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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Ética, cooperação e equilíbrios

O papel da ética no desenvolvimento tem sido discutido há muito tempo na história do pensamento econômico, ainda que os advogados do egoísmo ético como Stigler e Friedman continuem a seguir à risca os passos de Mandeville, afirmando que “vícios privados” geram “benefícios públicos”, como bem mostrou Giannetti (Vícios Privados, Benefícios Públicos: a ética na riqueza das nações. São Paulo: Companhia das Letras, 2007). Na economia contemporânea, os benefícios da cooperação passaram a fazer parte da agenda de pesquisa através de trabalhos como os de Olson (1957) sobre ação coletiva, Arrow (1959), entre outros. O recente Nobel dado a Oliver Williamson e Elinor Ostrom também está relacionado a essa agenda. Temas como capital social, em que se destacam Putnam (1993) e Coleman (1988), tem tudo a ver com o papel da ética na economia – em que pese diretamente a contribuição de Sen (Ética e Economia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999).

O teólogo Valério Schaper das Faculdades EST me chamou atenção para o fato de que a confiança e a cooperação não seriam necessariamente valores, uma vez que, em uma economia de mercado, esses supostos valores trazem benefícios. Dessa maneira, o argumento fica parecido com a dos defensores do egoísmo ético. Mas essa explicação tem dois possíveis problemas:

(1) por que alguns países estão em um equilíbrio cooperativo ótimo (pensando em termos do “dilema do prisioneiro” da teoria dos jogos), enquanto outros países estão em equilíbrios subótimos?

(2) Onde a cooperação é predominante, o que motiva a ação dos indíviduos? É apenas o ganho posterior que motiva a ação, sendo portanto egoísta, ou há um valor por trás? (Digamos, o indíviduo acha correto ser honesto, sendo honesto mesmo quando acredita que corre o risco de ser prejudicado).

A primeira pergunta merece cuidadosa reflexão. Em países como o Brasil, em que reina o subótimo, parece ser individualmente vantajoso jogar não-cooperativamente – e, portanto, as pessoas passam a perna uma nas outras. Mas em outros países também deveria ser assim então; o que os elevou de patamar? É possível conjecturar que valores como lealdade e honestidade impostos de fora (cultura ou religião) possam ter tido papel crucial nessa passagem de um equilíbrio para o outro. Mesmo considerando que a manutenção do equilíbrio ótimo tenha sim a ver com a percepção de que há benefícios em agir corretamente, é preciso explicar essa passagem – e a ética pode ter sido essa diferença para que pudesse ter havido a ação coletiva necessária para o alcance do equilíbrio superior. E, assim, nesses países há maior confiabilidade no mercado e as instituições funcionam melhor.

A segunda pergunta ainda vale, mesmo quando a sociedade já percebeu os benefícios da cooperação. Certamente há indivíduos que só cooperam porque recebem benefícios, principalmente no momento atual em que valores são relativizados e culturas se chocam com a globalização, mas também certamente há indivíduos que agem por motivações éticas – mesmo que isso os prejudique. A questão da motivação já estava presente em Weber, que separava ações racionais em racionalidade instrumental e racionalidade de valor, enquanto que Sen (1977) em seu “Rational Fools” (publicado na Philosophy and Public Affairs) também ressaltou a importância de se considerar a motivação ética. Esses trabalhos ajudam a mostrar que também não é apenas o sentimento de culpa que move as ações para um suposto comportamento ético – se isso acontecesse, seria apenas mais uma forma de egoísmo ético. Uma análise introspectiva pode muitas vezes mostrar que tem certas coisas que você não faria – e não apenas por medo da culpa - apesar de que fazê-las talvez gerassem benefícios individuais.

Portanto, dizer que a confiança e a cooperação em mercados não representam valor algum pode ser um exagero. Há provavelmente ambos os componentes – tanto o ético quanto o egoísta – no comportamento dos agentes do mercado. Pode ser que isso tenha sim papel na determinação dos equilíbrios. A mudança de equilíbrio parece exigir bastante comportamento ético, embora a manutenção dele talvez exija-o em menor grau.

Um comentário:

Luiz Henrique Machado disse...

Prezado Thomas, sobre o tema economia institucional busco literatura alem do williamson e coase, buscando um link com sachs.

vc poderia me ajudar encaminhando links de trabalhos? Pode me mandar literatura básica também, para double check.

harmach@uol.com.br

Grato por sua disponibilidade,

Prof. Luiz