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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

"Acaso" não é uma resposta tão boa assim

Criticando a concepção materialista da medicina em 1949, o psiquiatra cristão suíço Paul Tournier escreve o seguinte acerca dos defensores de que o ser humano é simplesmente uma máquina:

"Segundo essa perspectiva, o homem assemelha-se a uma máquina ou, mais precisamente, a um conjunto de máquinas. Assim como um automóvel é um conjunto de diversas máquinas, cilindros, gerador, carburador, radiador, diferencial, etc., o homem seria um complexo conjunto de diferentes máquinas: dos sistemas digestivo, respiratório, nervoso, urinário, etc., solidários entre si, porém independentes. O ideal da ciência, para melhor compreender o funcionamento de cada uma dessas máquinas, é isolá-las do conjunto e estudá-las em si mesmas. Cada uma delas será reduzida então a fenômenos físico-químicos que não têm nada do que seja propriamente vivo e humano.

[...] Uma única diferença subsiste entre a máquina humana e a máquina industrial, com a qual é comparada, e que faz com que a primeira (vale o paradoxo) seja mais materialista do que a segunda: no caso do automóvel, o agrupamento das diferentes peças foi concebido por um engenheiro, tendo em vista o rendimento do conjunto; no homem, ao contrário, segundo a explicação científica clássica, a colocação dos diversos órgãos no organismo humano, bem como suas diversas funções físico-químicas, devem-se ao acaso." (p. 44)



Como nada sei de medicina, não sei até que ponto continua valendo essa concepção médica. Mas o exemplo de Tournier mostra que creditar o a existência do ser humano ao acaso talvez não seja tão óbvio assim.


Tournier, Paul. Mitos e Neuroses: desarmonia da vida moderna. São Paulo: ABU Editora e Viçosa: Ultimato, 2002.

3 comentários:

HenriqueUSP disse...

Bem, estou certo que eu não sou a pessoa mais indicada (nem a mais preparada) para comentar um post como esse, mas vamos lá. Acredito que a discussão não está bem colocada, uma concepção materialista (ou mecanicista) e a idéia de um suposto "acaso" por trás da origem do ser humano são coisas distintas (não é necessário ser mecanicista para defender esta tese). Mas, aproveitando o gancho, não parece muito claro para mim o que significa a tal tese do "acaso". As teorias evolucionistas em nada defendem que o ser humano seja puro e simples efeito do acaso. Apesar de ser afetada pelas mutações aleatórias sofridas, a adaptação ao ambiente é condição fundamental para a ocorrência da seleção natural. Do ponto de vista darwiniano, não se trata de puro acaso (ou mera loteria genética), mas de um processo de seleção e adaptação às condições ambientais vigentes. Fora discussões mais técnicas do mecanismo evolutivo (que iriam além do meu conhecimento), a questão que se coloca, na minha opinião, é: a ciência hoje possui tal status em nossa sociedade que as crenças religiosas precisam de respaldo científico ? Thomas, o que acha do seguinte texto: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u368285.shtml ?

Thomas H. Kang disse...

Henrique,

Acho que concordo contigo que são questões distintas. Creio que o autor na realidade apenas estava reproduzindo idéias bastante em voga na sua época: materialismo e acaso combinados.

Não estamos aqui falando especificamente da teoria evolucionista, como tu sabe bem. Tournier é psiquiatra, o negócio dele não é biologia evolucionária. Lembro-me vagamente de que biólogos evolucionários como Dawkins ressaltam o papel do acaso, embora não se trate de uma loteria genética completa. E sabemos que Dawkins é ateu e dos mais panfletários.

Tinha lido já o texto do Schwatzman. Mais tarde comento.

Guilherme Stein disse...

Dizer que o homem é apenas a soma dos diversos sistemas que o compõe é ou ingenuidade ou desonestidade intelectual.

Hoje em dia criou-se a perigosa noção de que a metafísica materialista é corroborada pelas descobertas científicas.

Embora a teoria da evolução consiga explicar boa parte do desenvolvimento das espécies, inclusive a evolução por qual nós passamos, existem três perguntas que ainda não tem respostas:

1) Qual a origem da vida?

2) De onde vem a nossa consciência?

3) De onde vem o livre-arbitrio e a moral que dele é necesseria?

Segundo a metafísica materialista, a consciência e o livre-arbritrio devem, necessariamente, ter uma explicação material. A liberdade, para os ateus, é uma ilusão.

ENTRETANTO, até hoje não existe nenhuma evidência ou teoria que explica a consciência e o livre-arbítrio como tendo causas materiais. Portanto, a idéia de que que existem causas materiais se baseia apenas na FÉ na metafísica materialista.

O grande paradoxo materialista é intuir, por causas indiretas, a negação de si mesmo, o próprio sujeito que intuiu em primeiro lugar. Ou seja, segundo Schopenauer, o materialista "sempre se esquece de si mesmo".