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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Projeto de dissertação

Aí vai o resumo do meu projeto de dissertação de mestrado entregue à FAPESP no fim de agosto sob a orientação do Prof. Dr. Renato Perim Colistete (a quem preciso agradecer devido a enorme ajuda que possibilitou a entrega do projeto antes de minha viagem):

O objetivo do estudo é analisar como a distribuição de poder político desigual existente no Brasil influenciou as decisões relacionadas à provisão de serviços públicos como saúde e educação, aspectos importantes para se avaliar os níveis de padrão de vida entre o final do século XIX e meados do século XX. Para o fim proposto, o estudo utilizará o arcabouço teórico da Nova Economia Institucional, cujo principal representante é Douglass North, e as novas contribuições nessa linha de pesquisa para a história econômica da América Latina, principalmente Engerman & Sokoloff (1997, 2002), segundo os quais a desigualdade latino-americana tem suas origens na dotação inicial de fatores e no tipo de colonização resultante, o que teria levado à criação de instituições que contribuíram para a persistência da desigualdade ao longo da história econômica latino-americana. No entanto, mais do que no crescimento de longo prazo, o estudo preocupa-se com a influência das instituições no desenvolvimento compreendido – a partir das contribuições de Amartya Sen – como expansão de capabilities, que inclui o acesso a serviços de saúde e educação. A pesquisa será baseada essencialmente em uma combinação de análise de documentos da época (leis, decretos, constituições), da literatura histórica e teórica existente e de indicadores quantitativos elaborados a partir de dados primários relativos à distribuição do poder político, educação e saúde. Como resultado, espera-se lançar luzes sobre os motivos pelos quais o Brasil apresentou níveis de qualidade de vida extremamente baixos de forma persistente ao longo do período de notável crescimento econômico e industrial entre final do século XIX e meados do século XX.


quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Resposta ao Joel: Ecumenismo

Recentemente, muitas pessoas questionam-me acerca da relevância do movimento ecumênico e, particularmente, do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Em recente comentário, Joel Pinheiro perguntou-me o que de concreto teria conquistado o movimento. Acredito que o movimento ecumênico é relevante independentemente de seus resultados “concretos”. Utilitarismo não é uma boa ética para julgá-lo, acredito eu.

O ecumenismo é relevante por tentar afirmar que todos os cristãos têm sua fé fundamentada em Jesus, considerado o Filho de Deus. Se temos essa característica em comum, é importante que esforços sejam feitos pela preservação de algum tipo de unidade apesar das diferenças teológicas. Se existe algo de concreto a respeito disso, temos a busca por um entendimento mútuo e o fato do CMI ter até conseguido editar um livro sobre “A Natureza e a Missão da Igreja”, aprovado por teólogos representando diversas tradições cristãs. Ainda hoje, diferenças impedem os cristãos de praticar a Eucaristia conjunta, problema que certamente devemos tentar superar. Essas justificativas teológicas são suficientes para que defendamos o ecumenismo, na minha opinião, apesar dos problemas que temos.

Não obstante o seu valor intrínseco, acredito que o CMI consegue, por congregar muitas igrejas, ter uma voz relativamente relevante. A Comissão de Assuntos Internacionais do CMI tem cadeira no ECOSOC. Talvez sejamos pouco ouvidos, mas ainda assim, estamos fazendo a nossa parte: a Igreja também tem que ter caráter profético. Inúmeros documentos publicados pelo CMI mostram o que vários setores do Cristianismo pensam. Acredito que esse é um espaço importante a ser mantido.

Infelizmente, o movimento ecumênico no Brasil é fraco e principalmente defendido por setores ligados à teologia da libertação. Assim, o ecumenismo é mal-entendido porque parece apenas contemplar um setor – não significa que estou desprestigiando a teologia da libertação, embora de fato não seja um adepto. No mundo, o movimento ecumênico tende a ser mais plural: é verdade que existe uma forte tendência teológica progressista que, apesar de defender importantes pontos como tolerância, tende a contribuir pouco em questões como missão. No entanto, temos também pentecostais, bem mais conservadores – o que também pode não ser positivo – e ortodoxos, os quais não tem em sua história grande influência do Iluminismo, ao contrário dos protestantes históricos. Portanto, acreditar que ecumenismo é ruim por seu caráter pouco plural não faz muito sentido.

Ecumenismo não é o mais importante, mas é crucial. No entanto, não podemos esquecer de outros aspectos. Evidentemente, missão e diaconia não podem ser ignoradas, mas isso não é contrário ao ecumenismo. Tudo isso pode ser alcançado conjuntamente. Ecumenismo em parte reflete o aprendizado com as inúmeras ridículas e pouco cristãs guerras entre cristãos e mesmo entre religiões. Em regiões de conflito como África ou Oriente Médio, o que as igrejas podem fazer conjuntamente para aliviar o problema? São em questões como essas que concretamente o movimento ecumênico pode fazer diferença.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Nova teoria de justiça no forno

"Reasons for Justice". Pelo que entendi, esse será o novo livro de Amartya Sen propondo uma alternativa teoria de justiça. Justiça foi o tema da palestra Mabdul Ul-Haq que ocorre anualmente durante a conferência da Human Development and Capability Association. Para fazer justiça a algumas pessoas, Sen lembrou de Ul-Haq e de Rawls, para quem ele deve muito de suas idéias.

Em sua palestra, Sen enfatizou quatro pontos: (1) vida e liberdades (freedoms), (2) responsabilidade e poder efetivo, (3) abordagem comparativa e não-transcendental e (4) desenvolvimento humano como abordagem que cobre irrestritamente e globalmente. Outra hora, em momento mais apropriado, posso também comentar a respeito disso. Jogados dessa forma, os pontos apresentados parecem não fazer sentido algum. Embora o sotaque indiano de Sen tenha me impedido de entender a maior parte das piadas, acho que entendi a mensagem. Essas características são as que diferenciam a teoria de Sen das outras teorias contemporâneas de justiça.

A palestra foi bastante elucidativa e atraiu a atenção de todos, os quais aguardavam com expectativa o evento. Tirei umas fotos e espero que o cartão de memória não me traia. De qualquer forma, o debatedor não foi nada menos do que o miserável George Soros. Soros humildemente disse que não tinha muito o que dizer, pois nem ao menos lera Rawls. Mas de qualquer forma, foi divertido. Amanhã é o último dia e na sexta estarei voltando ao Brasil.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Breves comentários

Na semana passada, a Comissão de Assuntos Internacionais do Conselho Mundial de Igrejas se reuniu pela primeira vez para um mandato de 7 anos. Como moderador da Comissão, o Rev. Kjell Bondevik, ex-chanceler e primeiro-ministro norueguês, coordenou a maior parte das seções. Chegamos a algumas conclusões, as quais detalharei posteriormente.

O tempo foi muito escasso e infelizmente não pude escrever.

De qualquer forma, estou agora em NY para conhecimento geral. A Conferência Anual da Human Development and Capability Association está sendo realizada na New School. Até agora tem sido legal. Ontem, Martha Nussbaum, filósofa de Chicago, e Hilary Putnam, filósofo de Harvard, foram os principais palestrantes. Amanhã é a vez de Amartya Sen à tarde, vamos ver como será.

Em breve detalho mais e respondo à questão do Joel no tópico anterior.

domingo, 9 de setembro de 2007

Divagações de um viajante na Suíça

Ontem passamos a tarde em Neuchâtel: a primeira cidade da Suíça de língua francesa que conheci. A arquitetura por lá é um pouco diferente das cidades germânicas. Não obstante o fato de ser menos conhecido que Luzern, Neuchâtel é muito relaxante e menos turística. Em Luzern, havia turistas demais na minha opinião... e eu era um deles.

Hoje foi a vez de conhecer a maior cidade do país: Zürich. Os carros lá em geral parecem ser mais caros. Os bancos podem ser encontrados em várias esquinas. É, de fato, a cidade economicamente mais imporante que vi até agora, pelo menos na aparência. Como disse o Daniel, os habitantes de Bern não passam de camponeses perto do pessoal de Zürich. Por isso, eles talvez tenham a mente mais aberta, pro bem e pro mal, como quase tudo nesse mundo.

As fotos estão no meu álbum do orkut. Recomendo fortemente que dêem uma olhada.

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O sistema democrático suíço é bastante curioso. Eles tem sete governantes a nível federal. Embora exista um parlamento, qualquer cidadão pode enviar uma proposta para o legislativo e, de repente, é possível que seja convocado um plebiscito para decidir a questão. Isso foi o pouco que me explicaram a respeito disso. É um modelo interessante, mas creio que impraticável em países grandes como Brasil ou EUA.

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Depois de voltar de Zürich, encontrei uma amiga do Daniel e da Alena para ir a um culto evangélico (não no sentido de Evangelische-reformierte...). Lá existe a Vineyard Bern: Vineyard é uma igreja que existe em vários lugares do mundo que enfatiza muito o louvor. Seus álbuns de música são conhecidos por todo o mundo evangélico por gravarem músicas cristãs ao gosto pop, de acordo com a tendência. Geralmente músicas fáceis de cantar e tocar e, por vezes, com refrões repetitivos. Muitas das letras são meio pobres, mas é inegável que a forma buscada por eles alcança um grupo muito maior de pessoas.

Embora a Suíça esteja no meio da Europa, sempre considerada por demais secularizada, os evangélicos e pentecostais existem por lá. Evidentemente, não são fenômenos de popularidade como as igrejas brasileiras. Mas o culto que eu fui tinha bastante gente. A Gabi, a moça que foi comigo, participa daquela igreja regularmente. No culto que fomos, há tradução simulatânea para o inglês através de fones. Infelizmente, não estava em condições físicas de acompanhar o culto com atenção. Mas foi legal, as pessoas foram muito gentis e simpáticas ao final do culto. Muito melhor do que a frieza que algumas vezes sentimos quando vamos a um culto.

Eu até queria ver um culto reformado no país onde Calvino e Zwinglio pregaram. Mas assistir um culto em alemão suíço seria duro demais...

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Amanhã é dia de ir para Genebra, cidade onde Calvino liderou um dos movimentos de Reforma protestante. A Comissão das Igrejas em Assuntos Internacionais do Conselho Mundial de Igrejas realizará sua primeira reunião depois da Assembléia, ou seja, é um novo mandato com novos integrantes. Eu sou um deles e estarei representando não só a minha Igreja mas as igrejas do meu país que fazem parte do CMI. Muita responsabilidade talvez. Mas Deus ajudará a guiar os passos da gente. Não é algo para se orgulhar, é apenas uma oportunidade de servir - pelo menos deveria ser.

Finalmente, espero, poderei ver que papel positivo o CMI pode ter para os fins buscados por Cr isto. Direitos humanos, diálogo, violência e desenvolvimento: esses são assuntos tratados por esse braço do CMI. Espero, no entanto, que haja espaço para buscarmos soluções para esses problemas sem perder o foco no verdadeiro sentido de ser igreja.


sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Lucerna e algumas outras observações

Hoje visitei Luzern (Lucerna) sozinho pela tarde. Alena e Daniel precisavam ir ao casamento da irmã de Daniel e, então, escapei com o intuito de incomodá-los o menos possível. Logo que saí da rodoviária (Bahnhof) me deparei com um belo lago à direita, cujos habitantes mais chamativos são os cisnes - sociáveis criaturas que andam pelas calçadas querendo comida dos turistas.

Diferentemente de Bern, Luzern tem maior influência católica, pelo que pude perceber pelo número de velhas igrejas católicas que encontrei nas minhas andanças. Tal predominância foi confirmada pelo casal que está me hospedando, uma vez que o cantão da região é historicamente católico.

Além disso, a economia de Luzern é visivelmente voltada para o turismo. Uma espécie de Gramado superdesenvolvida. Muitos hotéis e uma extensa oferta de serviços para as centenas de turistas que eu mesmo vi. Muitos orientais, muita gente falando inglês, além, é claro, do Schweizer Deutsch deles.

O curioso na Suiça é que uma refeição é muito cara: comprei roupas de boa qualidade que foram mais baratas que muitas refeições. Dificilmente gasta-se menos do que 12 ou 13 francos suiços por almoço. Mas por 15 eu comprei até roupa de inverno, camiseta da Victorinox em Luzern, etc.

Última coisa: aqui temos vários cartazes anunciando a Euro 2008 sediado por Suiça e Áustria no ano que vem. Amanhã, quem sabe visito Zurique. Segunda tenho que estar em Genebra.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Os problemas suíços (atualizado)

Os suíços são bastante curiosos em relação ao Brasil. Para eles, que não tem problemas de pobreza graves, a preocupação com as necessidades materiais básicas das pessoas não existe. O que os preocupa hoje são algumas formas de exclusão social. Por exemplo, uma criança pode ter problemas de convívio porque não usa roupas de marca, embora ela tenha uma boa alimentação e casa para morar. O indivíduo "pobre" na sociedade suíça trabalha muito e tem pouco tempo de lazer, mas ninguém passa fome ou é desabrigado involuntariamente.

A igualdade de poder político existente há tempos na Suiça reflete-se na atratividade do país para pessoas famosas. Michael Schumacher vive na Suiça porque ninguém o incomoda por lá pelas ruas, ele pode andar livremente. Diferentemente do que acontece na Inglaterra, onde a rainha fecha o shopping para fazer compras, aqui o presidente do país espera na fila como qualquer outra pessoa. E, embora ele seja o presidente, dificilmente alguém vai incomodá-lo.

É bastante provável que a Reforma tenha algum papel nisso. Calvino, que tinha sua base em Genebra, e Zwinglio, que tinha sua base em Zurique, influenciaram bastante o país. Bern, que está no meio do caminho, foi influenciada pelos dois reformadores. O protestantismo, com sua maior horizontalidade, possivelmente foi algo que moldou em parte o sistema político. Com isso, não estou atacando o catolicismo.

A Suiça não é perfeita, mas, de fato, eles resolveram já muitos problemas que eu gostaria de ver resolvidos no meu país também.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

na Suiça

Prezados visitantes desse blog,

Estou nesse momento na cidade de Bern na Suíça. Mais tarde conto sobre minha experiência na viagem de ida e sobre algum aspecto econômico interessante desse país.

O que já é notório por aqui é o contraste entre antigas e simpáticas construções e prédios modernos. Nesse momento, uma garoa fina apesar do sol fulgente cai por aqui.

Pelo menos o teclado do meu amigo suiço Daniel tem cedilhas e acentos.