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segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O debate liberal-igualitário - parte I

No debate sobre justiça, temos um pequeno debate entre Rawls e Sen. Um debate em família, na verdade, como diz Roemer (1996). Ambas são propostas do chamado liberalismo igualitário, mas se diferenciam em um aspecto fundamental para um teoria igualitária: eles adotam equalisanda diferentes.

O equalisandum - ou seja, aquilo que deve ser equalizado - para Rawls são os chamados bens primários, que são coisas que todo ser humano racional presumidamente desejaria. Rawls de certa forma define alguns deles no seguinte trecho:

For simplicity, assume that the chief primary goods at the dispositions of society are rights and liberties, powers and opportunities, income and wealth. [...]. These are social primary goods. Other primary goods such as health and vigor, intelligence and imagination, are natural goods; although their possession is influenced by the basic structure, they are not so directly under its control. (Rawls, 1971, p. 62)


A crítica de Sen para a escolha de uma forma de recurso como equalisandum tem relação com aquilo que Rawls afirma não estar diretamente sob nosso controle. Equalizar direitos e liberdades ou renda e riqueza ignora que muitas pessoas, devido a algum problema de doença ou deficiência, têm dificuldades para converter esses bens primários naquilo que elas desejam. Afinal, o bem primário não é um fim mas um meio para que possamos viver as vidas que queremos. Se algumas pessoas, por motivos que não estão sob nosso controle, estão em desvantagem na conversão de bens, porque então não focar nos fins e não os meios?

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal

Este blog gostaria de desejar a todos um Feliz Natal. Afinal, Natal é uma data importante. Também por permitir uma desculpa para famílias se reencontrarem, para descansar daquela loucura, para descansar um pouco. Mas evidentemente, há a razão principal para a comemoração do Natal. Acho que Dietrich Bonhoeffer, em sua "Ética" nos fala corretamente acerca do significado de Jesus, o ser humano:

Jesus Cristo, o ser humano, isto significa que Deus entra na realidade criada, que podemos e devemos ser seres humanos perante Deus. A destruição da humanidade é pecado e se constitui em obstáculo para Deus redimir o ser humano. Mesmo assim, a humanidade de Jesus Cristo não significa simplesmente a confirmação do mundo existente e da natureza humana. Jesus foi ser humano "sem pecado" (Hb 4.15). Este é o aspecto decisivo. (Bonhoeffer, 2005 [1949], p. 77)

Mas ao contrário daqueles que querem fazer da igreja apenas um instrumento de mudança social (compromisso) ou daqueles que acreditam ser correto esquecer o mundo em que vivem (radicalismo):

Em Jesus Cristo cremos o Deus feito ser humano, crucificado e ressucitado. Na encarnação reconhecemos o amor de Deus a sua criatura, na crucificação o juízo de Deus sobre toda carne, na ressurreição o propósito de um novo mundo por parte de Deus. Nada seria mais errado do que desarticular essas três peças. Tão inadequado como é elaborar uma teologia da encarnação, uma da cruz ou uma da ressurreição para contrapô-las entre si pela errônea absolutização de uma das peças, tão errado é este procedimento também para a reflexão sobre a vida cristã. Uma ética cristã calcada somente sobre a encarnação facilmente levaria à solução de compromisso; uma outra calcada somente na cruz ou na ressurreição de Jesus seria presa fácil do radicalismo e do entusiasmo. Só na unidade o conflito se desfaz. (Bonhoeffer, 2005 [1949], p. 76)

Que o Cristo encarnado, crucificado e ressucitado esteja conosco sempre.


Bonhoeffer, D. (2005 [1949]). Ética. 7. ed. São Leopoldo: Ed. Sinodal.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Perfeccionismo moral e subjetivismo welfarista

O problema que vejo no debate que vem sendo travado até agora é saber se (a) não estamos caindo em algum tipo de perfeccionismo moral e, (2) se algum tipo de perfeccionismo moral é aceitável. Quando falo de perfeccionismo, estou me referindo a concepções morais como as defendidas na Grécia Antiga: o homem estaria próximo à perfeição moral à medida que participasse ativamente da vida política da pólis. Dessa forma, estavam definidos que tipo de vida um homem devia levar - trata-se de uma concepção objetiva.


Do lado oposto, temos a idéia welfarista, traço marcante do utilitarismo, na qual a satisfação de desejos subjetivos torna-se a métrica. Na concepção clássica de Bentham, falava-se na dicotomia prazer-dor. Quem sabe o que é o melhor para si é o indivíduo. Se, como disse o Joel, uma pessoa gosta de se enlamaçar ou fazer qualquer outra coisa que a maioria das pessoas considere absurda, não importa: o que importa é que ele está agindo de acordo com suas preferências.

Contudo, ambas as concepções são problemáticas. O perfeccionismo poderia justificar tiranias, como afirmará qualquer adepto da escola austríaca. Mesmo John Rawls vai dizer que o perfeccionismo não consegue lidar com o que ele chama de "circunstâncias da justiça", ou seja, com o pluralismo moral existente em uma sociedade. O welfarismo, no entanto, é deficiente na medida em que considera os desejos como fonte única de valor. O grande problema, segundo Sen, é o problema das preferências adaptativas. Quando a pobreza é extrema, por exemplo, o indivíduo em geral, buscando formas para suportar a situação de destituição, adapta suas preferências contentando-se com pouco. Afinal, se a satisfação de certas pessoas (geralmente ricos) que advém do consumo de uma grama de caviar é a mesma que a de um pobre consumindo uma grama de frango, talvez pudesse se dizer que a alocação de quantidades iguais de caviar e frango para os respectivos consumidores é justa (claro, se for permitido fazer comparações interpessoais) Tendo todavia a noção de que as preferências são adaptativas, é dificil advogarmos esse critério subjetivo de bem-estar de forma tão absoluta pelo menos.

O liberalismo igualitário de Rawls tenta buscar um caminho entre o perfeccionismo e o welfarismo, assim como também a concepção derivada proposta por Sen. Quando leio os comentários do Joel sobre Aristóteles (devendo chamar atenção para meu conhecimento raso em relação a Aristóteles), fico pensando se não há muito de perfeccionismo moral na história. Não posso, entretanto, ficar com os que entronam as preferências subjetivas e, dessa forma, esquecem do processo em que preferências são formadas. As preferências não podem ser tomadas como dadas quando falamos de justiça. Uma solução que Sen propõe é a utilização de escolhas contrafactuais (será que é a solução?).

O conceito de capability de Sen é uma tentativa de encontrar esse caminho intermediário. Afinal, as capabilities são os conjuntos de vetores de functionings (aquilo que tem valor para a pessoa e que é realizado), ou seja, o campo de possibilidades de escolha entre diferentes tipos de vida em última instância. Quanto mais possibilidades ela tiver para chegar aos seus objetivos, melhor. Porém estar bem nutrido ou poder escapar de doenças facilmente evitáveis são functionings valiosas para as pessoas.

Espero ter mostrado a dificuldade mas também a necessidade de achar algo intermediário entre esses dois extremos, que, para mim, levam a implausibilidades em algumas questões concretas.


*um pouco dessas conclusões derivam-se das aulas e leituras da disciplina "Teoria Contemporâneas de Justiça" do Departamento de Ciência Política da FFLCH-USP, sob a docência do Prof. Dr. Álvaro de Vita.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Violações de direitos podem ser justificadas? (2)

O debate tem sido frutífero na questão da violação de direitos naturais. Eu lancei a pergunta com base em Amartya Sen e Richard respondeu a seu modo costumeiramente apriorístico e defensor instransigente de princípios. Renato Drumond resolveu opinar em seguida, contrapondo-se a alguns argumentos de Richard. Dias depois, Joel foi mais conseqüencialista reagindo criticamente às proposições anarco-capitalistas (é no blog do Joel que o debate se concentrou: 14 comentários em dois dias). Logo após, Stein voltou a defender posições mais apriorísticas, à semelhança de Richard, contra os argumentos de Sen. Em meio a tudo isso, o Cláudio do De Gustibus ajudou na divulgação do debate aqui e aqui.


Meu pequeno comentário em relação a todo esse debate, cujo pontapé inicial foi questionar se A pode invadir a propriedade de D para impedir que B mate C:

A minha formação convencional como economista levava-me a confundir o conseqüencialismo com o utilitarismo de forma bastante errônea. Indubitalvelmente, o conseqüencialismo é uma característica marcante da ética utilitarista, mas um outro componente fundamental do utilitarismo é que a avaliação dos estados baseia-se apenas no espaço das utilidades: não é qualquer conseqüência benéfica que conta, apenas aquela cuja métrica é a utilidade. Esse componente é chamado de "welfarismo" por Amartya Sen.

É bastante claro o problema de interdependência das situações apresentada pelo questionamento. O que Richard e Stein disseram (e Nozick e outros libertários radicais concordariam certamente) é coerente, mas nossa intuição moral dificulta a aceitação desse ponto de vista. Joel deixou bastante claro isso no seu post. A crítica comum às propostas éticas baseadas puramente em princípios, ou seja, desconsiderando conseqüências, é a de que haverá situações de impasse sério e a solução proposta pelos seus defensores será no mínimo questionável. Na ética pessoal, o exemplo do oficial da SS questionando se algum judeu está ali para um kantiano que esconde um judeu no porão e não pode mentir para não desobedecer a lei moral (pessoas não devem ser objetos, mas somente fins) é clássico. A questão da invasão de propriedade alheia para evitar um homicídio é algo parecido. Qual é a resposta para esses impasses?

Se esqueceremos o "welfarismo", podemos ser conseqüencialistas levando direitos em consideração. Podemos afirmar que o gozo de direitos é um bem em si mesmo, levando em conta isso na análise conseqüencial. Ou seja, atribuindo valor intrínseco aos princípios mas de forma que eles entrem no cálculo das conseqüências, podemos chegar a algum método de avaliação que talvez não forneça respostas claras e logicamente "inquestionáveis", mas que não leva a respostas implausíveis do ponto de vista intuitivo, como as dos exemplos acima mencionados. Ainda não posso afirmar que sou um adepto dessa visão (que vem de Amartya Sen, esse quase pop-star), mas sou simpático a ela.

Bem, dirão os libertários, o "intuitivo" é minha concepção pessoal de "bem". Mas a ética derivada a priori baseada em princípios também parece ter problemas na sua aplicação. O que Drumond diz no comentário que ele faz no post do Joel é pertinente. Precisamos explicitar melhor certos detalhes dessas proposições.

Por último, um comentário acerca das posições de Richard e Stein no caso específico de alguém sendo estuprado no gramado do vizinho (um exemplo prático e levemente modificado da pergunta inicial). Ambos dizem que tentariam impedir o estupro invadindo a propriedade alheia, mas saberiam que não haveria nada de errado caso o proprietário quisesse indiciá-los por terem infringido uma regra derivada do direito natural. Na melhor das análises econômicas, esse conjunto de regras se de fato aplicado levaria ao pior dos sistemas de incentivos. Lembrando que, para os economistas, os incentivos tem lugar de destaque quase tão absoluto - mas ainda pouco longe, graças a Deus - quanto o ocupado pelo direito natural na visão dos austríacos radicais anarco-capitalistas.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Devem igrejas opinar dessa forma? (2)

Que fique claro que eu tenho vários amigos ortodoxos. Nada contra eles. Bem, podemos concluir que os nossos irmãos russos gostam bastante de política:

Orthodox leaders rally to oppose Kosovo independence

Warsaw (ENI). Serbia's predominant Orthodox church has launched a diplomatic drive among church leaders abroad to prevent an expected UN vote to allow the independence of Kosovo from Serbia. "By supporting this independence drive by Albanians living in Kosovo, the West forgets the hurt suffered in recent years by the Orthodox Serbs who live there," Russian Orthodox Patriarch Alexei II of Russia told Serbia's Vecernje Novosti newspaper on 8 December. [376 words, ENI-07-0971]


Fonte: ENI

Funções de resposta ao impulso e decomposição de variância

Novamente, apenas para economistas com especial interesse e conhecimento em econometria.


Em um contexto de VAR (vetores auto-regressivos), embora a causalidade no sentido de Granger seja bem popular, sempre é interessante sabermos como uma variável responde a um impulso em outra variável ceteris paribus, ou seja, em um exercício de estática comparativa. Chamamos isso de análise de resposta ao impulso.

Caso a matriz de variância-covariância não seja diagonal, ou seja, caso certos choques tenham relação com outros choques pela covariação contemporânea, precisamos primeiro ortogonalizar os erros (ou seja, torná-los independentes) através da decomposição da matriz de covariância, a conhecida decomposição de Choleski. Uma das matrizes criadas nessa decomposição será triangular inferior, demonstrando que a ordem das variáveis têm importância para essa decomposição. O problema é que essa ordem não pode ser determinada por métodos estatísticos: ela acaba sendo determinada arbitrariamente pelo analista.

Se as inovações ocorridas no sistema podem ser identificadas, uma outra ferramenta pode ser utilizada para interpretar modelos VAR. É possível, nesse caso, fazermos a decomposição da variância do erro de previsão. Essa ferramenta fornece-nos a proporção de movimentos de uma seqüência que é devida a choques nela mesma contra choques de outras variáveis. Caso o erro de uma variável z não explique nada da variância do erro de uma seqüência {y}, podemos dizer que esta última é exógena: {y} evolui independentemente de choques dos erros de z e de {z}.

Algumas críticas são feitas à análise de resposta ao impulso. De acordo com Lütkepohl (2005, p. 62-63):

All effects of omitted variables are assumed to be in the innovations. If important variables are omitted from the system, this may lead to major distortions in the impulse responses and makes them worthless for structural interpretations. The system may still be useful for prediction, though. []Further problems related to the interpretation of the MA coefficients as dynamic multipliers or impulse responses result from measurement errors and the use of seasonally adjusted or temporally and/or contemporaneously aggregated variables.

Todas as críticas que são feitas à função de resposta ao impulso, podem ser feitas à análise de decomposição da variância. Além disso, críticas do tipo feita à causalidade de Granger também se aplicam. Segundo Lütkepohl (2005, p. 66):

That is, the forecast error variance components are conditional on the system under consideration. They may change if the system is expanded by adding further variables or if variables are deleted from the system. Also measurement errors, seasonal adjustment and the use of aggregates may contaminate the forecast error variance decompositions.

Exogeneidade em séries de tempo

Mais um texto de quem tem prova de econometria na segunda-feira. Quem não é economista não deve de forma alguma ler esse texto. Não digam que eu não avisei.

Quando falamos de exogeneidade na econometria clássica, estamos falando da chamada exogeneidade "estrita", que nada mais consiste no fato de uma variável x não ser correlacionada com qualquer erro. Nas séries de tempo, no entanto, trabalha-se com três tipos de exogeneidade, dependendo do fim proposto.

Na busca de resultados em inferência estatística (modos de estimar parâmetros e formulação de testes de hipótese), utiliza-se, em séries de tempo, o conceito de exogeneidade fraca. Para isso, precisamos 'fatorar a função de distribuição em duas partes: distribuição condicional e distribuição marginal . Define-se que uma variável é fracamente exógena em relação aos parâmetros de interesse se, e somente se, houver um certo tipo de reparametrização e atender duas condições: a variável de interesse precisa ser função de apenas uma das variáveis livres e a fatoração feita acima deve provocar um corte seqüencial.

Quando, no entanto, a finalidade é previsão, precisamos do conceito de exogeneidade forte. Para uma variável z ser fortemente exógena em relação ao parâmetro de interesse, z precisa ser fracamente exógena e não ser Granger-causada pela outra variável y. Lembrando que uma variável x Granger-causa uma variável w quando x contribui para melhorar a previsão de w.

Existe ainda o conceito de superxogeneidade, utilizada para análise de política. Para uma variável ser superexógena em relação ao parâmetro de interesse, ela precisa ser fracamente exógena e os parâmetros do modelo condicional devem ser invariantes a mudanças no parâmetro do modelo marginal provocadas por um dado conjunto de intervenções. Engle e Hendry inclusive desenvolveram um teste para superexogeneidade.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Devem igrejas opinar dessa forma?

Sei não...

Russian Orthodox leader back Putin's anointed successor

Moscow (ENI). Patriarch Alexei II and other leaders of the Russian Orthodox Church have voiced their support for President Vladimir Putin's anointing of First Deputy Prime Minister Dmitry Medvedev as his successor. They also approved of Medvedev's declaration that he would appoint Putin as prime minister after the scheduled 2 March presidential elections. With the backing of Putin and the United Russia party, which dominates Russian politics, Medvedev, aged 42, is expected to win by a wide margin. [418 words, ENI-07-0967]

Fonte: ENI

Mini-banca

Ontem foi dia de apresentar a uma pequena banca meu projeto preliminar. Além do meu orientador, Prof. Dr. Renato Colistete, estiveram presentes o Prof. Dr. Nelson Nozoe e o Prof. Dr. Dante Aldrighi.

Essa chamada "mini-banca" é obrigatória: todos os mestrandos, no final de seu primeiro ano, precisa submeter o projeto a essa pequena banca. Como também somos obrigados a mandar um projeto para a FAPESP antes, ficamos praticamente prontos para essa banca, embora com muitos problemas, sem sombra de dúvida. Afinal, esse projeto é escrito enquanto estamos a duras penas tentando acompanhar três disciplinas obrigatórias.

Por esse e outros motivos, os dois professores apontaram inúmeros problemas no projeto, principalmente o desequilíbrio entre as seções de revisão bibliográfica e de metodologia e objetivos. Enquanto a primeira está bastante extensa, a segunda é pobre e vaga. Prof. Nozoe, conhecido por ser extremamente rigoroso, foi um bom teste. Ele impiedosamente apontou os pontos mais fracos, o que, embora não seja agradável, é positivo na fase em que estou. Prof. Dante também fez excelentes sugestões, além de indicar literatura e reconhecer que o tema era interessante (ufa!).

A mensagem que ficou pra mim é: defina bem sua metodologia, cuide da parte empírica, seja mais rigoroso e objetivo, faça uma revisão bibliográfica que se atenha ao que vai ser usado. Boas lições.

Um pouco de séries de tempo - espaço de estados e filtro de Kalman

Para quem tem saco de ler algo bem teórico sobre econometria. São resultados de meus estudos para a prova de segunda.

Ontem eu falava dos modelos estruturais para previsão de séries temporais. Para sua operacionalização, expliquei que o modelo deveria ser reescrito sob a forma de espaço de estados. Mas o que é um modelo em espaço de estados?

Um modelo como esse é baseado na independência do futuro do processo em relação a seu passado, dado o estado presente. Ou seja, toda informação do passado está contida no estado do processo, e isso é suficiente para a predição. Representa-se isso através de duas equações dinâmicas: (1) a equação de medida, que representa as observações do processo geradas em função do vetor de estado, e (2) a equação de transição, que representa a evolução dinâmica do vetor de estado não observado. (Souza, 1989, p. 54). As duas perturbações, uma em cada equação, não são correlacionadas entre si para qualquer defasagem, além de serem normais e auto-independentes.

Para que consigamos prever valores futuros através do modelo escrito na forma de espaço de estados, ou seja, para que possamos fazer extrapolações, precisamos de algo que produza estimadores atualizados do vetor de estado, que não é observado. O algoritmo para esse fim é o chamado Filtro de Kalman, que consiste em quatro equações: duas equações de previsão (utilizando até o tempo t-1) e duas equações de atualização, permitindo "a atualização seqüencial do vetor de estado no instante t-1 para o instante t". (Souza, 1989, p. 61).

Segundo Souza (1989, p. 62), o valor atualizado da esperança do vetor de estado (a outra atualiza a variância) "corresponde ao seu estimador corrente [...] somado a um termo de 'correção' devido ao erro de previsão cometido no instante t. [...] Chama-se esse fator de GANHO DO SISTEMA, posteriormente denominado GANHO DE KALMAN".

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Mais uma dos holandeses

Não conheço a Holanda, mas ela está sempre à frente de todos quando se trata de secularização - talvez por sua história. A Holanda foi um dos primeiros lugares a receber judeus e outros, que foram se integrando à sociedade. O filósofo Baruch de Spinoza, por exemplo, era holandês e de família judia, embora suas idéias de uma divindade imanente divergissem tanto dos cristãos quanto dos judeus. Um dos primeiros humanistas, Erasmo, era de Rotterdam. Seja lá o que for, não me surpreende a seguinte notícia:

Dutch pastor says he can believe in a 'God who doesn't exist'

Utrecht (ENI). A Dutch Protestant cleric who describes himself as an "atheist pastor", saying he does not believe in God's existence, has become a publishing success in the Netherlands. The Rev. Klaas Hendrikse published a book at the beginning of November entitled "Believing in a God who does not exist: Manifesto of an atheist pastor", which by the end of the month had gone into its third printing. In his book, Hendrikse tells how his conviction that God does not exist has become stronger over time. He suggests, however, that it is still possible to speak of God, but in this case it refers to the quality of a relationship rather than the existence of a divine being. [415 words, ENI-07-0964]


Fonte: Ecumenical News International

Um pouco de séries de tempo - Box & Jenkins e modelos estruturais

Quando falamos sobre análise e previsão em séries temporais, o que nos vem à cabeça hoje são os modelos da classe ARIMA e a metodologia desenvolvida por Box & Jenkins (1970). Certamente, os trabalhos desses autores foram os grandes responsáveis pelo desenvolvimento ocorrido na econometria de séries temporais.

Antes porém dos trabalhos de Box & Jenkins, a formulação de modelos univariados consistia em uma série composta de quatro componentes não-observáveis, que eram (a) tendência, (b) sazonalidade, (c) ciclo e (d) o erro aleatório. A assim chamada decomposição clássica permitia a formulação de modelos aditivos, multiplicativos ou mistos utilizando as componentes acima listadas. Com Box & Jenkins, a decomposição clássica acabou não recebendo mais tanta atenção. Tal situação, no entanto, mudou com as proposições de Harvey. A formulação clássica tinha como vantagem a interpretação calra dos seus diversos componentes (Souza, 1989), o que é recuperado por Harvey e seus modelos estruturais. Segundo Souza, há outra vantagem no modelo estrutural:

Um estudo comparativo muito interessante do desempenho do Modelo Estrutural Básico* e os modelos ARIMA de Box & Jenkins, para um conjunto de séries macroeconômicas reais, é mostrado em Harvey & Todd (1983). Nele são enfatizados as vantagens da formulação estrutural sobre os modelos ARIMA, especialmente para as séries sazonais (Souza, 1989, p. 51).

Para a operacionalização, ou seja, para obter os estimadores atualizados das componentes não-observáveis a todo instante do tempo a partir da informação trazida pela única componente observável do sistema, Harvey propôs que se reescrevesse o modelo na forma de espaço de estados, para então se utilizar o Filtro de Kalman, o qual fornece finalmente a atualização final das componentes.

Amanhã, caso tenha estudado o suficiente, explico o que é "espaço de estados" e filtro de Kalman.



* Modelos Estrutural Básico: exclui a componente cíclica.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Última semana

Falta uma semana para que o semestre se consume. Para a maior parte da turma, o ano acaba na segunda, dia 17, com a prova de Econometria II - Séries de Tempo com a Profa. Vera Fava. Alguns ainda tem atividades na terça, dia 18, na disciplina de Organização Industrial com a Profa. Farina, presidente do CADE.

Amanhã, vários dos meus colegas estarão sofrendo com a prova de Microeconomia II com o Prof. Gabriel Madeira. Certamente estão estudando agora desesperadamente a parte de contratos. À tarde, estarei apresentando meu projeto preliminar de dissertação para três professores. O resumo do projeto eu postei aqui. Acredito que os professores Dante Aldrighi e Nelson Nozoe poderão fazer boas contribuições, além é claro de meu orientador, Prof. Renato Colistete.

Enfim, é uma semana difícil, mas o alívio de saber que está acabando e que logo poderemos estar em casa nos dá algum alento. É verdade que as disciplinas não acabam de fato, temos trabalhos e mais trabalhos no mês de janeiro. Mas todos poderemos descansar um pouco nesse fim de ano.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Violações de direitos podem ser justificadas?

Está ocorrendo um debate interblogs. Ao comentar um texto do blog "Depósito de..." do meu colega de mestrado e anarco-capitalista libertário Richard, perguntei-lhe:

E quando A pode impedir que B mate C, mas para fazer isso, tem que invadir a propriedade de D? O que fazer?

Para os libertários, violar direitos naturais é impensável. A resposta de Richard veio neste texto bastante esclarecedor. Contudo, Renato Drumond, de um ponto de vista liberal mais "light" contra-argumentou em seu blog "Democrata Liberal".

Para contribuir com o debate da forma que posso, uma vez que sou um neófito em relação a esse assunto, transcrevo de onde tirei essa pergunta. Sobre os critérios libertários de Robert Nozick, afirma Amartya Sen (1999, p. 88-89) em "Sobre Ética e Economia":

Se a pessoa A estiver violando gravemente algum direito de B, por exemplo, espancando-o, a pessoa C tem o dever de ajudar a impedir isso? Adicionalmente, C estaria correto ao cometer alguma violação pouco importante de algum outro direito da pessoa D para ajudar a impedir a violação mais importante dos direitos de B pela pessoa A, que está fortemente armada? Por exemplo, C poderia pegar sem permissão - digamos à força - um carro pertencente a D, que não quer emprestá-lo a C, a fim de chegar mais rápido ao local e salvar B, que está sendo espancado por A? Se os direitos apenas assumem a forma de restrições ("Não viole os direitos dos outros") e as restrições são como as especificadas, digamos, no sistema de Nozick, então C claramente não deve tentar ajudar B dessa maneira, pois C:

1. não tem obrigação de ajudar B;
2. tem obrigação de não violar os direitos de D.

O sistema de direitos nozickiano, baseado no conceito de entitlements, fornece respostas implausíveis a essas questões e muitas outras afins, mas elas são inevitavelmente importantes quando de fato se pretende levar a sério e defender os direitos.



quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Monopólio, igrejas e eficiência missionária. Parte II: o aumento da competição

Como disse no post anterior, as igrejas tradicionais acabaram criando teologias ineficientes do ponto de vista econômico. Pode-se argumentar que o desenvolvimento dessas teologias tenha mais a ver com a crescente consciência de problemas como intolerância e proselitismo, levando os teólogos a não mais defenderem a evangelização a qualquer custo. Embora não neguemos que fatores éticos como esses tenham seu papel, devemo-nos perguntar: as igrejas tradicionais teriam se preocupado com esse tipo de questões éticas e teológicas caso não estivessem em confortável situação de monopólio? É patente que, do ponto de vista do número de fiéis (embora esse não seja – ou não deveria ser – o objetivo único da igreja, sabemos que a sobrevivência de uma igreja enquanto organização depende de que haja certo número de fiéis), as teologias que mais tem influenciado a práxis dessas igrejas são claramente ineficientes.

Com o surgimento dos movimentos religiosos norte-americanos, na maior parte das vezes desvinculadas de igrejas tradicionais, o panorama mudou radicalmente a partir do século XIX, adentrando o século XX. O movimento pentecostal é fruto do crescimento dessas igrejas novas nos EUA, levando à quebra dos monopólios de determinadas igrejas naquela região. Com diversas igrejas pequenas no mercado, a situação nos EUA estava próxima da concorrência perfeita (poderíamos caracterizar como concorrência monopolística). A necessidade de mais membros levou essas igrejas a investirem em outros lugares, levando ao grande aumento de programas missionários norte-americanos ao redor do globo, aumentando a concorrência em todo lugar. Como vemos, essas igrejas adotaram visões missionárias bem mais agressivas do que as igrejas tradicionais.

Hoje vemos em diversos países a migração dos fiéis das igrejas tradicionais para as novas igrejas. No caso da Europa, vemos muitos abandonando a igreja (secularização da sociedade, que Weber de certa forma já chamara atenção)*. Em ambos os casos, a teologia ineficiente tradicional pode ter contribuído para esse grau de deterioração. A Igreja Reformada de Genebra (igreja de Calvino), por exemplo, sofre com problemas financeiros advindo da falta de membros. Tais igrejas, embora estejam na situação limite, não conseguem, devido talvez a uma certa rigidez institucional e teológica (teologias originadas na época do monopólio), fazer as inovações necessárias para impedir seu declínio.

No Brasil, o fenômeno de teologia eficiente é a teologia da prosperidade (neopentecostais), que levanta recursos milionários entre seus fiéis. A metodologia empregada é certamente censurável do ponto de vista moral, mas é certamente a mais eficiente em números de membros. Com isso, quero dizer que maximizar a eficiência não é necessariamente o objetivo desejável, afinal, tratam-se de igrejas. Não significa, no entanto, que a completa ineficiência seja também salutar.


*fiz uma correção após o Henrique (não sei que Henrique, talvez eu o conheça) ter chamado atenção para uma afirmação perigosa que fiz sobre o conceito de "desencantamento do mundo" de Weber. Valeu, Henrique.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Monopólio, igrejas e eficiência missionária. Parte I: as igrejas históricas

O panorama religioso tem se diversificado bastante recentemente principalmente dentro do que chamamos de Cristianismo. De algumas poucas instituições que existiam, a oferta de denominações cristãs multiplicou-se com o crescimento dos evangélicos, mais especificamente os pentecostais e neo-pentecostais.

Embora a cisão da Igreja origine-se do início do milênio passado (católicos romanos x ortodoxos), tendo havido outra com a Reforma Protestante no século XVI, isso não significou o rompimento da posição monopolista das igrejas na maioria dos lugares. Embora a Igreja Católica Romana não fosse mais a única, cada país ou estado adotou a sua confissão. Alguns reis mantiveram seus países e colônias sob a égide do catolicismo, enquanto outros adotaram o protestantismo – pelo menos no mundo ocidental. Ou seja, em geral, as igrejas históricas (católica romana, luterana, reformada, anglicana e outras poucas) detiveram por séculos uma posição monopolista.

Não é por acaso que hoje, são justamente essas igrejas que não conseguem manter seus membros nem chamar novos membros. O crescimento do número de membros está diretamente relacionado à importância dada à missão e à evangelização por essas igrejas. Podemos assumir que a sobrevivência das igrejas depende da existência de um razoável número de membros. Antigamente, as igrejas históricas não precisavam se preocupar com isso.

A importância dada à evangelização reflete-se no desenvolvimento das idéias teológicas dentro dessas igrejas. Sabemos que grande parte da produção teológica tradicionalmente provinha da Europa no caso das igrejas históricas. As teologias que hoje alicerçam as igrejas tradicionais são originadas de uma época em que as igrejas detinham monopólio (Idade Média no caso dos católicos romanos, Idade Moderna no caso dos protestantes). Na Europa, as igrejas protestantes eram em geral estatais. Ou seja, não havia muitas alternativas na oferta religiosa. É evidente que, para as igrejas tradicionais, a ênfase missionária é muito menor em relação às igrejas que hoje crescem.

Não estou aqui querendo negar a importância dos fundamentos teológicos e de restrições éticas das igrejas. Entretanto, é difícil negar que, a falta de competição no “mercado religioso” pode ter ajudado a gerar teologias que enfatizavam pouco as atividades missionárias, ou seja, podem ter estimulado o surgimento de teologias ineficientes (na acepção econômica do termo).

[to be continued]


Congresso Latino-Americano de História Econômica

Está acontecendo no Uruguai o Congresso Latino-Americano de História Econômica com a presença de vários caras bons como James Robinson, Cortés-Conde, entre outros. Tem alguns papers lá que podem ser baixados e vale a pena dar uma olhada nas seções.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Crise de 1929, Friedman, McCloskey e etc.

Vejam o caderno Eu&Fim de Semana encartado no Valor Econômico. Há um resumo do debate entre Paul Krugman e Anna Schwartz acerca de Milton Friedman. Em seguida, um artigo do meu orientador, Renato Colistete, sobre a opinião da historiografia a respeito de 1929 (que tem a ver com o debate sobre Friedman, que escreveu com Schwartz o famoso livro "A Monetary History of the United States") e algo sobre a visita de McCloskey ao Brasil.

Atrasado mas você ainda não deve ter jogado fora o Valor de sexta passada.

Capital social e capital humano

Lendo aqui a literatura clássica sobre capital social, temos um paper do sociólogo James Coleman (Chicago, já falecido) que conta um exemplo muito interessante. Em "Social Capital in the Creation of Human Capital", publicado na American Journal of Sociology, Vol 94 (1988), pp. S95-S120, diz Coleman:

In one public school district in the United States where texts for school were purchased by children's families, school authorities were puzzled to discover that a number of Asian immigrant families purchased two copies of each textbook needed by the child. Investigation revealed that the family purchased the second copy for the mother to study in order to help her child do well in school. Here is the case in which the human capital of the parents, at least as measured traditionally by years of schooling, is low, but the social capital in the family available for the child's education is extremely high. [...]

That is, if the human capital possessed by parents is not complemented by social capital embodied in family relations, it is irrelevant to the child's educational growth that the parent has a great deal, or a small amount, of human capital. (p. S110)

Essa história me parece familiar. Não, minha mãe não comprava dois livros, mas sei bem como funciona a cabeça desses pais orientais.