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quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Voltando à produtividade marginal...

De fato, o amigo Stein do Rabiscos tem razão ao indiretamente dizer que eu fiz uma pequena confusão. Ele, de fato, não tocou na questão normativa. Ninguém aqui quer que os pobres continuem pobres.

Contudo, meu ponto principal é que a produtividade marginal é insuficiente para a explicar a distribuição porque não explica a razão para que diferentes agentes econômicos tenham produtividade tão diferenciada, aceitando-se que a hipótese esteja correta (no que não vejo problemas em princípio e o Stein deu boas razões para tal). Assim, o erro da economia neoclássica tradicional, a qual ignora o papel institucional, foi desdenhar questões distributivas sem explicar realmente as causas. Não estou falando do "dever ser" neste momento. Apenas acredito que é teoricamente incompleta a explicação tradicional.

Com o intuito de resolver isso, surgiram as idéias de capital humano, por exemplo, sem negar a igualdade entre preços de fatores e suas respectivas produtividades. A abordagem das capacitações, em princípio, não nega isso também. Nem por isso, fecha os olhos para a distribuição.

sábado, 20 de janeiro de 2007

Produtividade marginal explica pobreza?

Meu amigo Guilherme Stein do Rabiscos utilizou-se da velha função de produção neoclássica para justificar a remuneração dos fatores e, assim, explicar a distribuição de renda. Portanto, a ciência econômica não precisaria se preocupar com a distribuição. Tenho algumas considerações a fazer em relação a isso:

1) A minha ignorância não permite que eu saiba se essa tese é verificável (positivistas lógicos) ou falseável (Popper)... acho que ainda não é tão simples medir produtividade marginal, mas...

2) Aceitemos que os fatores recebem segundo sua contribuição marginal. Isso explica apenas uma parte do problema. A questão é: por que tantos agentes econômicos ao redor do mundo não contribuem mais? Alguns dirão que é devido à preguiça. Não obstante os preguiçosos existirem no mundo, essa não é uma explicação razoável para a pérfida distribuição de renda que temos hoje. Inclusive, em países pobres, seriam todos preguiçosos? Desconsiderando a preguiça, poderíamos dizer que a pouca acumulcação de capital humano pode ser responsável por isso. Mas por que afinal as pessoas não se educam? Por que não querem?

3) Apenas liberdades formais não são suficientes, as pessoas precisam de liberdades substantivas, ou seja, precisam ter oportunidades para que possam escolher. O buraco é mais embaixo. Sem oportunidades, não há como melhorar a condição delas. Como se resolve isso?

Talvez os liberais digam que é só liberar que tudo florescerá. A questão é que muitas pessoas ainda estão longe do acesso aos mercados. Antes do mercado, há as instituições. Para mim, parece que a explicação da contribuição marginal dos fatores é apenas parte do problema resolvido. No seu caráter estático, ela não toca no principal.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Pobreza e pensamento econômico

A ciência econômica definiu e redefiniu ao longo do tempo seu objeto de estudo. Adam Smith queria entender a riqueza das nações. Ricardo, pouco após, afirmou que o objetivo da economia era entender como a sociedade produzia e distribuia sua riqueza entre as classes sociais. O surgimento do neoclassicismo, na segunda metade do século XIX, levou a uma radical mudança, transformando a Economia no estudo da alocação eficiente de recursos escassos. Diante de todas essas definições, poucas de fato chamaram atenção direta para a pobreza.

De fato, o nascimento da Economia está relacionada ao estudo da riqueza, assunto interessante na Grã-Bretanha pós-Revolução Industrial. Ao chamar atenção para a distribuição, Ricardo chegou mais perto, mas não mencionou diretamente a pobreza. É estranho pensar que uma ciência preocupada com o processo de criação de riqueza tenha negligenciado o oposto. Marx falou da pauperização da classe trabalhadora, Marshall descreveu os terríveis problemas pelos quais os pobres passam. No entanto, pouco se avançou no estudo direto da pobreza, tornando-se apenas em falta de riqueza.

Ainda hoje, os livros de micro e macroeconomia pouco mencionam acerca desse fenômeno. A busca da eficiência é objetivo constante da microeconomia, com algumas notas acerca de bem-estar, é verdade, mas que é pouco, perto do valor dado à eficiência. Mesmo os desenvolvimentistas pouco sabiam de pobreza: pensavam apenas que ela seria superada com o crescimento econômico acelerado pelo Estado, estratégia que se mostrou equivocada no que concerne à pobreza. A maioria dos economistas até hoje pouco sabe do assunto

Talvez por isso, a abordagem das capacitações de Amartya Sen esteja ganhando adeptos atualmente. Com o enfoque nas liberdades substantivas, é possível pensar diretamente em pobreza, e não nela apenas como o oposto de riqueza. Não tenho condições de avaliar essa nova corrente metodologicamente, mas a julgo promissora justamente por essa perspectiva que une conceitos filosóficos à pragmatismo. Ao destacar a pobreza e estudá-la diretamente, é mais simples fazer políticas que realmente sejam relevantes, suprindo carências fundamentais para o desenvolvimento do ser humano.

Há muito uma perspectiva como essa deveria ter sido incorporada à nossa ciência, não significando isso o desprezo da eficiência, o que se constituiria um pecado similar ao que a Economia fez até hoje com a pobreza.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

mais sobre a USP

Enquanto os corpos docente e discente de centros como a FGV-RJ e a PUC-Rio são mais homogêneos teoricamente, a USP tem mais diversidade. Pouco a pouco, descubro a linha teórica de meus colegas: como na UFRGS, temos de marxistas até novo-clássicos.

A mesma coisa de sempre: será que temos condições suficientes para tomar uma posição firme diante do parco conhecimento que temos? Não apenas no nivel teórico carecemos de conhecimento, como pouco sabemos sobre os caminhos da ciência econômica no mundo. Sabemos que existe um mainstream. Evidentemente, alguma posição tomamos, pelo menos uma inclinação sempre existe, pelo menos para alguns assuntos pontuais. Entretanto, me parece que a rotulação é um grande exagero.

Mas, para aqueles que decidem defender uma linha de pensamento mais rapidamente, é ao menos mais fácil escolher o direcionamento de sua dissertação de mestrado. Aqui na USP, já se recomenda que o aluno escolha seu orientador o mais rápido possível e é obrigatório que ele curse a disciplina "Seminário de tese".

Enquanto isso, tento estudar estatística com a péssima base que tive e com mais dificuldade do que alguns colegas. Se eu não me der bem em econometria, vou ter que achar alternativas.

domingo, 7 de janeiro de 2007

Um pouco sobre garoa e análise

Como já disse pra alguns, não houve dia em que não tenha caído alguma gota de água. Nesses meses, a coisa vai ser sempre assim em São Paulo. Bem, isso é apenas uma manifestação de frustração de quem deixou roupas quase secas se molharem.

Na USP é o mesmo drama: rastros embarrados, chuva o tempo todo, sofrimento pra ir até o bandejão... Ontem, sábado, até o ônibus circular da USP sumiu e eu tive que subir todo o percurso até o portão de pedestres a pé e, é claro, na chuva. No domingo, após o sol raiar no meio da tarde, peguei um "toró" enquanto esperava o ônibus.

A chuva, além de todos os incômodos, deixa-me em estado letárgico e não tenho vontade alguma de estudar. Desculpa esfarrapada, eu sei.

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A análise é preocupante. Meu ex-colega Bartels (do IME), consolou-me ao dizer que entende minhas dificuldades, uma vez que já estudou análise. Definir que o conjunto dos números reais (R) é um corpo é fácil: se x, y є R, sabemos que x + y e xy também pertencem a R. Além disso, R é um corpo ordenado, uma vez que obedece a duas propriedades: (a) x,y є R+, então x+y є R e xy є R; (b) se x є R, ou x=0, ou x є R+ ou x є R-. E ainda, se x é menor que y, então y-x є R+.

Bem, estou estudando usando os pobres leitores. Acho que isso vai diminuir minha participação no mercado de blogs.

Mas, por último, saibam que R é um corpo que, além de ordenado, é completo. Ou seja, todo conjunto não-vazio limitado superiormente X (contido em R) possui supremo b=sup X є R.

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Pra quem não me agüenta mais, abraços e beijos. Prometo que a próxima será melhor.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

USP: primeiras impressões

Agora já estou acomodado em São Paulo, morando em um pensionato que fica a 10 minutos de um dos portões de pedestres da USP. Nessa cidade, tudo é muito longe: morar perto da faculdade é fundamental.

Mas nem morar perto do portão significa estar perto de onde se estuda. A FEA, Faculdade de Economia e Administração, fica situada um pouco longe do portão a que me referi. Uma caminhada de 20 minutos pelo caminho cheio de árvores resolve, ou então o ônibus circular gratuito. Ou seja, o campus da USP é enorme.

A FEA tem cinco prédios, coisa absurda pra quem estudava no único prédio da FCE/UFRGS. Conhecemos os locais em que podemos utilizar computadores e estudar. Estamos tendo duas disciplinas do chamado curso de verão pela manhã: Análise matemática, com o prof. Gerson por enquanto, e Estatística, com a prof. Lúcia. O ritmo é frenético: nossas aulas começaram quarta. Na quarta, não sentimos necessidade de estudar. Já na quinta, não entendemos muito da aula de análise. Todo mundo resolveu começar a abrir os livros. Enquanto em matemática, a análise é algo novo; estatística parece consistir em uma revisão do que deveríamos saber e de excelente qualidade. Estou mais preocupado com análise do que com estatística.

Essas são as impressões resumidas de um novo aluno do mestrado depois do seu segundo dia de aula.