Pular para o conteúdo principal

Clipping e comentário: desigualdade

Um texto interessante do meu amigo Ricardo Martini sobre desigualdade e pobreza na visão de Feldstein e Milankovic.

Já dou meu pitaco, embora não tenha lido os textos, o que pode ser um pouco irresponsável: acho que o Milankovic tem razão até por questões pragmáticas. Feldstein argumenta contra a idéia de igualdade econômica, pois sua demanda adviria da inveja, mesmo quando a desigualdade aumentada fosse resultado de uma melhoria de Pareto. No entanto, mesmo que eu ache a inveja algo moralmente condenável, a igualdade de recursos ou de bem-estar (outro belo debate, ver Dworkin se conseguir entender o texto dele sobre o assunto), precisa ser buscada para garantir certa estabilidade social.

O segundo argumento que apresento é muito melhor: desigualdade de recursos gera desigualdade de poder político, criando instituições que beneficiam apenas a elite: ou seja, incentivando a persistência da desigualdade e pouco desenvolvimento, no sentido amplo. Acemoglu, Johnson e Robinson tem um belo texto que fala sobre isso que pode ser encontrado aqui.

Atualização: o Ricardo Martini me chamou atenção que o contrário também pode ocorrer: desigualdade de poder político gerar desigualdade de recursos. Acredito que é um mecanismo de retroalimentação, como está no texto de Acemoglu et al. Valeu, Ricardo.

Comentários

Desigualdade de recursos gera desigualdade política/institucional? Até onde eu já li a respeito disso, ocorreria o contrário...

Todo caso, muito o0brigado pela citação!
Julio Vega disse…
Caro colega, venho acompanhando seu blog há algum tempo, e me interesso por várias das discussões que você apresenta. Confesso que não li sobre Acemoglu et al., mas nesta questão, acredito que existem trabalhos interessantes (talvez você já os conheça) de um pesquisador da PUC-RIO – Francisco Ferreira – que explora basicamente este ponto de vista da influência das relações institucionais na distribuição de renda para o caso brasileiro, mas sob a perspectiva da desigualdade educacional. Segundo este autor, a heterogeneidade educacional gera uma desigualdade de riqueza, que acarreta uma assimetria de poder político entre os agentes, cujo resultado é reforçar e perpetuar a desigualdade de oportunidades via geração de políticas educacionais que privilegiam os detentores de maior influência política em função da riqueza. Faz sentido, pois para estes, pouco interesse teriam em um aumento do investimento estatal no ensino fundamental público uma vez que não o utilizam. Desta forma as três desigualdades se reforçariam mutuamente.
Boa sorte com os estudos aí na USP, um abraço.
Thomas H. Kang disse…
Julio,

Valeu pelo comentário. Já tinha ouvido falar no Ferreira, mas de fato nada li dele.

Acredito que ele tem uma parcela de razão. Pelo que tu disse, é também uma espécie de círculo vicioso, o que pra mim faz todo sentido.

Obrigado pela indicação: vou buscar alguma coisa dele pois pode ser útil para minha dissertação.

Abraço
Essa foi a bibliografia da minha primeira aula de Desigualdade e Pobreza. Pra próxima aula, uma semana depois do feriado, vou ter mais textos!

Abraço

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.
O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.
O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero t…

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas.

Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre).

Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55), lis…

A busca pelo ótimo de Pareto

Depois de um jogo entre São Paulo e Palmeiras, nada melhor do que uma conversa sobre Economia. Com uma caminhada de 45 minutos pela frente, eu e meu colega Richard, um especialista em Escola Austríaca e torcedor do porco, discutimos inúmeros assuntos, inclusive o famoso ótimo de Pareto.

O ótimo de Pareto (Vilfredo Pareto foi economista e sociólogo italiano da Escola de Lausanne) é um conceito fundamental na ciência econômica. Em muitas análises, busca-se chegar nesse ótimo, o que acontece quando melhorias de Pareto não são mais possíveis. Uma melhoria de Pareto é a melhora na situação de um sem piorar a dos outros. Quando se exaurem todas as melhorias paretianas, estamos no ótimo: só é possível melhorar a situação de alguém piorando a de outrem.

A pergunta é: embora o ótimo de Pareto esteja em muitas análises na Economia do Bem-Estar, não é esse ótimo um juízo de valor arbitrário?

Evidentemente, a resposta é sim. No entanto, sabemos que poucas pessoas achariam (em princípio) ruim melhora…