norte-americano. Novamente, temos uma discussão de valores.

6. Dentre os países comunistas, talvez Cuba tenha o governo mais brando. Não falo isso como algo positivo. Mas temos que diferenciar Cuba da Coreia do Norte ou de outros regimes tão nefastos quanto do outro lado do espectro. Arábia Saudita, por exemplo.

7. Obviamente, o problema principal de Cuba não é doença holandesa. 

Novamente reitero que todos os posicionamentos aqui escritos são absolutamente pessoais. Meus coautores e outros não tem nada a ver com isso.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Persistência e objetividade - para que seu paper seja publicado um dia

Uma vez que se aproxima o World Economic History Congress, tenho trabalhado demais no meu eterno paper, o que deixa pouco tempo para o blog e outras coisas mais. Aqueles que quiserem opinar sobre meu abstract, são bem-vindos. O paper será apresentado na sessão intitulada “Financing the Rise of Popular Schooling in the Developed and Developing Worlds:Comparative and Historical Perspectives”. Muita gente boa na sessão. 

Se você está escrevendo um paper e está com dificuldades, não se preocupe. Eu comecei a escrever esse paper em 2008. Na verdade, a versão de 2008 sofreu modificações até 2010, quando de repente sofreu uma metamorfose. A segunda versão então durou até o mês passado. No entanto, após receber um parecer crítico, fui obrigado a mudá-lo completamente pela segunda vez. Estou na terceira versão e ainda acho que está longe de ser a última. O segredo é não desanimar e aprender bem econometria, além de tornar o paper linear. Ou seja, todo o argumento ao longo do texto deve estar coeso e objetivo com o intuito de responder a pergunta inicial. Acho que meu paper ainda não chegou à sua melhor forma por esses critérios.

Por enquanto o abstract de "Suffrage, Political Voice and Primary Education in Brazil, 1947-1962" é esse:

This article aims to examine the influence of suffrage rates on the rates of primary education enrollment  in Brazil between 1947 and 1962. There was neglect from the federal government in expanding mass primary schooling, leaving this task to state governments. Thus financial centralization has probably hampered the expansion of enrollment rates during the period. As states were responsible for educational matters,the effect of suffrage rates on enrollment rates at the state level were tested.It was found that the suffrage rate was not a significant explanatory variable, under the assumption of the existence of state unobservable characteristics. The evidence indicates that education in Brazil developed within the context of an elite democracy, due to which the expansion of suffrage had little effect on the expansion of education.


Comentários são evidentemente bem-vindos.

A boa notícia dada pelo Tarcísio Botelho (UFMG) é que em breve teremos o livro que ele está organizando. E lá dentro, haverá até um capítulo escrito por mim, mas também por gente mais famosa no ramo como o Leo Monastério. Falando em Léo, ele postou essa bela reportagem sobre um paper do Renato e do Irineu!


sábado, 23 de junho de 2012

Notas sobre a China (2)

A China é um assunto muito mais interessante do que essa discussão entre blogs acerca do paper da PUC-Rio. Prefiro continuar com esse foco, ainda inspirado por minha recente viagem relatada alguns dias atrás.

Interessante nome para um café, não?
Como disse anteriormente, nossa visita foi recebida pelo Conselho Cristão da China (CCC). O Ministério de Assuntos Religiosos do país cuida das cinco religiões reconhecidas por lá: o taoísmo, o budismo, o islamismo, o catolicismo e o protestantismo (os dois últimos não estão sob o "Cristianismo" e, portanto, são tratados como religiões diferentes pelo Estado Chinês).

O representante do governo afirmou que não se permitia a interferência externa em assuntos religiosos na China. Perguntado sobre o papel do Vaticano na nomeação de bispos católicos, o que caracterizaria uma intervenção externa, o vice-ministro foi categórico: quem nomeia os bispos na China não é o Vaticano. A única justificativa foi que muitas mudanças ocorreram após o Vaticano II. Rapidamente, passou-se para outro assunto.

O CCC, que representa os protestantes, nos recebeu muito bem. Tudo era muito organizado. As pessoas que nos acompanhavam eram sempre muito atenciosas. As traduções simultâneas em palestras foram de alta qualidade.  Eles nos mostraram sua escola de teologia, sua fundação diaconal (a Amity Foundation), além da editora - uma fábrica enorme de bíblias e outros materiais. Inclusive, ganhamos uma Bíblia bilíngue inglês-chinês personalizada, que veio direto da esteira de produção. Nossos dois colegas cegos receberam bíblias em braile. Da hospitalidade chinesa, não se pode reclamar mesmo.

Em termos de identidade talvez tenha sido mais complicado. Todos os chineses se dirigiam a mim em mandarim. Ficavam estupefatos quando percebiam que eu não podia falar chinês. A coisa piorava quando eu afirmava ser brasileiro (imaginem aquela típica expressão oriental de surpresa).

Certamente, conhecer a China foi uma experiência marcante. Fico curioso para saber como o país reagirá às contradições trazidas pela ocidentalização e pela integração aos mercados mundiais de maneira cada vez mais forte. Será que Acemoglu e Robinson, que não acreditam que a China superará o Ocidente enquanto for autoritária, estarão certos?






Pequena nota sobre a polêmica

O Drunkeynesian já resumiu tudo o que foi dito sobre a questão. Acompanhei tudo e tinha decidido não me manifestar. No entanto, só para dar um único pitaco: é evidente que os dois perderam a razão ao baixar o nível da conversa. A diferença é que este é o trabalho do RA e, nesse ringue, eu prefero não enfrentá-lo. Evidentemente, é lamentável o RA ter começado a discussão dessa maneira, mas não esperaríamos nada diferente, certo? 


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Notas sobre a China

Eu não sabia, talvez ingenuamente, mas o blogger.com/blogspot é proibido na China. Pior, o Facebook e o Twitter também. Aparentemente há maneiras de acessá-los, como o Gabriel - que também estava na China - descobriu e conseguiu ainda postar algumas coisas em um blog do UOL. No entanto, esse não foi o meu caso durante a visita ao país do dia 9 ao dia 16 de junho. 

A foto não é minha, mas depois posto as minhas. Shanghai
Participei da 51a reunião da Comissão das Igrejas em Assuntos Internacionais (Commission of the Churches on International Affairs - CCIA) do Conselho Mundial de Igrejas (CMI/WCC), em Shanghai e Nanjing. Fomos recebidos pelo Conselho Cristão da China, órgão autorizado pelo governo que representa os protestantes na China. Felizmente, a maioria dos membros da Comissão conseguiu obter o visto para entrar na China, mas não todos: o moderador da nossa Comissão não conseguiu, fato que foi noticiado pelo Washington Post.

A primeira impressão que preciso compartilhar com os leitores se refere aos aparentes excessos de Shanghai e Nanjing em termos de construções. Os prédios são gigantes, os carros são em geral carros caros, a poluição é excessiva, poucas bicicletas e muitas motocicletas, gente demais em todo o lugar, pontes e viadutos gigantes - passei até por um túnel que tinha mais de 3km de extensão. Ademais, a ocidentalização é evidente entre os chineses que mais se beneficiaram do crescimento: vimos muitas chinesas de saias curtas indo para a balada na noite de sábado ao passearmos pelo Bund de Shanghai.

Em nossas reuniões, tivemos uma palestra com um economista de uma universidade chinesa. Ele afirmou, entre outras coisas, que o coeficiente de Gini (para desigualdade de renda) na China era algo entre 0,3 e 0,4. Imediatamente, acessei o site da CIA, cujo Factbook afirma que o Gini chinês é 0,48. Se todas as teorias de conspiração são válidas, eu estimo, sem qualquer base científica, que o Gini da China seja algo próximo a 0,43. A impressão, de qualquer maneira, embora não tenhamos visitado a zona rural, é que a desigualdade deve estar crescendo.

Os discursos, tanto de líderes da igreja, como também do Vice-Ministro de Assuntos Religiosos, que também falou conosco, sempre se referiram a busca por uma "sociedade harmoniosa" - e que a religião teria seu papel nisso. Uma ideia fácil de se tomar como verdadeira em uma sociedade com fortes influências confucionistas - e que mitiga os conflitos sociais, sejam oriundas de diferenças étnicas ou da crescente desigualdade. 

Em breve, escreverei mais sobre o tema.

terça-feira, 5 de junho de 2012

ANPEC-Sul e Encontro de Economia Gaúcha

O Encontro de Economia da Região Sul, conhecido também como ANPEC-Sul, ocorreu na quinta e na sexta lá no campus da PUCRS. Paralelamente, ocorreu também o Encontro de Economia Gaúcha. Assisti sessões de ambos os eventos, além de apresentar nosso paper de aplicação de controle sintético para o caso cubano. Os questionamentos foram interessantes, repetindo alguns já feitos em outras oportunidades, mas que reforçaram a necessidade de trabalhar melhor o paper.

Minha avaliação é que os eventos apresentaram trabalhos de qualidade bastante heterogênea: havia alguns trabalhos interessantes, mas outros eram de fato trabalhos muito iniciais. Infelizmente, alguns trabalhos eram superficiais não tanto por conta de seus autores, mas em boa parte pelo que sabemos de ensino de economia em geral no Brasil e, em especial, no RS.

Espero estar no sábado na China. Em parte, esse blog não se manifestou na sexta passada devido aos inúmeros afazeres pré-viagem, inclusive dar as aulas que não serão ministradas na semana em que estarei na China. Vou na quinta-feira, dia 7, e volto no domingo, dia 16. Provavelmente, programarei um post para sexta, enquanto estarei em algum lugar entre Amsterdam e Shanghai.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Descentralização na Rússia czarista

Desde a minha dissertação, a questão da descentralização administrativa e financeira ganhou minha atenção, principalmente devido a seus efeitos - na teoria ambivalentes - sobre a oferta de serviços públicos. Tentei aplicar para o caso do Brasil algumas ideias que encontrei em Lindert, Goldin e Katz, e Bardhan e Mookherjee. Um pouco disso é fácil encontrar aqui, mas evidentemente minha análise ainda é insuficiente para a educação brasileira.

Símbolo da Rússia Imperial
Em edição da European Review of Economic History do ano passado, me chamou a atenção a aplicação dessas ideias à Rússia czarista. Steven Nafziger, do Williams College e com PhD em Yale, estudou a fundo uma instituição de governo local,  o zemtsvo. Essa instituição teria sido responsável por um significativo aumento da provisão de bens e serviços públicos na Rússia até sua Revolução em 1917. Com uma extensa base de dados, Nafziger consegue encontrar evidências de que a estrutura eleitoral do zemtsvo afetaram as taxas de impostos cobrados e o gasto, uma vez que permitiu, pelo menos, que algumas demandas camponesas fossem atendidas. Como isso aconteceu não se sabe, porque o voto direto parece não ter sido o canal. De qualquer forma, apenas haver uma estrutura em que os camponses participavam pode ter influenciado as decisões de alguns agentes menos conservadores dentro do zemtsvo. A educação parece ter feito parte do processo: Nafziger tem um novo paper sobre a economia política da educação na Rússia czarista que será apresentado no WEHC 2012, na sessão em que estarei participando.

Para o Brasil, faltam dados e maiores estudos sobre a questão do voto e da descentralização/centralização -  que podem ter influenciado significativamente as políticas sociais (educacionais e de saúde, por exemplo). Entender isso é crucial para explicar nosso atraso. Inclusive talvez ainda faltem estudos sobre descentralização de governança local para o Brasil atual ainda - acho que não há muitos estudos, embora existam, sobre orçamento participativo, p. ex. Infelizmente, ainda temos um longo caminho a percorrer e espero que, na sessão do WEHC, isso seja entendido. De qualquer forma, o negócio é trabalhar até julho.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Minha relação com China e Cuba

Minha ausência nas postagens nesta semana deve-se à viagem que farei à China do dia 7 ao di 16 de junho. Estarei em uma reunião da Comission of the Churches on International Affairs (Comissão das Igrejas em Assuntos Internacionais) do Conselho Mundial de Igrejas. Para entender o que nós fazemos e porque economistas participam desse tipo de reunião, é só clicar aqui. Infelizmente, o processo de retirada de visto é um pouco complicado. Mas agora encaminhei toda a documentação. O Leo andou postando aqui e acolá sobre China. Vale a pena.

Outra notícia é que tivemos o nosso paper sobre Cuba aprovado na ANPEC-Sul. A versão no site da ANPEC-Sul é antiga, mas aqui temos a versão que, com ligeiras modificações a serem feitas ainda, deve ser apresentado no World Economic History Congress em Stellenbosch (em meados de julho!).
O Leo também andou postando sobe Cuba e um paper novo que saiu na Journal of Economic History: check it out.

Minha relação com China e Cuba por enquanto é apenas essa. Um dia conversamos sobre os países.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Considerações e clippings para meus alunos sobre a crise europeia

A crise na Europa tem gerado um bom debate acerca de políticas monetária e fiscal. No Twitter, Roubini e Rodrik discutem a questão de soberania e liberdade de políticas:

Trichet proposes EU's full takeover of fiscal policy of bankrupt countries. It totally undermines national sovereignty
Monetary union requires fiscal union, which requires political union. As simple as that.

I fully agree. EZ needs fis/pol union Monetary union requires fiscal union which requires political union. As simple as that
Conversely, fiscal union without political union means bye-bye democracy.

A Europa não seria exatamente uma área monetária ótima segundo o trabalho clássico de Mundell - embora o próprio Mundell tenha sido favorável à moeda única na Europa. Isso certamente está relacionado aos dilemas de política econômica na Europa. Regimes de câmbio fixo, em particular uniões monetárias, impedem a existência de políticas monetárias autonômas em países muito diferentes. Agora Trichet propõe o fim da política fiscal autônoma. Isso faz sentido se pensarmos em uma união política, como disse Rodrik. Discussão importante da relação entre democracia e políticas econômicas.

Sobre os gregos, o conhecido historiador econômico Kevin O'Rourke discute o programa de austeridade e, na linha de Krugman, acredita que o fracasso é evidente e que os gregos têm boa razão para votarem do jeito que estão votando.

Também sobre o tema da crise europeia, uma das melhores coisas que li recentemente foi esse artigo do Eichengreen - que postei anteriormente. Ele compara a atual situação com o que aconteceu na Grande Depressão.  E aqui tem mais alguma coisa sobre a crise.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Clipping: diversos

Reúno aqui três links que postei recentemente no Facebook:



quarta-feira, 9 de maio de 2012

Por que HPE pode ser útil? Samuelson e a equalização dos preços dos fatores

Recentemente, expliquei para os alunos a lógica do Teorema da Equalização dos Fatores, um dos resultados mais fortes das teorias de comércio internacional - desenvolvido principalmente por Paul Samuelson. Claro, não vemos de fato o comércio entre países equalizarem os salários entre países no mundo. Sempre ouvi inúmeras críticas a respeito, como se fosse um total absurdo acreditado apenas por míopes economistas neoliberais. Mas por que esse teorema até hoje é ensinado?

Em primeiro lugar, Paul Samuelson não era neoliberal - defendia políticas keynesianas em vários aspectos e talvez seja o maior economista do século XX em termos acadêmicos. Um de seus resultados em teorias de comércio, publicado como "International Trade and Equalisation of Factor Prices" na Economic Journal em 1948 (ver link direto aqui), reconhece vários problemas dos teoremas derivados do modelo Heckscher-Ohlin. Um dos principais é que, para o teorema da equalização dos preços dos fatores valer, precisa-se assumir funções de produção iguais entre os países (ou seja, mesma tecnologia):

There remains a third, and perhaps more fundamental, reason why factor prices need not be equalised: the Ohlin proportions-of-the-factors analysis of international trade has  fundamental inadequacies and limitations. The Ohlin analysis explains much; but there is much that it fails to explain; and if adhered to inflexibly, there is much that it can obscure. […] Is it reasonable and useful to set up the hypothesis that production functions are the same the world over? (Samuelson, 1948, p. 181)

Ele não fala ainda em capital humano (teríamos que esperar Becker e Schultz na década de 60), mas reconhece que há muitas diferenças até entre trabalhadores (mas não apenas) que podem afetar produtividade e tratar dois países como iguais só porque têm proporção de fatores iguais não é suficiente - seja por diferenças em conhecimento, cultura e vários outros aspectos do "ambiente", segundo minha interpretação do seguinte trecho:

When we turn to the question of defining significantly comparable categories of productive factors, we run into similar difficulties."A man's a man for a' that," but is a jungle pigmy to be equated to an Eskimo? An illiterate "hill-billy" to his cousin  working  in  the Detroit  factories  and "broken" to an industrial regime? Even if we are sympathetic to the eighteenth-century view of the plasticity of human nature, so that all men (and women) are regarded as potentiallyalike, we must not overlook the important environmental differences that have conditioned their industrial effectiveness (Samuelson, 1948, p. 182).

Seguindo a tradição de Friedman (1952), talvez a maioria dos economistas diga que aprova um modelo por seus resultados (será mesmo?), sem questionar suas hipóteses, mas Samuelson já antevia os evidentes problemas empíricos devido às hipóteses excessivamente simplificadas. Leontief talvez apenas tenha confirmado a ideia em 1953 - ao menos é o que parece segundo esse trecho do mesmo texto:

We may conclude by saying that factor proportions explain only part of the facts of international economics. We must still set up hypotheses of differences in international production and productivity, differences in effectiveness which are to be accepted as empirical facts even if not simply explainable (Samuelson, 1948, p. 182-3).

Mas os economistas querem chamar atenção da importância da dotação de fatores - e é por isso que continuamos com modelos com proporções de fatores: hoje mais complexos, é claro.  

Ou seja, grandes economistas como Samuelson sabiam das virtudes e limitações de seus modelos. Depois os livros-texto espremeram tudo e a grande riqueza de artigos seminais como esse se perdeu. É evidente que os manuais devem ser lidos - não se pode esperar que alunos aprendam apenas lendo papers ou manuais de história do pensamento econômico. Os manuais são de utilidade inestimável, mas não podemos contar apenas com eles, porque muitas vezes os manuais perdem os detalhes. A história do pensamento pode ter um papel complementar importante. E quem fica na superfície - onde eu estava nesse assunto antes de começar a estudar seriamente o tema - acaba dizendo que esse teorema é uma grande besteira sem mais nem menos, como se Samuelson fosse estúpido. Ninguém é obrigado a concordar com teorias, mas é importante ponderar sobre as virtudes e limitações de modelos antes de desqualificá-los - como os próprios criadores das grandes teorias ponderaram acerca de suas próprias criações.