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Mostrando postagens de Março, 2012

Protecionismo: Debate na blogosfera

A conversa iniciada pelo Cristiano gerou debate na blogosfera. O Lucas da Economia Marginal resolveu então colocar uma série de links interessantes acerca do debate sobre protecionismo, motivado pelo Cristiano. Eu mesmo já havia escrito algo a respeito há pouco tempo, quando resolvi criticar alguns aspectos do livro "Chutando a escada". Eu tenho apenas algumas conclusões a respeito disso tudo:
Embora todos os resultados de livre comércio possam ser desafiados se colocarmos alguma hipótese de imperfeição de mercado, o fato é que muitas vezes mercados são de fato imperfeitos. Não é por outro motivo que Stiglitz (que ganhou o Nobel principalmente por seus escritos acerca de informação imperfeita) por vezes defende o protecionismo em alguns casos, como ocorre nesse livro. A literatura teórica em protecionismo encontra justificativas possíveis em transbordamentos, learning-by-doing e imperfeições no mercado de crédito (ver Feenstra e Taylor, cap. 9, ou qualquer livro atual de eco…

Agency condition e história econômica

Rompendo um pouco a regularidade dos meus posts (que normalmente ocorrem às terças e sextas): esse post do blog do NEP-HIS é bastante interessante. Trata-se de um comentário sobre um paper do Van Zanden, conhecido historiador econômico holandês, acerca da relação entre o conceito de agência (agency) em Amartya Sen e sua possível utilização na história econômica. Para quem se interessa pelas duas áreas (justiça distributiva e história econômica), talvez seja uma leitura importante.

Pobreza no curto ou no longo prazo?

Recentemente temos visto que programas de transferência de renda como o Bolsa-Família tem reduzido a pobreza (apesar das controvérsias na definição de linhas de pobreza), assim como também a desigualdade de renda (os dados podem ser vistos no Ipeadata, ou peguem esse paper aqui do IPC-UNDP). Mas ainda sabemos pouco dos efeitos de longo prazo com relação à redução da pobreza.
O Bolsa-Família, assim como a versão anterior mexicana (o Oportunidades), é caracterizado por ser uma transferência condicional de renda. Ele é focado nos pobres, mas condiciona a ajuda a determinadas exigências, tais como frequencia escolar dos filhos. Outras propostas de transferência, no entanto, existem. Mesmo libertários como Friedman e alguns outros economistas, por exemplo, falaram em imposto de renda negativo. Philippe Van Parijs tem uma defesa moral da renda básica de cidadania, tão propagada por gente como o Suplicy no Brasil. Por outro lado, existem transferência de bens - ou seja, ao invés de se dar u…

Presidência do Banco Mundial

Jeff Sachs estava há algum tempo fazendo uma espécie de campanha para que ele fosse indicado pelos EUA para a presidência do Banco Mundial. No seu blog, ele parabenizou a indicação de Jim Yong Kim feita pelo presidente norte-americano Barack Obama. Traduzindo um pouco do que Sachs quis dizer,  Kim é um verdadeiro "development practicioner" e, portanto, estaria qualificado para o cargo.
O grande desafio é que Kim, nascido na Coreia, mas atualmente reitor do Dartmouth College nos EUA, é médico e não economista. De fato, Kim é muito envolvido com a causa da saúde pública em países pobres. No entanto, em reportagem do Washington Post, muitos como Bill Easterly levantam suas dúvidas a respeito de ter um médico e não um economista liderando uma organização como o Banco Mundial. Todavia, quem sabe as políticas bottom-up estejam mais presentes com essa nova liderança: Kim não apenas é médico, ele tem doutorado em Antropologia por Harvard - antropólogos costumam ser mais preparados p…

Hentschke e Educação na Era Vargas

A incipiente literatura em história econômica da educação brasileira ainbda ignora o livro escrito pelo alemão Jens Hentschke sobre o tema. Em "Reconstructing the Brazilian Nation: Public Schooling in the Vargas Era", o historiador alemão traça as origens da política educacional de Vargas, passando pelo "Castilhismo" positivista quando o Partido Republicano Rio-Grandense dominava a política gaúcha, chegando às políticas varguistas a partir de 1930. Estudos de caso no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul adicionam evidências. Há uma completa revisão da literatura, além de um sério trabalho de documentos primários. Uma fonte valiosa, mas difícil de se achar, como pode se ver no site da Amazon - embora seja um livro editado em 2007. 
Eu jamais teria sabido do livro se não fosse a indicação do conhecido brasilianista Joseph Love. No Congresso Mundial de História Econômica em Utrecht, 2009, o simpático Love indicou-me esse estudo depois de discutir meu projeto de pesq…

Clipping: Copa, políticas sociais e welfare state

O meu amigo historiador econômico Thales achou essa reportagem da Veja de uma SUPOSTA edição de seis décadas atrás sobre a vindoura Copa do Mundo de 1950 (ATUALIZAÇÃO: suposta porque a Veja foi fundada em 1968, como me explicou o Drunkeynesian, e criou essa série "Veja na História" com assuntos anteriores a sua criação). Como se percebe, parece que nada mudou!Não li ainda, mas quem quer saber de políticas sociais no Brasil talvez se interesse por esse paper novo sobre o período 1995-2009.  Desde fevereiro, o Krugman tem postado continuamente no seu blog uma bibliografia sobre "Economics of the Welfare State". A primeira indicação está aqui, mas procure pelo termo que me referi na busca do blog. Já há seis listas de bibliografias disponíveis sobre o tema com notas de aula. 

Ganhadores e perdedores

Lá no II ENBECO, um dos participantes fez uma daquelas perguntas chatas para os blogueiros durante a minha sessão: se você pudesse escolher um blog no mundo, que blog você escolheria. Confesso que fiquei confuso na hora e resolvi polemizar. Eu disse que gostava do blog do Dani Rodrik por levantar questões interessantes. A Roseli falou do blog do Krugman e o Shikida, do Marginal Revolution (bons blogs de fato!). Mas quando falei do Rodrik, o Cristiano logo reagiu em protesto.
O protesto do Cristiano é válido quando há papers como esse do Rodrik: regressões e resultados pouco convincentes do ponto de vista quantitativo e qualitativo, embora algumas das ideias ali presentes possa até estar correta. Mas o que eu gosto do Rodrik na blogosfera são as questões que ele levanta que normalmente economistas esquecem de falar sobre. Estou falando evidentemente de justiça distributiva, coisas que meus leitores estão cansados de ler sobre por aqui (o que valeu algumas piadas por parte do Shikida no…

Após o II ENBECO

Como anunciado em vários blogs de economia no Brasil, o II Encontro Nacional de Blogueiros de Economia foi um sucesso. A primeira rodada, sobre a crise na Europa, com a participação dos blogueiros de A Consciência de Três Liberais, o ex-anônimo Drunkeynesian e The Duke of Hazard, foi bastante instrutiva. Em suma, para todos, a crise como disrupção ou como problema a ser resolvido imediatamente, acabou com os últimos acontecimentos relacionados à dívida grega. 
Em seguida, eu, Roseli e Shikida falamos sobre questões de ensino e pesquisa relacionadas aos blogs: tanto em seu papel direto nas atividades de ensino como ferramentas de formação complementar. Finalmente, o Felipe Salto e o Fernando Meneguin fizeram apresentações sobre a política fiscal. Cristiano Costa, um dos co-organizadores com o Shikida, somou-se à mesa. Uma pena que os convidados Ronald e o Mansueto não puderam comparecer ou enviar material.
No ano que vem, o III ENBECO é na FUCAPE em Vitória.

Europa, recessão e propaganda

A possível ameaça de dissolução do Euro, com a aguda crise pela qual passa o bloco e os problemas das dívidas de países como Grécia, Itália e Portugal, tem levado a reações temidas pelo resto do mundo. A perda de poder europeu na economia mundial pode levar o bloco europeu, principalmente as potências decadentes como a França, a tomar atitudes cada vez mais perigosas no plano das relações internacionais.  Pelo menos foi o que ouvi de alguns colegas especialistas na área. Mas esperamos que não violentas.
Em parte, podemos explicar o problema do Euro com a ideia do Robert Mundell (o mesmo do modelo Mundell-Fleming) de "áreas monetárias ótimas" (optimal currency areas). Uma vez que os países do Euro são muito diferentes entre si e reagem de forma distinta a choques, temos uma evidência de que o Eurozone não é uma área monetária ótima de acordo com a teoria econômica (pelo menos de acordo com um dos modelos do Mundell!) Mas evidentemente, o problema abrange não apenas a questão…

Recursos Naturais ou Instituições?

No World Economic History Congress 2012, que será realizado em julho na África do Sul, haverá uma sessão dedicada a trabalhos sobre a maldição de recursos naturais (natural resources curse) na história econômica. Esse é um assunto interessante, uma vez que, desde o artigo de Sachs e Warner (1995), a questão de um possível papel negativo da abundância de recursos naturais no crescimento econômico voltou à tona.
Tendo em vista a ideia de vantagens comparativas e Dutch Diseases (Corden e Neary  é um dos artigos clássicos sobre doenças holandesas), é fácil pensar em um dos processos pelo qual o crescimento econômico de longo prazo pode ser afetado pela dotação de recursos. O crescimento do setor de recursos naturais em detrimento de outros setores que gerariam maior avanço tecnológico poderia estancar o crescimento econômico (ver também o Trade and Poverty do Jeff Williamson).
No entanto, é estranho pensar que, por si só, a abundância de recursos naturais seja responsável pela falta de c…

Sen no Brasil

Já foi amplamente divulgada, pelo menos na mídia gaúcha, a presença de Amartya Sen na primeira palestra da série Fronteiras do Pensamento. Essa série existe em São Paulo e Porto Alegre, lugares que Sen, portanto, visitará em Abril.
Por pura sorte, tive a oportunidade de ver uma palestra de Sen no auditório da New School em Nova York. Eu estava participando de um Congresso da Human Development and Capability Association. Esse evento se deu em meados de 2007 e a palestra foi muito produtiva, uma vez que Sen adiantou alguns resultados do livro que ele estava escrevendo. Na época, o título provisório era "Reasons for Justice", que veio a se tornar, em 2009, em "The Idea of Justice" (lançado pela Belknap Harvard). 
Lembro que, ao responder a uma jovem indiana que tinha lhe feito uma pergunta, Sen respondeu mostrando a diferença entre dois termos em sânscrito que se relacionam à justiça. Posteriormente, essa distinção entre niti e nyaya apareceu no livro. Além disso, Se…