Pular para o conteúdo principal

Mercado, mérito e rendimentos

Acho que a motivação original desse post  é o livro "What Money Can't Buy" de Sandel. Na minha opinião (e na de muitos outros), um livro bastante inferior ao "Justice". Em particular pelos crassos erros econômicos ao longo da análise: só para dar um exemplo, no começo do livro, Sandel já conceitua errado o termo "eficiência". Não obstante a crítica a eficiência como único ou mais importante critério moral deva ser feita, a fonte correta para isso não é Sandel.
 
Por essa razão também, ao invés de ler Sandel, nosso grupo de Justiça e Desenvolvimento resolveu ler um outro texto. A Daniela Tocchetto sugeriu um texto do Sen de 1985, "The Moral Standing of the Market" da Social Philosophy & Policy, 2, Spring.
 
Nesse texto do Sen, encontramos talvez vários motivos para (i) entender que o mercado de fato é importante, mas também (ii) que existem várias razões para questionar alguns resultados trazidos pelo livre mercado. Além da tradicional crítica ao utilitarismo clássico ou a teorias deontológicas, Sen entra na questão do mérito e da distribuição. Como usualmente se ouve em classes de graduação, a teoria da firma justificaria a desigualdade com base na determinação dos rendimentos de um fator de acordo com a produtividade marginal. Ou seja, se o salário real é igual à produtividade marginal do trabalho, então esse salário está ok - mesmo que esse salário seja muito baixo em termos relativos. Esse argumento está em Bauer (1981), descrito da seguinte forma por Sen:
In Bauer's system, the output is produced not only (nor, in any Lockean sense, "ultimately") by labor, but by the different factors of production (including capital). And the marginal productivity theory is given an interpretation of real contribution, as opposed to having only allocational usefulness in terms of counterfactual calculations (Sen, 1985, p. 15)


Sen então passa a criticar o argumento de Bauer, mostrando que a igualdade entre rendimento real e produtividade marginal nada tem a ver com contribuição real - e tampouco merecimento:
 


If production is an  interdependent process, involving the joint use of different resources, it is not generally possible to separate out which resource has produced how much of the total output. There is no obvious way of determining that "this part" of the output is due to resource 1, and "that part" due to resource 2, etc. The method of attribution according to "the marginal product" concentrates on the extra output that one incremental unit of the resource would produce, given the amounts of the other resources (Sen, 1985, p. 15)

E no final, Sen chega ao âmago do cálculo marginal. Embora esteja ali a ideia de escassez relativa de fatores, isso não tem relação direta com a utilidade marginal decrescente (que é o outro lado, o do consumidor).

In fact, the marginalist calculus is not concerned with finding out who "actually" produced what. Marginal accounting, when consistent, has an important function in decision making regarding the use of resources, suggesting when it would be appropriate to apply an additional unit of resource, and when it would not. To read in that counter-factual marginal story one of "actual production" - who in fact produced what part of the total output - is to take the marginal calculus well beyond its logical limits (Sen, 1985, p. 16)
Acho que vale mais a pena ler sobre moralidade do mercado com Sen do que com Sandel. De fato, o seu salário não é necessariamente a contribuição real - nem em teoria, quanto mais na prática, em que outros fatores, como os institucionais, interferem na determinação dos rendimentos. Essa vai para a discussão que tive hoje com o Pedro Zuanazzi.
 

Comentários

Anaximandros disse…
O "Justice" é um livro muito fraco e num mundo mais equilibrado teria ocupado o espaço que merece, nenhum...abraço, s.
Anônimo disse…
As passagens citadas valem mais para os marxistas que acreditam na teoria do valor trabalho. Outra coisa, não existe algo como a moralidade do mercado. Não se pode confundir mercado, que é uma instituição como qualquer outra, e a moral. O problema moral independe do regime econômico, político ou das leis.
Thomas H. Kang disse…
Anônimo! Não acho que o mercado independa do resto, mas também não acho que podemos julgar o mercado de maneira simples e categórica. Mas acho que eu preciso elaborar melhor o argumento.
Thomas H. Kang disse…
S.!
O Justice é bem melhor do que esse novo e, embora ele seja claramente comunitarista, não comete tantos equívocos e é bastante intuitivo. Talvez devêssemos começar a caçar os erros do Sandel, rs. Quem sabe assim tu me convence que o Justice é ruim do jeito que tu descreves
Anônimo disse…
Não quero criar caso, mas o outro Anônimo merece resposta...
"não existe algo como a moralidade do mercado. Não se pode confundir mercado, que é uma instituição como qualquer outra, e a moral". Falso, mas é apenas um non sequitur. Dou um exemplo: Medicina e moral são coisas diferentes, mas os médicos se preocupam (e muito) com a moralidade de suas decisões - como qualquer ser humano normal. Dizer que, "por definição" ou "por natureza", o mercado não tem moralidade (porque é diferente desta), é, na melhor das hipóteses, circular. E, mesmo que você tenha uma teoria muito especial para dizer que essa instituição à parte, o mercado, não deve tratar de considerações morais (como um físico, por exemplo, poderia apresentar suas razões para que seus colegas de estudos não tivessem considerações desse tipo) essa teoria, para fazer sentido, teria de ser uma "teoria moral" (certamente, não seria uma teoria econômica, física, ou sequer empírica), e explicar por que, especificamente, é errado/inútil/irrazoável tratar em conjunto de considerações econômicas e morais.
"O problema moral independe do regime econômico, político ou das leis". Traduzindo por "as questões morais não são puramente convencionais", é apenas um truísmo, que só os relativistas mais ferrenhos contestariam - e que não tem qualquer relevância para a discussão "moral x mercado". Agora, se o que o Anônimo quer dizer é que a economia, a política e as leis são irrelevantes para definir quais são as questões morais e qual a maneira correta de agir... bom, não há contradição aqui, mas praticamente nenhum filósofo moral que eu conheça teve coragem de defender tamanho absurdo - nem Kant, nem Aquino, nem os Estóicos.
Anônimo disse…
Seguindo o teu raciocínio, proponho os seguintes pontos ao último anônimo: qual o julgamento moral que fazes do mercado ou dos mercados? Favor dar referências de autores, tirando os marxistas, que fazem referências morais sobre os mercados.
Solicito uma citação e referências mostrando que Kant, Aquino e Estóicos discutem o problema moral como dependentes dos regimes econômicos, políticos e legais.
Anônimo disse…
Cadê o anônimo das 08:23 de 08/01/2013?
Para facilitar, vou reescrever as questões e pontos que levantei no post acima:
1) Qual o julgamento moral que tu pessoalmente fazes do mercado ou dos mercados?
2) Solicito autores que julgam moralmente os mercados;
3) Solicito uma citação/passagem que mostra Kant, Aquino e Estóicos discutindo o problema moral como dependente do regime econômico, político e legal.
Fico no aguardo.
Anônimo disse…
Ainda aguardando o anônimo das 08:23 de 08/01/2013 responder as minhas perguntas. Ele usou a expressão non sequitur e a palavra truísmo que achei que seria fácil me responder.

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.
O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.
O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero t…

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas.

Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre).

Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55), lis…

A busca pelo ótimo de Pareto

Depois de um jogo entre São Paulo e Palmeiras, nada melhor do que uma conversa sobre Economia. Com uma caminhada de 45 minutos pela frente, eu e meu colega Richard, um especialista em Escola Austríaca e torcedor do porco, discutimos inúmeros assuntos, inclusive o famoso ótimo de Pareto.

O ótimo de Pareto (Vilfredo Pareto foi economista e sociólogo italiano da Escola de Lausanne) é um conceito fundamental na ciência econômica. Em muitas análises, busca-se chegar nesse ótimo, o que acontece quando melhorias de Pareto não são mais possíveis. Uma melhoria de Pareto é a melhora na situação de um sem piorar a dos outros. Quando se exaurem todas as melhorias paretianas, estamos no ótimo: só é possível melhorar a situação de alguém piorando a de outrem.

A pergunta é: embora o ótimo de Pareto esteja em muitas análises na Economia do Bem-Estar, não é esse ótimo um juízo de valor arbitrário?

Evidentemente, a resposta é sim. No entanto, sabemos que poucas pessoas achariam (em princípio) ruim melhora…