Pular para o conteúdo principal

O fenômeno Acemoglu

Ele escreve sobre tudo. Recentemente, Daron Acemoglu lançou um livro chamado Introduction to Modern Economic Growth. Cerca de mil páginas abrangendo desde as teorias básicas de crescimento (Ramsey, overlapping generations) chegando até questões de economia política do crescimento e instituições. 

Mais do que isso, ele e seus companheiros Simon Johnson e James Robinson tem memoráveis artigos sobre colonização e crescimento de longo prazo. Controversos mas conhecidos. Poucos nomes conseguem vir antes de Acemoglu nas referências bibliográficas. Em qualquer área de conhecimento da economia, não ter Acemoglu referenciado passou a ser estranho hoje em dia. Obviamente, ele ganhou a medalha John Bates Clark, concedido para economistas até os 40 anos. Não vou relacionar os papers, facilmente encontráveis na maioria das bibliografias de papers recentes na área de crescimento de longo prazo e instituições.

Livro premiado é o seu Economic Origins of Dictatorship and Democracy, que tem como co-autor James Robinson. Andamos discutindo suas teorias institucionais, baseado em um capítulo da autoria dos três (Acemoglu, Johnson a Robinson) que está contido no Handbook of Economic Growth. Nosso grupo de história econômica levantou o fato de que a sua teoria de instituições políticas e econômicas é muito geral. Todos reclamamos da dificuldade de aplicação direta de sua teoria, embora alguns insights sejam muito bons. De qualquer forma, é um avanço interessante na economia. A economia deixou de ser a ciência em que política apenas se refere aos problemas de escolha pública, em que o problema é sempre a intervenção estatal além da garantia de direitos de propriedade e a existência de grupos de interesse. Embora esse último campo seja importante, ao destacar questões distributivas e de poder político, Acemoglu, Johnson e Robinson acabaram fazendo uma contribuição importante. Grupos de interesse devem ser vistos de forma menos normativa às vezes.

Quem for ao site do Acemoglu no MIT, vai poder observar a sua produção frenética de working papers em muitas áreas da economia. Enquanto publica papers altamente teóricos e com modelos altamente sofisticados, ele ao mesmo tempo também será o conferencista principal do World Economic History Congress em Utrecht a ser realizado em agosto. E eu estarei lá.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.
O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.
O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero t…

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas.

Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre).

Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55), lis…

Exogeneidade em séries de tempo

Mais um texto de quem tem prova de econometria na segunda-feira. Quem não é economista não deve de forma alguma ler esse texto. Não digam que eu não avisei.

Quando falamos de exogeneidade na econometria clássica, estamos falando da chamada exogeneidade "estrita", que nada mais consiste no fato de uma variável x não ser correlacionada com qualquer erro. Nas séries de tempo, no entanto, trabalha-se com três tipos de exogeneidade, dependendo do fim proposto.

Na busca de resultados em inferência estatística (modos de estimar parâmetros e formulação de testes de hipótese), utiliza-se, em séries de tempo, o conceito de exogeneidade fraca. Para isso, precisamos 'fatorar a função de distribuição em duas partes: distribuição condicional e distribuição marginal . Define-se que uma variável é fracamente exógena em relação aos parâmetros de interesse se, e somente se, houver um certo tipo de reparametrização e atender duas condições: a variável de interesse precisa ser função de apena…