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sexta-feira, 29 de junho de 2007

Keynesianismo não pára em pé sozinho

Afirmam muitos que o mundo, até algumas décadas atrás, era um mundo keynesiano. De fato, as proposições político-econômicas de Keynes inspiraram a onda de intervenção estatal na economia após a crise de 1929. Contudo, embora a maioria dos economistas fossem keynesianos, existia uma diferença bem clara entre eles: haviam os keynesianos da síntese neoclássica e outros keynesianos um pouco mais próximos de Marx. Mas não haviam keynesianos apenas keynesianos?

A controvérsia do capital destacou muito bem os economistas dessas duas correntes: Paul Samuelson, na Cambridge americana, foi responsável pelo manual de economia estudado por milhares de economistas, cuja formalização e estilo tornaram-se referência para todos os manuais posteriores. Do outro lado, na Cambridge inglesa, Joan Robinson liderava um grupo de keynesianos que acusavam o keynesianismo ortodoxo de ser bastardo. Robinson, após contribuir com uma teoria de concorrência imperfeita, aproximou-se de Marx na década de 40, embora rejeitasse alguns fundamentos como o valor-trabalho.

Embora Keynes não fosse nenhum ignorante em outras áreas do conhecimento humano como a filosofia, é notório que o keynesianismo carecia de fundamentação filosófica e metodológica clara. Enquanto o keynesianismo esteve vivo, legitimado pela intervenção estatal que começou a ser despudoradamente praticada antes mesmo da publicação da Teoria Geral, jamais alcançou alguma autonomia de paradigmas anteriores, sejam elas a economia neoclássica ou o marxismo. O keynesianismo apenas forneceu justificativas teóricas e insights para legitimar certas políticas, mas como ciência, não conseguiu autonomia, pois não sabe de que pressupostos parte. Ou seja, o keynesianismo não pára em pé sem se apoiar em neoclássicos ou marxistas.

A Teoria Geral, embora escrita por um pupilo de Marshall e Pigou, não funda nova compreensão sobre o comportamento humano nem deixa claro seu posicionamento quanto à tensão indivíduo versus sociedade. Enfim, permite-se ser moldado pelas metodologias marxista ou neoclássica, como foi, dependendo do gosto do freguês, nas décadas de 40,50 e 60.

O keynesianismo pretende romper em parte com a tradição neoclássica, fundada no empirismo inglês e em outras influências, mas não abraça a tradição continental de Hegel e Marx. Mais um motivo que explica porque pós-keynesianos são poucos e apenas falam de política econômica: poucos são os que tentam levar uma agenda de pesquisa adiante. Enquanto isso, o que sobrou de keynesianismo só sobrevive como o novo-keynesianismo de preços rígidos com expectativas racionais.

Isso não nos diz que o keynesianismo está certo ou errado, mas que ele dificilmente sobrevive de forma "pura", pois não tem força nenhuma, a não ser que uma grade crise aconteça para dar uma sobrevida a ele.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Crise asiática e seus resquícios

Essa também é do NY Times e confesso que o seguinte parágrafo me surpreendeu um pouco:

Malaysia weathered the crisis better than many countries in the region by imposing restrictions on the movement of large sums of money out of the country. That success has called into question the international economic orthodoxy that countries should keep their markets as open as possible at all times. But it has not reversed the trend toward freer trade and investment.


A reportagem destaca o que ficou da crise financeira de 1997, apesar da boa recuperação em geral dos países protagonistas do episódio.

Saudades do Varian

terça-feira, 26 de junho de 2007

Notas da semana

Recebemos a nota da terceira prova de micro. Das duas primeiras, ainda nada sabemos curiosamente. Eu tirei 3,5: uma nota ruim. Alguns outros também tiraram notas baixas. Muitas reflexões, mas não é hora pra isso: quinta temos prova de Econometria

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Notícias das igrejas do Canadá de um assunto que tratei a pouco:

Canadian churches reject same-sex blessings

Vancouver (ENI). Canada's Anglican and Lutheran churches have each turned down proposals to approve ceremonies of blessing for same-sex unions. The general synod of the Anglican Church of Canada, meeting in Winnipeg, narrowly defeated a resolution that would have allowed dioceses to decide for themselves whether or not to bless same-sex unions. "There is disappointment - a lot of pain. Some people will be saying, 'How long, O Lord, how long?'" said Bishop Fred Hiltz of Nova Scotia and Prince Edward Island, who was elected during the synod to be the denomination's new primate, or national archbishop. Meeting separately in Winnipeg, delegates to the convention of the Evangelical Lutheran Church in Canada defeated a proposal to introduce same-gender blessings by a vote of 200 to 181. The Lutheran convention in 2005 defeated a similar proposal.

Este blog não pretende nem ser homofóbico nem ser pró-homossexual.

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E pra quem já ouviu falar nos Cursos Alpha:

New book analyses 'Alpha' phenomenon

London (ENI). Adverts on the backs of buses, in taxis, on billboards and in newspapers for "Alpha courses", a popular introduction to the essentials of Christianity, are familiar to many people in Britain and further afield. Alpha's organisers claim that more than 8 million people worldwide have now attended one of their courses, and that more than 7000 churches in Britain and Ireland, and more than 30 000 around the world, have been signed up to run Alpha courses. But according to Andrew Brookes, editor of "The Alpha Phenomenon", a new book about the introductory course on Christianity, few churches see sustained growth as a result of Alpha alone. "Most Alpha churches only run the course five and a half times, and not enough to get serious outreach. I think this is an area which needs much more attention," Brookes said.
:: "The Alpha Phenomenon" (ISBN 978-0-85169-331-6; 10.99 British pounds plus 3 pounds handling charge per order) is available from CTBI Publications, 4 John Wesley Road, Werrington, Peterborough, PE4 6ZP. Orders on line at www.ctbi.org.uk. [504 words, ENI-07-0493]

terça-feira, 19 de junho de 2007

Livro sobre crescimento e distribuição

Hoje pela manhã, o ex-reitor da USP e professor da FEA, Jacques Marcovitch, lançou um livro por ele organizado. Embora seja um professor do departamento de Administração, o título do livro chama-se Crescimento Econômico e Distribuição de Renda e conta com a participação de vários economistas.

Os co-autores compareceram, à exceção de Márcio Pochmann. Todos eles falaram um pouco da sua parte do livro, mas o que mais me chamou atenção foi o que falaram Mirela de Carvalho e Ricardo Paes de Barros do IPEA. Na breve explanação deles, o capítulo que escreveram trata de uma proposta efetiva para diminuição maior da pobreza usando a base informacional bem-sucedida do Bolsa-Família. Os autores destacaram que o sucesso do Bolsa-Família no combate à pobreza e na melhora bastante efetiva que o coeficiente de Gini vem apresentando desde 2001, deve-se à base informacional, a qual de fato identifica os pobres. Antigamente, os mais pobres não eram identificados por não terem registro algum. Hoje, a Caixa Econômica Federal sabem quem são eles e consegue entregar os R$ 60,00 para as pessoas que realmente necessitam, embora haja, é claro, alguns pilantras que se aproveitam. Mas a grande maioria é de fato pobre.

A proposta dos autores é, portanto, utilizar essa base informacional para que, além de dar o peixe, ensine-se a pescar, como diz a expressão. Para que as familias não se tornem dependentes desses R$60, os autores disseram que oferecer também um pacote de oportunidades é a saída mais efetiva para essas famílias. Os diversos programas sociais do governo federal já existentes deveriam ser oferecidos junto com esse auxílio financeiro. Como são programas consolidados, não haveria aumento no gasto público e haveria uma focalização do gasto, tornando-o mais efetivo.

Não li o paper, estou apenas resumindo o que ouvi. Mas me pareceu um trabalho muito interessante. Um bom caminho para melhorar a situação distributiva que perversamente esteve abraçada à nossa sociedade desde a colonização.

Não vou deixar de mencionar que outros economistas como Troster, Maria Heleza Zockun e Seroa da Motta também ministraram boas palestras. Além disso, a arquiteta Márcia Westphal também mostrou um ótimo trabalho.

sábado, 16 de junho de 2007

Anglicanos com problemas

A seguinte notícia foi veiculada pela Ecumenical News International (ENI):

US Episcopal Church rejects deadline on gay consecrations

New York (ENI). Leaders of the US Episcopal (Anglican) Church say they will not respond to increasing pressure by others in the worldwide Anglican Communion that the US denomination reverse its policies on the ordination of openly gay bishops. In February, a meeting in Tanzania of Anglican leaders, or primates, from around the world gave the US denomination a September deadline to promise that no one living in a same-sex relationship would be made a bishop, and that the US church would not authorise rites for same-sex blessings. [370 words, ENI-07-0465]
Nas igrejas luteranas, o debate é parecido. Principalmente na Escandinávia, a pressão por um posicionamento liberal é grande. É hora de debater até que ponto vai a inclusividade. Ser demasiadamente inclusivo pode levar à igreja a não se posicionar nos mais diversos assuntos no campo moral. Por outro lado, nada de inclusividade significa intolerância extrema, culpada por tantos males e mal-entendidos no mundo.

Krugman sobre comércio e desigualdade

O blog do Monasterio indicou este pequeno texto do Krugman acerca de comércio e desigualdade. É bem pequeno mesmo, vale a pena todos darem uma lida, inclusive os preguiçosos.

O Stein não vai gostar.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Prova de microeconomia

Após a terrível noite de quarta-feira, na qual o Grêmio ficou em séria desvantagem para o confronto final da Libertadores, tive uma prova de microeconomia na tarde de quinta-feira.

O professor da segunda parte da matéria, Fernando Botelho, PhD. por Princeton, aplicou uma prova que obrigava-nos a pensar. Foi a primeira prova desde o início do mestrado que realmente exigiu que pensássemos ao invés de meramente reproduzir proposições ou exercícios. Resultado: todos tivemos um resultado pífio na prova, o que não é um problema devido ao fato da nota ser relativa.

A matéria era utilidade esperada, equilíbrio parcial e equilíbrio geral. O interessante é que equilíbrio geral acaba se desdobrando em proposições de comércio internacional na versão 2x2 do modelo. Estudamos, por exemplo, o teorema da equalização de fatores, Stolper-Samuelson e Rybcszinski. Só faltou o famoso Hecksher-Ohlin pra completar os quatro pilares da teoria neoclássica do comércio internacional.

Os níveis de abstração nessa parte da matéria são muito altos, e prometem aumentar ainda mais, o que tornou o estudo bastante cansativo.

Apesar de tudo isso, foi uma boa experiência. Só me resta torcer para que o Grêmio alcance uma vitória de quatro gols (ou de três com direito a pênaltis) para se sagrar campeão da copa diante do Boca Juniors.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Em meio aos heterodoxos

Economistas heterodoxos das mais variadas estirpes reuniram-se na FEA-USP para o Encontro Nacional de Economia Política. Estavam todos lá: Bresser, Belluzzo, Lessa, Cardim, Theotônio dos Santos, Leda Paulani, entre outros.

O encontro da SEP é sempre uma grande salada de frutas. Alguns falam disparates, na minha opinião, outros tentam ser mais "pé no chão". Surpreendi-me positivamente com alguns posicionamentos que, claramente, enfrentavam as interpretações mais radicais e menos úteis na minha opinião.

Alguns podem perguntar o que estive fazendo por lá. De fato, as palestras pareciam pouco promissoras, assim como a maioria das seções. No entanto, valeu a pena ouvir o Bresser falar ou a seção sobre metodologia da ciência - pelo menos pra pensar se algumas das coisas que foram faladas fazia sentido. Ao mesmo tempo, ouvi alguns absurdos, o que faz parte também. De qualquer forma, embora discordando fortemente, temos que respeitar a opinião alheia. Uma questão de tentar ser democrático e tolerante. O encontro da SEP é um bom lugar pra isso.

Bom, além disso, os coffee breaks estavam excelentes.

O próximo encontro na USP vai ser o EcoMod em julho: trata-se do encontro de economistas envolvidos com modelagem computacional (por exemplo, equilíbrio geral computável). Vou tentar comparecer em algum esquema deles.

sábado, 2 de junho de 2007

Seminário ecumênico

Hoje participei de um seminário ecumênico aqui em São Paulo, patrocinado pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) e organizado por mulheres envolvidas com ecumenismo. OK, admito que erea um seminário de mulheres jovens, mas o convite foi estendido a homens, tanto que eu não era o único homem por lá.

O tema foi meio-ambiente e a primeira palestrante, pastora da Igreja Metodista, conectou ecologia, economia e ecumenismo: curiosamente, todas tem a palavra grega oikos como raíz. De fato, as relações entre essas três dimensões são interconectadas. Obviamente, a influência da teologia da libertação nos segmentos fez-se presente na palestra e ouvi termos como "imperialismo", "opressão", entre outros. Além disso, ouvimos a palavra de uma irmã que trabalha com encarcerados, um trabalho muito importante.

Levantei a questão da relação entre desenvolvimento econômico e ecologia, no qual a última em excesso poderia atrapalhar a busca do primeiro. A irmã da pastoral carcerária discordou de mim, afirmando que a mídia passava uma ideologia de que ecologia e desenvolvimento são irreconciliáveis. Concordei com ela que havia meios de se desenvolver sustentavelmente sem grandes custos, mas resolvi não discutir mais sobre a questão de mídia e ideologia. Na verdade, acho que a mídia faz propaganda pró-ecologia hoje, mas enfim...

Acredito, no entanto, que a parte mais importante foi a comunhão e o respeito mútuo durante o encontro. Embora representando diferentes confissões e diferentes formas de entendimento teológico, vi pessoas sinceras tentando chegar a soluções aos problemas. As pessoas novas que conheci foram bastante acolhedoras, mantendo meu otimismo quanto ao movimento ecumênico, apesar de todas as dificuldades inerentes a um trabalho que busca unidade entre tradições cristãs tão diferentes.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Resposta ao Rabiscos: capital humano e educação

Stein e Berman têm escrito tem bons posts acerca do tema. Reconheço que sou culpado pelos desvios do assunto e, portanto, devo uma resposta ao Stein e à questão levantada por ele sobre capital humano. Meus últimos comentários tinham claramente intenções provocativas e espero não tê-los deixado exasperados.

No excelente post do Stein, ele afirma que capital humano e educação não são a mesma coisa. Concordo plenamente com ele. De fato, o conceito de capital humano é muito mais amplo do que as proxies usadas nas regressões e do que simplesmente "educação". Assim como Stein, acredito que educação deve ser defendida por ter importância instrínseca, assim como saúde, por exemplo.

No entanto, tentei utilizar o caráter instrumental da educação na argumentação. Embora Stein tenha refutado minha sugestão, o próprio texto indicado por Stein afirma que, na opinião de Xavier Sala-i-Martin, educação a nivel básico parece mostrar evidências significativas na relação com o crescimento de longo prazo. Novamente, o exemplo Brasil e Coréia ilustra a questão: é só observarmos a diferença entre um sistema ineficiente e caro de ensino superior público brasileiro e um sistema de ensino público básico de qualidade aos moldes coreanos. Evidentemente, outros fatores são relevantes para explicar o desempenho desses países: natureza das políticas do governo, desigualdade inicial, instituições e utilização do comércio internacional.

Entendo, como o Stein, que o mercado é importante para que a educação cumpra seu papel na economia. Por isso, defendo que empresas e centros de pesquisa acadêmicos aproximem-se, o que é visto com maus olhos em nosso estranho país. O exemplo da Argentina e do Uruguai mostram que educação não basta ao crescimento, pois eles têm economias muito mais frágeis que a brasileira. A educação tem que levar em conta o mercado, embora isso não signifique que conhecimentos não economicamente lucrativos tenham que ser ignorados. Se assim fosse, nos EUA não se estudaria antropologia. E, assim, argumento que educação não é mera proxy da riqueza. Se assim fosse, os níveis de educação brasileiros seriam maiores que de muitos outros países com povo amplamente educado e renda mais baixa que a nossa (vide de novo nossos vizinhos latino-americanos). Proxy é um termo usado na econometria que deve ser usado com cuidado. Não é possível estimar a riqueza de um país através de algum índice educacional, seria uma péssima proxy.

Reafirmando o que disse anteriormente, não trato educação como panacéia, como muitos parecem fazer. Entretanto, defendo a educação disseminada, em primeiro lugar, por ser um fim desejável em si mesmo - é uma expansão de liberdades substantivas do indíviduo pois permite equalização de oportunidades econômicas e a possibilidade de participação mais plena na sociedade. Mas além disso, educação tem um papel instrumental importante para crescimento. Para tanto, é evidente que a educação básica é a que melhor cumpre o papel, como mostram as evidências econométricas e a disseminação da educação pública básica nos países desenvolvidos.

Gostaria de agradecer pela aula de Böhm-Bawerk dada pelo Guilherme.