Pular para o conteúdo principal

Aumento do IPI para automóveis importados - parte 2

No post anterior sobre o tema, um leitor contestou o fato de eu ter utilizado a hipótese de concorrência perfeita na análise dos excedentes. Acredito que os pressupostos utilitaristas da economia do bem-estar são muito mais questionáveis do que a hipótese de concorrência perfeita. Sob concorrência monopolística ou com economias de escala, os resultados não mudam muito. Em qualquer situação, há perda do excedente do consumidor, embora possa haver ganhos líquidos para o país na forma de uma política beggar-thy-neighbour.   
De qualquer maneira, isso por si só não significa que a proteção deva ser descartada de antemão. Como dissemos anteriormente, há o argumento da indústria nascente, cuja origem já discutimos no post passado. Dentro do arcabouço teórico do mainstream, o argumento é válido se assumirmos que há imperfeições de mercado. Em primeiro lugar, é preciso que a tarifa protecionista impeça a firma de ir à falência devido à concorrência internacional. Com o processo de learning-by-doing durante esse período em que o setor é protegido (lembrando que Arrow foi um dos economistas que chamaram atenção para o learning-by-doing), a empresa pode se tornar mais eficiente tecnicamente a ponto de poder deslocar para baixo sua curva de custo médio no longo prazo. Pensemos no Leste Asiático, onde várias empresas aprenderam protegidas e fazendo "engenharia reversa". 

Mas isso por si só não é suficiente para dizer que a proteção é válida no caso de indústria nascente. Em primeiro lugar, é preciso perguntar porque o setor privado não é capaz de fornecer empréstimos a essas indústrias enquanto elas ainda produzem a custos altos se elas têm capacidade para se tornar eficientes mais tarde. Se temos imperfeições no mercado de crédito (e muitas vezes há), temos uma possível justificativa para a atuação do governo. Mas além disso, é difícil sabermos quais setores merecem proteção, como sempre costumam dizer aqueles que destacam o papel das falhas de governo - que seriam tão ou mais maléficas que as falhas de mercado. Por outro lado, a existência de externalidades positivas, tais como transbordamentos (spillovers) para outras firmas e setores durante a proteção também deve ser levada em conta. De qualquer forma, todos esses beneficios precisam ser maiores que as perdas que a proteção gera para os consumidores no curto prazo.

Os estudos empíricos sobre proteção mostram que houve casos bem-sucedidos e mal-sucedidos. Enquanto na China parece que a proteção tem dado certo, o caso da proteção à indústria brasileira de computadores é mundialmente conhecido por sua ineficácia. Mas quem sabe deixamos a China, que é um caso interessante, para o próximo post.

Comentários

Chutando a Lata disse…
Faço uma simples observacao em relacao a sua hipotese de industria nascente :as industrias em tela já estão por aqui há mais de meio século.
Thomas H. Kang disse…
Fato... heahea, eu ainda chegarei nesse ponto.

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.
O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.
O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero t…

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas.

Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre).

Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55), lis…

A busca pelo ótimo de Pareto

Depois de um jogo entre São Paulo e Palmeiras, nada melhor do que uma conversa sobre Economia. Com uma caminhada de 45 minutos pela frente, eu e meu colega Richard, um especialista em Escola Austríaca e torcedor do porco, discutimos inúmeros assuntos, inclusive o famoso ótimo de Pareto.

O ótimo de Pareto (Vilfredo Pareto foi economista e sociólogo italiano da Escola de Lausanne) é um conceito fundamental na ciência econômica. Em muitas análises, busca-se chegar nesse ótimo, o que acontece quando melhorias de Pareto não são mais possíveis. Uma melhoria de Pareto é a melhora na situação de um sem piorar a dos outros. Quando se exaurem todas as melhorias paretianas, estamos no ótimo: só é possível melhorar a situação de alguém piorando a de outrem.

A pergunta é: embora o ótimo de Pareto esteja em muitas análises na Economia do Bem-Estar, não é esse ótimo um juízo de valor arbitrário?

Evidentemente, a resposta é sim. No entanto, sabemos que poucas pessoas achariam (em princípio) ruim melhora…