Pular para o conteúdo principal

Comunistices

  • Tenho assistido com certa ojeriza as declarações raivosas mandando Kim Jong-Il para o inferno. Não  sou comunista obviamente. Mas quem quer mandar uma pessoa para o inferno por ódio ideológico iguala-se a um ditador. Pessoas que não tem em seu círculo próximo pessoas que sofreram com o totalitarismo talvez devessem pensar antes de fazer declarações de ódio a um ditador. Deixem isso para quem viveu com o comunismo. Melhor argumentar racionalmente.
  • Tenho estudado recentemente as políticas econômicas cubanas e o processo de mudança institucional ocorrido com a Revolução de 1959. A equipe de Castro acabou com a burocracia e mandou a maioria dos técnicos embora do governo, na tentativa de comandar um país como se fosse uma guerrilha. Obviamente não deu certo, mas também não deu certo com o planejamento central estilo stalinista, aplicado posteriormente. E também os problemas econômicas de Cuba nos anos iniciais não podem ser creditados ao embargo, uma vez que as compras soviéticas de açúcar mais do que compensaram as perdas do embargo. Talvez o problema mesmo tenha sido o fim dos mecanismos de mercado. Apesar da redução da desigualdade e da extensão dos serviços sociais, o tradeoff eficiência x equidade esquecido pode ser um problema para o crescimento sustentável no longo prazo. 
  • ATUALIZAÇÃO:  PCdoB se solidariza com o povo coreano pela morte de Kim Jong-Il. É inacreditável.
  • ATUALIZAÇÃO: Lembrei agora do Peter Lindert e seu Free Lunch Puzzle. Pode ser que políticas sociais sejam pró-crescimento. Mas daí o debate é longo...

Comentários

Anônimo disse…
dizer que deseja mandar um ditador para o inferno não deve ser levado a sério, é só uma expressão. É uma forma de recriminar e repudiar o que o ditador fez em vida. Não é literal, até porque o inferno não existe. O ditador não corre realmente o risco de ir para lá.
Thomas H. Kang disse…
Embora eu entenda que seja apenas uma expressão, prezado visitante, acredito que existem formas de repúdio menos emocionais para quem não está emocionalmente envolvido com a história. Há pessoas visceralmente contrárias ao capitalismo ou ao comunismo por motivos puramente ideológicos sem que isso tenha realmente a ver com a sua vida. Basta ser contra, não precisa ser visceralmente contra.
Diego Rodrigues disse…
Thomas, tu te tornaste também um militante do politicamente correto.

ps. Deixo claro que o comentário "anônimo" não é meu.
Thomas H. Kang disse…
Não, Diego. A não ser que tu seja uma pessoa muito sensível, que se compadece e sente uma enorme tristeza pelo povo norte-coreano, uma aguda reação emocional não faz sentido. Uma outra possibilidade é tu estar diretamente envolvido com a história. Mas quem sabe um dia eu consiga te explicar o pouco do que sei sobre isso, porque é impossível fazer alguém entender o que é estar envolvido com a história.
Anônimo disse…
Kang, você na qualidade de mestre em Economia pode esclarecer uma dúvida pessoal sobre o que é a otimização dinâmica?

Em outro tópico você comentou que ela se refere ao estudo das EDOs e EDPs, mas ao pesquisar encontrei outros tópicos como Equação de Bellman, Cálculo de Variações, Teoria do Controle e Hamiltoniano (o qual seria um algoritmo para otimização dinâmica, diferente do Lagrangiano que é para estática). Esses últimos tópicos citados constituem o que você aprendeu no mestrado e são os métodos matemáticos utilizados em Macroeconomia Dinâmica ou estou enganado?

Obrigado,
Douglas
Thomas H. Kang disse…
Olá, Douglas.
Sim, é exatamente isso que estudamos. Vários modelos de crescimento, apenas para citar um exemplo, exigem o cálculo de uma trajetória ótima e, portanto, utilizamos isso que você citou (que necessita do conhecimento prévio de equações diferenciais).

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.
O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.
O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero t…

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas.

Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre).

Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55), lis…

A busca pelo ótimo de Pareto

Depois de um jogo entre São Paulo e Palmeiras, nada melhor do que uma conversa sobre Economia. Com uma caminhada de 45 minutos pela frente, eu e meu colega Richard, um especialista em Escola Austríaca e torcedor do porco, discutimos inúmeros assuntos, inclusive o famoso ótimo de Pareto.

O ótimo de Pareto (Vilfredo Pareto foi economista e sociólogo italiano da Escola de Lausanne) é um conceito fundamental na ciência econômica. Em muitas análises, busca-se chegar nesse ótimo, o que acontece quando melhorias de Pareto não são mais possíveis. Uma melhoria de Pareto é a melhora na situação de um sem piorar a dos outros. Quando se exaurem todas as melhorias paretianas, estamos no ótimo: só é possível melhorar a situação de alguém piorando a de outrem.

A pergunta é: embora o ótimo de Pareto esteja em muitas análises na Economia do Bem-Estar, não é esse ótimo um juízo de valor arbitrário?

Evidentemente, a resposta é sim. No entanto, sabemos que poucas pessoas achariam (em princípio) ruim melhora…