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quinta-feira, 8 de maio de 2008

Protecionismo exagerado e ineficiência na América Latina

Críticas à industrialização via substituição de importações ocorrida em vários países da América Latina são inúmeras quando se olha pelo retrovisor. O interessante é observar como em meados dos anos 60, as críticas a certos aspectos do processo já eram bastante comuns. Com a estagnação dos anos 60 e as diversas crises, é ponto comum entre autores como Macario (1964), Hirschman (1968) e Baer (1972) de que a incapacidade de exportação e a ineficiência da indústria manufatureira era um sério problema, sem contar os problemas no balanço de pagamentos que perseguiram o processo durante todo o período, o chamado estrangulamento externo (Tavares, 1972).

Segundo Macario (1964) e Baer (1972), o protecionismo foi exagerado na América Latina. É possível se discutir possíveis vantagens do protecionismo, se feitas moderadamente. Alguns dirão que não há vantagem alguma em qualquer tipo de protecionismo, como argumentado já em alguns comentários em posts anteriores. No entanto, mesmo que você seja defensor de algum tipo de protecionismo, você chegará a conclusão que a política foi feita da pior forma possível. A América Latina em geral conseguiu proteger praticamente todos os seus produtos a taxas aviltantes comparadas ao resto do mundo. A proteção não estava confinada a setores estratégicos e comumente os setores mais protegidos eram os que menos necessitavam de proteção. O seguinte parágrafo de Macario (1964, p. 67) é bastante claro quanto a isso:

Hence the structure of import duties and charges in most of the Latin American countries is characterized by its lack of rationality and by the prevalence of excessively high rates [...]. [...] the ways in which the extreme and indiscriminate protection granted to domestic industry in the Latin American countries, and the disproportionate emphasis laid on import substitution, have redounded to the detriment of their economic development and their trade balances.


Apesar disso, o Brasil teve sua época de maior crescimento justamente alguns anos depois, a partir de 1967. O que podemos dizer sobre o "Milagre" diantes do que os contemporâneos diziam? Talvez a resposta esteja nas reformas institucionais do PAEG, as quais deram novo fôlego à indústria brasileira. De qualquer forma, é preciso investigar o que aconteceu com a eficiência e a produtividade durante o "Milagre" para chegarmos a conclusões mais interessantes acerca da industrialização brasileira - o que certamente teve reflexos na nossa atual condição.


Baer, Werner. “Import substitution and industrialization in Latin America: experiences and interpretations”. Latin American Research Review. 7 (1), Spring 1972, p. 95-122.
Hirschman, Albert. “The political economy of import-substituting industrialization in Latin America”. Quarterly Journal of Economics. 82 (1), February 1968, p. 1-32.
Macario, Santiago. “Protectionism and industrialization in Latin America”. Economic Bulletin for Latin America. 9, 1964, p. 61-101.
Tavares, Maria da Conceição. “Auge e declínio do processo de substituição de importações no Brasil”, in Maria da Conceição Tavares. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro, Zahar, 1972..

6 comentários:

Diego da Silva Rodrigues disse...

Thomas;

Acho que a "eficiência do protecionismo" não pode ser avaliada pelo quanto o país cresceu ou deixou de crescer em virtude dele. Temos é que averiguar o quadro social que se criou a partir daí: quando me vejo na décima economia do mundo rodeado por 30% de população pobre e a maior desigualdade do planeta é que entendo o que 50 anos de protecionismo podem fazer com um país.

Abraço.

Thomas H. Kang disse...

Diego,

Prefiro usar o termo eficiência no seu sentido microeconômico. No entanto, concordo que para uma avaliação dos resultados do protecionismo, não podemos apenas olhar para o crescimento quando tivemos no Milagre crescimento com concentração de renda. Nesse post, eu estava apenas falando de ineficiência produtiva causada por protecionismo excessivo. Concordo contigo, tanto do ponto de vista da eficiência quanto do ponto de vista de desenvolvimento considerado de forma mais ampla, que nossos 50 anos de protecionismo, pelo menos do jeito que foi feito, foram exagerados e nefastos para o país.

Roy disse...

Mas como seria possível a industrialização surgir sem qualquer protecionismo? Lembre-se do suporte teórico na literatura sobre as indústrias nascentes, que diz que devido às falhas de mercado (ex.: falhas no mercado de crédito ou restrições de escala), indústrias novas em países em desenvolvimento têm custos médios de produção maiores que a de países onde elas já estão plenamente instaladas. Até o liberal Mário Henrique Simonsen já disse que: “Que a indústria nascente precisaria de uma aduaneira temporária para sobreviver por suas próprias pernas é uma questão fora de dúvida” [em: “Textos escolhidos” (orgs. Carlos Eduardo Sarmento, Sérgio Ribeiro da Costa Werlang, Verena Alberti). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002].

Diego da Silva Rodrigues disse...

Isso é ainda aquela visão de que indústria é o mesmo que progresso.

Ora, industrializar teria sido importante, como o foi até certo aspecto, se, através disso, nossas mazelas sociais tivessem sido resolvidas. A industrialização, como qualquer outra política econômica, tem que ser um meio, não um fim em si mesma. No Brasil, no entanto, embora algumas questões tenham sido deveras amenizadas naquele período, outros tantos problemas surgiram, e alguns dos quais de solução ainda mais complexa dos que os que tínhamos antes.

A política econômica, seja ela micro ou macro, se não melhora o bem-estar da sociedade, não serve pra nada.

Ricardo Agostini Martini disse...

"A industrialização, como qualquer outra política econômica, tem que ser um meio, não um fim em si mesma." - Essa idéia é uma novidade na economia do desenvolvimento. Até a década de 70, era comum que a maioria dos economistas associasse o bem-estar da sociedade à industrialização (tipo dos estágios de desenvolvimento de Rostov).

O Paul Krugman, no manual de eco. internacional para graduação, comenta o papel da política industrial, e suas conseqüências, na América Latina e no Leste Asiático. Vale a pena rever.

Ricardo Agostini Martini disse...
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