terça-feira, 9 de junho de 2009

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.

O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.

O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero tinha uma ideologia elitista de sociedade. Mas coloco em dúvida, embora talvez seja ingenuidade, a acusação de compromisso irrestrito de Lutero à nobreza germânica da época, que se sentia ameaçada pelas revoltas camponesas, como muitos são ensinados pelas certezas absolutas propagadas pelos livros de história adotados em escolas, geralmente associados a uma versão mecânica e pobre do marxismo.

Na verdade, Lutero era simpático a muitas das reivindicações dos camponeses porque as considerava justas, embora considerasse que havia exageros. Ele então visitou os acampamentos onde os camponeses se organizavam. O que viu o decepcionou profundamente. Ao invés de apenas reivindicações, ele sentiu um clima de subversão total da ordem social. Usando o nome de Lutero, muitas atrocidades também haviam sido cometidas. É necessário compreender que Lutero era muito guiado por suas convicções teológicas. Na sua concepção, a autoridade secular era dada por Deus e existia uma ordem da criação - o que pode ser biblicamente justificado e claramente presente em muito dos escritos de Lutero. Revoluções do tipo, portanto, eram perigosas e não-cristãs na opinião dele. A subversão de toda ordem para ele significava a destruição da sociedade e não tinha qualquer natureza religiosa. Se os camponeses insistem em subverter a ordem, suas revoltas deveriam ser suprimidas - mesmo a custos altos, uma vez que, caso contrário, a destruição da ordem social seria algo muito pior na sua concepção.

Foi apenas após essa visita que Lutero escreveu contra "as hordes salteadoras camponesas". É importante lembrar que, mais do que compromisso consciente com a nobreza, não é absurdo pensar que sua posição deriva de suas concepções religiosas. Lembremos que Lutero colocou a sua vida em risco extremo ao iniciar a Reforma e insistir nela após a Dieta de Worms, onde ele não voltou atrás em nenhuma de suas declarações anteriores frente ao imperador do Sacro-Império. Sua vida estava em eminente perigo e, de fato, não fosse o apoio de parte da nobreza, ele provavelmente não teria sobrevivido, a exemplo do que aconteceu com Jan Hus. Logo, se daquela vez ele desafiou o Papa, por que ele não teria sido a favor dos camponeses se ele concordasse com eles? Ademais, como eu disse, ele era simpático a muitas das reivindicações. Os nobres provavelmente eram contra tudo.

É possível que, após ser salvo pelos nobres, Lutero tenha perdido sua coragem inicial e se colocado ao lado dos nobres para se salvar. Mas, sinceramente, não acho isso provável. Pelo menos, acho que ele merece o beneficio da dúvida. Para mim, a posição de Lutero foi equivocada, até pela ênfase dos seus escritos na supressão do movimento, mas isso não significa que Lutero tenha conscientemente se colocado ao lado dos nobres meramente porque queria sobreviver. Sua simpatia inicial ao movimento e suas posições em relação ao papado (muito mais graves e arriscadas) permitem concluir que o que o guiava eram suas convicções.

Não é pelos pecados de Lutero que deixo de ser cristão e luterano. Em primeiro lugar, Lutero não é Cristo. Apenas nossa perspectiva provém de uma teologia originada do pensamento de Lutero e que teve desenvolvimentos posteriores, sem negar a herança da Igreja Antiga. Como o próprio Lutero dizia, Cristo é o centro e não Lutero. Este último era tão pecador como nós, o que não significa que suas idéias não têm validade.

6 comentários:

Alexander De Bona Stahlhoefer disse...

Bem interessante o episódio da Guerra dos camponeses. Mas temos que observar que há um pequeno lapso histórico entre a ação dos nobres contra os camponeses e a carta "Contra as hordas salteadoras e assassinas dos camponeses". A supressão do levante dos camponeses começou alguns meses antes da visita de Lutero aos vilarejos da Saxonia. No momento em que Lutero escreve a carta muita dos horrores da Guerra já estavam em curso. O problema é que a carta veio em má hora, e com conteúdo nada favorável aos camponeses. A carta serviu para por mais lenha na fogueira, dando a entender que Lutero era completamente favorável aos nobres,o que não é verdade, uma vez que Lutero considerava o levante camponês como uma punição de Deus aos nobres pelas suas injustiças. O que ficou pra história são as terriveis letras da pena de Lutero: "matem, trucidem, derramem sangue se for necessário, para que este incêndio camponês não destrua toda a Alemanha".
Lutero aqui se apoiava na sua compreensão de que o poder do governante é ordenança de Deus, e que o povo lhe deve obediência em assuntos civis. Insurreição é desobediência a Deus e o governante poderia utilizar de meios violentos para acabar com a desordem pública (em últimos casos segundo Lutero).
A posição de Lutero naquele momento de crise foi equivocada e sempre de novo precisamos afirmar isto. Ainda assim seu pensamento em assuntos de política é bem interessante. Lutero não foi o tipo de cristão que era alheio aos problemas das pessoas, bem pelo contrário, em diversas ocasiões escreveu cartas aos governantes cobrando soluções para diversos problemas sociais.

Aprendiz disse...

Ha duas outras questões polêmicas sobre Lutero, sobre as quais eu gostaria de ler sua opinião:

1. O "deus oculto" de Lutero parece a mim e a muitos como um deus caprichoso e mal (aparentemente Lutero acreditava que a "bondade" de Deus seria uma fantasia para pessoas fracas).

2. No seu tempo de maior maturidade, quando suas opiniões deveriam tornar-se mais sábias, ele tronou-se fortemente anti-semita, o que teve conseqüencias desastrosas para os já sofridos judeus.

Thomas H. Kang disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thomas H. Kang disse...

1. Hm, confesso que nunca pensei assim da idéia de Deus abscôndito. Ela faz parte de uma teologia da cruz, que chama atenção sim para o sofrimento em que Deus se revela. Na verdade, o Deus do qual Lutero falava era sim um Deus mais amoroso, o Deus da Graça. Não me parece fazer sentido afirmar que ele falava de um Deus mau - nunca esqueçamos a dialética luterana. Mas enfim, não sou teólogo. Estudarei mais sobre o tema.

2. De fato, Lutero parece ter perdido paciência com os judeus, à medida que eles insistiam em permanecer judeus mesmo com a Reforma. Numa época de muitas certezas inquestionáveis, Lutero aparentemente tinha certeza da Verdade de suas opiniões. E os judeus insistiam em não concordar com ele. Concordo que suas declarações sobre os judeus foram bem infelizes e, pior, foram usadas pelo regime nazista como justificativa. Lamentável e triste.

Alexander De Bona Stahlhoefer disse...

O conceito de Deus abscondito não tem a ver com um Deus mau. Tem a ver antes como uma das formas de agir de Deus. Deus é abscondito porque não é revelado. Como assim? Quem não tem acesso a revelação especial (Bíblica) tem diante de si a revelação geral (natural - através da criação cf. Rm 1.18ss). De acordo com o texto de Romanos Deus é reconhecivel por meio das coisas criadas, sendo o ser humano indesculpável por ter feito imagens e deuses a sua imagem, ao invés de adorar ao único Deus criador. Deus abscondito é então, o Deus criador, que permanece revelado apenas como Deus que cria e mantém a ordem do mundo. O Deus abscondito é o mesmo Deus revelado, é o mesmo que salva, não é um demiurgo platonico. Deus sempre é abscondito na verdade, ele é totalmente outro (Barth), mas só se torna revelado em Jesus (Jo 1.18). A partir do Filho conhecemos que Deus é Amor. Isto já é perceptível no AT. Mas é claramente revelado em Jesus, especialmente na cruz.
Não dá para afirmar que Deus na sua abscondicidade é só juiz e na sua revelação ele é o justificador (amor). Deus sempre vem a nós como Deus justo que exige obras, mas também como o Deus que perdoa e ama. Acho que em resumo é isso!
Abraços

Thomas H. Kang disse...

Valeu Alex!
Ajudou-me bastante!

Aliás, talvez eu vá precisar de tua ajuda mais adiante! Aguarde, hehe.