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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Rawls e religião


Passeando pela rede, deparei-me com escritos sobre a relação entre o filósofo John Rawls e a religião. Um excelente artigo sobre o tema, de autoria de dois filósofos muito conhecidos, Joshua Cohen e Thomas Nagel, mostra que algumas das concepções de Rawls são originadas de seu passado religioso. Segundo o artigo:


he [Rawls] “became deeply concerned with theology and its doctrines”, and considered attending a seminary to study for the Episcopal priesthood. But he decided to enlist in the army instead, “as so many of my friends and classmates were doing”. By June of 1945, he had abandoned his orthodox Christian beliefs.



Muito do que Rawls pensou posteriormente tem ligação com seus pensamentos cristãos na juventude. A sua rejeição do mérito como requisito de justiça tem certamente origem na idéia de graça, tão defendida por Paulo, Agostinho e Lutero. É provável que daí também se origine o igualitarismo de Rawls:



“There is no merit before God. Nor should there be merit before Him. True community does not count the merits of its members. Merit is a concept rooted in sin, and well disposed of”. This claim is theological, associated with an interpretation of divine grace.



Um outro ponto é sua rejeição a concepções de justiça baseadas puramente nos fins, ignorando os meios para se chegar nesses fins desejados. Perfeccionismo e utilitarismo, bastante criticados no seu famoso A Theory of Justice (1971), são exemplos de consequencialismo extremo do tipo. Isso teria relação com a concepção religiosa de Rawls, em que o relacionamento com Deus na religião (sujeito) é essencial, ao invés de uma concepção que torna Deus um objeto.



[Rawls'] thesis criticizes the infection of Christianity, through Augustine and Aquinas, by the ethical conceptions of Plato and Aristotle, according to which ethics is concerned not with interpersonal relations but with the pursuit of the good by each individual separately. In its hellenized form, Christianity treats God as the supreme object of desire. Rawls objects that this misses “the spiritual and personal element which forms the deep inner core of the universe”.



Foi para mim uma descoberta bem interessante. Embora Rawls tenha abandonado a ortodoxia cristã após a II Guerra, é curioso que eu poderia concordar hoje com o pensamento do jovem Rawls. De qualquer forma, vale a pena ler o artigo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Feliz Natal e Ano Novo

Antes tarde do que nunca. Deixo aos leitores do blog um Feliz Natal e Ano Novo.
Já adianto também a epígrafe da minha dissertação, que se Deus quiser, será entregue na primeira semana de fevereiro. O título provável é "Instituições, Voz Política (ou Poder Político) e Atraso Educacional no Brasil, 1930 - 1964". Aí vai:

"Em minha opinião, nenhum pecado exterior

pesa tanto sobre o mundo perante Deus [...]

do que justamente o pecado que cometemos

contra as crianças, quando não as educamos”

Martin Luther, 1524

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Mais sobre Samuelson


Ainda estou falando de Samuelson, falecido semana passada. Acho que ele merece mais menções. Em termos teóricos, é o economista mais importante do século XX na minha opinião. Mais do que Keynes ou Friedman, que certamente foram os mais influentes. Esses dois motivaram quase toda a pesquisa que veio depois deles, mas certamente Samuelson foi o que mais contribuiu diretamente para o avanço da teoria econômica (Ricardo Leal novamente recebe os créditos por discutir isso comigo).


Aqui, mais um artigo do Paul Krugman no Voxeu.com sobre as contribuições de Samuelson, chamando atenção para oito contribuições fundamentais do economista. Novamente, Krugman escreve algo mais no final sobre intervenção do governo, como sempre. Mas mesmo os mais conservadores deveriam ler e entender o que significou Samuelson para a teoria.

Quem estudou economia deve-se lembrar de coisas como modelo Stolper-Samuelson, bens públicos, preferência revelada, função de bem-estar Bergson-Samuelson, entre outros. Alguns podem ter ouvido falar dos debates entre ele e Friedman, assim como a controvérsia do capital (ou controvérsia de Cambridge).


Para quem quer saber mais, o MIT disponibilizou uma série de links sobre Samuelson.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Falecimento de Samuelson


Meu amigo Ricardo Leal acaba de me informar do falecimento de Paul Samuelson.


Se pudéssemos falar de duas pessoas responsáveis pelo que a ciência econômica é hoje, elas seriam Paul Samuelson e Kenneth Arrow (que ainda está vivo).


No obituário do NY Times, temos uma reportagem sobre ele. No site do Prêmio Nobel, podemos encontrar muita coisa sobre Samuelson clicando aqui. Ainda não apareceu nada no site do departamento de Economia do MIT, onde Samuelson lecionou por muito tempo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Gestação

Minha filha, a dissertação, em gestação há quase 3 anos, tem agora 117 páginas. Não devem ser incluídos aí conclusão e bibliografia, além de faltar boa parte da análise econométrica.

Outras crianças já nasceram da geração de 2007 do mestrado no IPE-USP. Os temas variam entre macroeconomia de curto prazo (do nosso amigo Acauã), passando por economia ecológica (Jesus, não o Cristo), chegando até a matematização na ciência econômica (do nosso amigo Maraca). Também temos os contadores de crianças na escola (brincadeira, trabalho do Pisca), contratos (Eric) e infra-estrutura no Brasil (Tiagão). Não sei bem como ficaram os trabalhos de Bruno (Macro) e Penin (certamente tem algum Schumpeter no meio). [Se cometi algum deslize, me avisem, colegas].

Em gestação, temos pelo menos as crianças de Thomas [eu] (história econômica da educação), Ana (economia regional), Raphael (macroeconomia com toques keynesianos) e Leandro (vendido ao mercado financeiro, hehe). Nossa gestação teve que ser estendida. Pedidos de prorrogação de prazo são muito importantes pra alguns, dependendo das vicissitudes da vida de um mestrando.

Na segunda, vou pra São Paulo pedir mais 30 dias de prazo para que eu possa entregar a dissertação em fevereiro. Janeiro será um mês excelente na quente Porto Alegre, enquanto as garotas gaúchas estarão na plataforma de Atlântida ou nas praias catarinenses.

Mas a criança virá. Entre tubos e aparelhos talvez. Acho que sobreviverá.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Marginalismo e laissez-faire

Backhouse deixa claro que a conexão que costumamos fazer entre marginalismo e laissez-faire não faz sentido. Nada como um pesquisador sério de HPE para nos explicar:

"although Jevons started his career a supporter of laissez-faire, by his last book [...] he had arrived at a position where he [...] found more and more contexts where state intervention was justified [...]: public health, working conditions, education, transport, and many others. Marshall, the dominant economist of the following generation, saw a smaller role for state intervention than did Jevons. However, he still assigned a significative role to the state, going along with the wider movement towards support for progressive taxation [...]. Though his socialism was somwhat limited, Walras even described himself as a socialist. If there was a causal link between socialism and marginalism, therefore, it did not involve marginalism being adopted as a way of defending laissez-faire against socialist criticism. Marginalism was used to argue in favour of social reform" (p. 270).

Backhouse, Roger (2002). The Penguin History of Economics. Penguin: London.

domingo, 29 de novembro de 2009

Manifestações politicamente incorretas (2)

O título pode até ser um pouco injusto. Naquela época, não era politicamente incorreto dizer isso. Mas hoje em dia, esses termos não seriam bem recebidos. Na Estatística de Instrução de 1916, vemos a seguinte declaração:

Ao passo que os poderes publicos assim proviam a instrucção superior e a esthetica, não descuravam tambem o ensino excepcional, destinado a individuos anormaes. (p. XXXV)

Conheço muita gente que se encaixa no que hoje considero anormal.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Crise econômica e teologia da prosperidade

Agradeço ao DeGustibus pelo link de uma reportagem sobre uma possível ligação entre a teologia da prosperidade (coisa a que tenho verdadeiro horror) e a atual crise econômica originida dos subprimes no mercado imobiliário norte-americano. A reportagem pode ser diretamente encontrada clicando aqui.

Sempre lembrando como Deus sempre se coloca ao lado dos mais pobres em diversas passagens da Bíblia, desde os profetas denunciando injustiças até o posicionamento claro de Jesus sobre o tema, inclusive falando do "perigo das riquezas".

terça-feira, 24 de novembro de 2009

DeLong na UFRGS

Em comemoração aos 100 anos da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, tivemos a presença de J. Bradford deLong aqui na UFRGS, professor do Departamento de Economia da University of California at Berkeley. DeLong é proeminente no debate sobre a atual crise econômica, propondo, a exemplo de Paul Krugman, maior intervenção e regulação governamentais para solucioná-la.

O interessante de DeLong é sua produção na área de história macroeconômica. Em sua exposição, DeLong explicou do caso que levou o Banco da Inglaterra a ser um emprestador de última instância com a iminente ameaça de falência de um importante banco em 1823. Mas além disso, mostrou as diferenças entre a Era Greenspan e as crises econômicas do passado, mostrando que as recuperações eram mais rápidas antes (pelo menos foi o que eu entendi após passar o dia inteiro estudando em um café).

Momento interessante da palestra foi ver o professor Ferrari da UFRGS cobrar menção sobre Minsky (aproveitando para identificar-se como pós-keynesiano). DeLong respondeu que preferia a abordagem histórica de Kindleberger acerca de crises e que Minsky lhe dava sono, mas afirmou que ambos têm pontos em comum na interpretação da atual crise.

Mas não houve nada de realmente novo na palestra. Como foi de graça, valeu a pena. Talvez nosso ex-colega Tarso, estudante de Berkeley que provavelmente vai assistir as aulas de história econômica com DeLong, possa nos dizer algo mais em alguns meses.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Manifestações politicamente incorretas no século XIX

Uma proposta em 1823 relativa à criação de uma universidade em São Paulo agitava os políticos. Um dos debates era a localização. O deputado José da Silva Lisboa defendia a localização da universidade no Rio de Janeiro porque:

"é reconhecido que o dialeto de São Paulo é o mais notável; a mocidade brasileira fazendo ali seus estudos contrairia pronúncia mui desagradável"

Reclamou, com razão, o deputado Pedro José da Costa Barros, do Ceará, que mal havia professores para primeiras letras e já estava se pensando em criar uma universidade. Provavelmente foi ignorado.

Mas depois surgiu uma proposta de criação também de uma faculdade na Bahia. Ao que objetou o deputado Antonio Carlos de Andrade Machado, paulista, acerca da Bahia como sede, uma vez que a Bahia seria:

"a segunda babilônia do Brasil; [onde] as distrações são infinitas e também o caminho da corrução. É uma cloaca de vícios..."

Bons tempos em que as pessoas eram politicamente corretas [ironia]. E eu tentando estudar financiamento da educação na história...


Fonte: Moacyr, P (1936) "A Instrução e o Império" apud Melchior, J. C. A. (1981) "A política de vinculação de recursos públicos e o financiamento da educação no Brasil", p. 28-30 nota.

Planos para 2012?

Apesar das previsões apocalípticas do calendário maia, quem tiver planos para uma sessão no World Economic History Congresss 2012 em Stellenbosch, África do Sul, já pode fazer sua proposta aqui.

domingo, 8 de novembro de 2009

Ética e história perdidas no pensamento econômico

Embora Jevons e Marshall tenham difundido com sucesso o uso do cálculo diferencial na economia, isso não significou que não tenham havido discussões sobre a questão da história e da ética e sua relação com a economia na Inglaterra.

Backhouse, em seu Penguin History of Economics, menciona economistas como Thomas Leslie (1827-1982), que, influenciado pela Escola Histórica Alemã, propôs métodos mais indutivos, aparentemente com o mesmo excesso dos germânicos. Mas pelo menos, foi um inglês que reconheceu a importância das instituições (assim como os velhos históricos alemães como List e mesmo Adam Smith já reconhecia).

Mas mais importante que ele foi Arnold Tonybee (1852-1883), que morreu com apenas 31 anos. Baseado em Oxford, rejeitava que a ética permanecesse separada da economia (principalmente em questões distributivas) e afirmou a autonomia da história econômica e social de outras formas de história. Ficou conhecido por ter popularizado o termo "Revolução Industrial".

Outro que acabamos não ouvindo falar muito em nossos cursos de HPE é John Bates Clark. O norte-americano é conhecido por ser o nome da medalha concedida a jovens economistas promissores (com menos de 40 anos). Também advogou a importância da ética, embora tenha proposto, como Jevons e Menger, uma teoria de utilidade marginal, álém de ter defendido o uso de análises estáticas. Muito próximo da convergência que hoje vemos de teoria formal e instituições.

É bom sabermos que algumas idéias que novamente estão em voga como a análise institucional, não só na história (North) como também na firma (Oliver Williamson), já estavam presentes muito anteriormente. A ética (hoje com Amartya Sen e outros) também estava presente, paralelamente ao desenvolvimento dos modernos métodos matemáticos que viriam em seguida.

Mas no fundo, como Sen e outros reconhecem, já estava tudo em Adam Smith. Não é a toa que, como dizia o prof. Eugênio Lagemann nas minhas aulas de história econômica, o velho Adão é nosso pai.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Desigualdade ou pobreza crônica?

Encontrei o Prof. Sabino recentemente em minhas andanças pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, onde fiz minha graduação. Leitor assíduo de diversos blogs, Sabino comentou sobre a minha pergunta do post anterior: por que afinal somos desiguais?

Há alguns que defendem que apenas a pobreza crônica deva ser combatida. Podemos argumentar moralmente com relativa facilidade em favor disso. Entretanto, defender algum tipo de igualdade já é mais complicado. Em primeiro lugar, precisamos saber de que tipo de igualdade estamos falando: a clássica pergunta do primeiro capítulo de Desigualdade Reexaminada: equality of what?

Igualdade de renda é complicado em diversos aspectos. Além de desconsiderar diferenças de necessidade (pessoas muito doentes, por exemplo, precisam de mais renda), também desconsidera diferenças de capacidade (o que para os mais meritocráticos, é terrível). Ademais, há o problema da eliminação dos incentivos, quando utilizamos o pressuposto de que pessoas geralmente olham para o próprio umbigo - o que não significa que o comportamento ético seja necessariamente desconsiderado. É por essa compreensão que Rawls não elimina as desigualdades em sua idéia de sociedade justa, mantendo os incentivos individuais, mas mostrando suas preocupações igualitárias ao defender os bens primários e o Princípio da Diferença como forma de dirimir as desigualdades.

Se formos até Sen, a idéia dele é equalização e expansão de capacitações, o que respeita as diferenças de necessidade das pessoas. As pessoas azaradas que acabam em situação ruim na loteria da vida, nascendo com alguma deficiência, por exemplo, tem suas situações diretamente consideradas. Sen e Rawls vão além da igualdade formal de oportunidades.

Igualdade de certos tipos para mim continua na agenda e combate à pobreza crônica também. De fato, não defendo a igualdade de renda como objetivo da política pública, mas se a desigualdade de renda é muito acentuada, isso pode gerar desigualdades em outros aspectos (oportunidades, por exemplo) e mesmo pobreza crônica. Ademais, não podemos desvincular desigualdade e pobreza das questões de poder político.

Apenas algumas idéias jogadas sobre o tema de forma confusa e ligeiramente desconexa.

domingo, 25 de outubro de 2009

E a desigualdade latino-americana?

O convite para o concerto de piano na Sala São Paulo foi o coroamento de uma semana de palestras com Jeff Williamson, professor emérito de Harvard. Por conta da impossibilidade de Renato Colistete e sua cônjuge de irem ao evento de música clássica, o prêmio, que incluía um fino jantar, parou nas minhas mãos e nas da Molly, doutoranda da UCLA fazendo seu trabalho de campo por aqui.

O concerto foi merecido para Jeff, que fez uma excelente apresentação de seu paper no seminário de sexta-feira. O polêmico ensaio sobre a desigualdade latino-americana desde a época da colonização levou a muitos questionamentos por parte dos professores e alunos. Para Williamson, mais do que devido às instituições originadas do período colonial, a desigualdade é fruto do século 19 e 20. Jeff fez uma crítica à abordagem de Engerman e Sokoloff, o que obrigou-me a levantar a mão e protestar, assim como já tinha feito o Prof. Mauro. De qualquer forma, as palestras do Jeff foram muito instigantes, incluindo esse último seminário.

O curso foi um sucesso, contando com presença maciça de alunos da graduação e de muitos alunos da pós-graduação, além de professores. E deixou na cabeça de alguns a pergunta sobre as origens da nossa desigualdade. Por que afinal somos desiguais? E o que então deve ser corrigido? Perguntas que talvez fiquem sem uma resposta conclusiva por um bom tempo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Impressões sobre as palestras com Jeff Williamson

Jeff Williamson e sua mulher Nancy assitiram um samba conosco em um bar na Vila Madalena. Além do casal ser bem-humorado, pagaram todas as despesas (incluindo táxi e bebidas). Das cervejas que experimentamos, ele gostou bastante da Bohemia.

Mas indo para o assunto principal, o curso do professor emérito de Harvard está sendo muito interessante. Na terça-feira, Jeff discutiu globalização e desigualdade, tentando mostrar que grande parte da queda da desigualdade na Inglaterra a partir de meados do século XVIII não teria se devido apenas ao aumento da produtividade causado pela Revolução Industrial. Um fator importante também teria sido a abertura comercial, aumentado a taxa salários-renda da terra: uma conclusão de modelos como Stolper-Samuelson. Aqui na periferia, teria ocorrido o oposto.

Na quarta, discutimos muitas questões. Saí confuso em relação aos efeitos de protecionismo, tarifas e livre comércio. Há muito para ser estudado ainda em relação ao tema. Resta saber o que Jeff Williamson vai falar na sexta sobre a desigualdade latino-americana. Como sempre, ele vai questionar o que ele considera exageros da literatura institucional e chamar atenção para questões mais básicas como preços, oferta, demanda, etc.

Todos comentam como Jeff Williamson é tranquilo: sem arrogâncias apesar de todo o reconhecimento que tem. Em uma conversa ontem à tarde com os alunos, ouviu todos e comentou a pesquisa que cada um está fazendo.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O outro Williamson na FEA

Jeff Williamson na FEA semana que vem. Professor emérito de Harvard e entidade na área de história econômica. Costuma usar modelos de equilíbrio geral computável, teoria de comércio internacional e coisas do gênero em história. Não preciso dizer mais nada. Clique na figura.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Finalmente o Oliver Williamson

Em primeiro lugar, Feliz Dia das Crianças.

Talvez o Williamson não tivesse tantas esperanças de ganhar o Nobel algum dia. Douglass North, representante da outra vertente da Nova Economia Institucional ganhou em 1993 com Robert Fogel. Em 2007, a vertente de teoria dos contratos distinta levou o Nobel com caras como Roger Myerson, por exemplo. Mas Oliver Williamson foi finalmente lembrado. Acredito que muitos achavam que ele merecia, mas que não levaria. Levou.

Quem talvez não fosse esperada como vencedora é Elinor Ostrom. Sua contribuição para temas como governança e ação coletiva é interessante ao que parece. Confesso que li apenas um ou dois papers de Ostrom. Particularmente lembro de um bem didático e fácil da Journal of Economic Perspectives do verão de 1990.

Como bem disse o Ricardo Leal, em seu comentário no último post, poucos esperavam esse resultado. Eu confesso que gostei da Economia Institucional ter sido novamente agraciada, embora eu seja uma pessoa mais ligada à vertente do North.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Apostas para o Nobel

Segunda-feira sai o vencedor do Nobel em Economia 2009. Mankiw já postou as cotações das bolsas de apostas. Aposto em Paul Romer. O Hansen só não ganha porque é temperamental provavelmente.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Educação no Brasil e História Econômica

Finalmente, a educação está tendo maior destaque na história econômica brasileira. Aldo Musacchio, mexicano e professor da Harvard Business School, está no Brasil e resolveu apresentar um seminário na USP - que será realizado nesta sexta na FEA. O título do artigo, ainda preliminar, é "Can Endowments Explain Regional Inequality? State Governments and the Provision of Public Goods in Brazil, 1889-1930".

Conheci Musacchio em Utrecht e ele se mostrou um pesquisador bastante simpático e disposto a fazer contatos. Já li seu paper, que está muito interessante. Ele também leu o meu e foi a mais dura crítica a meu paper certamente - o que ajuda a melhorarmos o paper. Infelizmente, devido à minha recente mudança para Porto Alegre, não poderei estar no seminário. Mas quem puder, apareça. Musacchio tem um livro e um premiado paper sobre financiamento no Brasil entre o final do século XIX e o início do século XX (o link do paper só vai funcionar se você estiver conectado a um VPN da sua universidade).

Ademais, vi no site da ANPEC que o trabalho de Bernardo Wjuninski, da LSE, foi selecionado para o Encontro Nacional de Economia. O paper trata da economia política da educação no Brasil - uma perspectiva não muito distante da minha. Ainda não li esse paper do Bernardo, embora tenhamos já trocado algumas figurinhas.

São boas notícias.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Voltando

Após um mês calado, volto a me manifestar por meio deste blog.

Quando alguém me pergunta o que faço e respondo que sou mestrando, a reação de muitos interlocutores é: "Mas você então estuda? Não trabalha?". Para provar que ser mestrando pode ser bem complicado, tive problemas sérios de stress que exigiram a interrupção de minhas atividades por algumas semanas. Ontem entreguei meus papéis para pedir prorrogação de prazo para depositar minha dissertação, assim como muitos colegas meus também farão.

Aos leitores deste blog que farão as provas da ANPEC para admissão em um mestrado em Economia, desejo sorte e muita calma.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Novo secretário-geral do CMI

O Conselho Mundial de Igrejas elegeu seu novo secretário-geral: Olav Fyske Tveit (Igreja da Noruega). Tveit é proeminente em uma discussão entre as igrejas acerca do tema globalização. A Igreja da Noruega tem defendido uma posição crítica a alguns aspectos da globalização, sem, no entanto, propor medidas revolucionárias ou a condenação do mercado, como proposto por documento anterior do CMI.
***
Por motivos pessoais, o ritmo de postagem desse blog vai diminuir. Estou em Porto Alegre para resolver esses problemas com a companhia de minha família. Espero em breve estar apto a postar com a freqüência usual.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Alguém sabe definir "elite"?

Em minha dissertação, tenho falado bastante dos termos "política educacional elitista", "elites" e coisas do tipo para dizer que a educação primária não foi prioridade ao longo da história. Aí o orientador pediu pra eu definir "elite".
Vocês já devem estar enjoados do Acemoglu (e do Robinson, seu co-autor) neste blog, principalmente nos últimos dias. Mas é deles uma definição que achei, um tanto quanto vaga e imprecisa (como discutia com seu Guilherme Stein dos Rabiscos). Afinal, quem é a elite? Aí vai a resposta deles:

This depends to some extent on context and the complex way in which political identities form in different societies. In many cases, it is useful to think of the elite as being the relatively rich in society, as was the case in nineteenth-century Britain and Argentina. However, this is not always the case; for instance, in South Africa, the elites were the whites and, in many African countries, the elites are associated with a particular ethnic group. In other societies, such as Argentina during some periods, the elite is the military.
It may not be a coincidence that in many situations the elite and the rich coincide. In some cases, those who are initially rich may use their resources to attain power, perhaps by bribing the military or other politicians. In other circumstances, power may be attained by people who are not initially rich. Nevertheless, once attained, political power can be used to acquire income and wealth so that those with power naturally tend to become rich. In either case, there is a close association between the elite and the rich.

Acemoglu, D. and Robinson, J. (2006) Economic Origins of Dictatorship and Democracy. Cambridge: Cambridge University Press, p. 15-16.


Alguém tem uma definição melhor? Claro, sempre tem o velho Marx falando em classe capitalista detentora dos meios de produção, mas essa categoria não serve para política educacional.

Desculpas por não traduzir o texto. Blogs devem facilitar para o leitor, mas, na academia, não tem jeito. É inglês mesmo. Assim, acho que estou sendo pedagógico.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Colin Lewis na FEA


MINI CURSO “LATIN AMERICAN DEVELOPMENT IN HISTORICAL PERSPECTIVE”
De 31 de agosto a 3 de setembro, às 11h30, FEA-USP
Participante: Prof. Colin Lewis (London School of Economics)
Responsável: Prof. Dr. Renato Colistete
Realização: EAE
Inf.: 3091-5802

Imperdível.

Repercussões de Utrecht

Recebi e-mail de Aldo Musacchio, professor da Harvard Business School. Ele criticou meu paper da introdução à conclusão, mas numa boa. Faz parte mesmo. É interessante que o pessoal de história econômica mais antigo costuma gostar do paper, ao passo que os mais novos, que preferem uma estrutura mais enxuta de paper (de preferência com a utilização de variáveis instrumentais), acham o paper pouco claro.

Joesph Love mostrou ser um cara bastante solícito via e-mail. Enviou-me uma referência bem recente sobre educação no governo Vargas. Disse que a USP deveria arranjar um se não tivesse uma cópia.

Fiquei impressionado que todos esses caras muito conhecidos que mencionei são solícitos e muito menos arrogantes do que poderiam ser - eu, às vezes, devo ser mais arrogante que eles. Love é um senhor muito simpático, Peter Lindert é muito tranqüilo. Jeff Williamson prefere que o chamem de Jeff. Luis Bértola também conversa e faz piadas. Bill Summerhill não estava lá, mas sabemos que ele é muito legal. Enquanto isso, um bando de pseudo-intelectuais da academia brasileira anda com pose de rei, apenas por terem feitos contribuições marginais - quando fizeram alguma. Às vezes criaram seitas acadêmicas que mais atrasam do que ajudam.

***

O próximo World Economic History Congress será em 2012 em Stellenbosch, África do Sul. Um vídeo sobre esse evento foi mostrado na sessão final em Utrecht, após o debate Mokyr-Allen. Uma produção impressionante, com direito a Arcebispo Tutu falando da importância da história econômica e convidando todos a participar.


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Por que a Revolução Industrial foi na Inglaterra?

Foi essa a pergunta que direcionou o debate de encerramento do World Economic History Congress 2009 entre Bob Allen e Joel Mokyr. O primeiro é professor em Oxford, enquanto o segundo em Northwestern: ambos brilhantes historiadores econômicos com trabalhos sobre a Revolução Industrial. Novamente, o evento foi na Dom Kerk, a velha igreja da cidade construída no século XIII (acho eu).

Bob Allen lançou um livro recentemente sobre o tema, chamado "The British Industrial Revolution in Global Perspective", onde defende a tese de que a Inglaterra foi a pioneira por dois motivos fundamentais: o preço do carvão era mais baixo e os salários eram mais altos, levando a investimentos intensivos em capital. Tudo isso tem ver, é claro, com instituições e capital humano também.

Mokyr, por outro lado, com sua retórica, tem outros livros sobre o assunto, como este e este novo. Para Mokyr, a questão mais importante é por que teria sido na Europa - um dos países europeus chegaria de qualquer forma. O fato de ter sido a Inglaterra é importante, mas poderia ter ocorrido em outros países. As condições levantadas por Allen não eram fundamentais, não impediriam que a Revolução ocorresse em outros países europeus como Holanda, quem sabe. No final das contas, Mokyr levantou o aspecto das idéias iluministas, que certamente favoreceram a invenção. A Revolução Industrial teria sido também resultado disso e não tanto de condições relacionadas a carvão e salários - pelo menos não com a importância dada por Allen.

Allen foi mais conciso e apontou fatores causais mais claro, enquanto que Mokyr, embora tenha feito um bom discurso, não deixou claro quais teriam sido os fatores fundamentais. É difícil dizer quem tem razão. Só lendo os livros pra saber. Foi um belo debate para finalizar uma bem-sucedida semana de congresso.

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Na manhã de sexta, antes do debate, consegui ainda bater um papo sério de 5 minutos com o Peter Lindert acerca do meu trabalho. Disse pra eu estender meu período até o Bolsa Família. Repliquei que não daria tempo devido ao prazo da minha dissertação, mas ele respondeu que é só eu tomar mais café. Resolvi não comentar sobre minha gastrite.


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Mais sobre Utrecht

Lugar feio que a gente está em Utrecht para o World Economic History Congress, não? Esse é o pátio do que chamamos de Academy Hall, ao lado da Dom Kirke, a gigantesca igreja da cidade.

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O uruguaio Luís Bértola me viu e disse em português: "Ô cara!". Aprocheguei-me e perguntei se tinha pegado pesado na pergunta. "Não - é assim que se avança", disse ele, "tu sabe que metade dos uruguaios querem ser argentinos, a outra metade quer ser brasileira. Eu faço parte do grupo dos que querem ser brasileiros". Pelo menos foi mais ou menos isso. Gente boa ele.

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Muitos aqui tem expressado seu desejo de fazer um pós-doutorado em Utrecht. Cidade muito agradável, com muitos bares e restaurantes a beira de canais. Poucos carros, muitas bicicletas. Ademais, é perto de Amsterdam, caso seja necessário ir para a cidade grande. Entre 20 e 30 minutos de trem.

Até agora, só tenho elogios à organização holandesa. Até agora não houve maiores falhas, apesar do sonífero calor que tem feito dentro de algumas das salas lotadas.

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Eu vi Angus Maddison: o homem que compilou dados de PIB pra todos os lugares em todos os tempos (claro que com problemas). Tá bem velhinho, andando lentamente e de cachecol enquanto a temperatura está por volta de 30 graus. No seminário em que esteve apresentando, mal dava pra ouvir sua voz. Nessa sessão, ele basicamente foi pessimista sobre o cenário da economia em 2030 (era esse o objetivo da sessão, fazer profecias para 2030). Os outros também foram em geral, mas nem tanto.

Infelizmente, Kevin O'Rourke não apareceu, mas Leandro Prados falou por ele. Nick Crafts também não esteve, mas Peter Lindert, que não estava previsto, fez suas considerações. Também estavam Jeff Williamson, Debin Ma, Paul Rhode, entre outros - conhecidos historiadores econômicos. Mas tinha muita especulação, não foi uma sessão tão proveitosa.

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Ontem conheci o Colin Lewis finalmente, historiador econômico especializado em América Latina da LSE. Além disso, fui também para uma sessão sobre Índia, em que havia um bom trabalho sobre financiamento da educação na Índia. Vou manter contato com a moça, que publicou na edição de março desse ano na Journal of Economic History sobre a educação primária no país em questão.




segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O dia em que fiz Acemoglu gargalhar

Iniciou hoje o World Economic History Congress 2009. Cerca de 1200 participantes em Utrecht, cidade agradável com seus canais e particular arquitetura. Na abertura, a palestra de Daron Acemoglu do MIT sobre história e desenvolvimento na igreja da cidade. Um resumo muito bom de boa parte de seus papers, misturando seus trabalhos de mercado de trabalho e tecnologia com seus trabalhos sobre instituições, poder político e desenvolvimento.

Na primeira seção da manhã, assisti uma seção de teses. Travei contato então com Aldo Musacchio, atualmente na Harvard Business School, que trabalha com Brasil e também está interessado em educação. Além disso, após eu fazer uma pergunta, o famoso historiador brasilianista Joseph Love percebeu que eu era brasileiro e, simpaticamente, veio falar comigo. Gente boa.

Na seção da tarde, teve o vice-presidential session, presidido por Jan Luiten Van Zanden, sobre desigualdade global no longo prazo. A sessão estava completamente cheia, uma vez que lá estavam na mesa também Jeffrey Williamson, Peter Lindert, Luis Bértola, Branko Milanovic e Daron Acemoglu. Na foto, vocês podem ver Bértola, Acemoglu e Lindert em primeira mão.

E então aconteceu. O uruguaio Bértola mencionou seu trabalho sobre a mensuração de desigualdade no Brasil, em que ele usa uns dados do Leo Monastério para o Rio Grande do Sul. Até aí tudo bem, mas ele tenta aplicar isso pra todo o Brasil, pelo que eu tinha entendido. Levantei e expressei minhas preocupações, que podem não parecer engraçadas, mas piada é questão de timing:

"You are using data from Monasterio, which is for a specific province, Rio Grande do Sul, and using this pattern to the whole country. The thing is that I am from Rio Grande do Sul, and we usually claim that we are different from the rest of the country, like Bavarians or... Catalunyians. Well... because of the different historical formation of Rio Grande do Sul. If you were using this data of Rio Grande do Sul for Uruguay, I would be feeling better with that, it would make more sense... at least we drink mate..."

Assim que eu falei do mate, o Acemoglu deu uma gargalhada.

Eu fiz Acemoglu dar uma risada alta e em público. Nunca escreverei papers como ele, mas, pelo menos ele riu da minha piada. Não esperava que um turco considerado o melhor economista da nova geração fosse gargalhar devido à minha piada dos pampas.

Eu tava bem de piada. Bati um papo com o Peter Lindert depois e fiz ele dar umas risadas. Não estava conseguindo falar muito seriamente. Vou tentar ser uma pessoa séria amanhã.

Posteriormente, vou ver se faço um resumo da palestra do Acemoglu.



sexta-feira, 31 de julho de 2009

Apresentação em Barcelona

Começaram hoje as apresentações dos papers da sessão sobre atraso latino-americano em Barcelona, como havia mencionado em posts anteriores. É uma preparação para a sessão de Utrecht na semana que vem.

Apresentei meu paper "Education, Political Power and Development in Brazil: 1930-1964" junto com outras duas pessoas na mesa: a Paola do Uruguai e Rolf Lüders do Chile. A primeira veio com um trabalho sobre características interessantes do gasto do governo no Uruguai em perspectiva histórica, enquanto que Lüders tinha um trabalho com bom embasamento teórico sobre o comércio de salitre.

Fiquei muito satisfeito que o meu paper gerou interesse da platéia, apesar da minha apresentação ter sido confusa no começo. Em particular, Jeffrey Williamson de Harvard veio no final falar comigo. Queria conversar comigo sobre a parte econométrica durante o almoço. Fiquei então conversando com ele enquanto comíamos: ele gostou bastante do assunto e me perguntou um pouco sobre a econometria. Achava que eu poderia procurar por relações não-lineares e fez também perguntas sobre a base de dados. Mais além, perguntou-me sobre minha origem e conversamos sobre São Paulo, uma vez que ele vem dar umas palestras em outubro na USP. Disse também pra eu conversar em Utrecht com o Peter Lindert, com quem já tenho mantido contato via e-mail.

Além disso, conheci muita gente legal (inclusive o Williamson: muito gente boa pra um cara que é muito famoso na história econômica). Acabo de voltar do jantar e um bom restaurante de Barcelona. Tudo pago pela organização.

sábado, 25 de julho de 2009

Viagem e publicação

Amanhã no final da tarde estarei indo pra Barcelona. Três dias de passeio, é verdade, mas depois dois dias de pre-meeting da sessão sobre atraso econômico latino-americano (Latin American Economic Backwardness: New Empirical Contributions) do World Economic History Congress 2009 na Universitat Pompeu Fabra. O programa do pre-meeting se encontra aqui.

Espero poder atualizar este blog a respeito desse evento e também sobre o evento principal em Utrecht.

***

Mandei minha primeira publicação garantida para o comitê editorial. Não é publicação acadêmica com referees e tudo o mais. É meu texto chamado "Christian ethics, development and economic crises: an ecumenical perspective", que usei em minha apresentação para o Grupo Assessor em Assuntos Econômicos 2009 do Conselho Mundial de Igrejas. Todos os textos lá apresentados serão organizados e lançados em um pequeno livro editado pelo próprio CMI. Já é um começo.


terça-feira, 21 de julho de 2009

Paper não aceito

A Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (ABPHE) realizará seu congresso anual em setembro próximo. Enviei trabalho que não foi aprovado. O mesmo trabalho, em sua versão em inglês, foi aceito para o World Economic History Congress 2009, como já mencionei em posts anteriores porque fico fazendo marketing pessoal.
Hipóteses:
1) o trabalho está ruim
2) o parecerista não gosta de econometria
3) o trabalho está ruim e o parecerista não gosta de econometria

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Férias na FEA-USP

O ambiente de férias na FEA-USP conta apenas com eventos, alunos procurando professores na última tentativa de não serem reprovados e, obviamente, pós-graduandos. Infelizmente, a biblioteca vai ficar fechada por algumas semanas nesse período de férias, o que é tão desastroso para o pós-graduando quanto o fechamento de um hospital é para a população. Por mais que eu goste das bibliotecárias, não posso deixar de fazer a crítica.

Pelo menos, algumas atividades acadêmicas estão ativas. Ocorreu nessa semana a Conferência Internacional de Insumo-Produto, com os principais acadêmicos da área. Ademais, na primeira semana de agosto, teremos o Simpósio Internacional de História do Pensamento Econômico, cujo foco será a integração da microeconomia com a macroeconomia em perspectiva histórica. Assunto interessante mesmo para os menos interessados em HPE, uma vez que se trata da história recente da disciplina, cujos reflexos são mais evidentes nos modelos macroeconômicos atualmente usados.

Enquanto os alunos da graduação não voltam, o bandejão faz uma comida melhor, as filas são menores e vemos alunos sentados nos gramados. Obviamente, esses útimos não estão terminando sua dissertação.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Utilitarismo e subjetivismo

Há pouco mais de um mês, fiz algumas perguntas a Eduardo Giannetti após uma palestra proferida por ele. Como eu disse em um post anterior, eu esgotei o pobre coitado. Minha pergunta pra ele foi sobre sua posição pessoal acerca do utilitarismo e da abordagem das capacitações. Ele evitou responder diretamente sua posição, mas depois de um tempo, disse que era muito crítico ao utilitarismo.

Em meus poucos estudos sobre justiça distributiva, lembro que classicamente a utilidade pode ser identificado com (a) prazer, (b) felicidade e (c) satisfação de desejo (esse argumento está bem claro em um clássico artigo de Amartya Sen chamado "Well-Being, Agency and Freedom: the Dewey Lectures, 1984", publicado na Journal of Philosophy em alguma edição de 1985). Quaisquer dessas opções nos levam a um forte subjetivismo. É comum, por causa disso e até pela forma com que a Economia trata das funções de utilidade, que liguemos utilitarismo diretamente a subjetivismo.

No entanto, não precisa ser necessariamente assim. Como eu disse, eu estudei pouco o assunto e Giannetti me chamou atenção para o utilitarismo em Stuart Mill (o livro clássico, que eu não li, chama-se Utilitarianism, nada mais óbvio). Para Mill, é possível fazer uma espécie de ranking de coisas que podem ser mais valiosas do que outras, o que claramente é uma guinada em direção a algum tipo de objetivismo. Comentários sobre utilitarismo e Mill são portanto bem-vindos, já que eu conheço pouco do assunto. Será que uma posição utilitarista subjetivista é sustentável? Temo que não.

De qualquer forma, Giannetti pareceu no final da conversa achar a posição de Sen interessante, ao dizer que as capacitações refletem a liberdade de fazer escolhas (já que o que se busca é a expansão de funcionamentos ou functionings). Assim, a posição de Sen não seria tão objetivista. Acho que escrevi as dificuldades de encaixar a abordagem das capacitações em objetivismo ou subjetivismo em um trabalho que apresentei em Montevideo. No entanto, deixo para os leitores opinarem sobre o assunto.

Alguém leu o Felicidade do Giannetti pra ver se ele discorre sobre os problemas do utilitarismo?

domingo, 5 de julho de 2009

Exata ou social?

Quem conhece muito pouco sobre Economia costuma dizer que ela é uma ciência exata às vezes. De fato, a Economia de hoje se assemelha às ciências exatas em certos aspectos, mas, obviamente, a maioria das pessoas que afirma isso o faz pelos motivos errados.

A microeconomia como marco teórico é essencialmente matemática. Talvez esse seja o grande choque da pós-graduação. Enquanto na graduação simplesmente nos atemos mais à maximização de funções de utilidade ou lucro, a pós-graduação exige conhecimento em matemática que transcende muito o que se aprende na graduação. Isso não é um ode a superioridade da pós, até porque pouca intuição adicional é aprendida na pós-graduação.

Àqueles que tem verdadeira ojeriza a parte de exatas, eu realmente recomendo que não insista em mestrado ou doutorado em Economia. Pelo menos nas escolas ortodoxas. E, caso queira fazer nas escolas heterodoxas, é bom deixar claro que seu espaço de discussão pode ficar reduzido. Não digo isso por preconceito à heterodoxia, mas uma boa pesquisa alternativa seria muito enriquecida se o acadêmico tem o conhecimento técnico necessário para fazer críticas ao mainstream.

As inovações que os economistas costumam aceitar melhor muitas vezes partem de idéias que até foram consideradas heterodoxas em seu início. No entanto, só quando um economista com conhecimento da escola dominante se preocupa com a idéia é que se gera um programa de pesquisa mais sólido no tema. Vejamos o exemplo da Nova Economia Institucional, que retoma idéias sobre a importância das instituições ligando-as a custos de transação. Outro exemplo são idéias de justiça distributiva, praticamente marginalizadas até Sen criticar Rawls, utilitarismo e economia do bem-estar. Ambos partiram de conceitos microeconômicos já conhecidos.

Para quem quiser ver um curso de ciências sociais com teoremas e provas matemáticas, clique aqui no programa de Ph.D. da Caltech.

Sim, Economia continua sendo ciência social, mas isso não significa que a matemática seja descartada. Aliás, ela pode ser bem útil.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Acampamento ateu

Quer seus filhos em um ambiente livre de religiões? Então leve seus filhos para esse acampamento:

"Britain's first 'atheist summer camp' backed by anti-God professors

Canterbury, England (ENI). Richard Dawkins, the British academic, who is said by his critics to try to convert people to believe there is no God in a manner akin to proselytising, is backing Britain's first atheist camp for children. The camp for children aged between seven and 17 will be held at Mill on the Brue, near Bruton in Somerset, some 180 kilometres (118 miles) southwest of London between 27 and 31 July."

No mínimo curioso.

Fonte: www.eni.ch

sábado, 27 de junho de 2009

Gripe suína

Sou monitor do curso de Econometria I da graduação da FEA-USP. Duas alunas da turma foram diagnosticadas com o vírus da chamada gripe suína ou H1N1. A ocorrência gerou um surto histérico na FEA com a imediata suspensão das aulas da graduação por uma semana. Alguns, ao saberem que eu era monitor da turma, não quiseram apertar minha mão. Uma menina ontem desistiu de um cachorro quente porque eu estava falando perto do molho: minha saliva poderia ter respingado no molho. Doente e discípulo do Frajola...

O cancelamento das aulas ocorreu justamente em uma das últimas semanas do semestre. Provas foram canceladas e adiadas. Muita confusão ainda está por vir.

***

Pensei agora no que ocorreria com essa gripe se ela tivesse acontecido no passado. Em um contexto em que o custo de transporte era alto e, portanto, sem muita mobilidade de pessoas, essa gripe "suína" não levaria a essas reações. Seu contágio seria bem menor e restrito a uma área talvez. Se houvesse maior contágio, demoraria algum tempo para isso acontecer, a exemplo do que aconteceu com a Peste Negra, que demorou anos para atingir toda Europa.

Por outro lado, uma Peste Negra teria se espalhado mais rapidamente hoje em dia com a queda dos custos de transporte? Provavelmente não, uma vez que na época, não havia antibióticos. Uma gripe espanhola hoje em dia se espalharia mais rápido, mas certamente teríamos melhores condições de combatê-la.

De qualquer forma, torçamos para que os cientistas encontrem uma vacina, além de torcer para que o vírus não faça mutações mais perigosas.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Incentivos errados



Impressiona-me às vezes que certos mecanismos de incentivos não têm sido efetivos, mas as pessoas nada fazem para mudá-los. Incentivos são necessários, mas tem que ser os certos. Se você tenta aplicar sanções há anos que não resultam em melhora alguma, é hora de mudar algo. Um exemplo é esse acima: o custo em termos de vidas de crianças norte-coreanas é muito alto. Mas ainda se sustenta que ajudá-las seria sustentar o regime e não ajudá-las ajudaria a derrubá-lo. Não parece ser o caso.

Da mesma forma, parte da opinião pública é a favor do embargo contra Cuba. Além de prejudicar muita gente, o embargo apenas exacerba o nacionalismo cubano que vê tal medida como imperialista. Com mais mercado, era muito provável que Cuba abrisse mais rápido. E assim, os pobres cubanos continuam apoiando o ditador Fidel Castro, que pelo menos oportunisticamente dá escolas e hospitais (talvez tenha alguma bondade naquele velho barbudo, mas ele poderia deixar o povo governar-se a si próprio então...).

Outros que pensam parecido são os funcionários públicos de universidades. Há algum tempo a biblioteca das ciências humanas está fechada na USP. Pós-graduandos, por exemplo, que estiverem em fase final de dissertação são absurdamente prejudicados. Fechar bandejões e bibliotecas afetam apenas os alunos e pouco pressiona a reitoria ou os governos. O resultado mais óbvio é que os próprios alunos passam a questionar as freqüentes greves, por mais que muitos dos pontos dos grevistas possam ser legítimos.

Incentivos errados, resultados sub-ótimos.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Será que finalmente achei um bom livro geral de HPE?

Adquiri na semana passada um pequeno livro sobre a história da Economia de autoria de Roger Backhouse. Sendo um conhecido pesquisador no assunto, achei que valesse a pena. A partir do que li no índice e pelo primeiro capítulo, parece ser um livro interessante. Ademais, é um livro sem aparentes dificuldades: é possivel lê-lo no ônibus.

O livro é o "The Penguin History of Economics", o qual comprei por apenas R$ 31 na Livraria Cultura em uma edição paperback. Quase metade do livro se dedica àquilo que não sabemos de nossos cursos de HPE que costumamos ter na graduação: a Economia do século XX, que trata em boa parte da evolução da economia matemática e da econometria, além dos debates macroeconômicos que já são conhecidos.

Farei um parecer assim que terminá-lo. Pelas primeiras páginas, parece muito melhor, por exemplo, do que aquele horroroso livro do E. K. Hunt.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.

O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.

O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero tinha uma ideologia elitista de sociedade. Mas coloco em dúvida, embora talvez seja ingenuidade, a acusação de compromisso irrestrito de Lutero à nobreza germânica da época, que se sentia ameaçada pelas revoltas camponesas, como muitos são ensinados pelas certezas absolutas propagadas pelos livros de história adotados em escolas, geralmente associados a uma versão mecânica e pobre do marxismo.

Na verdade, Lutero era simpático a muitas das reivindicações dos camponeses porque as considerava justas, embora considerasse que havia exageros. Ele então visitou os acampamentos onde os camponeses se organizavam. O que viu o decepcionou profundamente. Ao invés de apenas reivindicações, ele sentiu um clima de subversão total da ordem social. Usando o nome de Lutero, muitas atrocidades também haviam sido cometidas. É necessário compreender que Lutero era muito guiado por suas convicções teológicas. Na sua concepção, a autoridade secular era dada por Deus e existia uma ordem da criação - o que pode ser biblicamente justificado e claramente presente em muito dos escritos de Lutero. Revoluções do tipo, portanto, eram perigosas e não-cristãs na opinião dele. A subversão de toda ordem para ele significava a destruição da sociedade e não tinha qualquer natureza religiosa. Se os camponeses insistem em subverter a ordem, suas revoltas deveriam ser suprimidas - mesmo a custos altos, uma vez que, caso contrário, a destruição da ordem social seria algo muito pior na sua concepção.

Foi apenas após essa visita que Lutero escreveu contra "as hordes salteadoras camponesas". É importante lembrar que, mais do que compromisso consciente com a nobreza, não é absurdo pensar que sua posição deriva de suas concepções religiosas. Lembremos que Lutero colocou a sua vida em risco extremo ao iniciar a Reforma e insistir nela após a Dieta de Worms, onde ele não voltou atrás em nenhuma de suas declarações anteriores frente ao imperador do Sacro-Império. Sua vida estava em eminente perigo e, de fato, não fosse o apoio de parte da nobreza, ele provavelmente não teria sobrevivido, a exemplo do que aconteceu com Jan Hus. Logo, se daquela vez ele desafiou o Papa, por que ele não teria sido a favor dos camponeses se ele concordasse com eles? Ademais, como eu disse, ele era simpático a muitas das reivindicações. Os nobres provavelmente eram contra tudo.

É possível que, após ser salvo pelos nobres, Lutero tenha perdido sua coragem inicial e se colocado ao lado dos nobres para se salvar. Mas, sinceramente, não acho isso provável. Pelo menos, acho que ele merece o beneficio da dúvida. Para mim, a posição de Lutero foi equivocada, até pela ênfase dos seus escritos na supressão do movimento, mas isso não significa que Lutero tenha conscientemente se colocado ao lado dos nobres meramente porque queria sobreviver. Sua simpatia inicial ao movimento e suas posições em relação ao papado (muito mais graves e arriscadas) permitem concluir que o que o guiava eram suas convicções.

Não é pelos pecados de Lutero que deixo de ser cristão e luterano. Em primeiro lugar, Lutero não é Cristo. Apenas nossa perspectiva provém de uma teologia originada do pensamento de Lutero e que teve desenvolvimentos posteriores, sem negar a herança da Igreja Antiga. Como o próprio Lutero dizia, Cristo é o centro e não Lutero. Este último era tão pecador como nós, o que não significa que suas idéias não têm validade.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Há pensamento sério no Brasil?


Nosso amigo do mestrado Luiz (vulgo James Dean) do mestrado faz parte de um grupo de jovens que resolveu se mexer para lançar uma revista. Com um bom mecenato por trás, sejam parentes ou amigos, eles organizaram a Dicta & Contradicta. Por terem contatos, conseguem, por exemplo, entrevistar Fernando Henrique Cardoso em sua última edição. E no lançamento dessa edição, trazem Eduardo Giannetti para responder a pergunta "há pensamento sério no Brasil?"

Foi uma palestra interessante de Giannetti. Como em seus livros, ele demonstra uma excelente clareza analítica e, embora não se concorde com tudo o que ele fala, certamente ele gera matéria para debate. A pergunta do "pensamento sério" era interessante, uma vez que ele deu exemplos que conseguimos identificar como tipicamente brasileiros: a vulnerabilidade do brasileiro a modismos intelectuais oriundos da falta de uma tradição de pensamento em língua portuguesa, o pseudo-progressismo intelectual, as fracas convicções ideológicas ou religiosas, o tribalismo acadêmico, a mistura do pessoal com o profissional no debate intelectual/acadêmico brasileiro, etc. Talvez uma estereotipização excessiva, mas inevitável quando se quer falar do Brasil. A generalização precisa ser feita, por mais que atinjam injustamente alguns.

O que me surpreendeu mais foi a natureza elitista da maioria das perguntas da platéia. É verdade que, na minha opinião, mesmo Giannetti foi muito enfático em falar que a falta de uma tradição de idéias no Brasil é algo nefasto. OK, de fato é ruim. Mas ele foi além e falou da necessidade de um pensamento original. Será mesmo isso tão importante? Não nego que seria bom, mas não vejo maiores possibilidades disso acontecer, dado o atual estágio que nos encontramos. Raphael (vulgo Crouch) pegou o microfone e chamou atenção dessa impossibilidade no atual estágio de produção compartimentalizada do conhecimento - bastante imprópria para pensamentos filosófico-científicos originais - com razão. Pensemos em como escandinavos ou coreanos têm preocupação em querer afirmar sua filosofia. Os coreanos ainda estão sob a tradição confucionista, mas os escandinavos não tem lá muita tradição filosófica (opa, Kierkegaard é dinamarquês e Ibsen é norueguês, mas são exceções). E acho que vivem muito bem. Alemães, com toda sua tradição filosófica também vivem bem, mas já fizeram muita bobagem na história também.

Mas, à exceção do Raphael, a maioria fez perguntas que considerei elitistas. Excessiva preocupação com as universidades de esquina. De fato, muito problemáticas - não geram conhecimento. Perfeito. Mas poucos se preocupavam com o verdadeiro problema do ensino fundamental, assunto que só veio à tona devido ao Giannetti. Por outro lado, ele mesmo acabou falando que as pesquisas sobre capital humano mostravam a importância maior dos estímulos da família sobre a educação do que a escola pública. Ou seja, não adianta apenas fornecer escola pra todos. Mas a pergunta que fica é "o que a política pública pode fazer além de oferecer escolas?" Talvez não muita coisa.

Outro espectador ainda se declarou reacionário e disse que a desigualdade era boa. A Raquel do meu lado com sua radicalidade crítica não concordava com mais nada do que estava sendo dito. "Desigualdade de quê?" pensei. Talvez ele devesse ler o primeiro capítulo de Desigualdade Reexaminada do Sen, chamado "Equality of what?". Graças a Deus, Giannetti fez uma defesa da igualdade de oportunidades.

Não me tirou, no entanto, a impressão elitista do ambiente em geral. A excessiva preocupação em ter uma cultura nobre e a preocupação intelectual apenas voltada para problemas relacionados a isso deixou-me um pouco aborrecido.

Mas gostei da palestra em geral e gosto da revista. Cultura é bom e a revista é uma excelente iniciativa. Promover esse tipo de evento, além de tudo, incentiva o debate. Meus parabéns ao Luiz e ao Joel, as pessoas que conheço desse grupo.

***

Uma última coisa: depois da palestra, fiz questionamentos ao Giannetti sobre seu posicionamento em relação ao utilitarismo e às capacitações. Coitado, visivelmente esgotei-o. Faz parte do ofício de ser famoso.


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Esperando...

Em setembro de 2007, fui à Nova York para ver a Conferência da Human Development and Capability Association. Na palestra principal, Amartya Sen discorreu sobre as principais idéias de seu novo livro sobre justiça, que ele estava escrevendo. Uma palestra muito legal, com direito a comentários de George Soros, o especulador keynesiano.

Nesse meio tempo, escrevi um paper para uma matéria de Teorias de Justiça que fiz lá no Departamento de Ciência Política da USP. O paper discorre sobre as idéias de justiça e desenvolvimento no pensamento de Sen. Incentivado pelo Prof. Álvaro de Vita, arrumei o texto, enviei para a conferência latino-americana sobre capacitações em Montevideo ocorrida em outubro de 2008 e ainda enviei uma versão para uma revista. Cheguei a enviar para a o congresso da ANPEC, mas a banca marxista não viu qualidade e/ou validade no meu trabalho. A revista não me respondeu até hoje.

Pensei que era importante publicar isso antes do lançamento do livro do Sen. Finalmente, ao passear pela Amazon, vi que o livro "The Idea of Justice" já está em pré-vendas na Amazon.com. Para garantir o preço, estou comprando agora pra receber só em janeiro do ano que vem. Enquanto isso, espero sentado a resposta da revista e o livro do Sen...

domingo, 31 de maio de 2009

CAPES/Fulbright

Muitas tarefas têm tirado todo o tempo, inclusive para escrever algo interessante neste blog. Em especial, esta semana foi marcada por tragédias gastro-intestinais e por correrias devido ao curto prazo dado pela CAPES àqueles que desejam concorrer a uma bolsa de doutorado nos Estados Unidos.

A CAPES e a agência Fulbright do governo americano tem um convênio. Precisamos mandar diversos documentos para as duas entidades. Não se pode perder essa chance, uma vez que as universidades estaduais norte-americanas costumam não oferecer bolsas a todos os estudantes. Por exemplo, gente que quer alguma UC (University of California at...) costuma pleitear a bolsa da CAPES. Por isso estamos na correria.

Nesse ano, podemos pedir por três universidades. Eu estou pedindo para a CAPES bolsa em UC Davis e UCLA, onde eu certamente arranjaria uma boa orientação nos tópicos que me interessam dentro da história econômica. UC Davis é um dos centros mais fortes e diversificados da área, contando com Lindert, Greg Clark, Alan Taylor, Olmstead e Chris Meissner. Já a UCLA tem poucos historiadores econômicos no departamento de Economia (Dora Costa e Naomi Lamoreaux), mas temos Summerhill no UCLA Center for Economic History

Ok, eu coloquei Harvard mesmo sem fazer sentido e mesmo sem ter a menor chance. Afinal, um application coerente era necessário. Não achei ninguém que pudesse fazer esse papel além de Claudia Goldin como uma possível orientadora. Enfim, amanhã é o limite e ainda faltam alguns documentos.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Engerman

Acabo de receber e-mail de Stanley Engerman. Mandei meu paper para o historiador econômico de Rochester. Engerman é co-autor de um clássico sobre a escravidão norte-americana junto com Robert Fogel. Ademais, é co-autor também de um paper muito influente na história econômica latino-americana quanto à influência da dotação de fatores no tipo de colonização: a famosa tese Engerman-Sokoloff.

Ele fez comentários positivos e deu sugestões para meu paper. Mas o que mais me chamou atenção foi que ele pretende checar o que o Caio Prado escreveu. Em meu paper, menciono que a tese Engerman-Sokoloff é parecida com a idéia do Caio Prado do sentido da colonização. Disse Engerman ter uma tradução em inglês do livro. Interessante.

Depois de feedbacks positivos de Summerhill, Lindert e Engerman, acho que posso dormir feliz hoje.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O fenômeno Acemoglu

Ele escreve sobre tudo. Recentemente, Daron Acemoglu lançou um livro chamado Introduction to Modern Economic Growth. Cerca de mil páginas abrangendo desde as teorias básicas de crescimento (Ramsey, overlapping generations) chegando até questões de economia política do crescimento e instituições. 

Mais do que isso, ele e seus companheiros Simon Johnson e James Robinson tem memoráveis artigos sobre colonização e crescimento de longo prazo. Controversos mas conhecidos. Poucos nomes conseguem vir antes de Acemoglu nas referências bibliográficas. Em qualquer área de conhecimento da economia, não ter Acemoglu referenciado passou a ser estranho hoje em dia. Obviamente, ele ganhou a medalha John Bates Clark, concedido para economistas até os 40 anos. Não vou relacionar os papers, facilmente encontráveis na maioria das bibliografias de papers recentes na área de crescimento de longo prazo e instituições.

Livro premiado é o seu Economic Origins of Dictatorship and Democracy, que tem como co-autor James Robinson. Andamos discutindo suas teorias institucionais, baseado em um capítulo da autoria dos três (Acemoglu, Johnson a Robinson) que está contido no Handbook of Economic Growth. Nosso grupo de história econômica levantou o fato de que a sua teoria de instituições políticas e econômicas é muito geral. Todos reclamamos da dificuldade de aplicação direta de sua teoria, embora alguns insights sejam muito bons. De qualquer forma, é um avanço interessante na economia. A economia deixou de ser a ciência em que política apenas se refere aos problemas de escolha pública, em que o problema é sempre a intervenção estatal além da garantia de direitos de propriedade e a existência de grupos de interesse. Embora esse último campo seja importante, ao destacar questões distributivas e de poder político, Acemoglu, Johnson e Robinson acabaram fazendo uma contribuição importante. Grupos de interesse devem ser vistos de forma menos normativa às vezes.

Quem for ao site do Acemoglu no MIT, vai poder observar a sua produção frenética de working papers em muitas áreas da economia. Enquanto publica papers altamente teóricos e com modelos altamente sofisticados, ele ao mesmo tempo também será o conferencista principal do World Economic History Congress em Utrecht a ser realizado em agosto. E eu estarei lá.


terça-feira, 12 de maio de 2009

Fazendo as malas pra Suíça

Com uma Bíblia, alguns papers para ler, um livro e um monte de presentes, estou indo para a Suíça. Meu vôo parte às 18h30 de Guarulhos, pára em Zurique. Depois pego outro vôo para Genebra, onde participarei da reunião do Grupo de Assessoria em Assuntos Econômicos do Conselho Mundial de Igrejas. 

Meu texto sobre ética cristã e desenvolvimento já está pronto, com muitas referências à abordagem das capacitações. Felizmente, para escrever este curto texto (menos de 15 páginas), que deve ser publicado pelo CMI, contei com intenso apoio do grupo temático de desenvolvimento humano e religião da Human Development and Capability Association. Sabina Alkire, do QEH de Oxford, economista e reverenda anglicana, fez vários comentários legais. Outras pessoas também fizeram vários comentários, como o Alex Stahlhoefer e o Henrique Renck.

Domingo e segunda visitarei meus amigos suíços que vivem em Bern. Provavelmente meus melhores amigos estrangeiros. Terça dia 19 devo estar de volta ao Brasil.


domingo, 3 de maio de 2009

Primeira citação

Ontem recebi e-mail do historiador econômico Peter Lindert (UC Davis), ex-presidente da Economic History Association. Recentemente, tinha lhe enviado meu texto sobre educação no Brasil, que foi muito bem recebido por ele. Recebi ótimas sugestões em um e-mail anterior com comentários e correções. 

No e-mail de ontem, havia um anexo com novo texto dele sobre financiamento da educação ainda em fase preliminar. A surpresa foi ver que meu texto está citado na bibliografia!

Agora é torcer pra esse texto dele dar certo, hehe.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Egoísmo

Como economistas, costumamos sempre considerar pessoas egoístas ou auto-interessadas. Embora não sejam termos necessariamente sinônimos, muitas vezes são.  O ponto é se as pessoas são sempre auto-interessadas em seu comportamento. Há espaço para outras motivações para além do auto-interesse?

Antes de talvez ler livros como "Sobre Ética e Economia" de Sen, tão citados nos posts anteriores e que tratam extensivamente do assunto, talvez seja interessante consultar a Stanford Encyclopedia of Philosophy. Há nesse site uma discussão sobre egoísmo, bastante elucidativa para a economia, tratando de conceitos que utilizamos. 


terça-feira, 28 de abril de 2009

Críticas que não entendo (1) - (cont.)

Em primeiro lugar, acho melhor esclarecer que, quando falo de equilíbrio, não estou especificamente falando do equilíbrio geral. Embora eu mesmo não veja o equilíbrio geral como algo nefasto à economia, até entendo que tenha gente que não goste. A prova da existência de equilíbrio geral (Arrow-Debreu) é bastante complexa e abstrata. Ainda, em um tópico que não estudei, apresenta problemas (Teorema Sonnenschein-Mantel-Debreu, MWG cap 17). Mas isso não significa que é inválido.

Falando de equilíbrio em sua forma mais simples, pensemos em um simples equilíbrio de mercado com a curva de oferta cruzando a de demanda, determinando preços e quantidades. Alguém ser contra isso é difícil entender. Uma coisa estimável, aplicada, com inúmeros estudos e altamente esclarecedora. Uma ferramenta simples e poderosa. 

Em segundo lugar, falaram que muita gente seria contra o equilíbrio geral, incluindo Amartya Sen. Vamos deixar claro que Sen não é um heterodoxo (quem ganha Nobel é ou tornou-se ortodoxia, pelo menos da época que ganhou). Ele foi presidente da Econometric Society, um cargo que qualquer um que se considera heterodoxo não gostaria de estar (aliás, não vejo produtividade alguma no debate ortodoxia vs. heterodoxia. Acho que devemos debater assuntos, mas não como se eu estivesse defendendo o Grêmio contra o Inter). No entanto, ele tem uma das críticas mais contundentes à economia do bem-estar especificamente. Por ser contundente e profundo é que ele tem o respeito de tanta gente. Vejamos o que ele diz sobre equilíbrio e ótimo de Pareto:

"Uma importante proposição [...] é o chamado 'Teorema Fundamental da Economia do Bem-Estar [...] Esse teorema mostra que, em determinadas condições (especialmente ausência de 'externalidades', isto é, de interdependências que sejam externas ao mercado), cada equilíbrio perfeitamente competitivo é um ótimo de Pareto e, com algumas outras condições (especialmente ausência de economias de escala), cada estado social Pareto-ótimo é também um equilíbrio perfeitamente competitivo em relação a algum conjunto de preços [...]".

Ótimo, ele explicou o teorema (ver também MWG, cap. 16). E Sen continua:

"Esse é um resultado notavelmente elegante, que permite discernir profundamente a natureza do funcionamento do mecanismo de preços, explicando a natureza mutuamente vantajosa da troca, produção e consumo regidos pelo auto-interesse. Um aspecto significativo das relações econômicas via mecanismo de mercado foi esclarecido por esse resultado e outros afins".

Posteriormente, ele ainda afirma (e sei que ele trata disso também em outras obras):

"A estrutura de raciocínio conseqüencial e a investigação de interdependências extensivamente desenvolvida em economia em muitos contextos (inclusive o da análise de equilíbrio geral, examinado no capítulo 2) facilita o discernimento quando investigamos os inescapáveis problemas de interdependência envolvidos na apreciação do valor dos direitos em uma sociedade".

A partir de Sen, não jogamos o equilíbrio fora (seja ele geral, parcial, enfim). Muito pelo contrário, são muito úteis. O ponto é que não é suficiente, principalmente para fins de avaliação de políticas e em relação a conteúdo ético, que Sen defende que deva existir quando falamos de desenvolvimento.



Trechos de Amartya Sen retirados de "Sobre Ética e Economia" (p. 50-51; 89)
MWG é referência a Mas-Collel, Whinston and Green (1995). "Microeconomic Theory".

sábado, 25 de abril de 2009

Críticas que não entendo (1) - Equilíbrio

Em minha graduação, ouvi diversas vezes sobre a tal falácia do equilíbrio. Para muitos professores que tive, o equilíbrio deveria ser banido da ciência econômica, tamanho eram os equívocos teóricos por eles causados. 

Mas o que é o equilíbrio senão a idéia de que, se as pessoas perceberem que elas podem melhorar de condição, elas não vai deixar de fazer isso? Uma situação de desequilíbrio ocorre quando ainda há espaço para melhoras. Evidentemente, nem sempre as pessoas têm informação completa e perfeita. Logo, elas deixam de melhorar quando poderiam pela existência dessa imperfeição. Ótimo, isso já foi incorporado pela teoria econômica.

Se eu perceber que posso aumentar o preço sem proporcional queda da demanda (ou seja, a demanda é inelástica), porque não o faria? Se o objetivo é a maximização do lucro, espera-se que as pessoas possam fazer isso. É evidente que podem haver restrições legais, institucionais, culturais e até mesmo éticas. Pode ser que a função objetivo da firma não seja a maximização do lucro no período em questão. Essas situações podem ser levadas em consideração, mas não tem nada a ver com a inadequabilidade do conceito de equilíbrio. Mudamos a função objetivo se for o caso e incorporamos as imperfeições. Equilíbrio continua um conceito útil, se quisermos de alguma forma determinar preços e quantidades em mercados, usar teoria dos jogos, etc.

Um dia falei para alguns professores da FEA sobre essas críticas ao equilíbrio que costumava ouvir na graduação. Vindos há pouco de doutorados difíceis nos EUA, eles olharam para mim e disseram: "nunca entendi essa crítica. Por que ninguém quer melhorar na cabeça deles?"

sábado, 18 de abril de 2009

Recentes papers de EH no NBER

Alguns artigos recentes lançados pelo NBER merecem leitura. Na verdade, vários deles, mas vou ater-me aos da área de história econômica.

Jeffrey Williamson, de Harvard, escreveu um paper com o seguinte curioso título: "History without Evidence: Latin American Inequality since 1491". Nosso pequeno grupo de estudos já o leu e o texto incomodou profundamente a maioria do grupo. De qualquer forma, Williamson é um cara importante. Aparentemente, ele não é um cara que se importa muito com instituições.

Nathan Nunn faz um artigo síntese sobre a importância da história no estudo do desenvolvimento. Pra quem não sabe, Nunn tem papers muito legais, inclusive um na QJE sobre África. Esse eu novo eu não li ainda, mas pretendo fazê-lo em breve:

É possível inscrever-se no site do NBER e receber periodicamente a lista de novos paper lançados no site com seu resumo. Principalmente para aqueles procurando novas referências, é uma fonte valiosíssima, uma vez que muitos papers que são posteriormente publicados em revistas, aparecem nesse site antes. Outros acabam nem sendo publicados, mas constituem importante referência.