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sábado, 17 de novembro de 2007

Instituições e educação - parte IV

Diego disse: A questão então é: se os gastos hoje com ensino superior são conseqüência do excesso de poder nas mãos das elites, não seria de se esperar que a "esquerda" se posicionasse contra isso? Eu não entendo... Mas me parece que o poder da elite talvez não seja a melhor explicação para o que acontece (ou então não a principal).

Continuo sustentando que a falta de voz dos mais pobres devido à desigualdade na distribuição de poder político tem papel fundamental. Diego assumiu que a esquerda representa de fato as camadas mais pobres. No Brasil, onde a esquerda defende o ensino superior público com unhas e dentes, a esquerda representa muito debilmente as camadas pobres na minha opinião (a direita menos ainda obviamente). O maior partido de esquerda brasileiro, o PT, representa muito mais a classe média do que os verdadeiramente pobres. Isso é evidente pelas próprias bandeiras que defendem. Afinal, qual é o interesse do pobre na universidade pública? Só haveria interesse do pobre na universidade do governo caso ele raciocinasse através da lógica do custo de oportunidade e, nesse caso, ele seria contra a universidade pública.

Thiago disse: [...] ninguém que deseja ganhar uma eleição vai correr o risco de desagradar a classe média (que é o estrato mais baixo que tem possibilidade de cursar uma universidade). A solução do discurso político (de esquerda e de direita) é pregar o aumento de recursos generalizado para a educação, beneficiando ensino básico e superior.
Realmente parece haver um jogo de poder, mas pode ser que ele esteja não apenas refletido em um possível egoísmo da elite. Talvez ele reflita o custo político de se adotar medidas que privilegiem um estrato educacional em detrimento de outro.

De fato, retirar recursos da universidade pública gera problemas eleitorais. É só pensarmos no “Teorema do Eleitor Mediano”. Contudo, o alto custo político de se adotar medidas que desfavoreçam a classe média reflete exatamente o desproporcional poder político dos estratos médio e alto em relação aos pobres. Isso é egoísmo da elite (e não podemos esperar outra coisa). Lembrando que desigualdade de recursos está fortemente correlacionado com desigualdade de poder político. O ideal é que todos sejam da elite, ou seja, que não haja elite política efetiva.

Richard disse: se educação primaria tem um alto retorno, porque os pais não investem na educação dos filhos? Ou seja, porque o próprio mercado não providencia esses investimentos?

É possível que o mercado pudesse diminuir um pouco o problema do mal-direcionado. No entanto, o governo pode resolver muitos problemas de ação coletiva e a evidência histórica mostra que o governo pode sim, desde que o poder político esteja distribuído mais igualitariamente, fazer os investimentos corretos. Vide Estados Unidos e Canadá (Engerman & Sokoloff, 2002; Mariscal & Sokoloff, 2000). Como diz Buchanan, bens públicos ou coletivos são sempre um problema.

Richard disse: Vale lembrar também que nada adianta investimento em educação por si só.

Pensando exclusivamente na alocação, tens toda razão. Não fossem os problemas de ação coletiva e a noção de igualdade de oportunidades, concordaria contigo. Mas além disso, temos o fato cabal de que educação não tem apenas valor instrumental no meu juízo de valor. E há cada vez mais um consenso de que a educação tem valor intrínseco – seria uma functioning para Sen e é o que está por trás da idéia de desenvolvimento humano.

5 comentários:

Diego G. Brandao disse...

Eae Thomas!

Eu chutaria que os pobres sao a favor de gastos altos com ensino superior, mas tudo bem...

Teh mais!

Thomas H. Kang disse...

Mesmo que isso seja verdade, será que os partidos de esquerda são a favor de gastos altos com ensino superior devido à opinião dos pobres em relação a isso?

E se realmente forem, temos algum problema de racionalidade limitada...

Thiago F. Andreis disse...

Olá!
Posso até concordar contigo, mas infelizmente it's not gonna happen...
A ordem política acaba muitas vezes subvertendo a lógica econômica. Os trabalhos econômicos expõem seus argumentos no plano do dever-ser (e não poderia ser diferente), mas estes estudos e conclusões são muito difíceis de serem implementados.
As estruturas são difíceis de serem trnasformadas..
Abraço!

Thomas H. Kang disse...

De fato, reverter estruturas de poder é algo complicadíssimo. Mais do que pensando em ações práticas, estava tentando constatar o que ocorre na minha interpretação. Se pensarmos em ações práticas, temos diversas opções: reformas institucionais, revoluções, liberalização - dependendo da opção política da pessoa. Na minha singela opinião, algumas reformas institucionais podem melhorar um pouquinho a situação. É só pensarmos que isso já melhorou bastante apenas com o sufrágio universal a partir de 1988, pois já deu alguma voz às camadas mais pobres.

Richard disse...

Thomas, ia escrever um longo comentário sobre sua resposta aqui, mas ficou longo demais e acabei fazendo um post no meu blog.. http://depositode.blogspot.com/2007/11/comentrios-sobre-o-post-instituies-e.html

Além disso quero vender anúncios então preciso de visitas.... hehehhe

Falow ae, bom feriado p/ vc