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quarta-feira, 23 de abril de 2008

Sobre livre comércio e história

Cai em erro crasso quem, através de um ou outro exemplo histórico, afirma saber a receita para o desenvolvimento. É muito comum defensores do protecionismo darem o exemplo de um ou outro país hoje desenvolvido que teria protegido sua indústria nascente; por outro lado, há os outros que sempre buscam "provar" que o livre comércio é o caminho da prosperidade.

Sob o critério da falsificação atribuído a Popper (sem entrar no mérito da cientificidade ou não do critério), não é possível dizer muita coisa. É evidente que protecionismo pode ser nefasto, há resultados ruins na história. Logo, protecionismo não significa necessariamente crescimento - pelo menos, não qualquer protecionismo, o que é bastante óbvio. No entanto, há muitos exemplos aparentemente a favor do protecionismo, como o inglês, discutido no post anterior. Nesse caso, a questão que fica é: a Inglaterra cresceu apesar do protecionismo ou cresceu devido ao protecionismo? E, é claro, se o protecionismo pode ser benéfico, como deve ser feita essa proteção?

Quando estudamos história, tudo depende da interpretação dos fatos. Pensemos na década de 1930 no Brasil, em que não tratamos de protecionismo, mas tratamos de comércio. A interpretação clássica de Furtado fala em "deslocamento do centro dinâmico" após a crise de 1929. A Grande Depressão teria feito com que o Brasil se "voltasse para dentro", praticando políticas pré-keynesianas de sustentação da demanda agregada. O ponto fundamental é que o choque, o qual diminuiu o comércio externo, fez com que o país se voltasse às manufaturas, ou seja, houve um ponto de inflexão com a interrupção do comércio. A interpretação de Peláez contraria Furtado afirmando que a crise não teria sido benéfica e que as políticas governamentais teriam retardado a recuperação da economia. No fundo, a questão fundamental é: o livre comércio é sempre bom?

Trabalhos mais recentes têm rejeitado defender com tanto afinco esta ou aquela posição extrema. No entanto, todas as explicações não passam de tentativas razoavelmente fundamentadas ou não. Assim, a história não serve para provar muito quando o que está por detrás da discussão é algo mais fundamental e polêmico.


A única mensagem desse pequeno post é um pedido para que todos fiquem com um pé atrás quando o argumento de autoridade é histórico. Se há coisas que a história não pode resolver de uma vez por todas são esses debates. A história e a estatística podem apenas nos dar evidências a respeito: se somos convencidos ou não, depende em última instância de algo além da objetividade. Isso não significa, como dizem alguns, que história e estatística para nada servem ou que são acientíficas. Há coisas que não podemos provar e nem devemos procurar provar. Com estudos cada vez mais acurados e cuidadosos, as interpretações melhoram e temos evidências melhores. E, assim, ficamos mais preparados para nos posicionar a respeito dessas questões básicas da ciência econômica.



5 comentários:

Joel Pinheiro disse...

"Se há coisas que a história não pode resolver de uma vez por todas são esses debates. A história e a estatística podem apenas nos dar evidências a respeito"
Até aqui concordo 100%. Vai, 99%, pois eu não falaria em "evidências" e sim em "ilustrações".

"se somos convencidos ou não, depende em última instância de algo além da objetividade."
Mas isso não!
Então apenas história e estatística são objetivas? Se não é histórico, estaria além da objetividade?

Lembre-se que todos os primeiros grandes economistas (Smith, Hume, Bastiat, Ricardo, etc) não utilizavam a história para provar seus argumentos (o ensaio de Hume sobre a moeda, por exemplo; puramente hipotético e lógico). Por acaso o trabalho deles é subjetivo? Não, e sei que você concordaria nesse ponto.

Thomas H. Kang disse...

Reconheço que entrei em terreno perigoso. Até onde vai nossa objetividade é algo complicado. Poderíamos entrar aqui num eterno debate sobre crenças e ciência, os limites (se existem) da lógica aristotélica, etc, etc. Claro, caso levemos aos extremos, não há como confiar em conhecimento algum, o que complicaria nossas vidas demais.

Praxeologia não é meu forte e parece quereres defendê-la aqui. Há muito saí dos temas metodológicos infelizmente e fico receoso em iniciar um debate sobre esse ponto.

Só tenho uma dúvida acerca de Hume. Nunca li Hume, a quem todos consideram um empirista e tal. Sei também de seu ensaio sobre a moeda e sobre o equilíbrio da balança de pagamentos (explicado pelo Eichengreen, 2000). Esse ensaio me parece muito lógico-dedutivo para alguém que se diz empírico.Minha pergunta, portanto, é de alguém que ignora Hume e gostaria de entender o pensamento dele.

Joel Pinheiro disse...

Pois é. É difícil encaixar os pensadores nessas escolas. Acho que Hume não se dizia empirista, mas, antes de tudo, cético.

Estou tendo aula, na Filosofia, com o Chiappin, que é aí da economia também. Entre outros autores, analisamos Hume.

Hume parte do mesmo conceito de ciência de outros autores a quem chamamos, no curso, de "racionalistas" (Descartes, Locke, etc.). Para ele, conhecimento é apenas conhecimento certo e seguro, ou seja, dedutivo.

Hume prova (ou tenta provar) que todo nosso conhecimento de causa e efeito é baseado apenas num hábito mental que se acostuma a esperar B quando vê A, porque, no passado, B sempre se seguiu a A.
Assim, é impossível falar, rigorosamente em ciências empíricas. Hume mina todas as bases do racionalismo ao mostrar que não temos conhecimento certo de nada. Ou quase nada.

Ao que tudo indica, a economia é um caso à parte, pois não se pretende uma ciência empírica. Uma vez que definimos seus objetos, conclusões se seguem necessariamente. Assim, ainda que nunca tenhamos visto situação na qual, magicamente, quintuplica-se o dinheiro nos bolsos dos habitantes, podemos prever quais seriam os efeitos desse evento nos preços, se ele ocorresse.

Thomas H. Kang disse...

Joel.

Não sei como ele se dizia, mas quando falamos por exemplo de Kant, é comum se dizer que Kant sintetizou o racionalismo e o empirismo em um único sistema. A parte do empirismo justamente se deve ao fato da enorme influência que Hume teve no seu pensamento, antes focado em racionalistas como Descartes e Spinoza. Embora "O Mundo de Sofia" possa ser considerado um livro infantil, é uma fonte confiável. Cito a passagem que encontrei no começo do capítulo sobre Hume: "Sua filosofia é considerada ainda hoje a mais importantes filosofia empírica". (p. 287). Na sua ética também se destaca a importância dos sentimentos (e não a razão), que também encontramos no outro iluminista escocês Adam Smith.

Enfim, vou pesquisar mais sobre Hume uma hora dessas.

Consultora Educacional disse...

Gosto muito dos artigos de ótima qualidade do seu Blog. Quando for possível dá uma passadinha para ver nosso Curso de Ingles. Melissa