Pular para o conteúdo principal

A lucidez de Max Weber

Embora poucos economistas leiam o velho Max Weber, certas passagens demonstram que ele já sabia o que ainda é considerado novidade na economia. Por exemplo, vejam essa passagem que, inicialmente, parece ser uma crítica aos modelos:

Os tipos ideais de ação social que, por exemplo, são usadas na teoria econômica são portanto irrealistas ou abstratos, pois sempre perguntam que curso de ação ocorreria se esse fosse puramente racional e orientado apenas para fins econômicos. (p. 21)

Mais adiante, no entanto, Weber explica:

Quanto mais claro e preciso é o tipo ideal construído, ou seja, quanto mais abstrato e irreal é nesse sentido, mais apto está o tipo ideal para desempenhar suas funções em formulação de terminologia, classificações e hipóteses. (p. 21)

E para aqueles que pensam que Sen foi o primeiro a associar ética (compromisso) à racionalidade, esse trecho talvez seja bem esclarecedor. No mínimo, Sen deveria citá-lo:

Exemplos de [ações orientadas para] racionalidade de valor pura seriam as ações de pessoas que, desconsiderando o possível custo para eles próprios, agem para pôr em prática suas convicções naquilo que parece-lhes requerido pelo dever, pela honra, pela busca pelo belo, por um chamado religioso, pela lealdade pessoal, ou pela importância de uma causa, não importando no que ela consiste. (p. 25)

Para Weber, existe a racionalidade instrumental (zweckrational) e a racionalidade de valor (wertrational), além de outros tipos de motivações como a afetiva e a tradicional. Leiam o primeiro capítulo de "Economy and Society" de Max Weber.

obs: Todas as citações foram traduzidas da edição em inglês de 1968 , publicado em New York pela Bedminster Press.

Comentários

O professor de metodologia é o Hugo E. A. da Gama Cerqueira. Tem doutorado em filosofia.

Convidei ele para postar no blog, vamos ver se ele dá as caras por lá!

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.
O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.
O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero t…

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas.

Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre).

Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55), lis…

A busca pelo ótimo de Pareto

Depois de um jogo entre São Paulo e Palmeiras, nada melhor do que uma conversa sobre Economia. Com uma caminhada de 45 minutos pela frente, eu e meu colega Richard, um especialista em Escola Austríaca e torcedor do porco, discutimos inúmeros assuntos, inclusive o famoso ótimo de Pareto.

O ótimo de Pareto (Vilfredo Pareto foi economista e sociólogo italiano da Escola de Lausanne) é um conceito fundamental na ciência econômica. Em muitas análises, busca-se chegar nesse ótimo, o que acontece quando melhorias de Pareto não são mais possíveis. Uma melhoria de Pareto é a melhora na situação de um sem piorar a dos outros. Quando se exaurem todas as melhorias paretianas, estamos no ótimo: só é possível melhorar a situação de alguém piorando a de outrem.

A pergunta é: embora o ótimo de Pareto esteja em muitas análises na Economia do Bem-Estar, não é esse ótimo um juízo de valor arbitrário?

Evidentemente, a resposta é sim. No entanto, sabemos que poucas pessoas achariam (em princípio) ruim melhora…