Pular para o conteúdo principal

Educação e Voz Política - parte II

No post anterior, eu não estava defendendo que a solução seja estatizar o ensino - compreendo os leitores que assim interpretaram meu último post, mas deixem-me esclarecer meu ponto. 

Acredito que a hipótese de Hirschman ajude mais para explicar o que aconteceu com a educação no país do que para encontrar soluções. A partir do momento em que houve a expansão do ensino público e a concomitante deterioração da qualidade, quem tinha condições saiu da escola pública. No entanto, não foi assim que ocorreu na Europa - onde o sistema é majoritariamente público e o ensino é de boa qualidade. Por que aqui a expansão do ensino ocorreu às custas da qualidade? A questão novamente parece ser poder político, elites e instituições - bem na linha Acemoglu, Johnson e Robinson (sobre questões relacionadas a isso, ver essa interessante entrevista com o Acemoglu).

Um bom debate é o projeto de unificação curricular do MEC, noticiado aqui. O pessoal do Instituto Liberal obviamente reagiu rapidamente. Agradeço ao colega Liderau por me repassar o debate. Estamos com um problema de trade-off entre eficiência e equidade?

Comentários

Leandro Damasio disse…
É meus amigos economistas...

A propósito, achei altos post aquele dos sentimentos morais. Abs
Humberto disse…
Educação é um edificio que vai se construindo de baixo para cima;
Nos melhores sistemas educacionais, é mais alta a participação de professores com especialização;
Já no BR há um problema de absorção de alunos egressos do ensino médio. Na comparação com outros países, poucos ainda acessam o ensino superior;

No BR a expansão do ensino público ocorreu paralelo ao exôdo rural e migrações regionais; A formação de grandes metropóles regionais desequilibrou os serviços educacionais p/ periferias. Alí o orçamento da educação compete com o orçamento da saúde, do transporte, o orçamento do esgoto, etc. Gastos com muito mais apelo eleitoral do que escolas

Não deixa de ser um problema urbanístico tmb a questão escolar. Numa casinha apertada em favela, as crianças não tem onde estudar, eu vi isso nos meus tempos de projeto alavanca

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero. O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente. O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero ...

Cotas e incentivos

Os resultados do vestibular da UFRGS tem novamente gerado discussões a respeito da política de cotas. A adoção de um sistema de cotas pela UFRGS, no qual 30% das vagas foram reservadas para candidatos egressos de escolas públicas, sendo que metade dessas para negros auto-declarados, desde que atingissem certo patamar mínimo, gera enorme polêmica principalmente agora. Muitos candidatos, que seriam aprovados caso não existisse essa política, sentem-se injustiçados e pretendem entrar com um processo contra a universidade. As denúncias poderiam se basear no princípio constitucional da isonomia. Sem querer discutir a justiça ou não de tal sistema, uma análise dos incentivos de um sistema de cotas no médio prazo pode ser interessante para entender que possíveis reações ela pode provocar. Uma das possibilidades seria uma alteração na demanda das famílias por escolas particulares: passa a valer menos a pena pagar uma escola cara para o filho, uma vez que há reservas de cotas para alunos de esc...

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas. Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre). Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55) ...