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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Sobre a nota do PCdoB

Permitam-me sair das questões mais técnicas no dia de hoje. Acredito que alguns esclarecimentos precisam ser feitos acerca do post anterior, principalmente no que diz respeito à Coreia do Norte. 

Muitos amigos, ao verem a carta do PCdoB, concordaram comigo que a mensagem do partido foi estúpida e anacrônica, além de imprudente do ponto de vista eleitoral (a Manoela d'Ávila provavelmente sofrerá com isso nas próximas eleições). Nas redes sociais, vi declarações de todo o tipo: tanto de repúdio ao ditador morto quanto de elogios à carta do PCdoB. 

Pasmem que ambos os posicionamentos me exasperam. Não porque eu seria partidário do "politicamente correto", como acusou-me meu estimado colega Diego Rodrigues. Espero ser mais claro dessa vez.

1. Ser favorável a carta do PCdoB é indignante. Certo amigo meu disse que a carta tinha sido "uma manifestação ideológica do PCdoB". Até aí concordo. O amigo em questão afirmou que isso era "legal". Mas não sei o que tem de bom nisso. A defesa de uma ideologia por um princípio, ignorando todas as suas consequências, é moralmente questionável até em situações bem mais inocentes que essa. Na situação em questão, temos um regime totalitário e considerado talvez o mais fechado do mundo, em que presidentes são tratados como ídolos e que desde a década de 1950 impede que meu pai veja ou ao menos saiba alguma coisa sobre a existência de familiares seus. Tal regime não me parece defensável sob qualquer ponto de vista. Embora meu último argumento tenha sido do ponto de vista pessoal, essa história certamente se repete em muitas famílias coreanas. As marcas do regime e da guerra perduram nas relações pessoais e familiares. A dureza com que pessoas como os norte-coreanos encaram a vida depois do que sofreram é perceptível mesmo para quem não esteve lá como eu. Dizer que "há países capitalistas muito piores" e que tudo não passa de "uma briga da mídia com comunistas" é uma afirmação ignorante por dois motivos: (a) porque provavelmente está errado: a Coreia do Norte não apenas é extremamente pobre, tendo passado por um surto de fome na década de 1990, como também tem uma elite abastada e liberdades políticas extremamente restringidas e (b) porque por mais que países aliados aos EUA e com governos bastante autoritários, como a Arábia Saudita, não sejam atacados pela mídia, é difícil afirmar que seja pior que a Coreia do Norte. E mesmo que seja, não sei como o erro de países capitalistas tirânicos justifica a carta do PCdoB em apoio ao regime mais autocrático atualmente existente. 

2. Por outro lado, sentimentos de "nojo" e "horror" ou desejar que o Kim Jong-Il "vá para o inferno" não me parece uma atitude razoável para brasileiros de classe média alta ou alta que não tem qualquer envolvimento emocional com a Coreia do Norte. Todos nós podemos achar muito errado a ditadura norte-coreana. Talvez se você tiver um parente que sofreu com a ditadura militar brasileira ou qualquer outra possa realmente se revoltar um pouco com a tirania norte-coreana, ou ainda se você é uma pessoa muito sensível e consegue empaticamente colocar-se no lugar de um cidadão norte-coreano. Se não é o caso, acho que manifestar que você é contrário ao regime norte-coreano é mais do que legítimo, é até necessário e eu inclusive agradeço por isso. Mas não vejo motivo para essas pessoas odiarem o Kim Jong-Il ou terem "nojo" dele. Acho que meu pai e outros tantos coreanos que nunca mais viram seus familiares podem falar em "nojo" e "ódio" do Kim Jong-Il e do regime norte-coreano - isso é outro patamar de crítica.  O resto me parece balbúrdia ideológica, quase no nível de uma carta do PCdoB em apoio ao regime.  

Não se trata de ser ou não "politicamente correto". Quanto à Coreia do Norte, quais são seus reais sentimentos para que se revolte a ponto de desejar o inferno pro Kim Jong-Il? Eu tenho os meus motivos. Se você tiver seus motivos (que sejam parentesco, identificação cultural, direitos humanos, empatia, etc.), está tudo bem. Mas acho que a maioria que fala por aí não tem e trata o caso como se fosse um time de futebol. Entendo que minha opinião possa estar errada, mas acho que os leitores entenderão que esse é um assunto sensível para descendentes de coreanos. [parágrafo reescrito em 24/12, 18h46min].

11 comentários:

Diego Rodrigues disse...

Thomas;

Parabéns pelo texto!

Alguns esclarecimentos da minha parte, por favor:

1) Não te "acusei" de "politicamente correto", pois meu comentário teve um teor irônico. Na tua resposta a ele, porém, vi que tratávamos também de questões pessoais relacionadas a ti a à tua família, que eu talvez não entenderia, e por isso nem prossegui a conversa, nem para te fazer esse primeiro esclarecimento. Peço desculpas por isso.

2) Eu, em nenhum momento, sugeri que eu desejasse que o ditador Kim Jong-II fosse "para o inferno", ou mesmo que eu tivesse celebrado sua morte. Acho que isso é muito claro, mas estou reafirmando, por via das dúvidas.

3) No entanto, acho que tu te equivocas em um ponto: em achares que cabe somente às pessoas que sofreram com determinado evento/fato o monopólio da revolta contra eles. Tu escreveste "Se você é negro no Brasil, é compreensível que se revolte com o apartheid na África do Sul. Mas quanto à Coreia do Norte, quais são seus reais sentimentos para que se revolte a ponto de desejar o inferno pro Kim Jong-Il?". Ora, então eu preciso ser negro para me revoltar contra o apartheid? Como branco, eu não tenho condições de fazer isso? E o mesmo valeria para o caso da Coréia do Norte? É isso que tu quiseste dizer mesmo? É o argumento de que quem somente vivenciou um determinado problema é capaz de enfrentá-lo, de se indignar com ele. Ou seja, se você nunca estudou em uma escola pública, você não pode se revoltar contra problema da educação; se você nunca usou o SUS (lembra do caso do Lula?), não pode se revoltar contra os problemas da saúde pública; se você nunca foi pobre, não pode se revoltar contra o problema da pobreza; se você nunca passou fome, não pode se se revoltar contra o fome. Acho, Thomas, respeitosamente, que tu trouxeste excessivamente para o lado pessoal uma tema que não é pessoal, mas é do mundo todo! Da mesma maneira que fazemos quando criticamos a pobreza do Nordeste, ou nos envolvemos na questão de Belo Monte, ou quando falamos da política externa norte-americana. Particularmente, me acho no direito de expressar opiniões sobre isso, mesmo que, reconheço, minha realidade seja bastante distante delas.

4) Embora sejamos grandes amigos, admito que não te conheço suficientemente para saber exatamente das relações tuas e da tua família com os conflitos das Coréias. Espero sinceramente que tudo se resolva da melhor maneira possível, e que qualquer sofrimento que isso cause a ti e aos teus familiares termine por completo o mais rapidamente possível.

Feliz natal e um próspero 2012!

DIOGO disse...

Oi Kang,

Concordo em parte com o que o Diego escreveu. Entretanto, também consegui intepretar a questão que abordaste da falta de vivência de alguns para criticar. Sei que isso faz muita diferença quando se discutem certas questões. Esse é um dos motivos de muitos bem nascidos falarem muita asneira. Mas não podemos também desprezar a capacidade de algumas pessoas de avaliar determinadas coisas sem vivenciá-las. Acho que tu disseste isto no teu texto, mas, às vezes, algumas palavras são mais bem notadas do que outras.

Boas Festas Professor

Benito disse...

nunca sofri abuso, nem conheço alguém que tenha (ou que eu saiba), nem por isso deixo de ter nojo (no mínimo) de quem é pedófilo. Você não precisa sentir na pele para se posicionar.
De resto, assino embaixo. Abraços

Anônimo disse...

Thomas, deixando de lado questões familiares e nacionalistas, em relação ao tema Coréia do Norte, para resumir, me considero um hicthenesiano: "Tenho uma convicção, que é a de ser contra o totalitarismo - de esquerda ou de direita. O totalitário para mim é o inimigo – o que é absoluto, o que quer o controle dentro da sua cabeça, não apenas de suas ações e impostos. E as origens disso são, obviamente, teocráticas. Começa na ideia de que exista um líder supremo, ou um papa infalível, ou um chefe rabino, ou quem quer que seja, que possa ser ventríloquo do divino e [assim] nos dizer o que fazer." Liderau Marques Jr.

Anônimo disse...

O "legal" da declaração do PCdoB é que eles se declaram abertamente totalitários. Imagine o quanto a política brasileira seria melhor caso todos os partidos e políticos revelassem suas preferências!
Feliz Natal!
Liderau Marques Jr.

Rodolfo Fuchs disse...

O "legal" da declaração do PCdoB é que eles se declaram abertamente totalitários. Imagine o quanto a política brasileira seria melhor caso todos os partidos e políticos revelassem suas preferências!
Feliz Natal!
Liderau Marques Jr.

A isso que me referia. Onde está a ideologia dos partidos brasileiros hoje? poucos tem alguma.

Rodolfo Fuchs disse...

Kang, eu entendo todo teu lado pessoal com a situação da Coréia, mas o Bush por exemplo coloca o falecido em um patamar de aprendiz e olhe lá, os EUA invadiram o Iraque no governo Bush para capturar supostas bombas nucleares que jamais foram encontradas e/ou comprovadas, o 1º bombardeio já atingiu um hospital e matou centenas de mulheres e crianças. Agora com o Kadafi na Líbia e com o camarada Obama no poder aconteceu a mesma coisa, uma serie de ataques ao povo líbio, onde o 1º ataque por coincidência tmbm foi a um hospital, em uma briga pelo petróleo daquele país. Não estou 'apoiando' ninguém que mate pessoas em menor quantidade, só coloco que se por exemplo o Bush ou o Obama morresse e algum partido fizesse uma carta em 'solidariedade' aos camaradas americanos seria pior na minha opinião.

Thomas H. Kang disse...

Beleza, Diogo e Benito. Acho que vocês têm razão e eu reformulei um pouco o texto a fim de não causar mal-entendidos. Existem coisas que são intuitivamente degradantes em termos morais mesmo que você não tenha vivenciado ou talvez mesmo não tenha qualquer empatia com as vítimas desses males. Na verdade estou apenas protestando, agora de maneira menos exagerada, contra tratar essas questões como torcida de futebol, em que nos dividimos em Grêmio e Inter ou esquerda e direita. Acho que a dignidade humana vem primeiro, depois a torcida. De certa forma, é um argumento contra a defesa intransigente de princípios sem levar em conta consequências. Abraços.

Anônimo disse...

mas o que esperar de um partido político no Brasil?

Anônimo disse...

eu ratifico e dou fé..

abs

vitoria andrade disse...

Estou a procura da história de Rodolpho Fuchs, o antigo diretor da escola de artes e oficios de pernambuco. O Rodolpho que aparece aqui é descendente dele? Se sim gostaria de entrevistá-lo

vitoria regia andrade
vitoriaarquitetura@gmail.com

obrigada