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sábado, 12 de janeiro de 2008

IPCA 2007: 4,46%

A inflação medida pelo IPCA de 2007 quase atingiu a meta de 4,5%, chegamos a 4,46%. Por um lado, é bom que a política monetária esteja acertando. Por outro lado, decompondo esse índice, percebemos que a maior alta foi do preço de alimentos, mais em conta do choque de oferta devido à falta de chuvas e às condições do mercado internacional. Leite e carne foram os vilões, o que é preocupante, pois significa que a inflação para a camada mais pobre foi certamente maior. Se os alimentos puxam a inflação, temos um imposto inflacionário claramente regressivo. É só observarmos que o INPC, índice que pesquisa famílias com rendimentos de até 6 salário mínimos, subiu 5,16%. O IPCA pesquisa famílias com rendimentos de até 40 salários mínimos.

Se atingimos a meta, a trajetória atual dos juros deve ser mantida? Não é o que pensam alguns economistas. Estou sem acesso aos jornais de São Paulo, mas por aqui o Prof. Dr. Marcelo Portugal da UFRGS acha que os juros devem subir, uma vez que as expectativas de inflação para daqui a 12 meses parecem ser problemáticas (segundo ele em artigo publicado na Zero Hora de hoje). Ou seja, para ele a política monetária tem que ser forward-looking. Outros economistas devem espernear só de pensar nessa possibilidade, pois para eles uma inflação de 4,5%, mesmo com as expectativas do ano que vem (confesso que não tenho dados das expectativas), não é nenhum problema para a economia. Dessa vez, no entanto, não foram os preços administrados que puxaram a inflação. Antigamente, os pós-keynesianos culpavam a política de juros altos do governo pela estagnação. Segundo eles, como eram os preços administrados que sempre subiam, de nada adiantava combater a inflação com a taxa de juros, que tem efeitos sobre a demanda agregada - principalmente sobre o investimento, variável fundamental para eles. E agora, que será que dirão eles?

O debate vai longe e tenho passado longe de estudos sobre inflação e política monetária. Talvez meus colegas que fizeram macro II ou macro keynesiana possam comentar mais a respeito e enriquecer os debates, além dos velhos conhecidos e colegas da UFRGS e de outros lugares que costumam dar pitacos neste blog.

3 comentários:

Roy disse...

Como já tive um professor pós-keynesiano, posso responder essa. Para a ortodoxia, pode-se demonstrar por um argumento de redução ao absurdo que sem deslocamentos concomitantes da curva de demanda agregada causados por oferta de moeda, deslocamentos contínuos da curva de oferta agregada são impossíveis, não podendo induzir um processo inflacionário sustentável. Na teoria ortodoxa, todo o efeito negativo de um choque de oferta desfavorável é eliminado, desde não haja emissão contínua e excessiva de moeda por parte dos governos.Se há um choque inflacionário (mero aumento de preços), o que leva os agentes aumenta a demanda por moeda por motivo transação, mas como o “M” é tido como dado pela política monetária, a taxa de juros se eleva uma vez que o estoque real de moeda cai (M/P).


Um primeiro questionamento pós-keynesiano a visão ortodoxa da moeda como causa única da inflação diz respeito ao agregado monetário mais adequado para ser associado ao processo inflacionário, posto que a moeda é um conceito difícil de definir com precisão. A visão convencional associa o processo inflacionário à criação da moeda pelo governo; enfatiza, portanto, a emissão de agregados monetários sob maior controle governamental como o M1 ou M2; tais agregados poderiam ser controlados com mais facilidade pelos instrumentos tradicionais de política monetária disponíveis ao governo. Neste caso, se houver inflação, portanto, a responsabilidade pela sua existência costuma ser atribuída exclusivamente ao governo. Mas a visão heterodoxa associa o processo inflacionário à geração de liquidez (conceito mais amplo), e não necessariamente apenas de moeda; a moeda é apenas um pólo extremo em um gradiente de ativos de maior ou menor liquidez.Conseqüentemente, enfatiza o respaldo ao processo inflacionário gerado pelo aumento de agregados monetários cuja criação é resultante de decisões de agentes privados, estando portanto mais distantes do controle dos instrumentos mais tradicionais da política monetária governamental. Portanto, a sanção monetária da inflação é muitas vezes originária do próprio setor privado, e não do governo. A criação de liquidez por parte do sistema bancário pode, dentro de amplos limites, sustentar um processo inflacionário iniciado em outros setores da economia. Na teoria heterodoxa, o governo pode ser refém da inflação. O que os pós-keynesianos dirão se houver contracionismo monetário devido à piora nas expectativas de inflação? Eles só dirão que a política monetária apertada é relativamente ineficaz para a inflação de oferta, porque ela atacaria os sintomas não as causas. Eles têm sua própria teoria de política não-monetária controladora de inflação de oferta. Como
mostra este artigo de João Sicsú:
http://www.ie.ufrj.br/moeda/pdfs/politicas_nao_monetarias_de_controle_da_inflacao.pdf

Ricardo Agostini Martini disse...

Acho que não é o caso de se aumentar os juros. A inflação foi concentrada nos alimentos, e teve causas estruturais (a elevação da demanda internacional, puxada pelo maior consumo na Ásia). Na linguagem de Robert Lucas, esse aumento de preços foi um "sinal", de causas reais, e não um "ruído" de política expansionista. Certamente, provocará reações por parte dos produtores de alimentos (investimentos), e não acho que seja o caso do governo intervir.

Thomas H. Kang disse...

Agradeço pelas contribuições. Infelizmente, estava pouco apto a discutir na época que escrevi o post por conta de trabalhos.

Abraços