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terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Utilitarismo

O utilitarismo muito influenciou a Ciência Econômica ao longo de sua história. Seu surgimento como uma teoria de justiça deve-se a Jeremy Bentham, que viveu na Inglaterra do século XVIII. Posteriormente, o utilitarismo tornou-se parte integrante da ortodoxia econômica a partir de sua adoção por John Stuart Mill, já no século XIX. Naquela época, o utilitarismo já era bastante conhecido nos meios intelectuais: era a teoria ética dominante. A consagração veio depois com a escola marginalista e neoclássica com William S. Jevons e Alfred Marshall no final do século XIX e Francis Edgeworth e A. C. Pigou no XX, por exemplo. É evidente que o utilitarismo foi sendo aperfeiçoado enquanto isso.

Embora nos estudos de HPE, o utilitarismo se destaque e todos já tenham ouvido falar dele em algum momento, poucos sabem no que de fato consiste o pensamento utilitarista. Amartya Sen, em cujos escritos tenho baseado meus últimos posts (quando eu acabar de lê-los, prometo mudar), tenta detectar uma espécie de “núcleo duro” do utilitarismo atual, o qual consiste em três aspectos (1999a, p. 55, adaptado):

  1. “welfarismo” [welfarism], requerendo que a bondade de um estado de coisas [state of affairs] seja função apenas das informações sobre utilidade relativas a esse estado (ou seja, o que importa para avaliação dos estados são as utilidades individuais naqueles estados).
  1. “ranking pela soma”[sum-ranking], requerendo que as informações sobre utilidade relativas a qualquer estado sejam avaliadas considerando apenas o somatório das utilidades desse estado (ou seja, o que importa é a soma: distribuição não importa).
  1. “conseqüencialismo” [consequentialism], requerendo que toda escolha – de ações, instituições, motivações, regras, etc. – seja em última análise determinada pela bondade dos estados de coisas decorrentes (ou seja, o que importa para avaliar é o resultado gerado pelas escolhas).


Segundo Sen, o critério de otimalidade de Pareto satisfaz o “welfarismo” e o conseqüencialismo. Conjuntamente, essas três características levam a fórmula utilitarista no qual cada escolha é julgada pela soma total das utilidades geradas por aquela escolha (Sen, 1999b, p. 59). Nas definições acima, já é possível detectar algumas das limitações do utilitarismo: a) a indiferença distributiva; b) a negação de tudo o que não tem a ver com utilidades, como, por exemplo, direitos e liberdades; e c) não levar em conta o condicionamento mental e a adaptação, ou seja, as pessoas podem avaliar sua satisfação adaptativamente, dadas as condições em que vivem, etc. (Sen, 1999b, p. 62-63).


É possível associar as limitações com as características. É um bom exercício.

SEN, A. K. (1999a). Sobre Ética e Economia. São Paulo: Companhia das Letras.

_________ (1999b). Development as Freedom. Anchor Books.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Ética e economia: análise normativa e comportamento real

Em resposta ao post do Ph nos Rabiscos, Stein, também nos Rabiscos, afirmou o seguinte:

Meu argumento é de que, embora pudesse concordar com Stein que a Economia enquanto ciência deveria tentar se abster de julgamentos de valor, na verdade eu estava defendendo que os economistas considerassem que as pessoas podem ter comportamentos baseados em alguma ética. Amartya Sen mostra com clareza os dois pontos que relacionam ética e economia:


Pode-se dizer que a importância da abordagem ética diminui substancialmente com a evolução da economia moderna. A metodologia da chamada “economia positiva” não apenas se esquivou da análise econômica normativa...


Até aqui é o ponto que o Stein levantou, embora eu acredite que Sen refira-se não a uma “economia pura” (se quisermos fazer essa distinção) como dizia Walras, mas à parte mais prática, na qual análises normativas são válidas. No entanto, Sen continua:


...como também teve o efeito de deixar de lado uma variedade de considerações éticas complexas que afetam o comportamento humano real e que, do ponto de vista dos economistas que estudam esse comportamento, são primordialmente fatos e não juízos normativos.


Ou seja, e assim o indiano conclui:


Examinando as proporções das ênfases nas publicações da economia moderna, é difícil não notar a aversão às análises normativas profundas e o descaso pela influência das considerações éticas sobre a caracterização do comportamento humano real.


Passagens retiradas de: SEN, Amartya Kumar (1999). Sobre ética e economia. São Paulo: Companhia das Letras. p. 23.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Smith: egoísmo e auto-interesse

Nosso pai Adão (como costumava dizer meu professor de História Econômica Geral, Prof. Dr. Eugênio Lagemann) é comumente visto como defensor de um liberalismo radical, segundo o qual, o bem-estar geral era resultado da interação entre homens egoístas. Essa versão disseminada na ciência econômica é um erro na visão de cada vez mais pessoas. Como disse também o Prof. Dr. Flávio Comim uma vez em aula: “isso que chamam de neoliberalismo é uma ofensa ao liberalismo clássico”. Geralmente, pensa-se que não há lá grandes diferenças entre o velho e o novo liberalismo. Conseqüentemente, Smith é injustiçado quando sua obra é reduzida à “mão invisível”, expressão usada duas vezes em sua obra.

Por esse motivo, Smith continua sendo um vasto campo de estudo para os historiadores das idéias econômicas. Muitos estudiosos recuperaram o contexto filosófico da época em que Smith viveu para obter uma interpretação mais precisa acerca do pensamento do escocês. Esses estudiosos contrariam uma concepção de compreensão da HPE liderada por autores como Mark Blaug (1985), o qual interpreta os autores do passado a partir da teoria econômica contemporânea. Para Bianchi e Santos (2005) e Cerqueira (2003, 2005), é preciso considerar seu contexto histórico e intelectual, além de suas outras obras, principalmente “A Teoria dos Sentimentos Morais”, seu tratado sobre ética, para que haja uma melhor compreensão do pensamento smithiano.

Bianchi e Santos (2005) apontam que auto-interesse e egoísmo são conceitos distintos no linguajar de Smith, considerando o contexto em que ele escreveu. O egoísmo seria uma exacerbação do auto-interesse: o último não seria virtude ou vício, enquanto o primeiro seria um vício. É no auto-interesse que se baseia o argumento de Smith no tocante aos benefícios públicos: Com o egoísmo, “não haveria qualquer garantia de um resultado socialmente benéfico” (Bianchi e Santos, 2005, p. 9). Ignoram muitos economistas os conceitos de simpatia e prudência provindas do Iluminismo escocês, movimento que tem suas diferenças em relação a vertente inglesa e, é claro, de outras nações como França (enciclopedistas) e Alemanha (Kant e a Aufklärung). (Cerqueira, 2005).

Essa é apenas uma das conclusões acerca do pensamento de Smith advindos de estudos mais acurados e contextualizados sobre sua obra. Assim, seu pensamento econômico não se desvincula de pensamento ético. Essa separação é um mal que, segundo Sen (1999), tem afligido a ciência econômica por séculos. Uma releitura de Smith seria saudável para recuperar parte do legado que seus filhos intelectuais rejeitaram.

Bibliografia:

Bianchi, A. M. & Santos, A. T. A. (2005). Adam Smith: filósofo e economista. Cadernos IHU Idéias. Ano 3, n. 35.

Blaug, M. (1985). Economic Theory in Retrospect. Cambridge: Cambridge University Press.

Cerqueira, H. E. A. G. (2003). Para ler Adam Smith: novas abordagens. Disponível em: http://www.anpec.org.br/encontro2003/artigos/A20.pdf

___________ (2005). Adam Smith e seu contexto: o Iluminismo escocês. VIII Encontro de Economia da Região Sul – ANPEC Sul 2005. Ver CD-Rom.

Sen, A. K. (1999). Sobre Ética e Economia. São Paulo: Companhia das Letras.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Visões sobre educação e desenvolvimento

A tradicional visão sobre desenvolvimento econômico considera crescimento e desenvolvimento como sinônimos. Muitos também consideram desenvolvimento como crescimento com melhora de outros indicadores.

Com relação à educação, a maior parte da literatura costuma apontá-la como algo que conduz ao desenvolvimento. A partir dos trabalhos de Gary Becker, pioneiro na análise do capital humano, a educação passou a ganhar destaque na academia. Saltos econômicos, como os dos paises dos lestes asiáticos, são entendidos como resultado do acúmulo de capital humano, como afirma Gary Becker:

The outstanding economic records of Japan, Taiwan, and other Asian economies in recent decades dramatically illustrate the importance of human capital to growth. Lacking natural resources—they import almost all their energy, for example—and facing discrimination against their exports by the West, these so-called Asian tigers grew rapidly by relying on a well-trained, educated, hardworking, and conscientious labor force that makes excellent use of modern technologies.

Uma outra visão interessante acerca do papel da educação no desenvolvimento é a de Amartya Sen. Sua visão não é oposta a de Becker, é apenas um outro ponto de vista, como mostra a seguinte passagem sobre os mesmos países do leste asiático:

The pioneering example of economic growth through social oppportunity, especially in basic education, is of course Japan. It is sometimes forgotten that Japan had a higher rate of literacy than Europe had even at the time of the Meiji restoration in the mid-nineteenth century, when industrialization had not occurred there but had gone on for many decades in Europe. Japan’s economic development was clearly much helped by the human resource development related to the social opportunities that were generated. The so-called East Asian miracle involving other countries in East Asia was, to a great extent, based on similar causal connections.*

A diferença é que, para Sen e a aboradagem das capacitações, maior nível de educação não apenas conduz ao desenvolvimento, mas também é parte do desenvolvimento. Não é por outro motivo que o IDH leva em conta indicadores sociais como alfabetização, como mostram UNDP e Wikipedia.

*SEN, Amartya Kumar. Development as Freedom. Anchor Books, 1999. p. 41.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Rubem Fonseca e licenças de importação

“O senhor sabe como é o Brasil...”

“Não sei. Me diga.”

“Se o senhor tivesse uma empresa de importação e exportação saberia.”

“Eu não tenho.”

“Para se importar ou exportar qualquer coisa é preciso uma licença da Cexim. Isso não é fácil de conseguir. Muitas vezes é necessária a colaboração de um amigo influente. O tenente Gregório ajudou Paulo a conseguir uma licença... importante... para a empresa dele, a Cemtex, na qual aliás eu tenho uma participação societária. Para fazer o Brasil crescer os empresários precisam se humilhar pedindo favores.”*

A passagem foi extraída do romance “Agosto” de Rubem Fonseca: uma mistura de ficção e realidade que retrata o conturbado ambiente político que precede o suicídio de Getúlio em 1954. Para os que estudaram Economia Brasileira, a Cexim é familiar: o órgão responsável pela concessão de licenças de importação. Ao invés de se usar o velho protecionismo tarifário, o governo utilizava licenças, concedendo-as para os setores que “necessitavam” de acordo com o “interesse nacional”.

Pela passagem, é bastante óbvio que esse tipo de protecionismo era pernicioso para o país, devido à enorme suscetibilidade à corrupção de um órgão com tal poder. De fato, além do “interesse nacional”, era o interesse de políticos e empresários corruptos o que movia a concessão de licenças.

O objetivo não é um ataque ao protecionismo como um todo. Para isso, precisamos recorrer àquela velha discussão e utilizar-se de autores como Bhagwati, Krugman, Rodrik ou Ha-Joon Chang. Somente deixo a idéia de que a suscetibilidade à corrupção deve ser minimizada, principalmente porque, no Brasil, esse mal está em nossas vísceras. No caso, licenças de importação foram um terrível erro. É por essas e outras que, embora hipocritamente, os opositores de Vargas acusavam seu governo de ser corrupto e imoral.


*FONSECA, Rubem. Agosto. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 182.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Os limites da teologia da libertação

Uma teologia fundamentada em conceitos que não são consenso e carregam consigo forte carga ideológica. Esse é o maior problema da teologia da libertação.

Não que outras teologias não tenham carga ideológica. De fato, a teologia da libertação (TL)prestou um serviço ao chamar atenção para o lado social, denunciando uma igreja aliada ao poder e pouco atuante no serviço ao próximo. Entretanto, a TL erra ao confiar cegamente em concepções metodologicamente duvidosas como as provindas do marxismo, dividindo o mundo em opressores e oprimidos de forma maniqueísta. Além disso, reduziu o problema da igreja ao mundo que vemos, tratando o ser humano praticamente como um ser que tem apenas necessidades materiais. É óbvio que o que afirmei pode ser um exagero: não tenho lá tantas leituras acerca dessa teologia e sei da seriedade de muitos teólogos dessa linha que não deixam de lado a espiritualidade. Mas estou falando daquilo que apareceu como resultado.

Talvez uma síntese entre o que chamou atenção a TL e as outras teologias seja uma visão de ser humano holística. Quando conversava com minha amiga norte-americana Emily (Presbyterian Church - USA), ela disse que uma igreja precisa ser profundamente espiritual e verdadeiramente atuante: fé e amor andando lado a lado, como disse Paulo e reiterou Lutero, na dicotomia entre liberdade pela fé e servidão pelo amor.

Em vez de confiar em controversas idéias de exploração da massa trabalhadora, tornando o problema da igreja em uma luta de classes, por que não trabalhar diretamente com a pobreza, da forma proposta pela ONU e por economistas como Amartya Sen? E por que não investir, junto com isso, em trabalhos de missão? O excessivo relativismo ainda levará as igrejas tradicionais à extinção, e não haverá ninguém nos templos para ouvir a defesa de uma ética cristã não oportunista, mas também pouco atrativa e vazia de espiritualidade.

É um blefe, acho que Deus não deixará isso acontecer, a não ser que as igrejas tradicionais tornem-se tão vazias de sentido que não mereçam mais sobreviver.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Sugestão de solução para nossas poucas noções de estatística

Os cursos de estatístisca da graduação aparentemente ignoram a necessidade de noções intuitivas para os alunos. Um livro bastante bom que estou usando agora é o de três autores:

MOOD, Alexander M.; GRAYBILL, Franklin A.; BOES, Duane C. (1974). Introduction to the Theory of Statistics. 3. ed. McGraw-Hill.

Não me parece inacessível mesmo para alunos da graduação e oferece boas explicações para tudo o que vemos por lá. Claro, tem vários exercícios difíceis. No entanto, mesmo sendo um livro antigo, vários professores ainda o adotam. Acredito que possa ser útil até para a ANPEC se você estiver enjoado do Paul Meier.

Otimização dinâmica: por que não aprendi isso antes...

Em minhas primeiras semanas de mestrado, já foi possível perceber a grande defasagem existente nos cursos de Economia no nosso país. É evidente que a otimização dinâmica é muito útil para aqueles que querem fazer qualquer tipo de modelagem matemática em Economia (não importando a escola de pensamento).

O fato é que poucos cursos oferecem como eletiva/optativa alguma disciplina de equações diferenciais. Ou seja, não estou sequer pedindo que seja obrigatória, pois sei que muitos alunos não interessados na academia não querem ter um semestre terrível devido a isso. Portanto, não defendo a idéia de que alunos metodologicamente ou profissionalmente pouco interessados em matemática avançada sejam obrigados a cursar tais disciplinas. No entanto, para os que se interessam e querem sofrer menos em um curso de mestrado, deveria haver a opção. E não só em função do mestrado. Muito do que é feito e publicado em Economia lida com otimização dinâmica. Por exemplo, um modelo de Taylor para a trajetória ótima a fim de minimizar o custo social causado por inflação e desemprego, como nos mostrou o Prof. Chiappin.

Aqui na USP, aprenderemos otimização dinâmica em duas semanas e meia. Convenhamos, isso não é humanamente possível. Teremos apenas uma vaga idéia do que se trata: mais ou menos como tudo que estamos vendo ao longo do curso de verão. Isso que os professores são bons...