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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Os estranhos marxistas analíticos

Na disciplina de Teorias de Justiça, que curso no Departamento de Ciência Política, preciso entregar um trabalho sobre um dos tópicos trabalhados em sala durante o semestre. Disse ao professor que puxaria para a Economia, tendo como resposta a indicação de um livro chamado "Theories of Distributive Justice" de um economista. John Roemer (1996) formalizou elegantemente nesse livro as principais teorias de justiça. Mais do que isso, ele era conhecido por ser um "marxista analítico", os caras que juntam Marx e filosofia analítica (como me corrigiu o Drumond - vide comentários).

Só vim a entender um pouco de como Roemer pensa ao ler essa passagem da introdução:

I do not deal with the theory of exploitation because [...] after studying it for some time, I came to believe that it is not in itself a fundamental theory of (in)justice. I do not mean that workers are justly treated under capitalism, but rather that the view that what's unjust about their treatment is exploitation needs further articulation. For, according to Marx, or at least to my interpretation of his view, the exploitation of the worker is entailed by his receiving wage goods which embody less labor than the labor he expended for that pay. Now the unequal exchange of "embodied labor" in goods for "direct labor" in production is by no means obviously unjust. Indeed, if the capitalist is the rightful owner of the factory, then why cannot we view the "surplus labor"[...] as a rent the worker pays for access to that factory, for access, that is, to what he needs to render his labor fruitful? Thus the existence of surplus value, or unequal labor exchange in the above sense, is not sufficient to ground the claim that the worker is unjustly treated. I think that some egalitarian theory, of the Rawls-Sen-Dworkin-Arneson-Cohen variety, is needed to justify the Marxian accusation that workers are unjustly treated under capitalism. It may be unjust, for example, for any small group to own a factory, if, in a market economy, that makes the equalization of opportunities impossible. Or the method by which the capitalist came to acquire the factory may have been unjust. In either case, we need a deeper theory. (Roemer, 1996, p. 9).


Que coisa, não? Só falta o Marx pra esse marxista pelo jeito. Um marxista que gosta de teorias liberais de justiça.

3 comentários:

Renato C. Drumond disse...

Caro Thomas Kang,

você escreveu que marxistas analíticos seriam "os caras que traduzem Marx para o linguajar matemático."

Mas não é exatamente isso. Na verdade, o marxismo analítico é um movimento que surgiu no final da década de 70, em reação a leituras estruturalistas(muito em voga na figura de Althusser) e hegelianas do marxismo. A idéia principal era 'traduzir' o marxismo no linguajar da moderna filosofia anglo-saxã, daí o nome marxismo analítico: é o marxismo que aceita os procedimentos e os termos da filosofia analítica.

Podemos considerar Popper como o primeiro marxista analítico, embora não se reconhecesse como tal. Sua pergunta sempre foi: qual o núcleo de teses verdadeiras que podemos tirar do marxismo?

O objetivo de Popper era obviamente crítico, visto que via no marxismo do seu tempo uma ameaça a civilização. Já o grupo dos marxistas analíticos queriam salvar o pensamento marxista das formas correntes nas quais ele se apresentava no Ocidente(o marxismo leninismo, a essa altura, já estava jogado na lata de lixo na história).

Não sei se já leu a crítica do Nozick a teoria marxista da exploração, mas a leitura dele também pode ser considerada como sendo um tipo de marxismo analítico. Os marxistas analíticos que queriam salvar Marx dialogaram diretamente com Nozick justamente por causa de sua crítica.

Há vários autores interessantes nesta área, dentre eles Jon Elster e Gerald Cohen.

Desculpe o comentário longo, mas achei relevante fazer este esclarecimento. Embore eu aprecie muito pouco a obra de Marx, a leitura de autores do marxismo analítico me fez entender melhor o pensamento de Marx e até mesmo reconhecer alguns insigths que podem ser bem interessantes.

abraços e boa leitura

Thomas H. Kang disse...

E aí, Renato!

Valeu pelo comentário. Farei as correções necessárias no post pra não espalhar a ignorância mundo afora, hehe.

Eu nada conheço do marxismo analítico, embora já tenha lido algo do G. A. Cohen - mas acerca de justiça distributiva.

Sei do que se trata a filosofia analítica, no entanto, e faz todo sentido o que tu disseste.

Por favor, faça os comentários sempre que quiser.

abraço

Transformação disse...

O marxismo vem sofrendo muito com as deformações e modismos. No Brasil, felizmente, há um sociólogo e filósofo que oferece uma visão ampla do marxismo e que merece ser lido, sendo referência obrigatória no marxismo brasileiro. Trata-se de Nildo Viana. Sobre ele sugiro dois sites:
http://nildoviana.teoros.net/
http://informecritica.blogspot.com/