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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Notas sobre Vargas, Goulart e educação

Acabo de sair de uma palestra de Juremir Machado da Silva sobre a Campanha da Legalidade. A palestra era dirigida aos alunos da RI da ESPM, que gostaram bastante da apresentação - pelo menos foi a impressão que tive. Além de detalhar o contexto histórico, ele contou inúmeras anedotas dos episódios do período. Em suma, foi uma excelente palestra. Alguns pontos para reflexão:

  • Em termos gerais, concordei com o palestrante quanto ao governo Vargas, embora Juremir tenha uma opinião muito mais favorável a Vargas. Juremir destacou a questão educacional no governo Vargas, que criou o Ministério da Educação em 1930. De fato, é verdade isso, assim como é verdade que as décadas de 30 e 40 significaram mudanças na educação com as Reformas Campos e, posteriormente, com as Leis Orgânicas de Capanema. Todavia, em termos comparativos internacionais e mesmo latino-americanos, a melhoria educacional foi pífia. A ênfase no ensino técnico e o descaso com o ensino primário mostra que se tratava de uma política top-down bastante míope. Embora Capanema defendesse no discurso o ensino primário e este ser atribuição dos estados, sabe-se que a prioridade do ministro da Educação entre 1934-45 era a educação das elites (Ver o livro "Tempos de Capanema" de Schwartzman e associados; ou quem sabe, a minha dissertação de mestrado).
  • Juremir mencionou diversos casos anedóticos: alguns novos para mim, outros nem tanto. Eu já sabia que Jânio usava vassouras em sua campanha e que utilizava talco para simular que tinha caspa. Mas não sabia da conversa que Jânio tivera com Carlos Lacerda antes de sua renúncia, nem que Lacerda era conhecedor de vinhos.
  • Juremir respondeu-me por que motivo Goulart tinha contato com os sindicatos. Eu não sabia se o contato era anterior a seu cargo de Ministro do Trabalho no Segundo Governo Vargas - aparentemente, Vargas o preparou como líder e habilmente Goulart ganhou espaço junto aos trabalhadores com esse cargo. 
  • O palestrante concordou comigo que as reformas propostas por Goulart eram apenas reformas e talvez mais semelhantes à social democracia europeia do que a qualquer tipo de comunismo. Ainda ouço esse tipo de comentário: que se Goulart continuasse, teríamos nos tornado comunistas. Evidentemente, o contrafactual é complicado, uma vez que a pessoa sozinha não decide o rumo do país - tanto é que o resultado foi o golpe. No entanto, não era intenção de Jango a instauração de um comunismo, apesar da polarização que caracterizou o período da Guerra Fria. Em países latino-americanos, onde a Cortina de Ferro não era uma ameaça presente como era na Europa Ocidental, a construção de uma social-democracia não era necessária. Logo, qualquer reformismo poderia ser vinculado com comunismo. Mas certamente, essa minha opinião tem as influências do Pedro Fonseca e do Renato Colistete, meus ex-orientadores. Os dois até agora têm me convencido cada vez mais disso.


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