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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Tiranias (2): Coréia do Norte

Não poderia deixar de falar de meus queridos parentes. Sob a ditadura de Kim Il-Sung e agora de seu filho Kim Jong-Il, a Coréia do Norte continua um dos países mais fechados do mundo. O líder atual coleciona cavalos e possui uma piscina com ondas artificiais em sua residência. Em contraste a isso, acredito que muitos parentes meus ainda estejam lá, caso não tenham sido mortos pela repressão política ou por uma das crises de desabastecimento.

Muitas famílias, como a minha, continuam separadas desde a época da guerra da Coréia (1950-1953), que foi um dos primeiros episódios trágicos da Guerra Fria. Essa guerra foi responsável pela demarcação do paralelo 38 como fronteira entre os dois novos países criados: a capitalista Coréia do Sul, de influência norte-americana, e a comunista Coréia do Norte, com apoio da União Soviética e da China. Enquanto a Coréia do Sul tem empresas como Samsung, LG e Hyundai, a Coréia do Norte produz ogivas nucleares.

Um bom começo para dar risadas sobre a Coréia do Norte (ou melhor, República Democrática e Popular da Coréia) é visitar seu site oficial. Depois, vocês cliquem no link abaixo, onde terão informações sérias a respeito da ditadura:

Aid agencies have estimated that up to two million people have died since the mid-1990s because of acute food shortages caused by natural disasters and economic mismanagement. The country relies on foreign aid to feed millions of its people.

The totalitarian state also stands accused of systematic human rights abuses. Reports of torture, public executions, slave labour, and forced abortions and infanticides in prison camps have emerged. A US-based rights group has estimated that there are up to 200,000 political prisoners in North Korea.

[...]

But official North Korean accounts say he was born in a log cabin at his father's guerrilla base on the country's highest mountain - an event marked by a double rainbow and a new star in the sky.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Tiranias (1): Myanmar

Pesquisando acerca de tiranias ao redor do mundo, exporei aqui alguns ilustres desconhecidos. Neste ponto, tanto libertários (que andaram freqüentando bastantes este blog) quanto democratas como eu, concordam. Poucos sabem que Myanmar, também chamado de Burma, é um país do sudeste asiático governado por uma junta militar.

Para ver a extensão da opressão, visitar o site da BBC pode ser uma solução:

Burma, also known as Myanmar, is ruled by a military junta which suppresses almost all dissent and wields absolute power in the face of international condemnation and sanctions.

The generals and the army stand accused of gross human rights abuses, including the forcible relocation of civilians and the widespread use of forced labour, which includes children.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Bibliografia sobre cotas

Com o meu último post sobre cotas, recebi de minha amiga Daniela Tochetto, mestranda da UFRGS, um paper sobre ações afirmativas. Com surpresa, notei através do site JSTOR (onde podemos encontrar muitos artigos de revistas importantes, desde que a universidade que fazemos parte disponha da assinatura desse site), que a bibliografia sobre o assunto é imensa.

Vejam o resumo desse artigo que trata de ações afirmativas usando teoria dos jogos:

Does Affirmative Action Reduce Effort Incentives? A Contest Game Analysis

Jörg Franke

In this paper a contest game with heterogeneous players is analyzed in which heterogeneity could be the consequence of past discrimination. Based on the normative perception of the heterogeneity there are two policy options to tackle this heterogeneity: either it is ignored and the contestants are treated equally, or affirmative action is implemented which compensates discriminated players. The consequences of these two policy options are analyzed for a simple two-person contest game and it is shown that the frequently criticized trade-off between affirmative action and total effort does not exist: Instead, affirmative action fosters effort incentives. A generalization to the n-person case and to a case with a partially informed contest designer yields the same result if the participation level is similar under each policy.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Cotas e incentivos

Os resultados do vestibular da UFRGS tem novamente gerado discussões a respeito da política de cotas. A adoção de um sistema de cotas pela UFRGS, no qual 30% das vagas foram reservadas para candidatos egressos de escolas públicas, sendo que metade dessas para negros auto-declarados, desde que atingissem certo patamar mínimo, gera enorme polêmica principalmente agora. Muitos candidatos, que seriam aprovados caso não existisse essa política, sentem-se injustiçados e pretendem entrar com um processo contra a universidade. As denúncias poderiam se basear no princípio constitucional da isonomia.

Sem querer discutir a justiça ou não de tal sistema, uma análise dos incentivos de um sistema de cotas no médio prazo pode ser interessante para entender que possíveis reações ela pode provocar. Uma das possibilidades seria uma alteração na demanda das famílias por escolas particulares: passa a valer menos a pena pagar uma escola cara para o filho, uma vez que há reservas de cotas para alunos de escolas públicas. A volta de alguns alunos da classe média para a escola pública pode inclusive melhorar o ensino através do protesto dos pais, uma vez que pais de classe média detêm muito mais poder de pressão que pais pobres. Tal resultado não é certo no entanto, porquanto os pais que mudam os filhos de escola podem ser justamente os que se interessam menos por educação e, portanto, teriam pouca motivação para protestar - uma espécie de seleção adversa na teoria microeconômica. Tudo isso depende de como eles avaliam a desvantagem causada pela política de cotas. Se eles acharem muito prejudicial, mais numerosos e motivados pais optarão pela escola pública, podendo provocar alguma mudança positiva - maior cobrança da classe média pode resultar em ações mais efetivas do governo (ver Hirschman em "Exit, Voice and Loyalty", de 1980).

O ponto é: a classe média estará interessada em melhora do ensino com a existência de cotas? Que fatores levam os pais a aprovar ou não um sistema de ensino - os resultados práticos em termos de vestibular ou o ensino e o ambiente do colégio em si? Ou melhor, em que ponto entre esses dois extremos os pais se colocam em geral?

Atualmente, sou contra as cotas, principalmente as raciais. A distorção no sistema é muito grande, o custo político de manter e de acabar com tal política no longo prazo é alto, sem contar que serve para não solucionar o verdadeiro problema: a qualidade da escola pública. A única possibilidade seria alguma melhora devido a uma maior demanda dos pais de classe média, mas tendo a acreditar que a seleção adversa seria forte e que os resultados em termos de vestibular importam mais do que a qualidade do ensino em si - logo, cotas apenas desviam a atenção do problema principal, a falta de qualidade do ensino público, o qual poderia prover maior igualdade de oportunidades. Aparentemente, no Brasil, sempre tenta-se solucionar o problema não tratando do problema: cria-se um outro pra ver se resolve o anterior.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Final dos trabalhos na USP

Minha relativa ausência em janeiro deve-se aos inúmeros trabalhos que fui obrigado a fazer para as disciplinas do segundo semestre do mestrado em Economia da USP. Embora as aulas tenham terminado em dezembro, é evidente que os professores não nos deixariam livres.

Das três disciplinas em que me matriculei, três tinham como avaliação, pelo menos parcial, um trabalho a ser feito no mês de janeiro. Na disciplina "Teorias Contemporâneas de Justiça", do Departamento de Ciência Política, entreguei um trabalho intitulado "Justiça e Desenvolvimento no Pensamento de Amartya Sen". Na cadeira de "Economia Institucional", resumi e tentei juntar algumas teorias sobre instituições, distribuição de poder político e educação. Em "Econometria II - Séries de Tempo", estamos eu e um colega tentando entender o que acontece com as exportações de café hoje em dia utilizando principalmente vetores autoregressivos (VAR): esse último trabalho deve ficar pronto hoje ou amanhã.

Essas disciplinas são todas optativas (embora todos os alunos da minha turma por acaso cursem Econometria II), mas existem várias outras opções para o segundo semestre. Alguns alunos estarão até dia 31 se dedicando a um trabalho de Macroeconomia Keynesiana. Outros estiveram ocupados com listas de exercicios de Macroeconomia II. Enfim, para aqueles que precisam saber mais sobre o mestrado da USP, respondo as dúvidas que forem necessárias.

Em breve, volto aos debates que movimentaram esse blog recentemente.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Ética e realidade: Dietrich Bonhoeffer

O Joel andou escrevendo acerca de prudência, em continuação aos debates travados acerca do absolutismo dos direitos naturais mesmo em situações de conflitos inclusive neste blog. Embora o debate seja secular, vou citar um trecho do livro "Ética" do teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, morto em um campo de concentração nazista por ter feito parte de uma conspiração contra a vida de Hitler, que durante seu tempo de cadeia, escreveu inúmeras obras, poemas e cartas testemunhando sua fé cristã. Bonhoeffer critica, de maneira muito mais radical, uma ética a priori:

A decisão entre o bem e o mal claramente reconhecidos exime o próprio raciocínio humano de decisão, transfere a questão da ética para a luta entre a inteligência já orientada no bem e a vontade ainda renitente, não atinando com aquela decisão legítima em que o ser humano todo, com inteligência e vontade, só pode procurar e achar o bem na ambigüidade duma situação histórica através do risco da própria ação. Nesta abstração da vida, a questão ética está reduzida a uma estática fórmula básica que arranca o ser humano da historicidade de sua existência, colocando-o no vácuo da mera privacidade e do idealismo puro. A tarefa ética aqui é vista como consistindo na imposição de certos princípios, independentemente de sua relação com a vida. Isso conduz a uma completa privatização da vida, na qual o bem se restringe à própria fidelidade aos princípios, sem qualquer consideração para com o semelhante [...]. (p. 121)

E para os que gostam de teologia mesmo:


Enquanto toda ação ideológica sempre já traz consigo sua justificação no bojo do respectivo princípio, a ação responsável renuncia ao conhecimento de sua derradeira justiça. A ação que acontece sob ponderação responsável de todas as circunstâncias pessoais e objetivas, bem como com vistas ao fato de que Deus se tornou ser humano e de que foi Deus que se tornou ser humano, é entregue unicamente a Deus no momento da realização. O desconhecimento último do próprio bem e mal, e com isso a dependência da graça, é parte constitutiva da ação responsável na história. Quem age com base numa ideologia vê sua justificação na idéia que defende; a pessoa responsável coloca sua ação nas mãos de Deus e vive de sua graça e bondade. (p. 130).



Quem quiser ler mais, a referência é Bonhoeffer, D. (2005). Ética. 7 ed. São Leopoldo: Ed. Sinodal.

sábado, 12 de janeiro de 2008

IPCA 2007: 4,46%

A inflação medida pelo IPCA de 2007 quase atingiu a meta de 4,5%, chegamos a 4,46%. Por um lado, é bom que a política monetária esteja acertando. Por outro lado, decompondo esse índice, percebemos que a maior alta foi do preço de alimentos, mais em conta do choque de oferta devido à falta de chuvas e às condições do mercado internacional. Leite e carne foram os vilões, o que é preocupante, pois significa que a inflação para a camada mais pobre foi certamente maior. Se os alimentos puxam a inflação, temos um imposto inflacionário claramente regressivo. É só observarmos que o INPC, índice que pesquisa famílias com rendimentos de até 6 salário mínimos, subiu 5,16%. O IPCA pesquisa famílias com rendimentos de até 40 salários mínimos.

Se atingimos a meta, a trajetória atual dos juros deve ser mantida? Não é o que pensam alguns economistas. Estou sem acesso aos jornais de São Paulo, mas por aqui o Prof. Dr. Marcelo Portugal da UFRGS acha que os juros devem subir, uma vez que as expectativas de inflação para daqui a 12 meses parecem ser problemáticas (segundo ele em artigo publicado na Zero Hora de hoje). Ou seja, para ele a política monetária tem que ser forward-looking. Outros economistas devem espernear só de pensar nessa possibilidade, pois para eles uma inflação de 4,5%, mesmo com as expectativas do ano que vem (confesso que não tenho dados das expectativas), não é nenhum problema para a economia. Dessa vez, no entanto, não foram os preços administrados que puxaram a inflação. Antigamente, os pós-keynesianos culpavam a política de juros altos do governo pela estagnação. Segundo eles, como eram os preços administrados que sempre subiam, de nada adiantava combater a inflação com a taxa de juros, que tem efeitos sobre a demanda agregada - principalmente sobre o investimento, variável fundamental para eles. E agora, que será que dirão eles?

O debate vai longe e tenho passado longe de estudos sobre inflação e política monetária. Talvez meus colegas que fizeram macro II ou macro keynesiana possam comentar mais a respeito e enriquecer os debates, além dos velhos conhecidos e colegas da UFRGS e de outros lugares que costumam dar pitacos neste blog.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

De onde vem a nossa desigualdade educacional - parte II

A disparidade dos resultados educacionais nas Américas foi extremamente significativa no século XIX. Em 1870, por exemplo, cerca de 80% de pessoas acima de dez anos nos Estados Unidos e no Canadá eram alfabetizadas, o que correspondia ao triplo dos resultados dos países progressistas na América Latina e quatro vezes mais que Brasil e México (p. 171). Mariscal & Sokoloff analisaram também detalhadamente as políticas de expansão da escolaridade em alguns países latino-americanos de colonização espanhola. Entre as conclusões obtidas, podemos destacar as seguintes:

a) na Argentina, onde a taxa de alfabetização elevou-se de 22,1% em 1869 para 65% em 1914, destaca-se o papel positivo da imigração, uma vez que, além da oferta de serviços educacionais estar entre as políticas de atração, os imigrantes já tinham nível de instrução maior. Como conseqüência, o sistema escolar concentrou-se nas regiões mais prósperas como Buenos Aires e regiões que receberam imigrantes (p. 178). Contrariamente ao caso norte-americano, a expansão escolar argentina teve pouca relação com um movimento geral de democratização, dado que reformas eleitorais não precederam essas políticas (p. 183).

b) No Chile também se destacou o papel da imigração. Entre 1885 e 1910, a proporção de alfabetizados cresceu de 28,9% para mais de 50%. Assim como na Argentina, a população alfabetizada concentrou-se nos grandes centros. Embora as escolas privadas fossem maioria, o governo chileno adotava um ativo programa de subsídios à educação. Além disso, as exigências da legislação chilena para que um indivíduo pudesse votar eram bem mais brandas, o que sugere uma distribuição de poder político mais igualitária no país (p.185-186).

c) A Costa Rica também possuía uma estrutura social mais igualitária, talvez em parte por ter uma região montanhosa e poucos minerais a explorar – ou seja, devido a sua dotação inicial de fatores, levando o país a criar instituições mais igualitárias[1]. Na década de 1880, os gastos com educação aumentaram substancialmente na Costa Rica, pois a educação era vista como a base para uma democracia. Durante a crise econômica de 1881, subsídios federais ao ensino secundário e superior foram suspensos, mas tais cortes de gastos não afetaram o ensino primário (p. 186-188).

d) O caso mexicano pode ser caracterizado por desordem política (North, Summerhill e Weingast, 2000) após a independência, o que prejudicou seriamente a adoção de políticas voltadas à educação básica. Somente a partir do século XX é que o México conseguiu centralizar a política educacional. A centralização poderia ter sido benéfica para as províncias mexicanas mais heterogêneas e desiguais, cujos problemas de ação coletiva eram certamente maiores. No entanto, o governo federal não tinha autoridade suficiente em muitas províncias. Nas províncias ao norte, cujas populações eram relativamente mais homogêneas e igualitárias, a centralização federal impediu a continuidade de boas políticas que vinham sendo implementadas até então em relação à educação.



E o Brasil? Vou ver se lido com essa questão na minha dissertação.





[1] Pode-se argumentar que Coréia do Norte e Nepal, por exemplo, são países de região montanhosa e, no entanto, não apresentam instituições igualitárias. Estes países, no entanto, não foram colonizados com vistas à exploração econômica. Não estamos defendendo aqui que a geografia tem papel preponderante, mas que, estritamente no caso dos países latino-americanos, os quais foram colonizados pelos europeus, o relevo da região pode ter tido papel significativo na determinação das instituições, estas sim, fundamentais para explicar a desigualdade.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Faço previsões

Em clima de Ano Novo, só queria avisar aos leitores que a partir de hoje, estou apto a fazer previsões. Nada do tipo "Mãe Dinah", mas o último exercício de Econometria II - Séries de Tempo a ser entregue dia 10 de janeiro nos obriga a fazer previsões com modelos Box-Jenkins e estrutural.

Eu e um colega usamos dados acerca do preço do bezerro (os guris de apartamento certamente começaram a rir agora) e conseguimos previsões satisfatórias de curto prazo com ambos os modelos. Já em previsões dinâmicas, o modelo estrutural foi bem superior ao BJ.

Ou seja, mestrandos em Economia da USP aprendem a prever em suas férias. Caso alguém precise de uma previsão, estamos aí.

domingo, 6 de janeiro de 2008

De onde vem a nossa desigualdade educacional - parte I

Relacionada aos assuntos debatidos exaustivamente na história econômica institucional, desigualdade, dotação iniciais de fatores e sufrágio nas antigas colônias, está a questão da escolaridade. A análise dos dados acerca dos níveis de escolaridade e alfabetização mostra claramente a desvantagem dos países latino-americanos em relação a seus vizinhos do norte e aos outros países desenvolvidos. Existem estudos acerca das origens dessa desigualdade educacional

Algumas hipóteses acerca das origens histórico-institucionais das desigualdades educacionais foram apresentadas por Mariscal & Sokoloff (2000). Diferentemente dos Estados Unidos, onde na primeira metade do século 19 o common school movement levou à elevação dos níveis de alfabetização por meio da expansão maciça da oferta de escolas públicas, os países latino-americanos, embora tivessem condições econômicas para arcar com investimentos desse tipo, não promoveram uma expansão similar da educação básica, segundo os autores, devido a problemas de ação coletiva derivados da alta desigualdade de riqueza, capital humano e poder político (p. 163). Não seria acidental o fato de que o common school movement nos Estados Unidos ocorreu logo após grande extensão do direito de voto (p. 167). Como argumentam Mariscal & Sokoloff:

“Uma vez que acabar com as restrições de propriedade para a obtenção de cidadania aumentou a voz política dos grupos que mais se beneficiariam com o estabelecimento de escolas gratuitas financiadas por meio de impostos, não é surpreendente que a conquista de maior igualdade na influência política levou às mudanças institucionais que contribuíram para uma maior igualdade na distribuição de capital humano” (2000, p. 167-168)

Em muitos países, o voto era permitido apenas para alfabetizados, o que poderia levar-nos a supor causalidade inversa. Entretanto, as experiências históricas parecem mostrar que países com baixos índices de alfabetização foram propensos a manter a exclusão dos analfabetos do processo eleitoral, enquanto que países cujas restrições foram suspensas em geral expandiram a oferta de escolas públicas e, por conseguinte, aumentaram os níveis de alfabetização (p. 204).

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

O debate liberal-igualitário - parte II

O foco nos fins ao invés dos meios na definição do equalisandum gerou estranheza para John Rawls, que argumentou da seguinte maneira:
[...] an index of primary goods is not intended as an approximation to what is ultimately important as specified by any particular comprehensive doctrine with its account of moral values. (Rawls, 1988, p. 259).
A idéia de Rawls, ao focar nos bens primários, era reafirmar que a sua concepção de justiça era política e que, portanto, não poderia definir o que é o certo (ou o bem). Equalizar bens primários, para que a partir daí os indivíduos buscassem seus próprios objetivos, foi a solução encontrada como alternativa a dominante métrica utilitarista, ainda hoje infuente na teoria econômica do bem-estar.

Sen respondeu em paper na Philosophy and Public Affairs (1990, versão levemente modificada em Sen 1993) afirmando que Rawls tinha interpretado erroneamente a crítica dele. Para Sen, Rawls não levara em conta a diferença fundamental entre capability e functionings. Lembrando novamente, functionings são as realizações (por exemplo, estar bem nutrido, estar livre de doenças, etc.), enquanto que capabilities são os conjuntos de vetores de functionings, que refletem a liberdade de uma pessoa para escolher entre diferentes tipos de vida (constituídos pelas functionings). Sen defende a igualdade nas capabilities. Em resposta a Rawls, ele escreve (1993, p. 83):
[...] it is important to distinguish between freedom (reflected by capability) and achievement (reflected by actual functionings), and the evaluation of capability need not be based on one particular comprehensive doctrine that orders the achievements and the life-styles.
A concepção de Sen não deixa de ser uma forma de se igualar oportunidades, mas ao invés de focar em recursos (Dworkin) ou bens primários (Rawls), ele tenta fugir daquilo que chamou de "fetichismo da mercadoria" - obviamente sem a mesma acepção dada por Marx. A liberdade para alcançar os objetivos de vida é mantida, focando nos objetivos. Não se equalizam os fins, se equalizam o conjunto de fins possíveis - para evitar possíveis mal-entendidos.