sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Tarifas e crescimento no século XIX


O livro “Chutando a Escada” de Ha-Joon Chang (2002) ganhou grande destaque há alguns anos, pelo menos nos círculos acadêmicos brasileiros. Lembro-me de ter lido o livro e ficado um pouco decepcionado. Era sabido que os EUA e a própria Inglaterra tinham aplicado políticas protecionistas durante suas respectivas Revoluções Industriais. Mas em nenhum momento, pelo menos na minha avaliação, Chang mostra os mecanismos pelos quais essas políticas teriam surtido efeito. 

Resolvi recentemente, por conta da disciplina de Economia Internacional que ministro, pesquisar a bibliografia a respeito de tarifas e proteção na história. Boa parte da discussão de Chang se baseia nos dados de Bairoch (1989, 1993). Ou seja, Chang traz pouco de algo novo, embora ele tenha um texto bem escrito. Mas com base nesses dados e em outros, gente muito boa como o Kevin O’Rourke (Economic Journal, 2000) escreveu sobre tarifas e crescimento no século XIX, chamando atenção para a relação positiva entre eles e através de métodos econométricos (e com resultados bem robustos). Douglas Irwin (The World Economy, 2001) discute as tarifas nos EUA do século XIX e argumenta, de forma convincente, que as tarifas não ajudaram tanto o crescimento norte-americano ao analisar os mecanismos pelos quais tarifas poderiam ter influenciado o crescimento. Clemens e Williamson (Journal of Economic Growth, 2004) tem um belo paper levantando hipóteses (algumas das quais são testadas) para explicar porque a relação entre tarifas e crescimento mudou após 1950. Uma discussão muito mais rica, na minha opinião, do que a do Chang.

Não entendam aqui que sou contra a conclusão de Chang. Até acredito que, com mercados imperfeitos, a proteção pode ajudar certos setores a baixarem suas curvas de custos no longo prazo e impedir doenças holandesas. Sabemos dos exemplos de Japão e China no setor automobilístico (que parece ter dado certo) – assim como também do Brasil no setor de computadores (em que a proteção não deu certo),  embora ainda não haja avaliações definitivas a respeito de tudo isso. Estou agora lendo o "Trade and Poverty" do Jeff Williamson e ali ele esclarece a relação entre comércio, crescimento e pobreza. Meu problema com Chang é a falta de evidências contundentes no “Chutando a Escada” em particular. Pelo menos, amigos meus afirmam que o “Rethinking Development Economics” do Chang é um livro mais interessante.

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