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segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O debate liberal-igualitário - parte I

No debate sobre justiça, temos um pequeno debate entre Rawls e Sen. Um debate em família, na verdade, como diz Roemer (1996). Ambas são propostas do chamado liberalismo igualitário, mas se diferenciam em um aspecto fundamental para um teoria igualitária: eles adotam equalisanda diferentes.

O equalisandum - ou seja, aquilo que deve ser equalizado - para Rawls são os chamados bens primários, que são coisas que todo ser humano racional presumidamente desejaria. Rawls de certa forma define alguns deles no seguinte trecho:

For simplicity, assume that the chief primary goods at the dispositions of society are rights and liberties, powers and opportunities, income and wealth. [...]. These are social primary goods. Other primary goods such as health and vigor, intelligence and imagination, are natural goods; although their possession is influenced by the basic structure, they are not so directly under its control. (Rawls, 1971, p. 62)


A crítica de Sen para a escolha de uma forma de recurso como equalisandum tem relação com aquilo que Rawls afirma não estar diretamente sob nosso controle. Equalizar direitos e liberdades ou renda e riqueza ignora que muitas pessoas, devido a algum problema de doença ou deficiência, têm dificuldades para converter esses bens primários naquilo que elas desejam. Afinal, o bem primário não é um fim mas um meio para que possamos viver as vidas que queremos. Se algumas pessoas, por motivos que não estão sob nosso controle, estão em desvantagem na conversão de bens, porque então não focar nos fins e não os meios?

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal

Este blog gostaria de desejar a todos um Feliz Natal. Afinal, Natal é uma data importante. Também por permitir uma desculpa para famílias se reencontrarem, para descansar daquela loucura, para descansar um pouco. Mas evidentemente, há a razão principal para a comemoração do Natal. Acho que Dietrich Bonhoeffer, em sua "Ética" nos fala corretamente acerca do significado de Jesus, o ser humano:

Jesus Cristo, o ser humano, isto significa que Deus entra na realidade criada, que podemos e devemos ser seres humanos perante Deus. A destruição da humanidade é pecado e se constitui em obstáculo para Deus redimir o ser humano. Mesmo assim, a humanidade de Jesus Cristo não significa simplesmente a confirmação do mundo existente e da natureza humana. Jesus foi ser humano "sem pecado" (Hb 4.15). Este é o aspecto decisivo. (Bonhoeffer, 2005 [1949], p. 77)

Mas ao contrário daqueles que querem fazer da igreja apenas um instrumento de mudança social (compromisso) ou daqueles que acreditam ser correto esquecer o mundo em que vivem (radicalismo):

Em Jesus Cristo cremos o Deus feito ser humano, crucificado e ressucitado. Na encarnação reconhecemos o amor de Deus a sua criatura, na crucificação o juízo de Deus sobre toda carne, na ressurreição o propósito de um novo mundo por parte de Deus. Nada seria mais errado do que desarticular essas três peças. Tão inadequado como é elaborar uma teologia da encarnação, uma da cruz ou uma da ressurreição para contrapô-las entre si pela errônea absolutização de uma das peças, tão errado é este procedimento também para a reflexão sobre a vida cristã. Uma ética cristã calcada somente sobre a encarnação facilmente levaria à solução de compromisso; uma outra calcada somente na cruz ou na ressurreição de Jesus seria presa fácil do radicalismo e do entusiasmo. Só na unidade o conflito se desfaz. (Bonhoeffer, 2005 [1949], p. 76)

Que o Cristo encarnado, crucificado e ressucitado esteja conosco sempre.


Bonhoeffer, D. (2005 [1949]). Ética. 7. ed. São Leopoldo: Ed. Sinodal.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Perfeccionismo moral e subjetivismo welfarista

O problema que vejo no debate que vem sendo travado até agora é saber se (a) não estamos caindo em algum tipo de perfeccionismo moral e, (2) se algum tipo de perfeccionismo moral é aceitável. Quando falo de perfeccionismo, estou me referindo a concepções morais como as defendidas na Grécia Antiga: o homem estaria próximo à perfeição moral à medida que participasse ativamente da vida política da pólis. Dessa forma, estavam definidos que tipo de vida um homem devia levar - trata-se de uma concepção objetiva.


Do lado oposto, temos a idéia welfarista, traço marcante do utilitarismo, na qual a satisfação de desejos subjetivos torna-se a métrica. Na concepção clássica de Bentham, falava-se na dicotomia prazer-dor. Quem sabe o que é o melhor para si é o indivíduo. Se, como disse o Joel, uma pessoa gosta de se enlamaçar ou fazer qualquer outra coisa que a maioria das pessoas considere absurda, não importa: o que importa é que ele está agindo de acordo com suas preferências.

Contudo, ambas as concepções são problemáticas. O perfeccionismo poderia justificar tiranias, como afirmará qualquer adepto da escola austríaca. Mesmo John Rawls vai dizer que o perfeccionismo não consegue lidar com o que ele chama de "circunstâncias da justiça", ou seja, com o pluralismo moral existente em uma sociedade. O welfarismo, no entanto, é deficiente na medida em que considera os desejos como fonte única de valor. O grande problema, segundo Sen, é o problema das preferências adaptativas. Quando a pobreza é extrema, por exemplo, o indivíduo em geral, buscando formas para suportar a situação de destituição, adapta suas preferências contentando-se com pouco. Afinal, se a satisfação de certas pessoas (geralmente ricos) que advém do consumo de uma grama de caviar é a mesma que a de um pobre consumindo uma grama de frango, talvez pudesse se dizer que a alocação de quantidades iguais de caviar e frango para os respectivos consumidores é justa (claro, se for permitido fazer comparações interpessoais) Tendo todavia a noção de que as preferências são adaptativas, é dificil advogarmos esse critério subjetivo de bem-estar de forma tão absoluta pelo menos.

O liberalismo igualitário de Rawls tenta buscar um caminho entre o perfeccionismo e o welfarismo, assim como também a concepção derivada proposta por Sen. Quando leio os comentários do Joel sobre Aristóteles (devendo chamar atenção para meu conhecimento raso em relação a Aristóteles), fico pensando se não há muito de perfeccionismo moral na história. Não posso, entretanto, ficar com os que entronam as preferências subjetivas e, dessa forma, esquecem do processo em que preferências são formadas. As preferências não podem ser tomadas como dadas quando falamos de justiça. Uma solução que Sen propõe é a utilização de escolhas contrafactuais (será que é a solução?).

O conceito de capability de Sen é uma tentativa de encontrar esse caminho intermediário. Afinal, as capabilities são os conjuntos de vetores de functionings (aquilo que tem valor para a pessoa e que é realizado), ou seja, o campo de possibilidades de escolha entre diferentes tipos de vida em última instância. Quanto mais possibilidades ela tiver para chegar aos seus objetivos, melhor. Porém estar bem nutrido ou poder escapar de doenças facilmente evitáveis são functionings valiosas para as pessoas.

Espero ter mostrado a dificuldade mas também a necessidade de achar algo intermediário entre esses dois extremos, que, para mim, levam a implausibilidades em algumas questões concretas.


*um pouco dessas conclusões derivam-se das aulas e leituras da disciplina "Teoria Contemporâneas de Justiça" do Departamento de Ciência Política da FFLCH-USP, sob a docência do Prof. Dr. Álvaro de Vita.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Violações de direitos podem ser justificadas? (2)

O debate tem sido frutífero na questão da violação de direitos naturais. Eu lancei a pergunta com base em Amartya Sen e Richard respondeu a seu modo costumeiramente apriorístico e defensor instransigente de princípios. Renato Drumond resolveu opinar em seguida, contrapondo-se a alguns argumentos de Richard. Dias depois, Joel foi mais conseqüencialista reagindo criticamente às proposições anarco-capitalistas (é no blog do Joel que o debate se concentrou: 14 comentários em dois dias). Logo após, Stein voltou a defender posições mais apriorísticas, à semelhança de Richard, contra os argumentos de Sen. Em meio a tudo isso, o Cláudio do De Gustibus ajudou na divulgação do debate aqui e aqui.


Meu pequeno comentário em relação a todo esse debate, cujo pontapé inicial foi questionar se A pode invadir a propriedade de D para impedir que B mate C:

A minha formação convencional como economista levava-me a confundir o conseqüencialismo com o utilitarismo de forma bastante errônea. Indubitalvelmente, o conseqüencialismo é uma característica marcante da ética utilitarista, mas um outro componente fundamental do utilitarismo é que a avaliação dos estados baseia-se apenas no espaço das utilidades: não é qualquer conseqüência benéfica que conta, apenas aquela cuja métrica é a utilidade. Esse componente é chamado de "welfarismo" por Amartya Sen.

É bastante claro o problema de interdependência das situações apresentada pelo questionamento. O que Richard e Stein disseram (e Nozick e outros libertários radicais concordariam certamente) é coerente, mas nossa intuição moral dificulta a aceitação desse ponto de vista. Joel deixou bastante claro isso no seu post. A crítica comum às propostas éticas baseadas puramente em princípios, ou seja, desconsiderando conseqüências, é a de que haverá situações de impasse sério e a solução proposta pelos seus defensores será no mínimo questionável. Na ética pessoal, o exemplo do oficial da SS questionando se algum judeu está ali para um kantiano que esconde um judeu no porão e não pode mentir para não desobedecer a lei moral (pessoas não devem ser objetos, mas somente fins) é clássico. A questão da invasão de propriedade alheia para evitar um homicídio é algo parecido. Qual é a resposta para esses impasses?

Se esqueceremos o "welfarismo", podemos ser conseqüencialistas levando direitos em consideração. Podemos afirmar que o gozo de direitos é um bem em si mesmo, levando em conta isso na análise conseqüencial. Ou seja, atribuindo valor intrínseco aos princípios mas de forma que eles entrem no cálculo das conseqüências, podemos chegar a algum método de avaliação que talvez não forneça respostas claras e logicamente "inquestionáveis", mas que não leva a respostas implausíveis do ponto de vista intuitivo, como as dos exemplos acima mencionados. Ainda não posso afirmar que sou um adepto dessa visão (que vem de Amartya Sen, esse quase pop-star), mas sou simpático a ela.

Bem, dirão os libertários, o "intuitivo" é minha concepção pessoal de "bem". Mas a ética derivada a priori baseada em princípios também parece ter problemas na sua aplicação. O que Drumond diz no comentário que ele faz no post do Joel é pertinente. Precisamos explicitar melhor certos detalhes dessas proposições.

Por último, um comentário acerca das posições de Richard e Stein no caso específico de alguém sendo estuprado no gramado do vizinho (um exemplo prático e levemente modificado da pergunta inicial). Ambos dizem que tentariam impedir o estupro invadindo a propriedade alheia, mas saberiam que não haveria nada de errado caso o proprietário quisesse indiciá-los por terem infringido uma regra derivada do direito natural. Na melhor das análises econômicas, esse conjunto de regras se de fato aplicado levaria ao pior dos sistemas de incentivos. Lembrando que, para os economistas, os incentivos tem lugar de destaque quase tão absoluto - mas ainda pouco longe, graças a Deus - quanto o ocupado pelo direito natural na visão dos austríacos radicais anarco-capitalistas.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Devem igrejas opinar dessa forma? (2)

Que fique claro que eu tenho vários amigos ortodoxos. Nada contra eles. Bem, podemos concluir que os nossos irmãos russos gostam bastante de política:

Orthodox leaders rally to oppose Kosovo independence

Warsaw (ENI). Serbia's predominant Orthodox church has launched a diplomatic drive among church leaders abroad to prevent an expected UN vote to allow the independence of Kosovo from Serbia. "By supporting this independence drive by Albanians living in Kosovo, the West forgets the hurt suffered in recent years by the Orthodox Serbs who live there," Russian Orthodox Patriarch Alexei II of Russia told Serbia's Vecernje Novosti newspaper on 8 December. [376 words, ENI-07-0971]


Fonte: ENI

Funções de resposta ao impulso e decomposição de variância

Novamente, apenas para economistas com especial interesse e conhecimento em econometria.


Em um contexto de VAR (vetores auto-regressivos), embora a causalidade no sentido de Granger seja bem popular, sempre é interessante sabermos como uma variável responde a um impulso em outra variável ceteris paribus, ou seja, em um exercício de estática comparativa. Chamamos isso de análise de resposta ao impulso.

Caso a matriz de variância-covariância não seja diagonal, ou seja, caso certos choques tenham relação com outros choques pela covariação contemporânea, precisamos primeiro ortogonalizar os erros (ou seja, torná-los independentes) através da decomposição da matriz de covariância, a conhecida decomposição de Choleski. Uma das matrizes criadas nessa decomposição será triangular inferior, demonstrando que a ordem das variáveis têm importância para essa decomposição. O problema é que essa ordem não pode ser determinada por métodos estatísticos: ela acaba sendo determinada arbitrariamente pelo analista.

Se as inovações ocorridas no sistema podem ser identificadas, uma outra ferramenta pode ser utilizada para interpretar modelos VAR. É possível, nesse caso, fazermos a decomposição da variância do erro de previsão. Essa ferramenta fornece-nos a proporção de movimentos de uma seqüência que é devida a choques nela mesma contra choques de outras variáveis. Caso o erro de uma variável z não explique nada da variância do erro de uma seqüência {y}, podemos dizer que esta última é exógena: {y} evolui independentemente de choques dos erros de z e de {z}.

Algumas críticas são feitas à análise de resposta ao impulso. De acordo com Lütkepohl (2005, p. 62-63):

All effects of omitted variables are assumed to be in the innovations. If important variables are omitted from the system, this may lead to major distortions in the impulse responses and makes them worthless for structural interpretations. The system may still be useful for prediction, though. []Further problems related to the interpretation of the MA coefficients as dynamic multipliers or impulse responses result from measurement errors and the use of seasonally adjusted or temporally and/or contemporaneously aggregated variables.

Todas as críticas que são feitas à função de resposta ao impulso, podem ser feitas à análise de decomposição da variância. Além disso, críticas do tipo feita à causalidade de Granger também se aplicam. Segundo Lütkepohl (2005, p. 66):

That is, the forecast error variance components are conditional on the system under consideration. They may change if the system is expanded by adding further variables or if variables are deleted from the system. Also measurement errors, seasonal adjustment and the use of aggregates may contaminate the forecast error variance decompositions.

Exogeneidade em séries de tempo

Mais um texto de quem tem prova de econometria na segunda-feira. Quem não é economista não deve de forma alguma ler esse texto. Não digam que eu não avisei.

Quando falamos de exogeneidade na econometria clássica, estamos falando da chamada exogeneidade "estrita", que nada mais consiste no fato de uma variável x não ser correlacionada com qualquer erro. Nas séries de tempo, no entanto, trabalha-se com três tipos de exogeneidade, dependendo do fim proposto.

Na busca de resultados em inferência estatística (modos de estimar parâmetros e formulação de testes de hipótese), utiliza-se, em séries de tempo, o conceito de exogeneidade fraca. Para isso, precisamos 'fatorar a função de distribuição em duas partes: distribuição condicional e distribuição marginal . Define-se que uma variável é fracamente exógena em relação aos parâmetros de interesse se, e somente se, houver um certo tipo de reparametrização e atender duas condições: a variável de interesse precisa ser função de apenas uma das variáveis livres e a fatoração feita acima deve provocar um corte seqüencial.

Quando, no entanto, a finalidade é previsão, precisamos do conceito de exogeneidade forte. Para uma variável z ser fortemente exógena em relação ao parâmetro de interesse, z precisa ser fracamente exógena e não ser Granger-causada pela outra variável y. Lembrando que uma variável x Granger-causa uma variável w quando x contribui para melhorar a previsão de w.

Existe ainda o conceito de superxogeneidade, utilizada para análise de política. Para uma variável ser superexógena em relação ao parâmetro de interesse, ela precisa ser fracamente exógena e os parâmetros do modelo condicional devem ser invariantes a mudanças no parâmetro do modelo marginal provocadas por um dado conjunto de intervenções. Engle e Hendry inclusive desenvolveram um teste para superexogeneidade.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Devem igrejas opinar dessa forma?

Sei não...

Russian Orthodox leader back Putin's anointed successor

Moscow (ENI). Patriarch Alexei II and other leaders of the Russian Orthodox Church have voiced their support for President Vladimir Putin's anointing of First Deputy Prime Minister Dmitry Medvedev as his successor. They also approved of Medvedev's declaration that he would appoint Putin as prime minister after the scheduled 2 March presidential elections. With the backing of Putin and the United Russia party, which dominates Russian politics, Medvedev, aged 42, is expected to win by a wide margin. [418 words, ENI-07-0967]

Fonte: ENI

Mini-banca

Ontem foi dia de apresentar a uma pequena banca meu projeto preliminar. Além do meu orientador, Prof. Dr. Renato Colistete, estiveram presentes o Prof. Dr. Nelson Nozoe e o Prof. Dr. Dante Aldrighi.

Essa chamada "mini-banca" é obrigatória: todos os mestrandos, no final de seu primeiro ano, precisa submeter o projeto a essa pequena banca. Como também somos obrigados a mandar um projeto para a FAPESP antes, ficamos praticamente prontos para essa banca, embora com muitos problemas, sem sombra de dúvida. Afinal, esse projeto é escrito enquanto estamos a duras penas tentando acompanhar três disciplinas obrigatórias.

Por esse e outros motivos, os dois professores apontaram inúmeros problemas no projeto, principalmente o desequilíbrio entre as seções de revisão bibliográfica e de metodologia e objetivos. Enquanto a primeira está bastante extensa, a segunda é pobre e vaga. Prof. Nozoe, conhecido por ser extremamente rigoroso, foi um bom teste. Ele impiedosamente apontou os pontos mais fracos, o que, embora não seja agradável, é positivo na fase em que estou. Prof. Dante também fez excelentes sugestões, além de indicar literatura e reconhecer que o tema era interessante (ufa!).

A mensagem que ficou pra mim é: defina bem sua metodologia, cuide da parte empírica, seja mais rigoroso e objetivo, faça uma revisão bibliográfica que se atenha ao que vai ser usado. Boas lições.

Um pouco de séries de tempo - espaço de estados e filtro de Kalman

Para quem tem saco de ler algo bem teórico sobre econometria. São resultados de meus estudos para a prova de segunda.

Ontem eu falava dos modelos estruturais para previsão de séries temporais. Para sua operacionalização, expliquei que o modelo deveria ser reescrito sob a forma de espaço de estados. Mas o que é um modelo em espaço de estados?

Um modelo como esse é baseado na independência do futuro do processo em relação a seu passado, dado o estado presente. Ou seja, toda informação do passado está contida no estado do processo, e isso é suficiente para a predição. Representa-se isso através de duas equações dinâmicas: (1) a equação de medida, que representa as observações do processo geradas em função do vetor de estado, e (2) a equação de transição, que representa a evolução dinâmica do vetor de estado não observado. (Souza, 1989, p. 54). As duas perturbações, uma em cada equação, não são correlacionadas entre si para qualquer defasagem, além de serem normais e auto-independentes.

Para que consigamos prever valores futuros através do modelo escrito na forma de espaço de estados, ou seja, para que possamos fazer extrapolações, precisamos de algo que produza estimadores atualizados do vetor de estado, que não é observado. O algoritmo para esse fim é o chamado Filtro de Kalman, que consiste em quatro equações: duas equações de previsão (utilizando até o tempo t-1) e duas equações de atualização, permitindo "a atualização seqüencial do vetor de estado no instante t-1 para o instante t". (Souza, 1989, p. 61).

Segundo Souza (1989, p. 62), o valor atualizado da esperança do vetor de estado (a outra atualiza a variância) "corresponde ao seu estimador corrente [...] somado a um termo de 'correção' devido ao erro de previsão cometido no instante t. [...] Chama-se esse fator de GANHO DO SISTEMA, posteriormente denominado GANHO DE KALMAN".

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Mais uma dos holandeses

Não conheço a Holanda, mas ela está sempre à frente de todos quando se trata de secularização - talvez por sua história. A Holanda foi um dos primeiros lugares a receber judeus e outros, que foram se integrando à sociedade. O filósofo Baruch de Spinoza, por exemplo, era holandês e de família judia, embora suas idéias de uma divindade imanente divergissem tanto dos cristãos quanto dos judeus. Um dos primeiros humanistas, Erasmo, era de Rotterdam. Seja lá o que for, não me surpreende a seguinte notícia:

Dutch pastor says he can believe in a 'God who doesn't exist'

Utrecht (ENI). A Dutch Protestant cleric who describes himself as an "atheist pastor", saying he does not believe in God's existence, has become a publishing success in the Netherlands. The Rev. Klaas Hendrikse published a book at the beginning of November entitled "Believing in a God who does not exist: Manifesto of an atheist pastor", which by the end of the month had gone into its third printing. In his book, Hendrikse tells how his conviction that God does not exist has become stronger over time. He suggests, however, that it is still possible to speak of God, but in this case it refers to the quality of a relationship rather than the existence of a divine being. [415 words, ENI-07-0964]


Fonte: Ecumenical News International

Um pouco de séries de tempo - Box & Jenkins e modelos estruturais

Quando falamos sobre análise e previsão em séries temporais, o que nos vem à cabeça hoje são os modelos da classe ARIMA e a metodologia desenvolvida por Box & Jenkins (1970). Certamente, os trabalhos desses autores foram os grandes responsáveis pelo desenvolvimento ocorrido na econometria de séries temporais.

Antes porém dos trabalhos de Box & Jenkins, a formulação de modelos univariados consistia em uma série composta de quatro componentes não-observáveis, que eram (a) tendência, (b) sazonalidade, (c) ciclo e (d) o erro aleatório. A assim chamada decomposição clássica permitia a formulação de modelos aditivos, multiplicativos ou mistos utilizando as componentes acima listadas. Com Box & Jenkins, a decomposição clássica acabou não recebendo mais tanta atenção. Tal situação, no entanto, mudou com as proposições de Harvey. A formulação clássica tinha como vantagem a interpretação calra dos seus diversos componentes (Souza, 1989), o que é recuperado por Harvey e seus modelos estruturais. Segundo Souza, há outra vantagem no modelo estrutural:

Um estudo comparativo muito interessante do desempenho do Modelo Estrutural Básico* e os modelos ARIMA de Box & Jenkins, para um conjunto de séries macroeconômicas reais, é mostrado em Harvey & Todd (1983). Nele são enfatizados as vantagens da formulação estrutural sobre os modelos ARIMA, especialmente para as séries sazonais (Souza, 1989, p. 51).

Para a operacionalização, ou seja, para obter os estimadores atualizados das componentes não-observáveis a todo instante do tempo a partir da informação trazida pela única componente observável do sistema, Harvey propôs que se reescrevesse o modelo na forma de espaço de estados, para então se utilizar o Filtro de Kalman, o qual fornece finalmente a atualização final das componentes.

Amanhã, caso tenha estudado o suficiente, explico o que é "espaço de estados" e filtro de Kalman.



* Modelos Estrutural Básico: exclui a componente cíclica.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Última semana

Falta uma semana para que o semestre se consume. Para a maior parte da turma, o ano acaba na segunda, dia 17, com a prova de Econometria II - Séries de Tempo com a Profa. Vera Fava. Alguns ainda tem atividades na terça, dia 18, na disciplina de Organização Industrial com a Profa. Farina, presidente do CADE.

Amanhã, vários dos meus colegas estarão sofrendo com a prova de Microeconomia II com o Prof. Gabriel Madeira. Certamente estão estudando agora desesperadamente a parte de contratos. À tarde, estarei apresentando meu projeto preliminar de dissertação para três professores. O resumo do projeto eu postei aqui. Acredito que os professores Dante Aldrighi e Nelson Nozoe poderão fazer boas contribuições, além é claro de meu orientador, Prof. Renato Colistete.

Enfim, é uma semana difícil, mas o alívio de saber que está acabando e que logo poderemos estar em casa nos dá algum alento. É verdade que as disciplinas não acabam de fato, temos trabalhos e mais trabalhos no mês de janeiro. Mas todos poderemos descansar um pouco nesse fim de ano.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Violações de direitos podem ser justificadas?

Está ocorrendo um debate interblogs. Ao comentar um texto do blog "Depósito de..." do meu colega de mestrado e anarco-capitalista libertário Richard, perguntei-lhe:

E quando A pode impedir que B mate C, mas para fazer isso, tem que invadir a propriedade de D? O que fazer?

Para os libertários, violar direitos naturais é impensável. A resposta de Richard veio neste texto bastante esclarecedor. Contudo, Renato Drumond, de um ponto de vista liberal mais "light" contra-argumentou em seu blog "Democrata Liberal".

Para contribuir com o debate da forma que posso, uma vez que sou um neófito em relação a esse assunto, transcrevo de onde tirei essa pergunta. Sobre os critérios libertários de Robert Nozick, afirma Amartya Sen (1999, p. 88-89) em "Sobre Ética e Economia":

Se a pessoa A estiver violando gravemente algum direito de B, por exemplo, espancando-o, a pessoa C tem o dever de ajudar a impedir isso? Adicionalmente, C estaria correto ao cometer alguma violação pouco importante de algum outro direito da pessoa D para ajudar a impedir a violação mais importante dos direitos de B pela pessoa A, que está fortemente armada? Por exemplo, C poderia pegar sem permissão - digamos à força - um carro pertencente a D, que não quer emprestá-lo a C, a fim de chegar mais rápido ao local e salvar B, que está sendo espancado por A? Se os direitos apenas assumem a forma de restrições ("Não viole os direitos dos outros") e as restrições são como as especificadas, digamos, no sistema de Nozick, então C claramente não deve tentar ajudar B dessa maneira, pois C:

1. não tem obrigação de ajudar B;
2. tem obrigação de não violar os direitos de D.

O sistema de direitos nozickiano, baseado no conceito de entitlements, fornece respostas implausíveis a essas questões e muitas outras afins, mas elas são inevitavelmente importantes quando de fato se pretende levar a sério e defender os direitos.



quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Monopólio, igrejas e eficiência missionária. Parte II: o aumento da competição

Como disse no post anterior, as igrejas tradicionais acabaram criando teologias ineficientes do ponto de vista econômico. Pode-se argumentar que o desenvolvimento dessas teologias tenha mais a ver com a crescente consciência de problemas como intolerância e proselitismo, levando os teólogos a não mais defenderem a evangelização a qualquer custo. Embora não neguemos que fatores éticos como esses tenham seu papel, devemo-nos perguntar: as igrejas tradicionais teriam se preocupado com esse tipo de questões éticas e teológicas caso não estivessem em confortável situação de monopólio? É patente que, do ponto de vista do número de fiéis (embora esse não seja – ou não deveria ser – o objetivo único da igreja, sabemos que a sobrevivência de uma igreja enquanto organização depende de que haja certo número de fiéis), as teologias que mais tem influenciado a práxis dessas igrejas são claramente ineficientes.

Com o surgimento dos movimentos religiosos norte-americanos, na maior parte das vezes desvinculadas de igrejas tradicionais, o panorama mudou radicalmente a partir do século XIX, adentrando o século XX. O movimento pentecostal é fruto do crescimento dessas igrejas novas nos EUA, levando à quebra dos monopólios de determinadas igrejas naquela região. Com diversas igrejas pequenas no mercado, a situação nos EUA estava próxima da concorrência perfeita (poderíamos caracterizar como concorrência monopolística). A necessidade de mais membros levou essas igrejas a investirem em outros lugares, levando ao grande aumento de programas missionários norte-americanos ao redor do globo, aumentando a concorrência em todo lugar. Como vemos, essas igrejas adotaram visões missionárias bem mais agressivas do que as igrejas tradicionais.

Hoje vemos em diversos países a migração dos fiéis das igrejas tradicionais para as novas igrejas. No caso da Europa, vemos muitos abandonando a igreja (secularização da sociedade, que Weber de certa forma já chamara atenção)*. Em ambos os casos, a teologia ineficiente tradicional pode ter contribuído para esse grau de deterioração. A Igreja Reformada de Genebra (igreja de Calvino), por exemplo, sofre com problemas financeiros advindo da falta de membros. Tais igrejas, embora estejam na situação limite, não conseguem, devido talvez a uma certa rigidez institucional e teológica (teologias originadas na época do monopólio), fazer as inovações necessárias para impedir seu declínio.

No Brasil, o fenômeno de teologia eficiente é a teologia da prosperidade (neopentecostais), que levanta recursos milionários entre seus fiéis. A metodologia empregada é certamente censurável do ponto de vista moral, mas é certamente a mais eficiente em números de membros. Com isso, quero dizer que maximizar a eficiência não é necessariamente o objetivo desejável, afinal, tratam-se de igrejas. Não significa, no entanto, que a completa ineficiência seja também salutar.


*fiz uma correção após o Henrique (não sei que Henrique, talvez eu o conheça) ter chamado atenção para uma afirmação perigosa que fiz sobre o conceito de "desencantamento do mundo" de Weber. Valeu, Henrique.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Monopólio, igrejas e eficiência missionária. Parte I: as igrejas históricas

O panorama religioso tem se diversificado bastante recentemente principalmente dentro do que chamamos de Cristianismo. De algumas poucas instituições que existiam, a oferta de denominações cristãs multiplicou-se com o crescimento dos evangélicos, mais especificamente os pentecostais e neo-pentecostais.

Embora a cisão da Igreja origine-se do início do milênio passado (católicos romanos x ortodoxos), tendo havido outra com a Reforma Protestante no século XVI, isso não significou o rompimento da posição monopolista das igrejas na maioria dos lugares. Embora a Igreja Católica Romana não fosse mais a única, cada país ou estado adotou a sua confissão. Alguns reis mantiveram seus países e colônias sob a égide do catolicismo, enquanto outros adotaram o protestantismo – pelo menos no mundo ocidental. Ou seja, em geral, as igrejas históricas (católica romana, luterana, reformada, anglicana e outras poucas) detiveram por séculos uma posição monopolista.

Não é por acaso que hoje, são justamente essas igrejas que não conseguem manter seus membros nem chamar novos membros. O crescimento do número de membros está diretamente relacionado à importância dada à missão e à evangelização por essas igrejas. Podemos assumir que a sobrevivência das igrejas depende da existência de um razoável número de membros. Antigamente, as igrejas históricas não precisavam se preocupar com isso.

A importância dada à evangelização reflete-se no desenvolvimento das idéias teológicas dentro dessas igrejas. Sabemos que grande parte da produção teológica tradicionalmente provinha da Europa no caso das igrejas históricas. As teologias que hoje alicerçam as igrejas tradicionais são originadas de uma época em que as igrejas detinham monopólio (Idade Média no caso dos católicos romanos, Idade Moderna no caso dos protestantes). Na Europa, as igrejas protestantes eram em geral estatais. Ou seja, não havia muitas alternativas na oferta religiosa. É evidente que, para as igrejas tradicionais, a ênfase missionária é muito menor em relação às igrejas que hoje crescem.

Não estou aqui querendo negar a importância dos fundamentos teológicos e de restrições éticas das igrejas. Entretanto, é difícil negar que, a falta de competição no “mercado religioso” pode ter ajudado a gerar teologias que enfatizavam pouco as atividades missionárias, ou seja, podem ter estimulado o surgimento de teologias ineficientes (na acepção econômica do termo).

[to be continued]


Congresso Latino-Americano de História Econômica

Está acontecendo no Uruguai o Congresso Latino-Americano de História Econômica com a presença de vários caras bons como James Robinson, Cortés-Conde, entre outros. Tem alguns papers lá que podem ser baixados e vale a pena dar uma olhada nas seções.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Crise de 1929, Friedman, McCloskey e etc.

Vejam o caderno Eu&Fim de Semana encartado no Valor Econômico. Há um resumo do debate entre Paul Krugman e Anna Schwartz acerca de Milton Friedman. Em seguida, um artigo do meu orientador, Renato Colistete, sobre a opinião da historiografia a respeito de 1929 (que tem a ver com o debate sobre Friedman, que escreveu com Schwartz o famoso livro "A Monetary History of the United States") e algo sobre a visita de McCloskey ao Brasil.

Atrasado mas você ainda não deve ter jogado fora o Valor de sexta passada.

Capital social e capital humano

Lendo aqui a literatura clássica sobre capital social, temos um paper do sociólogo James Coleman (Chicago, já falecido) que conta um exemplo muito interessante. Em "Social Capital in the Creation of Human Capital", publicado na American Journal of Sociology, Vol 94 (1988), pp. S95-S120, diz Coleman:

In one public school district in the United States where texts for school were purchased by children's families, school authorities were puzzled to discover that a number of Asian immigrant families purchased two copies of each textbook needed by the child. Investigation revealed that the family purchased the second copy for the mother to study in order to help her child do well in school. Here is the case in which the human capital of the parents, at least as measured traditionally by years of schooling, is low, but the social capital in the family available for the child's education is extremely high. [...]

That is, if the human capital possessed by parents is not complemented by social capital embodied in family relations, it is irrelevant to the child's educational growth that the parent has a great deal, or a small amount, of human capital. (p. S110)

Essa história me parece familiar. Não, minha mãe não comprava dois livros, mas sei bem como funciona a cabeça desses pais orientais.




sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Os estranhos marxistas analíticos

Na disciplina de Teorias de Justiça, que curso no Departamento de Ciência Política, preciso entregar um trabalho sobre um dos tópicos trabalhados em sala durante o semestre. Disse ao professor que puxaria para a Economia, tendo como resposta a indicação de um livro chamado "Theories of Distributive Justice" de um economista. John Roemer (1996) formalizou elegantemente nesse livro as principais teorias de justiça. Mais do que isso, ele era conhecido por ser um "marxista analítico", os caras que juntam Marx e filosofia analítica (como me corrigiu o Drumond - vide comentários).

Só vim a entender um pouco de como Roemer pensa ao ler essa passagem da introdução:

I do not deal with the theory of exploitation because [...] after studying it for some time, I came to believe that it is not in itself a fundamental theory of (in)justice. I do not mean that workers are justly treated under capitalism, but rather that the view that what's unjust about their treatment is exploitation needs further articulation. For, according to Marx, or at least to my interpretation of his view, the exploitation of the worker is entailed by his receiving wage goods which embody less labor than the labor he expended for that pay. Now the unequal exchange of "embodied labor" in goods for "direct labor" in production is by no means obviously unjust. Indeed, if the capitalist is the rightful owner of the factory, then why cannot we view the "surplus labor"[...] as a rent the worker pays for access to that factory, for access, that is, to what he needs to render his labor fruitful? Thus the existence of surplus value, or unequal labor exchange in the above sense, is not sufficient to ground the claim that the worker is unjustly treated. I think that some egalitarian theory, of the Rawls-Sen-Dworkin-Arneson-Cohen variety, is needed to justify the Marxian accusation that workers are unjustly treated under capitalism. It may be unjust, for example, for any small group to own a factory, if, in a market economy, that makes the equalization of opportunities impossible. Or the method by which the capitalist came to acquire the factory may have been unjust. In either case, we need a deeper theory. (Roemer, 1996, p. 9).


Que coisa, não? Só falta o Marx pra esse marxista pelo jeito. Um marxista que gosta de teorias liberais de justiça.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

McCloskey e a significância estatística

A professora Deirdre McCloskey, da University of Illinois at Chicago, famosa por seus artigos sobre metodologia (retórica) e por ter passado por uma cirurgia de mudança de sexo, ministrou uma palestra hoje na Sala da Congregação da FEA-USP. O recinto estava bem cheio e McCloskey fez suas polêmicas declarações.

O tema era o seu novo livro, a ser lançado em janeiro, chamado "The Myth of the Statistical Significance". Bastante polêmico. Para ela, não há motivos para a economia usar a significância estatística. Sua idéia gerou enorme polêmica durante e após a palestra. Em suma, ela acha que o critério de decisão usados em testes de hipóteses (como t ou F) não devem ser automáticos e objetivos. Para ela, são critérios de valor que devem pesar e que os progressos da ciência ocorridos através desses testes foram sorte. O que importa é o ângulo, o coeficiente, e não testar a existência desse coeficiente da forma como é feito hoje. Evidentemente, ela argumenta melhor e o livro deve ser mais profundo a respeito disso. Para mim, a proposição dela é muito estranha.

Algumas declarações dela na palestra foram no mínimo exóticas, como por exemplo "when I was a man..." e, simulando alguém comentando sobre ela, "that stupid, transsexual, crazy person". Além disso, arrancou várias risadas do público ao longo da palestra. Foi divertido, embora bizarro e polêmico.

sábado, 24 de novembro de 2007

Congresso Missionário Ecumênico e algumas constatações

O CONIC, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, comemorou seus 25 anos de fundação realizando seu I Congresso Missionário Ecumênico no fim de semana passado. Nesse evento, assinou-se o reconhecimento mútuo dos batismos entre as igrejas-membro.

Foi um evento interessante, em que predominaram palestrantes de tendência liberal ou da teologia da libertação. Não obstante, houve um preletor da IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) - igreja contrária ao ecumenismo - que advogou a abordagem da missão integral, defendida pelo movimento evangelical (os do chamado Consenso de Lausanne, 1974). De resto, a liderança das igrejas históricas mostrou ser claramente mais liberal. Isso não é uma crítica, é uma constatação.

Claramente, pude ver no evento o mesmo que ocorre dentro do movimento evangelical: há um certo "ecumenismo" entre os iguais. Hoje, as principais diferenças entre as igrejas não se referem a denominações. Anglicanos liberais e luteranos liberais são muito mais parecidos do que anglicanos liberais e anglicanos evangelicais. Na maior parte das denominações, o conflito maior é interno. Tanto entre liberais quanto entre evangelicais, o que menos importa é a denominação. No nosso ecumenismo, ainda há um longo caminho a ser andado. Enquanto as correntes não se abrirem para aceitarem as outras correntes teológicas cristãs, estaremos muito aquém do objetivo maior do ecumenismo: união e testemunho conjunto entre as igrejas.

Os passos são dados aos poucos. Graças a Deus, o Conselho Mundial de Igrejas tem caminhado na direção disso, através da organização do Fórum Cristão Mundial ocorrido no Quênia há algumas semanas. Esse evento contou com a maciça participação de pentecostais e evangelicais. Uma grande vitória para que as pessoas entendam que todos lá crêem em Cristo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Brasil, Uruguai e Argentina: convergência e estrutura produtiva

O seminário de história econômica ocorrido hoje contou com a participação do Prof. Dr. Gabriel Porcile (UFPR). Seu texto, em parceria com Luís Bértola, chama-se "Convergence, Trade and Industrial Policy: Argentina, Brazil and Uruguay in the international economy, 1900-1980".

Foi um bom ensaio de história comparativa utilizando o modelo de crescimento com restrição externa de Thirwall (de tradição keynesiana, "demand-led") e o índice de estrutura de Krugman. O modelo de Thirwall e sua lei são desconhecidos para mim, que nada sei de pós-keynesianismo - sei apenas que esse modelo leva em consideração a influência das contas externas para o crescimento econômico. O índice de Krugman eu também desconhecia, mas pelo que entendi, trata-se de um índice que mensura a similaridade de estruturas produtivas: quanto menor seu valor, mais parecidas são as estruturas produtivas dos países em termos de participação percentual dos setores na economia.

Com esse arcabouço e tentando mostrar evidências, Porcile concluiu que, embora muito longe do ideal (leia-se, tigres asiáticos por exemplo), o Brasil ainda conseguiu, devido a mudanças estruturais promovidas, sustentar alguma trajetória de convergência com os países centrais, enquanto Argentina e Uruguai divergiram.

Embora Porcile tenha indicado um papel importante para a política industrial (ortodoxos, contenham-se) e para uma certa estabilidade política (esquerdistas, contenham-se), ficaram para mim mais dúvidas em relação às causas do crescimento. Instituições? Cultura? Política? Dotações? Conhecimento? Tudo junto misturado?

Coisas a serem pensadas. As dúvidas sempre permanecem quando nos deparamos com história econômica comparativa. Se ficaram curiosos, mais detalhes podem ser vistos clicando aqui para baixar o texto.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Os complexos de economistas e cientistas políticos

Em um livro já não tão novo, datado de 1970, Albert Hirschman, um dos representantes do “Development Economics”, escreve algo interessante e até curioso acerca dos colegas da ciência política. Isso ainda é bastante atual para o Brasil, onde a influência da ciência política norte-americana vem chegando aos poucos. Não significa que eu seja contra a ciência política formalizada, inclusive pretendo usá-la. Reconheço, no entanto, que em alguns pontos Hirschman tem razão:

[...] eu espero demonstrar aos cientistas políticos a utilidade dos conceitos econômicos e aos economistas, a utilidade dos conceitos políticos. Essa reciprocidade tem estado em falta nos recentes trabalhos interdisciplinares, porquanto os economistas têm afirmado que conceitos desenvolvidos com o propósito de analisar fenômenos de escassez e alocação de recursos podem ser usados com sucesso para explicar fenômenos políticos diversos como poder, democracia e nacionalismo. Eles têm, dessa forma, conseguido ocupar vastas porções da disciplina vizinha, enquanto os cientistas políticos – cujo complexo de inferioridade em relação ao ferramental do economista só se compara ao complexo do economista em relação ao físico – têm se mostrado ansiosos em ser colonizados e freqüentemente aliam-se ativamente aos invasores. Talvez caiba a um economista reacender os sentimentos de identidade e orgulho entre os nossos oprimidos colegas e dar-lhes alguma confiança de que seus conceitos não têm apenas grandeur, mas também rayonnement? Eu gosto de pensar que isso poderia ser um subproduto do presente ensaio. (Hirschman, 1970, p. 20, tradução minha).

Não me parece que os cientistas políticos tenham ouvido muito Hirschman, mas felizmente, a invasão dos economistas no campo da ciência política têm recentemente gerado o resultado oposto também desejado por Hirschman: aos poucos, a política entra na economia, que tradicionalmente ignorava relações de poder, através dos trabalhos da Nova Economia Institucional de Doug North (Washington), e mais recentemente com Daron Acemoglu (MIT) e James Robinson (Harvard), por exemplo. Um pequeno contra-ataque que vem apenas a enriquecer.


Hirschman, A. O. (1970). Exit, Voice and Loyalty: Responses to Decline in Firms, Organizations and States. Cambridge: Harvard University Press.

sábado, 17 de novembro de 2007

Instituições e educação - parte IV

Diego disse: A questão então é: se os gastos hoje com ensino superior são conseqüência do excesso de poder nas mãos das elites, não seria de se esperar que a "esquerda" se posicionasse contra isso? Eu não entendo... Mas me parece que o poder da elite talvez não seja a melhor explicação para o que acontece (ou então não a principal).

Continuo sustentando que a falta de voz dos mais pobres devido à desigualdade na distribuição de poder político tem papel fundamental. Diego assumiu que a esquerda representa de fato as camadas mais pobres. No Brasil, onde a esquerda defende o ensino superior público com unhas e dentes, a esquerda representa muito debilmente as camadas pobres na minha opinião (a direita menos ainda obviamente). O maior partido de esquerda brasileiro, o PT, representa muito mais a classe média do que os verdadeiramente pobres. Isso é evidente pelas próprias bandeiras que defendem. Afinal, qual é o interesse do pobre na universidade pública? Só haveria interesse do pobre na universidade do governo caso ele raciocinasse através da lógica do custo de oportunidade e, nesse caso, ele seria contra a universidade pública.

Thiago disse: [...] ninguém que deseja ganhar uma eleição vai correr o risco de desagradar a classe média (que é o estrato mais baixo que tem possibilidade de cursar uma universidade). A solução do discurso político (de esquerda e de direita) é pregar o aumento de recursos generalizado para a educação, beneficiando ensino básico e superior.
Realmente parece haver um jogo de poder, mas pode ser que ele esteja não apenas refletido em um possível egoísmo da elite. Talvez ele reflita o custo político de se adotar medidas que privilegiem um estrato educacional em detrimento de outro.

De fato, retirar recursos da universidade pública gera problemas eleitorais. É só pensarmos no “Teorema do Eleitor Mediano”. Contudo, o alto custo político de se adotar medidas que desfavoreçam a classe média reflete exatamente o desproporcional poder político dos estratos médio e alto em relação aos pobres. Isso é egoísmo da elite (e não podemos esperar outra coisa). Lembrando que desigualdade de recursos está fortemente correlacionado com desigualdade de poder político. O ideal é que todos sejam da elite, ou seja, que não haja elite política efetiva.

Richard disse: se educação primaria tem um alto retorno, porque os pais não investem na educação dos filhos? Ou seja, porque o próprio mercado não providencia esses investimentos?

É possível que o mercado pudesse diminuir um pouco o problema do mal-direcionado. No entanto, o governo pode resolver muitos problemas de ação coletiva e a evidência histórica mostra que o governo pode sim, desde que o poder político esteja distribuído mais igualitariamente, fazer os investimentos corretos. Vide Estados Unidos e Canadá (Engerman & Sokoloff, 2002; Mariscal & Sokoloff, 2000). Como diz Buchanan, bens públicos ou coletivos são sempre um problema.

Richard disse: Vale lembrar também que nada adianta investimento em educação por si só.

Pensando exclusivamente na alocação, tens toda razão. Não fossem os problemas de ação coletiva e a noção de igualdade de oportunidades, concordaria contigo. Mas além disso, temos o fato cabal de que educação não tem apenas valor instrumental no meu juízo de valor. E há cada vez mais um consenso de que a educação tem valor intrínseco – seria uma functioning para Sen e é o que está por trás da idéia de desenvolvimento humano.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Instituições e educação - parte III

Para entender do que estou falando aqui, é interessante ler essa entrevista com James Robinson e Gregory Clark. A dica do link é do blog do Leo Monastério. Não é sobre educação exatamente, mas eles falam a respeito. Afinal, o que importa? Cultura ou educação?

Na parte IV, responderei os comentários feitos em relação à parte II.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Instituições e educação - parte II

Dizer que a falha de certas sociedades em investir no nível de educação certo ser causado por "imperfect knowledge and understanding make up the subjetive models of actors" pode até ser uma das explicações, mas extremamente insuficiente. Não é por acaso que North, em livro posterior (North, 2005), acaba incluindo outra motivação:

Throughout history and in the present world economic growth has been episodic because either the players' intentions have not been societal well-being or the players' comprehension of the issues has been so imperfect that the consequences have deviated radically from intention (p. 3)

Com isso, é fácil entender porque em países como o Brasil, a educação superior foi a mais privilegiada. Não é necessário usar a idéia de racionalidade limitada para chegar a essa conclusão: se o poder da elite é grande demais, as intenções deles prevalecerão e, apenas por um acaso, coincidirão com o bem-estar social.

É por esse motivo que Acemoglu, Johnson e Robinson (2004) usam a visão de conflito social para a explicar o papel das instituições no crescimento econômico. Segundo eles, a distribuição de poder politico afeta diretamente as instituições. Na mesma linha e anteriormente, Engerman e Sokoloff (1997, 2002) já destacaram a importância da distribuição de poder político para determinar as instituições criadas e a oferta de alguns serviços básicos. Alfabetização em massa foi alcançada com antecedência muito maior em países cujo poder estava menos concentrado nas mãos de poucos. Os trabalhos seminais de Engerman e Sokoloff mencionam o caso da alfabetização en passant, mas Mariscal e Sokoloff (2000) descrevem detalhadamente como isso aconteceu nos Estados Unidos e no Canadá, contrastando com o que aconteceu em alguns países latino-americanos.


Bibliografia
  • Acemoglu, D.; Johnson, S.; Robinson, J. (2004). “Institutions as the Fundamental Cause of Long-Run Growth”. National Bureau of Economic Research - Working Paper No. 10481. Cambridge, MA: May 2004.
  • Engerman, S. e Sokoloff, K. (1997). “Factor Endowments, Institutions, and Differential Paths of Growth among New World Economies: a View from Economic Historians of the United States”. In Haber, S. How Latin America Fell Behind. Stanford: Stanford University Press, 1997, p. 260-304.
  • Engerman, S. e Sokoloff, K. (2002). “Factor Endowments, Inequality, and Paths of Development among New World Economies”. National Bureau of Economic Research - Working Paper No. 9259, October 2002.
  • Mariscal, E. e Sokoloff, K. (2000).“Schooling, Suffrage, and the Persistence of Inequality in the Americas, 1800-1945”. In Haber, S. Political Institutions and Economic Growth in Latin America: Essays in Policy, History, and Political Economy. Stanford, CA: Hoover Institution Press, 2000, p. 159-217.

  • North, D. (1990). Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge: Cambridge University Press.

  • North, D. (2005). Understanding the Process of Economic Change. Princeton: Princeton University Press.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Instituições e educação - parte I

Com propriedade, afirmou Douglass North (1990, p. 80):

Throughout most history the institutional incentives to invest in productive knowledge have been largely absent, and even in Third World economies today the incentives are frequently misdirected. If Third World countries do invest in education, they frequently misdirect the investment into higher education, not primary education (which has a much higher social rate of return than does higher education in Third World countries).


A crítica é que, em um país subdesenvolvido, os retornos da educação são mais altos caso se invista em educação primária. A Coréia, por exemplo, expandiu maciçamente em todos os níveis de educação, mas evidentemente, espalhou-se em primeiro lugar o primário.

North, entretanto, na hora de explicar os motivos pelos quais as instituições dos países subdesenvolvidos têm esses problemas, afirma que:

But if the market was imperfect so that the private rates of return were so low as not to make such private investument worthwhile, then the correct investment (in primary education) could have been undertaken by public investment, assuming members of the society appreciated that there was a high social rate of return on such investment. But the fact that such public investment was not undertaken or was misdirected suggests not only high transaction costs resulting in imperfect markets, but also that imperfect knowledge and understanding make up the subjetive models of actors. (p. 80).


Será que essa justificativa faz sentido para entender o problema da educação em países como o Brasil?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Apresentação do IPE-USP

Hoje foi o dia da pós-graduação da USP fazer a sua apresentação aos alunos bem colocados no exame nacional de admissão ao mestrado promovido pela ANPEC. Os 60 primeiros foram chamados e puderam ouvir muitos dos professores da casa, os quais compareceram em massa.

Aparentemente, a apresentação surpreendeu positivamente os candidatos. A presença de professores mais antigos e proeminentes da casa, como também dos professores do programa "Jovens Doutores", foi aparentemente bem recebida.

Só saberemos dos resultados a partir de amanhã, quando os alunos começaram a definir oficialmente as instituições para as quais pretendem ir.

domingo, 11 de novembro de 2007

Comida ou ética?

Muitos, ao interpretarem Marx, entenderam que o material se sobrepunha ao ideal: cultura, crença e valores seriam resultados que derivariam da infra-estrurura da sociedade, ou seja, das condições materiais. Vários outros marxistas dirão que isso é equívoco, pois não está muito de acordo com a dialética. Seja lá qual for a interpretação correta, a relação unidirecional do material ao ideal ficou conhecida. Giannetti faz uma crítica meio óbvia e que parece razoável:

[...] vale notar, a falácia grotesca da fórmula brechtiana, ingenuamente materialista, "primeiro a comida, depois a ética". A sobrevivência, é verdade, é condição para tudo o mais. Mas, sem ética, a própria sobrevivência fica comprometida. Sem ela, não há ordem social, paz ou "comida" - há desagregação, guerra e fome. É a economia que se ergue sobre a infra-estrutura ética. (Giannetti, 2007, p. 101).


Giannetti, E. Vícios privados, beneficios públicos? A ética na riqueza das nações. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Economia Institucional: leis ou costumes?

Embora hoje em dia todos saibam que instituições importam, as escolas institucionalistas são ainda pouco conhecidas. A fama de Douglass North (Nobel em 1993 com Robert Fogel) não corresponde ao conhecimento médio que se tem acerca do trabalho dele. Além da linha de North, existem ainda outras escolas institucionais. A seguir apresento as duas principais correntes existentes hoje.

Sob o rótulo de "Nova Economia Institucional" (NEI), existem duas linhas principais. Ambas tiveram grande influência dos escritos de Coase e sua abordagem dos custos de transação. Ambas também trabalham com o conceito de racionalidade limitada proposto por Simon, embora acreditem que o pressuposto da racionalidade substantiva (microeconomia) seja muito útil para explicar diversos fenômenos. Por fim, ambas são relativamente próximas à teoria neoclássica. A escola liderada por North tem suas origens nas pesquisas do referido autor em história econômica e desenvolvimento. A partir delas, North chegou a conclusão que a mudança institucional era um dos determinantes fundamentais do desempenho econômico e que era necessário relaxar alguns pressupostos para explicar essas mudanças. Podemos traçar a genealogia dessa escola e relacioná-la aos escritos de Commons, o qual dava grande importância ao arcabouço legal que estava na base do sistema econômico. A outra escola da NEI é liderada por Oliver Williamson. A abordagem de Williamson é muito usada em organização industrial, concorrência e outro assuntos correlatos e, por isso, tem sido bastante aplicada.

Existe porém uma corrente institucionalista de origem mais austríaca e vebleniana. Para esses, as regras formais (leis, constituições, etc.) tão valorizadas pela NEI não tem tamanha importância. As regras informais (costumes, por exemplo) tem papel fundamental para explicar o desempenho econômico. Entre representantes dessa corrente, podemos destacar Richard Nelson, Sidney Winter, Robert Sudgen e Geoffrey Hodgson. Mesmo tendo diferenças, todos concordam que as regras evoluem (de forma mais ou menos análoga à seleção natural). Sudgen, por exemplo, fala em "ordem espontânea", termo cunhado por Hayek - economista que também podemos incluir na genealogia dessa corrente.

Existem outros economistas que consideram o papel institucional como Buchanan por exemplo. Acredito porém que não seria adequado classificá-lo. Certamente, muito da Economia Institucional, principalmente da NEI, já foi incorporado ao mainstream, embora ainda de forma branda. Poucos discordam hoje da relevância das instituições.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Produto marginal ou valor-trabalho?

No capítulo intitulado "Class, Gender and Other Groups" do famoso livro "Inequality Reexamined", Amartya Sen (1992) discorre um pouco sobre um velho debate na história do pensamento econômico: quem afinal foi responsável pela produção? E quem merece receber a remuneração advinda dessa produção? Segundo Sen:

Production is an interdependent process involving a joint use of many resources, and there is in general no clear way of deciding which resource has produced what. The concept of 'marginal product' of a resource is not really concerned with who has 'actually produced' what, but with guiding the allocation of resources by examining what would happen if one more unit of a resource were to be used (given all the other resources). To read in that counterfactual marginal story (what would happen if one more unit were applied, given everything else) an identification of who has 'in fact' produced what in the total output is to take the marginal calculus entirely beyond its purpose and depth.


Mas se os marxistas pensam que escaparam, continua Sen:

This problem of identification (who has produced what) applies to Marx's theory of exploitation as well - perhaps even more strongly, since the non-labour resources are treated in a very limited way. (p. 121)

Reações?

domingo, 4 de novembro de 2007

Os estranhos hábitos de alguns paulistanos

Não tem nada a ver com economia o que vou dizer. Talvez tenha um pouco a ver com religião. Apenas vou contar sobre um estranho episódio que ocorreu na sexta-feira, dia de Finados.

Estávamos eu e o Felipe Garcia, ex-colega da UFRGS e hoje no mestrado da FGV-SP em frente a lanchonete Bob's. Após consumirmos o famoso milk shake de ovomaltine e falarmos da beleza das mulheres gaúchas, deparamo-nos com uma multidão, que perfazia cerca de uma centena de pessoas. Elas estavam estranhamente fantasiadas: todas pareciam estar mortas, muitas delas com sangue falso em várias partes do corpo e vestidas com roupas pretas, algumas carregando foices, etc. Ao se aproximarem do Bob's, alguns deles diziam em coro em tom grave: "O-vo-maltine! O-vo-maltine!".

Bizarrices que ocorrem na grande metrópole brasileira, onde a economia é mais pujante. Mais um bom motivo para entendermos que nem sempre a opulência é melhor. Em Porto Alegre não sou obrigado a ver esse tipo de coisa e tenho melhor qualidade de vida, hehe.

sábado, 3 de novembro de 2007

Mill e psicologia individual

Por uma infelicidade do destino, fui educado acerca do trabalho do economista e filósofo inglês John Stuart Mill através do péssimo livro de história do pensamento econômico de E. K. Hunt. Isso denegriu um pouco a imagem de Mill que carreguei por algum tempo, mesmo sabendo que a obra de Hunt deixa bastante a desejar.

Stuart Mill tinha como objetivo principal fazer um síntese entre a economia política clássica de Ricardo e o utilitarismo de Jeremy Bentham, a principal corrente ética da época. Eduardo Giannetti, em seu livro "Vícios Privados, benefícios públicos?" * mostra a posição de Mill sobre a psicologia humana:

Referindo se a Bentham (mas o mesmo valeria também para Ricardo), Mill afirmou: "O homem, aquele ser mais complexo, é muito simples aos seus olhos". Simplificações drásticas da conduta humana, como o hedonismo psicológico de Bentham ou o "homem econômico" ricardiano, podiam ter alguma validade (limitada) enquanto hipóteses comportamentais em teorias sobre a realidade como ela é. Mas não mais que isso. O que de fato preocupava Mill era a universalização sub-reptícia e indevida dessas simplificações. Pois o efeito dessa extensão imprópria era empobrecer a reflexão ética e restringir seriamente qualquer horizonte mais amplo e generoso sobre o futuro da humanidade - sobre a realidade como ela deve ser. (p. 42)

De fato, também me preocupa a universalização indevida dessas simplificações - que são úteis para fazer modelos, por exemplo. Mas essas simplificações tem apenas alguma validade. Economistas parecem simplesmente aceitar que as pessoas são auto-interessadas e que nunca há espaço para considerações éticas. Um século e meio depois, algumas coisas parece que não mudam.

Pelo menos, Mill deixou seus escritos sobre filosofia moral como o "On Liberty". Ricardo faz um ótimo resumo sobre o método em Mill aqui.


*Giannetti, E. Vícios privados, benefícios públicos: A ética na riqueza das nações. São Paulo: Companhia de Letras, 2007.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Mais um seminário em história econômica

Eustáquio Reis, do IPEA, foi o convidado desta quarta para o seminário do grupo de estudos em história econômica aqui da FEA-USP. Eustáquio tem pesquisado algumas novas fontes de dados que ele tem acesso no IPEA. Alguns dos dados, como ele mesmo admitiu, não são muito confiáveis.

Um de seus papers tentou estimar a distribuição de renda no Brasil em certos anos do século XIX. Tal estudo faz parte de um projeto maior de estimação da desigualdade no mundo conduzido pelo Prof. Bértola do Uruguai. No entanto, os resultados apresentaram índices de Gini muito baixos: similares aos atuais índices escandinavos, que são os países mais igualitários. O resultado gerou grande suspeita por parte dos presentes. Mas o autor concordou plenamente que a precariedade dos dados era significativa.

O outro de seus papers mostrou um resultado mais interessante mas igualmente surpreendente. Interessante pois se tratam de dados mais confiáveis dos votantes no Brasil circa 1870. O surpreendente foi a evidente superioridade das províncias nordestinas em proporção de votantes na população. Além disso, contrariando Engerman e Sokoloff (1997, 2002), o paper afirma que o Brasil tinha considerável proporção de votantes comparativamente a outros países. No entanto, o coronelismo pode explicar essa alta proporção: uma máquina eleitoral que explorava supostos votantes analfabetos. Embora mais confiáveis, seus resultados surpreendentes geraram alguma turbulência.

De qualquer forma, é bom saber que temos mais dados a serem averiguados. Talvez se continuarmos a analisá-los de forma cada vez mais criteriosa, possamos retirar informações importantes deles.


quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Reforma Luterana - Parte II: Sacerdócio Geral e Capital Social

Em seu estudo sobre o grau de confiança existente nas sociedades e seu papel na cooperação e no desenvolvimento, conhecido na literatura como capital social, Robert Putnam* coloca o seguinte:
Toda sociedade [...] se caracteriza por sistemas de intercâmbio e comunicação interpessoais [...]. Alguns desses sistemas são basicamente "horizontais", congregando agentes que têm o mesmo status e o mesmo poder. Outros são basicamente "verticais", juntando agentes desiguais em relações assimétricas de hierarquia e dependência. [...] Por exemplo, todos os grupos religiosos misturam hierarquia com igualdade, mas nas congregações protestantes os sistemas de relacionamento costumam ser considerados mais horizontais do que na igreja católica [romana]. (p. 182-3).

[...] quanto mais horizontalizada for a estrutura de uma organização, mais ela favorecerá o desempenho institucional da comunidade em geral (p. 185).

Não é o objetivo aqui atacar a hierarquia católica romana. A Reforma protestante não buscava a separação. Lutero queria, na verdade, que a Igreja voltasse ao verdadeiro fundamento contido nas Escrituras. Mas Lutero foi excomungado e a separação foi inevitável. Por outro lado, no entanto, os protestantes herdaram aspectos positivos do pensamento dos reformadores. Talvez uma das idéias mais importantes de Lutero e que tem a ver com a citação de Putnam há pouco mencionada seja o sacerdócio geral de todos os que crêem.

O sacerdócio geral de todos os crentes significa que não existe a necessidade do padre ou de qualquer hierarquia para se ter um relacionamento com Deus. Todos os cristãos são responsáveis aos olhos de Deus, sejam eles leigos (como a maioria das pessoas) ou ordenados (padres, pastores, diáconos, etc.). Dessa forma, Lutero reconecta o indivíduo a Deus, a salvação não é institucionalizada. Não há diferença nas obras de um padre ou de um leigo, a fé torna-se o fator essencial.

Uma vez que os sacerdotes ordenados não fazem mais o papel de ligação entre Deus e os homens, a conseqüência prática foi a maior horizontalização. O pastor passou a ser apenas um irmão mais velho que sabe mais e pode ensinar os outros, sem poderes especiais. Em uma sociedade que precisa tanto de menor concentração de poder, é interessante saber que a Bíblia em 1 Pedro 2.9 dá suporte ao sacerdócio geral.

Assim, a teologia luterana e reformada contribuiu de alguma forma para que a Palavra de Deus não fosse mais monopólio de alguns clérigos. A Bíblia foi traduzida para língua do povo, os clérigos não são mais do que os outros. Assim, com o poder distribuído de forma mais equânime, é mais fácil confiar uns nos outros e criar instituições mais justas. Creio que não seria um disparate associar as eqüitativas instituições suíças e escandinavas à influência que essas receberam da Reforma.

* Putnam, R. D. (1996). Comunidade e Democracia: a experiência da Itália moderna. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Reforma Luterana - Parte I: Graça

Em um país majoritariamente católico, poucos sabem que foi em 31 de outubro de 1517 que Lutero pregou suas famosas 95 teses na porta da catedral de Wittemberg. Menos pessoas sabem ainda do que se tratam essas teses e de suas conseqüências não apenas teológicas, como também na mudança que isso provocou na visão de mundo da época. Vou destacar dois pontos: um bastante teológico e outro que teve influências muito mais abrangentes.

Naquela época, a venda de indulgências, uma espécie de título que garantia o perdão de seus pecados quando comprados, estava disseminada. Pregava a Igreja da época que a salvação se dava por boas obras. Lutero, indignado com tal exploração, resgatou o papel da graça. Mas afinal, o que é graça?

Lutero quis deixar bem claro, assim como fizeram Paulo e Santo Agostinho, por exemplo, que nenhum de nós merece a salvação. Ninguém é bom o suficiente pra ir pro céu. Todos somos pecadores e, por mais que tentemos, não vamos conseguir ser bons. Sempre vamos escorregar em algum lugar. É por isso que, para Lutero, as boas obras não significam salvação - se significassem, nós poderíamos fazer um monte de caridade apenas por interesse próprio. Por isso que, para os luteranos, as obras são conseqüências da graça. Deus, de graça, sem que a gente mereça, concede pra nós a fé e o amor, que nos levam a fazer o que é certo (às vezes). Continuamos egoístas, interesseiros, tudo o mais - pecadores, resumindo. Mas Deus nos ajuda a vencermos nossa natureza.

Por isso, para a teologia luterana e reformada em geral, temos que ser humildes e reconhecer que sempre de novo erramos. A graça é parte fundamental do entendimento dos luteranos. Essa é a parte teológica - o legal foi que católicos romanos e luteranos concordaram em uma declaração conjunta que a graça é essencial.

Amanhã falo do sacerdócio geral de todos os crentes, que teve conseqüências sociais bastante interessantes.

Lamentável

Vai entender isso... Espero que não seja verdade que a Igreja Reformada Holandesa na África ainda não repudia o apartheid. Ainda bem que a maioria das igrejas cristãs, até onde sei, tem posicionamentos mais compatíveis com a ética cristã.

S. African church has failed to renounce apartheid, meeting told

Port of Spain (ENI). The World Alliance of Reformed Churches has said that a South African church, suspended from the grouping in 1982, cannot be readmitted because it has not renounced the support for the apartheid ideology that led to its exclusion. WARC leaders meeting near Port of Spain in Trinidad and Tobago heard that the Nederduitsch Hervormde Kerk van Afrika (Dutch Reformed Church), or NHKA, had not rejected apartheid or its theological justification despite its expressed desire to rejoin WARC.

Fonte: ENI

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Libertário critica anarquista

A despeito de todas as divergências que tenho com os libertários, não deixa de ser interessante o que diz Buchanan em relação aos que acreditam no anarquismo. Afirma Buchanan (p. 35) em "The Economics and the Ethics of Constitutional Order", xingando socialistas e anarco-capitalistas:

The romantic image of the state as an omniscient and benevolent entity, an image that had been around since Hegel, was shattered by the simple observation that those who act on behalf of the state are also ordinary humans, like the rest of us [...]. Centralized economic planning, with state ownership and control over means of production, has entered history as intellectual folly.

Até aí, nada de novo. A parte mais interessante vem a seguir:

At the opposing end to socialism on the imagined ideological spectrum stands the equally romantic ideal of laissez-faire, the fictional image of anarcho-capitalists, in which there is no role for the state for all. In this model, freely choosing individuals, who have somehow costlessly escaped from the Hobbesian jungle, will create and mantain markets in all goods and services, including the market for protection of person and possessions. It is as difficult to think sistematically about this society as it is to think of that society peopled by the "new men" of idealized communism [...].

Any plausible realistic analysis of social order, whether positive or normative, must be bounded by the limits set by these ideological extremes. The state is neither omniscient nor benevolent, but a political-legal framework is an essential element in any functioning order of human interaction.

O mais interessante de Buchanan é se fizermos um exercício de análise retórica. É notório que ele sempre se coloca como uma alternativa entre os extremos. O subtítulo de um outro livro dele é sintomático: "between Anarchy and Leviathan". Sabemos, no entanto, que Buchanan está muito mais próximo da anarquia do que do Leviatã, pois é um "libertarian". Não precisamos conhecer o "teorema do eleitor mediano" para saber que um discurso mais brando sempre é mais convincente para a maioria.

De qualquer forma, como ataque aos extremos, suas declarações são bastante úteis. E suas contribuições em relação a escolha pública não devem ser desconsideradas. Apenas não precisamos advogar o que ele defende. Acredito que, dentro de limites razoáveis, a questão não é o tamanho do Estado, mas sim como esse Estado atua.

Seleção natural e ação coletiva

Estou lendo um interessante paper de Elinor Ostrom* sobre ação coletiva. Há trechos inusitados como uma explicação evolucionária para a sobrevivência de características não "instrumentalmente racionais", como diria Weber. Se é verdade ou não, é outra história:

"Human evolution occurred mostly during the long Pleistocene era that lasted for about 3 million years, up to about 10,000 years ago. During this era, humans roamed the earth in small bands of hunter-gatherers who were dependent on each other for mutual protection, sharing food, and providing for the young. Survival was dependent not only an aggressively seeking individual returns but also on solving many day-to-day collective action problems. Those of our ancestors who solved these problems most effectively, and learned how to recognize who was deceitful and who was a trustworthy reciprocator, had a selective advantage over those who did not (Barkow, Cosmides and Tooby, 1992)" (Ostrom, 2000, p. 143).

Não costumo encontrar esse tipo de coisa em papers de economia freqüentemente.

Barkow, J. H.; Cosmides, L.; Tooby, J. eds. (1992). The Adapted Mind: Evolutionary Psychology and the Generation of Culture. Oxford: Oxford University Press.
Ostrom, E. (2000). Collective Action and the Evolution os Social Norms. The Journal of Economic Perspectives, Vol. 14, No. 3. Summer, pp. 137-158.

domingo, 28 de outubro de 2007

Clipping e comentário: desigualdade

Um texto interessante do meu amigo Ricardo Martini sobre desigualdade e pobreza na visão de Feldstein e Milankovic.

Já dou meu pitaco, embora não tenha lido os textos, o que pode ser um pouco irresponsável: acho que o Milankovic tem razão até por questões pragmáticas. Feldstein argumenta contra a idéia de igualdade econômica, pois sua demanda adviria da inveja, mesmo quando a desigualdade aumentada fosse resultado de uma melhoria de Pareto. No entanto, mesmo que eu ache a inveja algo moralmente condenável, a igualdade de recursos ou de bem-estar (outro belo debate, ver Dworkin se conseguir entender o texto dele sobre o assunto), precisa ser buscada para garantir certa estabilidade social.

O segundo argumento que apresento é muito melhor: desigualdade de recursos gera desigualdade de poder político, criando instituições que beneficiam apenas a elite: ou seja, incentivando a persistência da desigualdade e pouco desenvolvimento, no sentido amplo. Acemoglu, Johnson e Robinson tem um belo texto que fala sobre isso que pode ser encontrado aqui.

Atualização: o Ricardo Martini me chamou atenção que o contrário também pode ocorrer: desigualdade de poder político gerar desigualdade de recursos. Acredito que é um mecanismo de retroalimentação, como está no texto de Acemoglu et al. Valeu, Ricardo.

sábado, 27 de outubro de 2007

Curso sobre crises internacionais

Tivemos recentemente o privilégio de participar de um curso sobre crises financeiras internacionais ministrado pelo Prof. Dr. Bernardo Guimarães, que está hoje no Departamento de Economia da London School of Economics.

Foram quatro aulas, sendo que nas primeiras duas, o foco foram as crises cambiais. Nas outras duas, o tema foram as crises de dívida. Infelizmente, faltei uma das aulas, mas as outras três foram muito boas.

Prof. Bernardo, que fez mestrado na USP, esteve mais preocupado, corretamente a meu ver, na intuição dos modelos recentes que são tema de discussão nesse tópico. Além de ter um particular senso de humor, é um professor bastante didático e muito estimulado a dar aulas.

Esperamos que mais cursos como esses apareçam. Aqui, vocês podem ver as notas de aula do excelente curso.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A lucidez de Max Weber

Embora poucos economistas leiam o velho Max Weber, certas passagens demonstram que ele já sabia o que ainda é considerado novidade na economia. Por exemplo, vejam essa passagem que, inicialmente, parece ser uma crítica aos modelos:

Os tipos ideais de ação social que, por exemplo, são usadas na teoria econômica são portanto irrealistas ou abstratos, pois sempre perguntam que curso de ação ocorreria se esse fosse puramente racional e orientado apenas para fins econômicos. (p. 21)

Mais adiante, no entanto, Weber explica:

Quanto mais claro e preciso é o tipo ideal construído, ou seja, quanto mais abstrato e irreal é nesse sentido, mais apto está o tipo ideal para desempenhar suas funções em formulação de terminologia, classificações e hipóteses. (p. 21)

E para aqueles que pensam que Sen foi o primeiro a associar ética (compromisso) à racionalidade, esse trecho talvez seja bem esclarecedor. No mínimo, Sen deveria citá-lo:

Exemplos de [ações orientadas para] racionalidade de valor pura seriam as ações de pessoas que, desconsiderando o possível custo para eles próprios, agem para pôr em prática suas convicções naquilo que parece-lhes requerido pelo dever, pela honra, pela busca pelo belo, por um chamado religioso, pela lealdade pessoal, ou pela importância de uma causa, não importando no que ela consiste. (p. 25)

Para Weber, existe a racionalidade instrumental (zweckrational) e a racionalidade de valor (wertrational), além de outros tipos de motivações como a afetiva e a tradicional. Leiam o primeiro capítulo de "Economy and Society" de Max Weber.

obs: Todas as citações foram traduzidas da edição em inglês de 1968 , publicado em New York pela Bedminster Press.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Racionalidade econômica e suas limitações

Debate-se muito acerca do pressuposto de racionalidade que a economia neoclássica adota. O conceito de racionalidade econômica é bastante restrito e sofre críticas das mais diversas. As duas mais elaboradas são certamente as propostas por Herbert Simon e por Amartya Sen. De maneira alguma se desconsidera aqui os importantes resultados atingidos com os modelos baseados em escolha racional. De fato, a maioria dos modelos é muito útil. Contudo, certas situações necessitam outras abordagens.

Para deixar claro o que está se criticando, Sen trata das duas definições de racionalidade encontradas na economia. A primeira delas é a racionalidade como consistência. Por consistência, estamos falando da coerência interna das decisões tomadas pelos agentes. Um exemplo de consistência seria o pressuposto da transitividade, na qual dado que o agente prefere A a B e prefere B a C, logo ele tem que, por transitividade, preferir A a C. No entanto, essa idéia não faz nenhuma consideração aos objetivos: é possível ter escolhas perfeitamente consistentes indo em direção contrária aos objetivos. Se lembrarmos dos livros-textos de microeconomia, temos as hipóteses de preferências completas, transitivas e reflexivas.

A segunda definição é a da racionalidade como maximização de auto-interesse. Esse pressuposto não é testável. A mera possibilidade de que considerações éticas possam afetar o comportamento real dos agentes faz com que o assunto mereça atenção. Não se pode simplesmente tomar como dado que racionalidade é igual à maximização de auto-interesse: não há evidências empíricas em favor disso. Se o comportamento real pode ser condicionado por considerações éticas, a teoria econômica deveria considerá-la, mesmo pensando em termos pragmáticos. Pode-se estar perdendo parte das causas de determinados fenômenos.

Simon ainda fala na racionalidade de objetivo, ou a racionalidade substantiva, como definida por Simon. Para essa abordagem, a racionalidade garante que, dado um objetivo, o agente consegue calcular como atingir esse objetivo. Problemas cognitivos, no entanto, impedem os agentes de atingir eficientemente esses objetivos. É devido a isso que Simon defende a racionalidade procedimental ou aquilo que chamamos de racionalidade limitada. A Nova Economia Institucional, representada pelas correntes de North e Williamson, usa esse pressuposto, que é um enfraquecimento da racionalidade substantiva neoclássica.

Como dito por North, a abordagem neoclássica é muito útil para alguns modelos. Sen afirma de certa forma o mesmo. Para ambos, no entanto, necessitamos da flexibilização desses pressupostos para explicar alguns problemas econômicos como países de instituições ineficientes ou o ethos japonês e sua relação com o crescimento japonês, por exemplo. Talvez seja verdade.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Entre princípios e conseqüências: Bonhoeffer e Sen

Quando Dietrich Bonhoeffer, pastor e teólogo alemão na época da II Guerra, decidiu fazer parte da conspiração contra a vida de Hitler, ele talvez tenha pensado diversas vezes se fizera a coisa certa. Entretanto, ante as enormes atrocidades cometidas pelo nazismo e o silêncio de boa parte das igrejas, ele tinha que tomar uma decisão. Atentar contra a vida de alguém, mesmo que fosse Hitler, seria ferir um princípio claramente expresso nos Dez Mandamentos, por exemplo. Ademais, mesmo a filosofia analítica kantiana consideraria isso uma quebra de um princípio básico: as pessoas não devem ser meios de se atingir algo mais, mas fins.

Com milhares de judeus sendo perseguidos e após ter fundado a Igreja Confessante, formada pelos cristãos contrários ao regime hitlerista, Bonhoeffer tomou sua decisão. Como sabemos, Hitler não foi morto por revoltosos e os conspiradores foram posteriormente descobertos. Bonhoeffer foi mandado para a prisão, onde escreveu diversas cartas, poemas e inclusive trechos que viriam a formar seu livro sobre ética. Dias antes da libertação da cidade em que se encontrava preso, um dos maiores teólogos e mártires do século 20 foi morto pelos nazistas.

Em seu livro “Ética”, a principal conclusão é a seguinte: não podemos simplesmente basear nossa ética somente em conseqüências, como faz o utilitarismo. No entanto, os dilemas de uma ética de princípios são claramente identificados na decisão de tentar ou não matar Hitler. Para Bonhoeffer, é preciso deixar algum espaço na ética para Deus. Ambos os extremos são equivocados.

Recorrer a Deus é bom (na minha opinião), mas mesmo apenas racionalmente é possível justificar a inadequação de qualquer ética puramente baseada em princípios ou somente baseada em conseqüências. Por que afinal certos princípios devem ter prioridade absoluta quando confrontados com questões de vida ou morte? Mesmo na branda versão liberal de justiça escrita por Rawls, temos a prioridade da liberdade. Esta e versões mais extremas como o libertarianismo (perdão pelo neologismo) negligenciam as conseqüências em última instância. Mesmo que afirme-se que adotar os princípios libertários seja conseqüencialmente benéfico, na hora de julgar um estado de coisas em que no limite tenha-se que escolher entre o princípio ou a conseqüência, a decisão será favorável ao princípio. Por outro lado, o utilitarismo é absolutamente conseqüencialista e vai sempre ignorar direitos, por exemplo. Se para atingir um determinado fim for necessário passar por cima de alguns direitos básicos, não há problema, seja lá qual for o fim.

Em situações conflitantes entre meios e fins, é preciso uma outra resposta ética. Toda essa argumentação baseia-se principalmente nas contribuições de Amartya Sen, o qual tenta fornecer uma resposta. De qualquer forma, o problema está bastante claro e, certamente, precisamos de outra resposta.