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quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

De onde vem a nossa desigualdade educacional - parte II

A disparidade dos resultados educacionais nas Américas foi extremamente significativa no século XIX. Em 1870, por exemplo, cerca de 80% de pessoas acima de dez anos nos Estados Unidos e no Canadá eram alfabetizadas, o que correspondia ao triplo dos resultados dos países progressistas na América Latina e quatro vezes mais que Brasil e México (p. 171). Mariscal & Sokoloff analisaram também detalhadamente as políticas de expansão da escolaridade em alguns países latino-americanos de colonização espanhola. Entre as conclusões obtidas, podemos destacar as seguintes:

a) na Argentina, onde a taxa de alfabetização elevou-se de 22,1% em 1869 para 65% em 1914, destaca-se o papel positivo da imigração, uma vez que, além da oferta de serviços educacionais estar entre as políticas de atração, os imigrantes já tinham nível de instrução maior. Como conseqüência, o sistema escolar concentrou-se nas regiões mais prósperas como Buenos Aires e regiões que receberam imigrantes (p. 178). Contrariamente ao caso norte-americano, a expansão escolar argentina teve pouca relação com um movimento geral de democratização, dado que reformas eleitorais não precederam essas políticas (p. 183).

b) No Chile também se destacou o papel da imigração. Entre 1885 e 1910, a proporção de alfabetizados cresceu de 28,9% para mais de 50%. Assim como na Argentina, a população alfabetizada concentrou-se nos grandes centros. Embora as escolas privadas fossem maioria, o governo chileno adotava um ativo programa de subsídios à educação. Além disso, as exigências da legislação chilena para que um indivíduo pudesse votar eram bem mais brandas, o que sugere uma distribuição de poder político mais igualitária no país (p.185-186).

c) A Costa Rica também possuía uma estrutura social mais igualitária, talvez em parte por ter uma região montanhosa e poucos minerais a explorar – ou seja, devido a sua dotação inicial de fatores, levando o país a criar instituições mais igualitárias[1]. Na década de 1880, os gastos com educação aumentaram substancialmente na Costa Rica, pois a educação era vista como a base para uma democracia. Durante a crise econômica de 1881, subsídios federais ao ensino secundário e superior foram suspensos, mas tais cortes de gastos não afetaram o ensino primário (p. 186-188).

d) O caso mexicano pode ser caracterizado por desordem política (North, Summerhill e Weingast, 2000) após a independência, o que prejudicou seriamente a adoção de políticas voltadas à educação básica. Somente a partir do século XX é que o México conseguiu centralizar a política educacional. A centralização poderia ter sido benéfica para as províncias mexicanas mais heterogêneas e desiguais, cujos problemas de ação coletiva eram certamente maiores. No entanto, o governo federal não tinha autoridade suficiente em muitas províncias. Nas províncias ao norte, cujas populações eram relativamente mais homogêneas e igualitárias, a centralização federal impediu a continuidade de boas políticas que vinham sendo implementadas até então em relação à educação.



E o Brasil? Vou ver se lido com essa questão na minha dissertação.





[1] Pode-se argumentar que Coréia do Norte e Nepal, por exemplo, são países de região montanhosa e, no entanto, não apresentam instituições igualitárias. Estes países, no entanto, não foram colonizados com vistas à exploração econômica. Não estamos defendendo aqui que a geografia tem papel preponderante, mas que, estritamente no caso dos países latino-americanos, os quais foram colonizados pelos europeus, o relevo da região pode ter tido papel significativo na determinação das instituições, estas sim, fundamentais para explicar a desigualdade.

2 comentários:

Ricardo Agostini Martini disse...

Comentários:

A Costa Rica, parece que graças aos investimentos em educação, conseguiu mudar sua inserção na economia internacional. De polo de turismo e exportador de bens primários, parece que o país já está recebendo investimentos externos de alta tecnologia, e exportando computadores! Li isso quando estava estudando para fazer o artigo da lei de Thirwall.

Centralizar a educação básica no governo federal, sob a lógica de que os governos subnacionais não têm competência e nem recursos para isso, é uma atitude muito polêmica. Trabalhei com isso na minha monografia de graduação. Seria economicamente mais eficiente que houvesse cooperação técnica entre as esferas de governo, de modo a aproximar os formuladores de políticas e os cidadãos beneficiados. Tem toda uma literatura sobre essa questão.

Se tu quiser uns artigos sobre políticas educacionais na América Latina, dá uma olhada nesse site:
http://www.preal.org/

Abraço

Marilda disse...

Realidade e Utopia

Libertar para a vida

Pesquisando e recolhendo material para projetos futuros,um dos artigos mais condensado e completo encontrado , foi o escrito por “Maricele Passos” sobre a “Pedagogia do Oprimido” (Paulo Freire) que trata da opressão social e em particular e especial a educacional, pois ambas , nesse caso, andam de mãos dadas.
Pode parecer um assunto repetitivo, mas é obviamente básico para a formação integral do ser humano.
A opressão é apresentada como problema crônico social, visto que as camadas menos favorecidas são oprimidas e terminam por aceitar o que lhes é imposto, devido à falta de conscientização, sem buscar realmente a chamada libertação. A libertação é um “parto” conforme afirma “Paulo Freire”, pois a superação da opressão exige o abandono da condição “servil”, que faz com que muitas pessoas simples apenas obedeçam a ordens, sem, contudo questionar ou lutar pela transformação da realidade, fato motivado especialmente pelo medo. onde as realidades são, em sua essência, domesticadoras, ou seja, é cômodo para o opressor que o oprimido continue em sua condição de aceitação. A Pedagogia do Oprimido busca a restauração, animando generosidade autêntica, humanista e não “humanitarista”, pois se propõe à construção de sujeitos críticos, comprometidos com sua ação no mundo. A educação exerce papel fundamental no processo de libertação, o educador é considerado um mediador importantíssimo nesse processo de conscientizar para transformar, pois a opressão é uma forma sinistra de violência O aluno é visto como sujeito que nada sabe, a educação é uma doação dos que julgam ter conhecimento, chamado de alienação da ignorância, pois não há criatividade, nem tampouco transformação e saber, existindo aí a “cultura do silêncio”, “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”, esta famosa frase pareceu, a princípio, ter um efeito bombástico denunciou toda opressão contida na educação, mas foi só isso, na realidade tudo ficou e continua sendo igual, por muitos motivos que não vem ao caso discutir agora. O grande destaque para a superação da situação é trabalhar a educação como prática de liberdade, onde a realidade é inserida no contexto educativo, sendo valorizado o diálogo, a reflexão e a criatividade, de modo a construir a libertação, alias o diálogo aparece no cenário como o grande incentivador da educação. O educador antes “dono” da palavra passa a ouvir, pois “não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”.
Isto é justamente o que foi chamado de mediatização pelo mundo, espaço para a construção do profundo amor ao mundo e aos homens. Contudo é preciso que também haja humildade e fé nos homens, uma metodologia pautada no universo do educando que requer a investigação, “o pensar dos homens referido” à realidade, seu atuar de forma interdisciplinar, por isso a mudança deve acontecer através desta pelo diálogo tendo como compromisso a libertação das massas oprimidas que são vistas como “mortos em vida”, onde a vida é proibida de ser vida, transformar as realidades a partir da união e da organização, instaurando o aprendizado da pronúncia do mundo, onde o povo diz sua palavra. Nesta teoria Pedagógica à organização não pode ser autoritária, deve ser aprendida, esse aprendizado em extrema união, buscando instaurar a transformação da realidade que os mediatiza. O que fica evidente é que o opressor precisa de uma teoria para tornar possível a ação da opressão, deste modo o oprimido também precisa da teoria para sua ação de liberdade, que deve ser pautada principalmente na confiança no povo e na fé nos homens, para que assim “seja menos difícil amar”.
A utopia bem trabalhada e com seriedade, nesse caso, se transformará em plena realidade.

Marilda