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Generalizações e Crescimento: Instituições ou Geografia?

Ciência é feita de generalizações. O problema, segundo alguns, é até que ponto podemos generalizar sem perder poder explicativo demais. Em Economia, a questão do crescimento econômico de longo prazo é uma das mais antigas e ainda uma das mais controversas. Saber os fatores que levam ao crescimento sustentado é um debate que continua até hoje, principalmente com as contribuições cruciais do institucionalismo. Convém, no entanto, chamarmos atenção para possíveis exageros: instituições passaram a ser explicação para tudo. É nisso que reside o perigo. Engerman e Sokoloff (1997, 2002), no debate sobre o crescimento econômico no Novo Mundo, afirmam que a dotação inicial de fatores foi fundamental para determinar o padrão de crescimento das diferentes regiões. A América do Norte, com poucos indígenas e clima parecido com o europeu, foi alvo de amplo povoamento, gerando instituições mais democráticas. No resto da América, instituições mais elitistas foram criadas devido à produção de mercadori...

Lutero, Kant e Liberdade

Ao longo da história do pensamento, diversos conceitos de liberdade surgiram e tornaram-se importantes. Diferentemente das tradições anteriores, o protestantismo luterano, por exemplo, formulou outro conceito de liberdade. Segundo Lutero em seu pequeno livreto “Da Liberdade Cristã”, o homem se tornava livre através da fé em Cristo, embora se tornasse escravo de todos pelo amor. Não obstante a paradoxal idéia luterana provenha da influência agostiniana e, portanto, neoplatônica, que ele recebera como monge, Kant parece ter bebido dessa fonte também. Kant era de família protestante de tradição pietista. O pietismo foi um movimento de avivamento espiritual que surgiu na Europa e perpassou diferentes tradições protestantes. Os pietistas valorizavam muito o estudo das Escrituras e a educação. Isso explica o fato de que muitos renomados intelectuais germânicos eram oriundos de famílias pietistas. Exemplos como Kant e Goethe já são suficientes. A visão religiosa pietista herdada por Kant...

"Acaso" não é uma resposta tão boa assim

Criticando a concepção materialista da medicina em 1949, o psiquiatra cristão suíço Paul Tournier escreve o seguinte acerca dos defensores de que o ser humano é simplesmente uma máquina: "Segundo essa perspectiva, o homem assemelha-se a uma máquina ou, mais precisamente, a um conjunto de máquinas. Assim como um automóvel é um conjunto de diversas máquinas, cilindros, gerador, carburador, radiador, diferencial, etc., o homem seria um complexo conjunto de diferentes máquinas: dos sistemas digestivo, respiratório, nervoso, urinário, etc., solidários entre si, porém independentes. O ideal da ciência, para melhor compreender o funcionamento de cada uma dessas máquinas, é isolá-las do conjunto e estudá-las em si mesmas. Cada uma delas será reduzida então a fenômenos físico-químicos que não têm nada do que seja propriamente vivo e humano. [...] Uma única diferença subsiste entre a máquina humana e a máquina industrial, com a qual é comparada, e que faz com que a primeira (vale o parado...

Igualitarismo símio

Comecei a ler um pequeno livro do famoso cientista político Robert A. Dahl chamado "On Political Equality" (New Haven: Yale University Press, 2006). Após discorrer brevemente sobre Hume, Kant e Rawls, Dahl detalha-nos o seguinte experimento feito com macacos. Seria uma pista das origens das nossas noções de justiça e igualdade, as quais estariam além da razão: Female capuchin monkeys were taught to exchange tokens - granite pebbles - with the experimenter in return for grapes and cucumbers. Previous experiments had shown that in 90 percent of the trials the female monkeys preferred grapes to cucumber slices, and that in less than 5 percent of the cases they failed to hand back the token in exchange for the food. Two monkeys were than placed in their cages in pairs so that each could see the other and observe which of the two rewards the other received. The experimenters observed that if one monkey was given a cucumber in return for her pebble but saw that the other received m...

Ética e realidade II

Em toda a discussão ética que se travou neste blog, é evidente que sou cético em relação a um sistema a priori de determinação daquilo que seria certo ou errado. Utilizando argumentos conseqüencialistas, tentei racionalizar o ponto a meu favor. No entanto, não vou esconder o raciocínio teológico que me orienta um pouco nessas questões. O ponto a ser criticado é a razão prática kantiana, que influencia um pouco nossos amigos libertários. Embora eles não tratem de mentiras, o ponto é o imperativo categórico "pessoas são fins e não meios". Se Kant, partindo do principio da veracidade, chega à grotesca conclusão de que eu deveria responder com sinceridade também ao assassino que invadiu minha casa em perseguição a um amigo meu, neste caso a autojustificação da consciência, exacerbada até a insolência ultrajante, bloqueia a ação responsável. Se responsabilidade é a resposta global e condizente com a realidade que o ser humano dá ao chamado de Deus e do próximo, aqui transparece cl...

Tiranias (2): Coréia do Norte

Não poderia deixar de falar de meus queridos parentes. Sob a ditadura de Kim Il-Sung e agora de seu filho Kim Jong-Il, a Coréia do Norte continua um dos países mais fechados do mundo. O líder atual coleciona cavalos e possui uma piscina com ondas artificiais em sua residência. Em contraste a isso, acredito que muitos parentes meus ainda estejam lá, caso não tenham sido mortos pela repressão política ou por uma das crises de desabastecimento. Muitas famílias, como a minha, continuam separadas desde a época da guerra da Coréia (1950-1953), que foi um dos primeiros episódios trágicos da Guerra Fria. Essa guerra foi responsável pela demarcação do paralelo 38 como fronteira entre os dois novos países criados: a capitalista Coréia do Sul, de influência norte-americana, e a comunista Coréia do Norte, com apoio da União Soviética e da China. Enquanto a Coréia do Sul tem empresas como Samsung, LG e Hyundai, a Coréia do Norte produz ogivas nucleares. Um bom começo para dar risadas sobre a Coréi...

Tiranias (1): Myanmar

Pesquisando acerca de tiranias ao redor do mundo, exporei aqui alguns ilustres desconhecidos. Neste ponto, tanto libertários (que andaram freqüentando bastantes este blog) quanto democratas como eu, concordam. Poucos sabem que Myanmar, também chamado de Burma, é um país do sudeste asiático governado por uma junta militar. Para ver a extensão da opressão, visitar o site da BBC pode ser uma solução: Burma, also known as Myanmar, is ruled by a military junta which suppresses almost all dissent and wields absolute power in the face of international condemnation and sanctions. The generals and the army stand accused of gross human rights abuses, including the forcible relocation of civilians and the widespread use of forced labour, which includes children.