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Ganhadores e perdedores

Lá no II ENBECO, um dos participantes fez uma daquelas perguntas chatas para os blogueiros durante a minha sessão: se você pudesse escolher um blog no mundo, que blog você escolheria. Confesso que fiquei confuso na hora e resolvi polemizar. Eu disse que gostava do blog do Dani Rodrik por levantar questões interessantes. A Roseli falou do blog do Krugman e o Shikida, do Marginal Revolution (bons blogs de fato!). Mas quando falei do Rodrik, o Cristiano logo reagiu em protesto.

O protesto do Cristiano é válido quando há papers como esse do Rodrik: regressões e resultados pouco convincentes do ponto de vista quantitativo e qualitativo, embora algumas das ideias ali presentes possa até estar correta. Mas o que eu gosto do Rodrik na blogosfera são as questões que ele levanta que normalmente economistas esquecem de falar sobre. Estou falando evidentemente de justiça distributiva, coisas que meus leitores estão cansados de ler sobre por aqui (o que valeu algumas piadas por parte do Shikida no II ENBECO).

Nessa semana, o Rodrik postou questões interessantes de justiça distributiva e globalização no Project Syndicate (esse é bom!). O grande problema da globalização é que ela gera ganhadores e perdedores (no comércio, por exemplo, como diz o nosso famoso Teorema de Stolper-Samuelson), apesar dos ganhos gerais que o comércio gera. Overall gains from trade são vantagens em termos utilitaristas, mas avaliações de um estado de coisas podem ser feitas com outros critérios, como sempre diz Amartya Sen. O que importa, para muitas pessoas, é como são gerados esses ganhos e perdas (procedural reasons). Outros se importam mais com resultados mesmo, mas sem necessariamente adotarem critérios welfaristas (se você não entendeu nada disso, leia o "Sobre Ética e Economia" do Sen).

Um bom debate, que gerou até um comentário na "The Economist". Avaliar comércio e globalização exige pensar sobre ética, por mais que alguns economistas tenham ojeriza a qualquer assunto que exija alguma avaliação subjetiva (leiam também o Peter Singer, One World). Nesse caso, melhor nem falar que comércio é bom: é uma avaliação que pode ter pressupostos welfaristas também - e que precisam ser discutidos. Isso não significa que eu não goste de comércio, gosto e é necessário (com ressalvas às vezes, é claro). Estou apenas chamando atenção que a questão é mais complicada do que parece ser.


Comentários

Lucas Murtinho disse…
Thomas:

Também gostei bem desse artigo do Rodrik, que saiu ontem no Valor. Estava até pensando em escrever algo sobre ele lá no meu blog (http://economiamarginal.blogspot.com/), levantando duas bolas:

1 - Com base nessas observações do Rodrik, o que fazer? Deveriamos sobretaxar produtos chineses para compensar o fato de que os trabalhadores de lá não usufruem dos mesmos benefícios que os nossos, ou que sua legislação ambiental é menos rigorosa?

2 - O mesmo raciocínio pode ser usado para pensar muitos outros aspectos da economia. Se a imensa maioria da riqueza americana produzida nos últimos trinta anos foi parar na mão dos mais ricos, será que se pode falar realmente de progresso econômico? No limite: uma economia cujo crescimento do PIB é totalmente apropriado por uma única pessoa está de fato crescendo?

Abraços,

Lucas
Thomas H. Kang disse…
Olá, Lucas

1 - Não acho que uma sobretaxação dos produtos chineses seja benéfica aos próprios trabalhadores chineses. Nesse caso, também temos que saber o que os próprios trabalhadores chineses também acham disso. O ponto simplesmente é que sabemos que há ganhadores e perdedores com a globalização. E, apesar das condições laborais, a China tirou muita gente da pobreza nos últimos anos com sua participação no comércio internacional.

2 - Crescendo a economia está, mas segundo as abordagens mais modernas, este crescimento concentrado talvez não possa ser caracterizado como desenvolvimento - se considerarmos que questões éticas entram na definição do que é uma economia ou sociedade desenvolvidas.
Lucas Murtinho disse…
Thomas:

1 - Não sei se os trabalhadores chineses entram nessa conta. Se uma empresa local não está respeitando as normas trabalhistas locais, ela é multada, autuada, fechada. O governo brasileiro não pode fechar uma fábrica chinesa, mas pode "multá-la" com impostos. O grande problema, para mim, é político: o Brasil estaria dizendo à China como tratar seus trabalhadores. Mas economicamente, embora pouco usual, me parece fazer sentido.

2. Certíssimo.
Thomas H. Kang disse…
1 - Na verdade essa seria uma forma de proteção contra uma espécie de competição "desleal", uma vez que não há muitas leis trabalhistas. O problema é político sim e difícil de resolver. Afinal, até que ponto "multar" uma empresa chinesa não é pior para os trabalhadores? Não sei.
Lucas Murtinho disse…
Thomas:

Não há mesmo nada de novo sob o sol: aqui, um artigo do Cato Institute contra sanções comerciais por motivos trabalhistas e ambientais propostas nos Estados Unidos em 2001.

Destaque para a citação do FHC: "It would be an obvious mistake - a very serious mistake, indeed - to set given standards of social development as a prior condition for free trade. This would be tantamount to making development a prior condition for development."
Thomas H. Kang disse…
Pois é. É de se pensar. O que o FHC pode fazer sentido, ao mesmo tempo que parece ser permissivo com relação à exploração. Temos que ver até que ponto o comércio e o crescimento tem ajudado esses países a justamente superar essas condições em um futuro próximo. Difícil.

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