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Protecionismo na América Latina e na Ásia

Continuando a discussão do post passado e desses outros posts de outros blogs aqui e acolá, temos aí mais resultados novos. Recebi o seguinte email do meu amigo Thales, historiador econômico, que leu o último paper de Clemens e Williamson (2012) na Revista de História Económica/Journal of Iberian and Latin American Economic History. O artigo desses autores, que na minha opinião são insuspeitos (é só olhar o Lindert e Williamson (2003), em que os autores são em geral favoráveis à globalização), levanta dúvidas acerca do papel do livre comércio. A discussão é muito difícil e é preciso entender se América Latina e Ásia cresceram por conta do livre comércio ou apesar do livre comércio (como costuma dizer o Nye) - quando cresceram. 

Citando o Thales, em email pessoal para mim:
" [...] acho que o último paper do Williamson e do Clemens sobre America Latina pode te ajudar no debate sobre protecionismo. Está na última RHE:

'Latin America had the highest tariffs in the world before 1914; Asia had the lowest. Heavily protected Latin America also boasted some of the most explosive belle e´poque growth, while open Asia registered some of the least'.


Após a década de 1930, inverte-se, a Asia em média teve tarifas mais altas que a América Latina. Eles concluem com:


' [...] any claim that liberal trade policy lies at the heart of recent growth performance in these two regions must also explain why high tariffs did not dampen growth or industrialisation during the Latin American belle e´poque and why low tariffs did not ignite growth or industrialisation in Asia before 1914' .

É um bom debate."

Para outros talvez tenha havido excesso de proteção comercial, mesmo de acordo com gente da própria CEPAL! (é só ver Macario, Santiago. “Protectionism and industrialization in Latin America”. Economic Bulletin for Latin America. 9, 1964, p. 61-101.4). Sobre esse assunto, ver um post meu de 2008 que talvez contradiga este atual - para ver como a discussão é antiga por aqui.

Comentários

Henrique disse…
Poxa Kangão, não curti muito essa citação do e-mail do Thales não. Como tudo mais em economia, liberalização ao comércio internacional não é uma panaceia que resolverá todos os problemas e, assim, gerar automaticamente crescimento. Achei o argumento do semi contra factual fraquísimo.

Claro que existe protecionismo bem feito. Basta seguir a máxima do List, "seletivo e temporário". O problema é que, via de regra, critérios políticos determinam quem e por quanto tempo.

Apesar da lógica de implementação do protecionismo estar regredindo, vejo que o debate sobre protecionismo tá evoluindo. Tal qual política industrial, pelo menos à minha vista, tem se discutido menos o ponto chato que se protecionismo será feito ou não (tal qual política industrial, ele é inevitável), mas como ele será feito. Isso com certeza leva a um protecionismo mais Listiano...

Grande abraço
Thales disse…
Citações são sempre complicadas porque permitem todo o tipo de interpretação. Não tem contrafactual nessa parte porque não existe um argumento em uma citação. O argumento do artigo não é dizer “viu, teve tarifas mais altas e cresceu, logo...”. O Williamson e o Clemens não fariam isso, e acredito que ninguém que tenha lido o artigo vá interpretá-lo assim.
O desafio, assim como está no último parágrafo citado, é entender se os países cresceram por causa de uma política ou apesar dela, como o Thomas escreveu no início.
Novamente, “é um bom debate”, e não um posicionamento.
Thomas H. Kang disse…
É, temos os problemas de falha de governo e economia política da proteção comercial.
Acho que o Thales esclareceu o ponto, Henrique.
Abraço

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