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Ética e mentiras

Como acontece com muita gente, cresci ouvindo de meus pais que havia claramente o certo e o errado. Preto no branco. Uma questão de princípio. Balizas. Limites intransponíveis. Mentir é errado, por exemplo. Parece-me que para crianças, ensinar leis dessa forma é algo apropriado. Apenas depois é que temos condições de refletir melhor e avaliar as situações.

Acredito que todos aqui já mentimos por questões consideradas nobres. Obviamente também já mentimos apenas para satisfazer nossos interesses mais egoístas. Entretanto, eu justificaria algumas das mentiras que já disse por aquilo que considerei ser um bom motivo.

A mentira é apenas um exemplo entre tantos outros, mas bastante ilustrativo. Posso até afirmar categoricamente que a mentira é sempre algo ruim. O problema é quando a conseqüência de não mentirmos é algo pior do que a própria mentira. Imaginemos a situação em que dizer a verdade resulta na morte de alguém. Embora mentir seja ruim, podemos considerar a morte de alguém muito pior (acho que isso é razoável). Quando a escolha é entre o mal e o mal, recorrer somente a princípios não nos leva a lugar algum. Os princípios são importantes, mas não podem ter prioridade absoluta em uma decisão. Afinal, não mentir pode levar a um mal ainda pior. Se os princípios se tornam prioridades absolutas, desconsideram-se os verdadeiros dilemas e não existem respostas satisfatórias para as situações concretas que vivenciamos. Mentir quase sempre é um erro, mas podem existir situações (poucas) em que mentir seja necessário.

Esse debate ético é a discussão que ocorre entre aqueles que advogam uma ética baseada em princípios e aqueles que defendem uma ética conseqüencialista. Em termos técnicos que talvez não sejam familiares a muitos leitores (ou seja, passem por cima das próximas duas frases se quiserem), conseqüencialismo não é o mesmo que utilitarismo, embora todo utilitarista seja conseqüencialista. O utilitarista em geral desconsidera princípios, enquanto que certas vertentes conseqüencialistas consideram princípios como um tipo de conseqüência. Tendo a me inclinar a essa última idéia e acredito que ela é mais próxima daquilo que a ética cristã ensina. Afinal, "o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado" (Mc 2.27).

Entendo, no entanto, que nem o conseqüencialismo nem os princípios respondem corretamente a todas as questões. Apenas Deus tem conhecimento acerca do bem e do mal, e nós seres humanos não podemos ter a pretensão de saber isso - não sabemos de todas as conseqüências possíveis, afinal não podemos prever com 100% de exatidão o futuro. É essa pretensão que nos tira da comunhão com Deus, que nos afasta dEle em vez de cumprir suas ordens. É na relação com Deus e na obediência que podemos tomar as atitudes de fato corretas. Como se relacionar com Deus é outra questão, que precisamos trabalhar muito mais.

Comentários

Joao Melo disse…
Thomas, parabéns pelo blog e pelos textos postados. Continue, pois sempre é enriquecedor a leitura de coisas boas. Abração, João Melo, direto da selva. ET: vc ja foi na Bienal d Livro? Estou p da vida, pois a TAM/GOL não deixaram eu viajar: com o $$$$$ não dá rsrsrsr. Se voce foi conta-me as c isas boas que vc viu, ok?
Richard disse…
Fiz um texto sobre isso:

http://depositode.blogspot.com/2008/08/princpios-mentiras-e-contexto.html
Gutemberg disse…
"É na relação com Deus e na obediência que podemos tomar as atitudes de fato corretas".

Touché.

G.Howe

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