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Mostrando postagens de Novembro, 2007

Os estranhos marxistas analíticos

Na disciplina de Teorias de Justiça, que curso no Departamento de Ciência Política, preciso entregar um trabalho sobre um dos tópicos trabalhados em sala durante o semestre. Disse ao professor que puxaria para a Economia, tendo como resposta a indicação de um livro chamado "Theories of Distributive Justice" de um economista. John Roemer (1996) formalizou elegantemente nesse livro as principais teorias de justiça. Mais do que isso, ele era conhecido por ser um "marxista analítico", os caras que juntam Marx e filosofia analítica (como me corrigiu o Drumond - vide comentários).

Só vim a entender um pouco de como Roemer pensa ao ler essa passagem da introdução:

I do not deal with the theory of exploitation because [...] after studying it for some time, I came to believe that it is not in itself a fundamental theory of (in)justice. I do not mean that workers are justly treated under capitalism, but rather that the view that what's unjust about their treatment is explo…

McCloskey e a significância estatística

A professora Deirdre McCloskey, da University of Illinois at Chicago, famosa por seus artigos sobre metodologia (retórica) e por ter passado por uma cirurgia de mudança de sexo, ministrou uma palestra hoje na Sala da Congregação da FEA-USP. O recinto estava bem cheio e McCloskey fez suas polêmicas declarações.

O tema era o seu novo livro, a ser lançado em janeiro, chamado "The Myth of the Statistical Significance". Bastante polêmico. Para ela, não há motivos para a economia usar a significância estatística. Sua idéia gerou enorme polêmica durante e após a palestra. Em suma, ela acha que o critério de decisão usados em testes de hipóteses (como t ou F) não devem ser automáticos e objetivos. Para ela, são critérios de valor que devem pesar e que os progressos da ciência ocorridos através desses testes foram sorte. O que importa é o ângulo, o coeficiente, e não testar a existência desse coeficiente da forma como é feito hoje. Evidentemente, ela argumenta melhor e o livro deve se…

Congresso Missionário Ecumênico e algumas constatações

O CONIC, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, comemorou seus 25 anos de fundação realizando seu I Congresso Missionário Ecumênico no fim de semana passado. Nesse evento, assinou-se o reconhecimento mútuo dos batismos entre as igrejas-membro.

Foi um evento interessante, em que predominaram palestrantes de tendência liberal ou da teologia da libertação. Não obstante, houve um preletor da IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) - igreja contrária ao ecumenismo - que advogou a abordagem da missão integral, defendida pelo movimento evangelical (os do chamado Consenso de Lausanne, 1974). De resto, a liderança das igrejas históricas mostrou ser claramente mais liberal. Isso não é uma crítica, é uma constatação.

Claramente, pude ver no evento o mesmo que ocorre dentro do movimento evangelical: há um certo "ecumenismo" entre os iguais. Hoje, as principais diferenças entre as igrejas não se referem a denominações. Anglicanos liberais e luteranos liberais são muito mais parecidos do que an…

Brasil, Uruguai e Argentina: convergência e estrutura produtiva

O seminário de história econômica ocorrido hoje contou com a participação do Prof. Dr. Gabriel Porcile (UFPR). Seu texto, em parceria com Luís Bértola, chama-se "Convergence, Trade and Industrial Policy: Argentina, Brazil and Uruguay in the international economy, 1900-1980".

Foi um bom ensaio de história comparativa utilizando o modelo de crescimento com restrição externa de Thirwall (de tradição keynesiana, "demand-led") e o índice de estrutura de Krugman. O modelo de Thirwall e sua lei são desconhecidos para mim, que nada sei de pós-keynesianismo - sei apenas que esse modelo leva em consideração a influência das contas externas para o crescimento econômico. O índice de Krugman eu também desconhecia, mas pelo que entendi, trata-se de um índice que mensura a similaridade de estruturas produtivas: quanto menor seu valor, mais parecidas são as estruturas produtivas dos países em termos de participação percentual dos setores na economia.

Com esse arcabouço e tentando mo…

Os complexos de economistas e cientistas políticos

Em um livro já não tão novo, datado de 1970, Albert Hirschman, um dos representantes do “Development Economics”, escreve algo interessante e até curioso acerca dos colegas da ciência política. Isso ainda é bastante atual para o Brasil, onde a influência da ciência política norte-americana vem chegando aos poucos. Não significa que eu seja contra a ciência política formalizada, inclusive pretendo usá-la. Reconheço, no entanto, que em alguns pontos Hirschman tem razão:[...] eu espero demonstrar aos cientistas políticos a utilidade dos conceitos econômicos e aos economistas, a utilidade dos conceitos políticos. Essa reciprocidade tem estado em falta nos recentes trabalhos interdisciplinares, porquanto os economistas têm afirmado que conceitos desenvolvidos com o propósito de analisar fenômenos de escassez e alocação de recursos podem ser usados com sucesso para explicar fenômenos políticos diversos como poder, democracia e nacionalismo. Eles têm, dessa forma, conseguido ocupar vastas por…

Instituições e educação - parte IV

Diego disse: A questão então é: se os gastos hoje com ensino superior são conseqüência do excesso de poder nas mãos das elites, não seria de se esperar que a "esquerda" se posicionasse contra isso? Eu não entendo... Mas me parece que o poder da elite talvez não seja a melhor explicação para o que acontece (ou então não a principal). Continuo sustentando que a falta de voz dos mais pobres devido à desigualdade na distribuição de poder político tem papel fundamental. Diego assumiu que a esquerda representa de fato as camadas mais pobres. No Brasil, onde a esquerda defende o ensino superior público com unhas e dentes, a esquerda representa muito debilmente as camadas pobres na minha opinião (a direita menos ainda obviamente). O maior partido de esquerda brasileiro, o PT, representa muito mais a classe média do que os verdadeiramente pobres. Isso é evidente pelas próprias bandeiras que defendem. Afinal, qual é o interesse do pobre na universidade pública? Só haveria interesse do …

Instituições e educação - parte III

Para entender do que estou falando aqui, é interessante ler essa entrevista com James Robinson e Gregory Clark. A dica do link é do blog do Leo Monastério. Não é sobre educação exatamente, mas eles falam a respeito. Afinal, o que importa? Cultura ou educação?

Na parte IV, responderei os comentários feitos em relação à parte II.

Instituições e educação - parte II

Dizer que a falha de certas sociedades em investir no nível de educação certo ser causado por "imperfect knowledge and understanding make up the subjetive models of actors" pode até ser uma das explicações, mas extremamente insuficiente. Não é por acaso que North, em livro posterior (North, 2005), acaba incluindo outra motivação:

Throughout history and in the present world economic growth has been episodic because either the players' intentions have not been societal well-being or the players' comprehension of the issues has been so imperfect that the consequences have deviated radically from intention (p. 3)

Com isso, é fácil entender porque em países como o Brasil, a educação superior foi a mais privilegiada. Não é necessário usar a idéia de racionalidade limitada para chegar a essa conclusão: se o poder da elite é grande demais, as intenções deles prevalecerão e, apenas por um acaso, coincidirão com o bem-estar social.

É por esse motivo que Acemoglu, Johnson e Robins…

Instituições e educação - parte I

Com propriedade, afirmou Douglass North (1990, p. 80):

Throughout most history the institutional incentives to invest in productive knowledge have been largely absent, and even in Third World economies today the incentives are frequently misdirected. If Third World countries do invest in education, they frequently misdirect the investment into higher education, not primary education (which has a much higher social rate of return than does higher education in Third World countries).

A crítica é que, em um país subdesenvolvido, os retornos da educação são mais altos caso se invista em educação primária. A Coréia, por exemplo, expandiu maciçamente em todos os níveis de educação, mas evidentemente, espalhou-se em primeiro lugar o primário.

North, entretanto, na hora de explicar os motivos pelos quais as instituições dos países subdesenvolvidos têm esses problemas, afirma que:

But if the market was imperfect so that the private rates of return were so low as not to make such private investumen…

Apresentação do IPE-USP

Hoje foi o dia da pós-graduação da USP fazer a sua apresentação aos alunos bem colocados no exame nacional de admissão ao mestrado promovido pela ANPEC. Os 60 primeiros foram chamados e puderam ouvir muitos dos professores da casa, os quais compareceram em massa.

Aparentemente, a apresentação surpreendeu positivamente os candidatos. A presença de professores mais antigos e proeminentes da casa, como também dos professores do programa "Jovens Doutores", foi aparentemente bem recebida.

Só saberemos dos resultados a partir de amanhã, quando os alunos começaram a definir oficialmente as instituições para as quais pretendem ir.

Comida ou ética?

Muitos, ao interpretarem Marx, entenderam que o material se sobrepunha ao ideal: cultura, crença e valores seriam resultados que derivariam da infra-estrurura da sociedade, ou seja, das condições materiais. Vários outros marxistas dirão que isso é equívoco, pois não está muito de acordo com a dialética. Seja lá qual for a interpretação correta, a relação unidirecional do material ao ideal ficou conhecida. Giannetti faz uma crítica meio óbvia e que parece razoável:

[...] vale notar, a falácia grotesca da fórmula brechtiana, ingenuamente materialista, "primeiro a comida, depois a ética". A sobrevivência, é verdade, é condição para tudo o mais. Mas, sem ética, a própria sobrevivência fica comprometida. Sem ela, não há ordem social, paz ou "comida" - há desagregação, guerra e fome. É a economia que se ergue sobre a infra-estrutura ética. (Giannetti, 2007, p. 101).

Giannetti, E. Vícios privados, beneficios públicos? A ética na riqueza das nações. São Paulo: Companhia das…

Economia Institucional: leis ou costumes?

Embora hoje em dia todos saibam que instituições importam, as escolas institucionalistas são ainda pouco conhecidas. A fama de Douglass North (Nobel em 1993 com Robert Fogel) não corresponde ao conhecimento médio que se tem acerca do trabalho dele. Além da linha de North, existem ainda outras escolas institucionais. A seguir apresento as duas principais correntes existentes hoje.

Sob o rótulo de "Nova Economia Institucional" (NEI), existem duas linhas principais. Ambas tiveram grande influência dos escritos de Coase e sua abordagem dos custos de transação. Ambas também trabalham com o conceito de racionalidade limitada proposto por Simon, embora acreditem que o pressuposto da racionalidade substantiva (microeconomia) seja muito útil para explicar diversos fenômenos. Por fim, ambas são relativamente próximas à teoria neoclássica. A escola liderada por North tem suas origens nas pesquisas do referido autor em história econômica e desenvolvimento. A partir delas, North chegou a …

Produto marginal ou valor-trabalho?

No capítulo intitulado "Class, Gender and Other Groups" do famoso livro "Inequality Reexamined", Amartya Sen (1992) discorre um pouco sobre um velho debate na história do pensamento econômico: quem afinal foi responsável pela produção? E quem merece receber a remuneração advinda dessa produção? Segundo Sen:

Production is an interdependent process involving a joint use of many resources, and there is in general no clear way of deciding which resource has produced what. The concept of 'marginal product' of a resource is not really concerned with who has 'actually produced' what, but with guiding the allocation of resources by examining what would happen if one more unit of a resource were to be used (given all the other resources). To read in that counterfactual marginal story (what would happen if one more unit were applied, given everything else) an identification of who has 'in fact' produced what in the total output is to take the marginal …

Os estranhos hábitos de alguns paulistanos

Não tem nada a ver com economia o que vou dizer. Talvez tenha um pouco a ver com religião. Apenas vou contar sobre um estranho episódio que ocorreu na sexta-feira, dia de Finados.

Estávamos eu e o Felipe Garcia, ex-colega da UFRGS e hoje no mestrado da FGV-SP em frente a lanchonete Bob's. Após consumirmos o famoso milk shake de ovomaltine e falarmos da beleza das mulheres gaúchas, deparamo-nos com uma multidão, que perfazia cerca de uma centena de pessoas. Elas estavam estranhamente fantasiadas: todas pareciam estar mortas, muitas delas com sangue falso em várias partes do corpo e vestidas com roupas pretas, algumas carregando foices, etc. Ao se aproximarem do Bob's, alguns deles diziam em coro em tom grave: "O-vo-maltine! O-vo-maltine!".

Bizarrices que ocorrem na grande metrópole brasileira, onde a economia é mais pujante. Mais um bom motivo para entendermos que nem sempre a opulência é melhor. Em Porto Alegre não sou obrigado a ver esse tipo de coisa e tenho melhor q…

Mill e psicologia individual

Por uma infelicidade do destino, fui educado acerca do trabalho do economista e filósofo inglês John Stuart Mill através do péssimo livro de história do pensamento econômico de E. K. Hunt. Isso denegriu um pouco a imagem de Mill que carreguei por algum tempo, mesmo sabendo que a obra de Hunt deixa bastante a desejar.

Stuart Mill tinha como objetivo principal fazer um síntese entre a economia política clássica de Ricardo e o utilitarismo de Jeremy Bentham, a principal corrente ética da época. Eduardo Giannetti, em seu livro "Vícios Privados, benefícios públicos?" * mostra a posição de Mill sobre a psicologia humana:

Referindo se a Bentham (mas o mesmo valeria também para Ricardo), Mill afirmou: "O homem, aquele ser mais complexo, é muito simples aos seus olhos". Simplificações drásticas da conduta humana, como o hedonismo psicológico de Bentham ou o "homem econômico" ricardiano, podiam ter alguma validade (limitada) enquanto hipóteses comportamentais em teor…

Mais um seminário em história econômica

Eustáquio Reis, do IPEA, foi o convidado desta quarta para o seminário do grupo de estudos em história econômica aqui da FEA-USP. Eustáquio tem pesquisado algumas novas fontes de dados que ele tem acesso no IPEA. Alguns dos dados, como ele mesmo admitiu, não são muito confiáveis.

Um de seus papers tentou estimar a distribuição de renda no Brasil em certos anos do século XIX. Tal estudo faz parte de um projeto maior de estimação da desigualdade no mundo conduzido pelo Prof. Bértola do Uruguai. No entanto, os resultados apresentaram índices de Gini muito baixos: similares aos atuais índices escandinavos, que são os países mais igualitários. O resultado gerou grande suspeita por parte dos presentes. Mas o autor concordou plenamente que a precariedade dos dados era significativa.

O outro de seus papers mostrou um resultado mais interessante mas igualmente surpreendente. Interessante pois se tratam de dados mais confiáveis dos votantes no Brasil circa 1870. O surpreendente foi a evidente sup…