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terça-feira, 29 de abril de 2008

Suecos

Conheci uma sueca, doutoranda em ciência politica, quando estava em New York por ocasião da Conferência da Human Development and Capability Association. Disse ela que na Suécia, um politico que pegasse um táxi usando dinheiro público poderia gerar manchetes nos jornais, uma vez que ele deveria ter pegado um ônibus. Apesar do clima inóspito, suecos são ricos e considerados um dos povos mais igualitários entre as democracias. A qualidade de vida deles é atestada pelos resultados do IDH, onde estão sempre entre os primeiros.

Suecos e noruegueses costumam ser muito educados, pelo menos os que conheci. Certamente, minha amiga Sibeli que está lá trabalhando por três meses com a Igreja (Luterana) da Suécia poderá nos falar mais sobre o país em breve. De qualquer forma, as instituições e a performance esconômica escandinavas, invejadas por muitos, tem origens no passado. Esses países estavam longe da prosperidade no começo do século 20. Algumas coisas aconteceram desde então, e após a II Guerra, algumas medidas macroeconômicas tornaram-se importantes.

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Gösta Rehn e Rudolf Meidner eram economistas de sindicatos na Suécia. Esses dois caras, pouco conhecidos por aí, foram responsáveis por delinear as medidas macroeconômicas que nortearam a economia sueca pouco tempo depois da II Guerra.

Sua política consistia basicamente no seguinte: uma política fiscal rígida e uma política salarial solidária, tentando combinar estabilidade de preços e pleno emprego. Segundo comentários que ouvi, as empresas tiveram que pagar salários altos a seus empregados, ao mesmo tempo em que eram expostas a concorrência internacional, uma vez que precisavam exportar seus produtos, dada a pequena extensão do mercado nacional. Impedidos de baixar salários, as firmas ganharam em eficiência. O Estado entrava ativamente através de proteção social para o desemprego que naturalmente poderia ocorrer com os altos salários e a quebra das empresas ineficientes.

Nunca ouvira claramente a respeito e, provavelmente, é algo que merece ser estudado. Os países escandinavos são sempre alardeados por sua igualdade política e opulência econômica também eqüitativamente distribuída. É claro que há exageros, mas sem dúvida os paises escandinavos conseguiram resultados invejáveis para a maioria das nações, apesar da carga tributária elevada (alguns leitores desse blog devem achar a Suécia um horror devido a suposta imoralidade de sua tributação).

No entanto, estranhamente, poucos no Brasil ouvem falar em Rehn e Meidner. Algo que merece alguma atenção, mesmo que seja para depois criticarmos a idéia. Afinal, será que podemos dizer que o sucesso sueco ocorreu apesar das medidas econômicas dos social-democratas?

sábado, 26 de abril de 2008

Fontes primárias

A pesquisa em história econômica é por vezes cansativa. Examinar as leis da República para ver se houve alguma mudança institucional relativa à política educacional no Brasil é como procurar uma agulha no palheiro. Principalmente quando descobrimos que, durante quase toda a nossa história, o ensino básico fora da capital ficou a cargo das províncias. Documentação primária cansa e, por vezes, desanima.

Inúmeras obras consideradas de referência hoje em história econômica não tocam em um documento primário. A partir do que outros escreveram, alguns autores como Lourdes Sola (1998), lançam outra interpretação para a economia e a política de meados do século 20 no Brasil. Um texto do Newton Bueno (2007), publicado na "Estudos Econômicos" ano passado também lança nova interpretação para a Revolução de 1930 baseada nas idéias da Nova Economia Institucional (ação coletiva, especificidade de ativos, etc.) sem referência a documentação primária (o autor reconhece isso). É claro que isso não invalida a publicação: conseguir ter uma idéia alternativa de interpretação apenas a partir da teoria já é algo interessante (a idéia do Bueno é bem divertida, por exemplo). Mas é claro que, para que ela possa adquirir mais credibilidade, é necessário ainda muita "mão na massa".

A conclusão é que a pesquisa em fontes primárias é necessária, apesar de todo o trabalho que precisa ser feito. É nessas horas que seria bom ter um bolsista, haha. Nesses momentos, lembro de colegas como o Diego, que era bolsista do Prof. Nogueirol em trabalhos sobre escravidão que, através de pesquisas em arquivos, conseguiram resultados bons e prêmios em salões de iniciação científica. Uma boa pesquisa primária cansa, mas vale a pena.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Sobre livre comércio e história

Cai em erro crasso quem, através de um ou outro exemplo histórico, afirma saber a receita para o desenvolvimento. É muito comum defensores do protecionismo darem o exemplo de um ou outro país hoje desenvolvido que teria protegido sua indústria nascente; por outro lado, há os outros que sempre buscam "provar" que o livre comércio é o caminho da prosperidade.

Sob o critério da falsificação atribuído a Popper (sem entrar no mérito da cientificidade ou não do critério), não é possível dizer muita coisa. É evidente que protecionismo pode ser nefasto, há resultados ruins na história. Logo, protecionismo não significa necessariamente crescimento - pelo menos, não qualquer protecionismo, o que é bastante óbvio. No entanto, há muitos exemplos aparentemente a favor do protecionismo, como o inglês, discutido no post anterior. Nesse caso, a questão que fica é: a Inglaterra cresceu apesar do protecionismo ou cresceu devido ao protecionismo? E, é claro, se o protecionismo pode ser benéfico, como deve ser feita essa proteção?

Quando estudamos história, tudo depende da interpretação dos fatos. Pensemos na década de 1930 no Brasil, em que não tratamos de protecionismo, mas tratamos de comércio. A interpretação clássica de Furtado fala em "deslocamento do centro dinâmico" após a crise de 1929. A Grande Depressão teria feito com que o Brasil se "voltasse para dentro", praticando políticas pré-keynesianas de sustentação da demanda agregada. O ponto fundamental é que o choque, o qual diminuiu o comércio externo, fez com que o país se voltasse às manufaturas, ou seja, houve um ponto de inflexão com a interrupção do comércio. A interpretação de Peláez contraria Furtado afirmando que a crise não teria sido benéfica e que as políticas governamentais teriam retardado a recuperação da economia. No fundo, a questão fundamental é: o livre comércio é sempre bom?

Trabalhos mais recentes têm rejeitado defender com tanto afinco esta ou aquela posição extrema. No entanto, todas as explicações não passam de tentativas razoavelmente fundamentadas ou não. Assim, a história não serve para provar muito quando o que está por detrás da discussão é algo mais fundamental e polêmico.


A única mensagem desse pequeno post é um pedido para que todos fiquem com um pé atrás quando o argumento de autoridade é histórico. Se há coisas que a história não pode resolver de uma vez por todas são esses debates. A história e a estatística podem apenas nos dar evidências a respeito: se somos convencidos ou não, depende em última instância de algo além da objetividade. Isso não significa, como dizem alguns, que história e estatística para nada servem ou que são acientíficas. Há coisas que não podemos provar e nem devemos procurar provar. Com estudos cada vez mais acurados e cuidadosos, as interpretações melhoram e temos evidências melhores. E, assim, ficamos mais preparados para nos posicionar a respeito dessas questões básicas da ciência econômica.



domingo, 20 de abril de 2008

Por que os ingleses bebem cerveja?

Essa é uma das fundamentais perguntas que John Nye, historiador econômico da George Mason University, tentou responder na sexta-feira em sua palestra sobre seu novo livro "War, Wine and Taxes". O livro trata sobre os conflitos e as políticas comerciais de Inglaterra e França. Desafiando o que sempre se diz, Nye percebeu que a política britânica foi bem mais protecionista do que a francesa, o que explica porque ingleses bebem cerveja e não vinho.

A palestra foi muito boa (uma das raras vezes que temos bons seminários), uma vez que Nye tem um bom senso de humor, além de explicar de forma clara e audível. E é claro, pelo assunto ser interessantíssimo. Isso não significa que todas suas conclusões estejam certas, mas deu vontade de ler o livro.

Como conclusão, Nye sustentou que a Inglaterra cresceu apesar das restrições ao livre comércio. No entanto, isso não pareceu derivar logicamente de sua argumentação. Talvez o livro possa esclarecer um pouco disso.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Seminários da semana

Em primeiro lugar, minhas desculpas por estar afastado da blogosfera recentemente. Pretendo contribuir mais com textos sobre história econômica, filosofia política, cristianismo, além dos tradicionais posts acerca da vida de mestrando na USP.

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Da vida de mestrando, posso apenas comentar que anteontem tivemos a presença do Prof. Philip Arestis, do Department of Land Economy da University of Cambridge. Sua palestra, aproveitando sua passagem no Brasil para o I Congresso Brasileiro Keynesiano, foi sobre a macroeconomia britânica nos últimos anos e algumas críticas a algumas proposições consensuais. Nada diferente do que esperamos de um pós-keynesiano. Alguns professores estavam visivelmente incomodados com o que Arestis disse.

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Nesta semana, temos também a presença do historiador econômico John Nye, da George Mason University. Bati um papo com ele na quarta-feira, momento no qual ele deu algumas opiniões acerca de meu projeto de dissertação. Hoje em breve, teremos um seminário com ele sobre a politica tributária e o crescimento britânico no século XIX. O texto está disponível no site http://www.econ.fea.usp.br/seminarios/2008_1/18_04_08_John_Nye.pdf

Lembrando que Nye, um historiador novo-institucionalista, era professor da Washington University in St. Louis, onde trabalhou por muitos anos com o Nobel Douglass North, também historiador econômico e líder da Nova Economia Institucional.