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domingo, 8 de abril de 2007

A busca pelo ótimo de Pareto

Depois de um jogo entre São Paulo e Palmeiras, nada melhor do que uma conversa sobre Economia. Com uma caminhada de 45 minutos pela frente, eu e meu colega Richard, um especialista em Escola Austríaca e torcedor do porco, discutimos inúmeros assuntos, inclusive o famoso ótimo de Pareto.

O ótimo de Pareto (Vilfredo Pareto foi economista e sociólogo italiano da Escola de Lausanne) é um conceito fundamental na ciência econômica. Em muitas análises, busca-se chegar nesse ótimo, o que acontece quando melhorias de Pareto não são mais possíveis. Uma melhoria de Pareto é a melhora na situação de um sem piorar a dos outros. Quando se exaurem todas as melhorias paretianas, estamos no ótimo: só é possível melhorar a situação de alguém piorando a de outrem.

A pergunta é: embora o ótimo de Pareto esteja em muitas análises na Economia do Bem-Estar, não é esse ótimo um juízo de valor arbitrário?

Evidentemente, a resposta é sim. No entanto, sabemos que poucas pessoas achariam (em princípio) ruim melhorar a situação de um sem piorar a dos outros. Afinal, quem seria contra algo que não prejudica ninguém?

O problema é que a otimalidade de Pareto passa a ser uma grande defensora do status quo na sociedade. Imaginemos uma sociedade em que a distribuição de renda apresente absurda disparidade (ex: Brasil). Aqui estou colocando outro juízo de valor: o de que a distribuição precisa ser mais equânime. Adotando o critério valorativo de Pareto, dificilmente poder-se-ia fazer algo para mudar a situação a qual me referi.

Ora, não há motivo para que a teoria econômica adote o Pareto-ótimo como critério se ele tem conteúdo claramente valorativo. Ao invés disso, posso então utilizar outros critérios quaisquer que não sejam tão indiferentes em relação a distribuição. Ou então, abandonemos todos eles. Melhor do que utilizar apenas o Pareto como se esse fosse "científico" e isento de valor.

6 comentários:

Ricardo Agostini Martini disse...

Muito bom texto!

Qual bibliografia tu anda seguindo nessa área de ética e economia (além do Sen, é claro!)

Abraço

Henrique Brusius Renck disse...

Ave, Kang!

Respondendo ao Ricardo, eu chutaria a Bíblia como bibliografia básica. Dado que é impossível fazer Ciência sem juízo de valor (mesmo escolher não assumir nenhum juízo já é fazê-lo - o que significa que a Ciência não é neutra, mas pode e deve ser imparcial), este livro é uma boa referência.

No mesmo assunto no qual discorre o amigo Kang, relato aqui que empreendi esta semana pequena discussão com o prof. Sabino Porto Júnior em aula da cadeira de Teoria dos Jogos do programa de pós-graduação da UFRGS. Baseando-se em Richard Dawkins e seu livro "O Gene Egoísta", ele sustenta que o comportamento esperado de qualquer ser humano é o "free-rider". Entretanto, fi-lo concordar que esta estratégia global pode levar a comportamento cooperativo nos "subjogos do dia-a-dia".

Falta agora conseguir provar que é impossível se programar o "jogo da vida" inteiro por imperfeição e incompletude de informações, e que a melhor estratégia então seria cooperar sempre para garantir uma posição melhor no futuro. Aliás, pensando agora está aí uma belo assunto para a dissertação: aplicar a estratégia maximin no "jogo da vida" e checar se o comportamento será oportunístico ou cooperativo.

Belo texto, Kang, e grande abraço.

Guilherme Stein disse...

Grande Thomas! Belo texto, e ainda vai direto ao ponto... vamos começar uma discussão então! Aguarde! heheeheh!

Reanulfo disse...

Olá amigo, com relação a sua opinião sobre o ótimo de Pareto ser um parâmetro valorativo, você acredita ser possível utiliza-o como mecanismo de balisamento de temas puramente ideológicas, uma vez que a filosofia traz a teoria Utilitarista que afirma que devemos adotar atitudes que tragam felicidade ao maior número de pessoas possíveis, como mecanismo para tomada de decisões éticas e morais?

Thomas H. Kang disse...

Sim, acredito ser possível. Eu não seria partidário de tal uso, mas ele é possível. Acho o ótimo de Pareto um critério em geral bastante insuficiente, assim como também não gosto do utilitarismo clássico. Mas possível seria, é claro (se entendi tua pergunta corretamente).

Reanulfo disse...

Acredito sim, que você tenha compreendido minha pergunta, sei que pelo aparente despropósito e vagueza da pergunta, possa lhe parecer estranho. Entretanto se possível for, e com maior detalhamento de minhas intenções, espero que fique mais claro sobre o que pretendo escrever. Me parece que você tem uma facilidade para debater este tipo de assunto e gostaria, portanto, de sua opinião. Sou Biólogo, especialista em Gestão e Gerenciamento Ambiental pelo Instituto PNUMA (ONU) e resolvi fazer Direito. Por óbvio, pretendo utilizar esta nova formação acadêmica para agregar valor em minha área de atuação. Estou em fase de conclusão de curso e no próximo semestre deverei defender meu TCC. Sendo assim, escolhi como tema a aplicação do postulado da proporcionalidade no direito ambiental, abordando casos reais para confrontar qual caminho é o mais adequado, frente aos princípios e valores constitucionalmente defendidos, e que deveria ser adotado na prática de licenciamento e autorização de funcionamento de empreendimentos e obras que causam grande impacto ambiental. Até o momento, quando se aborda este tema, a análise feita obedece a ordem de valores estabelecidos pela Constituição, mas em face de um entendimento doutrinário que pouco se debruça sobre o tema, e, em muitas das vezes o interesse privado, aliado ao poder político, por de trás da "cortina", se sobressai na decisão final, uma vez que pouco se tem de parâmetros criteriosos para abordar uma fundamentação criteriosa. Tenho procurado outros parâmetros de análise em diversas áreas do conhecimento humano, sendo que no ramo da economia me deparei com algumas ideias de Vilfredo Pareto, dentre elas, o ótimo de pareto. Na filosofia, o utilitarismo clásssico, entre outras, na biologia (Direito Ambiental) o princípio da sustentabilidade/ desenvolvimento sustentável confrontado ao art. 170 C.F. e seus incisos, entre outros. Pois não há como tratar o tema apenas como um valor de 3ª geração, como defendeu Norberto Bobbio, no final do século passado, uma vez que de fato os danos ambientais também trazem reflexos a dignidade humana e ao meio social, reflexos estes que são concretos e muito mais danosos do que aparentemente um leigo acredita ser. Bom, estou me alongando e não quero me tornar chato, até pelo fato de ser esta apenas a ponta do iceberg, mas se possível for, gostaria de ter sua opinão. Sua critica seria muito bem vinda, bem como sugestões. Agradeço desde já...