Pular para o conteúdo principal

Europa, recessão e propaganda

A possível ameaça de dissolução do Euro, com a aguda crise pela qual passa o bloco e os problemas das dívidas de países como Grécia, Itália e Portugal, tem levado a reações temidas pelo resto do mundo. A perda de poder europeu na economia mundial pode levar o bloco europeu, principalmente as potências decadentes como a França, a tomar atitudes cada vez mais perigosas no plano das relações internacionais.  Pelo menos foi o que ouvi de alguns colegas especialistas na área. Mas esperamos que não violentas.

Em parte, podemos explicar o problema do Euro com a ideia do Robert Mundell (o mesmo do modelo Mundell-Fleming) de "áreas monetárias ótimas" (optimal currency areas). Uma vez que os países do Euro são muito diferentes entre si e reagem de forma distinta a choques, temos uma evidência de que o Eurozone não é uma área monetária ótima de acordo com a teoria econômica (pelo menos de acordo com um dos modelos do Mundell!) Mas evidentemente, o problema abrange não apenas a questão monetária: é muito maior.

Uma mostra dos comportamentos perigosos da Europa com a sua recessão é a recente propaganda televisiva veiculada pela União Europeia. À exceção de seu final, em que parece haver uma harmonia, durante o resto do vídeo, há uma oposição clara entre os BRICs e a Europa. Pelo menos é essa a ideia que o vídeo passa. Mas cada um tire suas próprias conclusões. Como noticiado no Portal Exame, a UE desculpou-se e retirou o vídeo do ar.


Agradeço a minha ex-aluna Louise Schmitt por me passar o vídeo.

E lembrem-se que, hoje à tarde, lá no IBMEC-MG, a blogosfera econômica está reunida no II Encontro Nacional de Blogueiros de Economia. Em breve, escrevo sobre o que ocorreu no evento.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero. O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente. O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero ...

Cotas e incentivos

Os resultados do vestibular da UFRGS tem novamente gerado discussões a respeito da política de cotas. A adoção de um sistema de cotas pela UFRGS, no qual 30% das vagas foram reservadas para candidatos egressos de escolas públicas, sendo que metade dessas para negros auto-declarados, desde que atingissem certo patamar mínimo, gera enorme polêmica principalmente agora. Muitos candidatos, que seriam aprovados caso não existisse essa política, sentem-se injustiçados e pretendem entrar com um processo contra a universidade. As denúncias poderiam se basear no princípio constitucional da isonomia. Sem querer discutir a justiça ou não de tal sistema, uma análise dos incentivos de um sistema de cotas no médio prazo pode ser interessante para entender que possíveis reações ela pode provocar. Uma das possibilidades seria uma alteração na demanda das famílias por escolas particulares: passa a valer menos a pena pagar uma escola cara para o filho, uma vez que há reservas de cotas para alunos de esc...

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas. Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre). Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55) ...