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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Comentários: políticas sociais e quotas

1. Políticas sociais I. Acho que devemos dar uma olhada no blog do Mansueto hoje. Obrigado ao Thales por me passar a dica.


2. Políticas sociais II. Hoje na FEE, tivemos uma palestra com o Márcio Pochmann, Presidente do IPEA. Ele apresentou dados de um estudo sobre a situação social do Rio Grande do Sul, comentando o período 2001-2009. O estudo é bastante descritivo, mas vale a pena dar uma olhada para uma visão geral da situação. Alguns dos pesquisadores da casa chamaram atenção para questões importantes. A falta de dados em relação à gênero, a falta de maiores dados relacionados à saneamento (os únicos dados em relação à saneamento diziam respeito à água), alguns estranhos dados amostrais da PNAD com taxas de analfabetismo subindo significativamente de um ano para o outro, etc. É esperado que, em um estudo tão descritivo, surjam mais perguntas do que respostas. 


3. Ação afirmativa. Recentemente uma polêmica veio à tona com o vestibular da UFRGS. O relaxamento de alguns requerimento para aprovação por quotas permitiu que candidatos com pontuação muito baixa, inclusive em relação a anos anteriores, entrassem em cursos disputados como Medicina. No Facebook, vários compartilharam uma figura com a pontuação mínima dos quotistas com os dizeres "a meritocracia no lixo". Embora a discussão sobre quotas seja interminável, acho que é necessário discutirmos meritocracia antes de mais nada. Acredito que, se alguém é contrário às quotas, apelar a uma suposta "justiça meritocrática" seja a pior maneira de combater ações afirmativas. Recorrendo a quem seja talvez o maior filósofo político do século XX, John Rawls, parte do diferencial de pontuação no vestibular entre estudantes de famílias abastadas e estudantes negros de escolas públicas não se devem a mérito. A "loteria da vida", ao definir em que família uma pessoa nasce e com que recursos, dá maiores vantagens a alguns de forma arbitrária e não meritocrática. 

Com isso, não quero dizer que não houve suficiente esforço de estudantes que fizeram 750 pontos e não passaram (enquanto outros com 500 e alguma coisa passaram). É totalmente compreensível o sentimento de injustiça, até porque é impossível saber se as quotas nivelam o campo de jogo adequadamente para definirmos quem mereceu passsar ou não. O que estou dizendo é que não devemos julgar as quotas com princípios meritocráticos. A análise precisa ser mais consequencialista e ver se (1) as quotas não são paliativos desnecessários de curto prazo, (2) que vantagens as quotas proporcionam à sociedade (formação de uma elite negra, aumento de mobilidade social, incentivos), (3) que politicas de longo prazo, principalmente no que se refere à saúde e educação pública, estão sendo feitas (políticas de curto prazo podem desincentivar ações de longo prazo). 


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Clipping: doutorado na USP e blog do Comim

Em primeira mão, repasso que em breve estarão abertas as inscrições para o Doutorado em Economia do Desenvolvimento da FEA/USP. Não precisa abrir a caixa de preconceitos antes: melhor olhar do que se trata. Pela estrutura, é o curso de doutorado hoje que mais me interessaria no país (claro, devido ao meu perfil). Infelizmente, São Paulo não é tão perto assim e geografia conta na decisão. 

Eu também pretendia comentar a reportagem da Folha desse domingo sobre classe média e educação - que nem entendi direito, tamanha a falta de critérios para definir o que é classe média. Mas o Comim fez toda a pesquisa por mim. E recomendo os últimos posts do blog dele, que tem sido excelentes, como este sobre o BBB e o estupro (acredite, é bom o post apesar do assunto).

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Salário dos professores

Meu colega Guilherme Risco me enviou uma entrevista antiga (maio de 2011) com o economista Gustavo Ioschpe sobre a educação no Brasil, mas relevante no atual contexto. Embora possa concordar com Ioschpe em diversos pontos, fiquei decepcionado com suas ideias quanto ao aumento do salário dos professores - e, portanto, com a valorização da carreira docente na educação básica. 

O piso salarial do professor que trabalha 40 horas semanais está em R$ 1187. Embora não estejamos tratando de médias, estados como o Rio Grande do Sul não querem pagar o piso - em que pesem os problemas fiscais do Estado, por demais conhecidos. Mas correndo o risco de cair em uma "conversa de bar", conheço algumas pessoas que, embora se sentissem vocacionadas para o magistério, desistiram da carreira devido aos salários aviltantes. 

Ioschpe, rechaçando a importância do aumento salarial, afirmou que "o salário do professor não é uma variável estatisticamente significativa ou relevante na determinação do aprendizado dos alunos". É razoável acreditar que aumento salarial dos professores não resulte em melhoria do aprendizado no curto prazo. Ioschpe reconhece o argumento de longo prazo e afirma posteriormente que:
 "quando se fala em aumento dos professores, as pessoas veem esta questão por dois lados. Um é aumentar os salários dos professores que estão na ativa hoje para que eles se sintam mais motivados e tenham resultados melhores. E a segunda é aumentar significativamente o salário dos professores para que um novo grupo de pessoas seja atraído à carreira."
O primeiro argumento (curto prazo) é rechaçado pelos estudos de acordo com ele. Quanto ao segundo (longo prazo), Ioschpe vê o seguinte problema:
"[Isso é] dizer que 2 milhões de professores, hoje na ativa não prestam e que não há nada que se possa fazer com eles para que tenham um rendimento melhor. Eu rejeito este argumento. Acho que os professores brasileiros têm bastante vontade de acertar e em vários casos estão fazendo um belo trabalho. E a partir do momento que tenham uma formação correta, o resultado vai melhorar."
É evidente que preparar melhor os professores que já estão na ativa pode melhorar os resultados. Também é evidente que existem muitos professores na ativa que são excelentes profissionais. No entanto, não podemos deixar de reconhecer que, com uma política de aumento salarial no longo prazo, haverá atração de mais gente qualificada - negar isso é no mínimo estranho à lógica econômica. Situações como de conhecidos meus que largaram o magistério diminuiriam. Além disso, a carreira docente seria mais valorizada pela própria sociedade em todos os seus aspectos. Os resultados disso não seriam imediatos, mas não há soluções fáceis e de curto prazo para a educação. O aumento consistente de salários é apenas um aspecto entre tantos outros, como bem assinalou Ioschpe, mas é fundamental. Dizer isso não significa que os atuais professores não prestam. E dizer que eles prestam e negar aumento salarial não serve para aumentar a auto-estima do professor.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Clipping: Arida e Veloso

Talvez eu discorde de Pérsio Arida em um ou outro ponto, mas quem sou eu para discordar dele? Além de ser um dos pais do famoso Larida, base teórica do que veio a ser o Plano Real, Arida escreveu um dos textos mais interessantes que já li em língua portuguesa: "A História do Pensamento Econômico como Teoria e Retórica", datado de 1983(ele se encontra nesse livro homônimo, mas a versão datilografada está aqui). Acho esse um texto mais interessante que o da McCloskey sobre retórica. As contribuições de Arida, tanto no combate à inflação quanto em história do pensamento, é inegável. Aqui há uma interessante entrevista dele na Folha de São Paulo. Se o leitor é menos liberal, talvez não goste do posicionamento dele, mas repito que os escritos de Arida devem ser lidos. É sempre interessante.

O Liderau me repassou essa sobre educação: uma entrevista do Fernando Veloso no Estadão. Não costumo ler o colunista, mas me pareceu uma avaliação sem muito partidarismo. Foi uma crítica leve à atual condução da política educacional da educação básica.


ATUALIZAÇÃO: O Guilherme Tinôco me repassou novamente o link para um texto do Arida para o Piauí. Não é sobre economia, mas é sensacional. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Banerjee e o papel do governo

Banerjee fala sobre o papel do mercado e do Estado no combate à pobreza - e há espaço para ambos (grifos meus):

But in the end, the government must remain at the center of anti-poverty policy, because without some help and resources from the outside the poor face an utterly unfair challenge. It does not need to do all the things it currently does (badly) and it should certainly focus more on paying for things rather than making them: Income support and strategically targeted subsidies to key delivery agents (NGOs, Microfinance Institutions, private firms) can go a long way in making the lives of the poor better, without involving the government in delivery. But we should not forget that a very important part of what the government does are things that the market will not—behavior change, preventive healthcare, education for those who live in  areas where there are no private schools, emergency relief, etc. Even in these cases, the government can work with implementing partners outside the government, as the example of BRAC in Bangladesh has shown, but realistically, the government will continue to be a major delivery agent in the economy. The challenge for those of us who are in what someone might call the ideas sector, is therefore to think of ways  of redesigning what the government does to make it work better both in terms of choosing between what it does and what it delegates, and in improving its effectiveness in what it must do.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Clipping: pobreza e desigualdade

Aqueles que são ratos de internet ou acompanham postagens no Facebook já devem ter visto, mas aí vai um clipping de reportagens bem interessantes que encontramos ultimamente por aí:




sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Educação e Voz Política - parte II

No post anterior, eu não estava defendendo que a solução seja estatizar o ensino - compreendo os leitores que assim interpretaram meu último post, mas deixem-me esclarecer meu ponto. 

Acredito que a hipótese de Hirschman ajude mais para explicar o que aconteceu com a educação no país do que para encontrar soluções. A partir do momento em que houve a expansão do ensino público e a concomitante deterioração da qualidade, quem tinha condições saiu da escola pública. No entanto, não foi assim que ocorreu na Europa - onde o sistema é majoritariamente público e o ensino é de boa qualidade. Por que aqui a expansão do ensino ocorreu às custas da qualidade? A questão novamente parece ser poder político, elites e instituições - bem na linha Acemoglu, Johnson e Robinson (sobre questões relacionadas a isso, ver essa interessante entrevista com o Acemoglu).

Um bom debate é o projeto de unificação curricular do MEC, noticiado aqui. O pessoal do Instituto Liberal obviamente reagiu rapidamente. Agradeço ao colega Liderau por me repassar o debate. Estamos com um problema de trade-off entre eficiência e equidade?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Educação e Voz Política

Circula pelo Facebook uma figura divulgando um Projeto de Lei do Senado de autoria de Cristovam Buarque, a PLS 480/2007, cujo texto está aqui. De acordo com esse projeto, que obviamente não pode ser aprovado até por questões constitucionais, agentes públicos eleitos (por exemplo, vereadores, deputados, prefeitos, governadores, senadores e até o presidente) seriam obrigados a "matricular seus filhos e dependentes em escolas públicas de educação básica". Ainda segundo a justificativa da proposta, a elite política teria se protegido através do ensino particular, abandonando  o ensino público, que ficou destinado ao resto da população. Por fim, o texto diz que "se esta proposta tivesse sido adotada no momento da Proclamação da República [...], a realidade social brasileira hoje seria completamente diferente. Entretanto, a tradição de 118 anos de uma República que separa as massas e a elite, uma sem direitos e a outra com privilégios, não permite a implementação imediata dessa decisão".

O que chama a atenção desta proposta, evidentemente utópica e criada apenas para chamar atenção do público para a educação, como Cristovam Buarque sempre fez, é que podemos encontrar o que ele diz em Albert Hirschman - aquele mesmo, da velha Development Economics. Permitam-me daqui em diante citar minha dissertação de mestrado (Kang, 2010, p. 29-30). No parágrafo abaixo, estou comentando sobre Hirschman em  "Exit, Voice and Loyalty" (1980):

Para o autor, “voz” ou “saída” são as reações possíveis para o caso de uma deterioração do desempenho de certa organização. Alguns dos clientes ou membros optam pela “saída”: simplesmente deixam de consumir o produto ou serviço cujo desempenho se deteriorou. Outros optam pela “voz” expressando sua falta de satisfação com o produto ou serviço. Evidentemente, a opção da saída não está disponível se os que usufruem o bem ou serviço estão presos (caso de lock-in) em uma situação de monopólio. No entanto, no caso da educação básica no Brasil, por exemplo, a oferta de escolas particulares era uma alternativa significativa, mesmo quando um sistema público de ensino foi criado. Nessa situação, Hirschman sugere que, supondo uma deterioração da escola pública e a existência da opção de “saída”, os pais mais conscientes acerca da importância da educação crescentemente enviariam seus filhos a escolas particulares, que são substitutos de maior qualidade. No caso de países subdesenvolvidos, é provável que as condições financeiras dos pais contem mais, levando Hirschman (1980, p. 45, nota) a afirmar que “caso a escola particular seja cara e a distribuição de renda desigual, as escolas públicas serão obviamente abandonadas primeiramente pelos pais mais ricos”.[1] Mais adiante, Hirschman é enfático ao dizer que:

Aqueles clientes que se importam mais com a qualidade do produto e que, portanto, são aqueles que seriam os mais ativos, compromissados e criativos agentes de ‘voz’ são, pela mesma razão, também provavelmente os primeiros a optar pela ‘saída’ em caso de deterioração (HIRSCHMAN, 1980, p. 47).[2]

Como podemos ver, a opção dos pais mais interessados pela “saída” teria a capacidade de minar a ação coletiva em favor de uma melhora educacional. Na abordagem de Acemoglu, Johnson e Robinson (2005a), a distribuição desigual de recursos e a incapacidade para ação coletiva diminuiriam substancialmente o poder político de facto, que é a fonte de mudança institucional, uma vez que o poder político de jure origina-se das instituições políticas existentes e tende a atuar em função da preservação dessas instituições. No caso da maioria dos países latino-americanos, o arcabouço institucional que garante a provisão de serviços públicos voltada preferencialmente à elite tende a perpetuar-se devido ao poder político de jure e de facto dessa elite, que é melhor organizada e, portanto, relativamente mais eficiente.


[1] “Private schools being constly and income distribution unequal, the public schools will of course be deserted primarily by the wealthier parents […]” (HIRSCHMAN, 1980, p. 45, nota)
[2] “[…] those customers who care most about the quality of the product and who, therefore, are those who would be the most active, reliable, and creative agents of voice are for that very reason also those who are apparently likely to exit first in case of deterioration” (HIRSCHMAN, 1980, p. 47).

domingo, 1 de janeiro de 2012

Entrevista com Javier Sarriera


Pedimos desculpas aos leitores pelo atraso do post. Este que vos escreve estava em um local afastado de Canela sem acesso à internet desde sexta, comemorando o Ano Novo com amigos e ex-colegas. Entre eles, o Javier, ex-colega de graduação em Economia e hoje trabalhando em projetos com o Banco Mundial em Washington, D.C. Como é uma experiência interessante, achei que seria oportuno uma entrevista com ele. Abaixo então, uma pequena entrevista com o economista Javier Morales Sarriera do Banco Mundial na praça de alimentação do Bourbon Shopping de São Leopoldo, a caminho de Gramado/Canela:

Oikomania: Qual é o seu cargo no Banco Mundial (BM)?
Javier: Junior Professional Associate
O: Quais são suas atividades principais lá?
J: Auxiliar em projetos de assistência técnica para governos da América Latina.
O: Em que projetos você está envolvido atualmente?
J: Um deles é a análise dos melhores usos econômicos das áreas revertidas ao Panamá pelo governo norte-americano – a Zona do Canal do Panamá. Assim, houve um contato com o BM para fazer um estudo econômico - uso em portos, armazenamento de combustíveis marinhos, de frigoríficos, parques logísticos. Eles querem saber quais áreas tem potencial e para que atividades.
Outro projeto em que estou envolvido é uma análise do estoque e da qualidade da infraestrutura em toda a América Central.  Como o BM tem acesso à base de dados e contatos com instituições locais, o meu departamento está estudando os problemas de infraestrutura em cadeias de suprimentos até eficiência dos portos, por exemplo.
O: E em que projetos você gostou de trabalhar?
J: Anteriormente eu trabalhava na área de pesquisa macroeconômica e trabalhei em projetos de multiplicadores fiscais em países em desenvolvimento, principalmente em dois papers – um deles será publicado no Quarterly Journal of Economics (em que ajudei como research assistant), que utiliza uma base de dados de empréstimos do BM a países muito pobres e pequenos. A utilização desses dados elimina problemas de identificação causados por endogeneidade , mas melhor não entrarmos em detalhes...
O: O que você precisa fazer para trabalhar no Banco Mundial?
J: Um mestrado em Economia ou áreas relacionadas a desenvolvimento, tais como engenharia ambiental, hidrologia, políticas públicas, urbanismo, etc. Além disso, é importante o networking
O: Qual é a sua formação?
J: Bacharel em Ciências Econômicas pela UFRGS e Mestrado em Economia e Finanças pelo CEMFI (Centro de Estudios Monetarios y Financieros), na Espanha.
O: Obrigado, Javier. Feliz Ano Novo.

Um Feliz 2012 aos leitores também.