Pular para o conteúdo principal

Radicalismos

Radicalismos podem conter uma série de equívocos: a principal delas é a incapacidade de ver que outros podem ter um pouco de razão. E geralmente, embora seja papo de boteco, pessoas radicais em um aspecto da vida (digamos, posição política), costumam ser também ser radicais em outras áreas da vida.

A despeito das possíveis explicações genéticas e sociológicas para explicar os radicalismos, com todas as suas ramificações psicológicas, o radicalismo pode conter algo de bom. O seu grande defeito, a incapacidade de perceber as razões que motivam o outro lado, também guarda a virtude: se eles são tão radicais, em algum ponto eles podem estar certos.

Na questão política, o radicalismo libertário - apesar de todo seu exagero quanto ao papel da opressão estatal, em boa parte por conta dos absurdos traumas gerados pelas ditaduras totalitárias do século XX, mostra que a liberdade de consciência, por exemplo, é um aspecto fundamental a ser respeitado. O indivíduo não pode ser esquecido. Por outro lado, o radicalismo socialista/comunista mostra que existe de algo fundamentalmente errado em sociedades extremamente individualistas, que não protegem os mais vulneráveis e que geram desigualdades políticas e econômicas. A comunidade também não pode ser ignorada. 

As soluções advogadas pelos radicais justamente cometem erros por desconsiderarem um desses lados. Uma sociedade com Estado mínimo tende a deixar tudo ocorrer naturalmente - onde obviamente os fortes terão vantagens sobre os fracos. A existência de um Estado maior não garante a nivelação dos fracos com os fortes, mas nesse caso a questão não é se deve haver Estado, mas sim que tipo de Estado deve existir. Por outro lado, é evidente que um Estado totalitário ou autoritário passa por cima de liberdades individuais, que foram sendo paulatinamente conquistadas desde a Reforma, passando pelas revoluções liberais na França e nos Estados Unidos. O Estado excessivamente grande é também uma ilusão como solucionador dos problemas: oprimir com o poder econômico é suficientemente grotesco, quanto mais com o poder político de jure nas mãos. O Estado, nesse caso, não deixa de ser uma aplicação de uma lógica de selva. Estado ou Mercado não são panaceias. Esse conflito é um mito.

Lendas liberais ou socialistas continuam inspirando pessoas. Não é ilegítimo. Mas muitos deles, no afã de fazer prevalecer suas visões, permitiram derramamento de sangue. Às vezes me assusto quando esses estão acima de exemplos como Gandhi ou Martin Luther King, pessoas na minha opinião, muito mais inspiradoras.

Comentários

Humberto disse…
Não estou certo sobre ver a Reforma como iniciadora dos processos de expansão das liberdades; Talvez tenha sido por ela começar um novo tipo de vínculo entre Estado e Igreja, menos interferente; O norte da Europa teve bem mas sorte do que o sul neste aspecto; Mas mesmo nesse processo de assegurar liberdade religiosa e laicidade estatal, requereu um organismo na sociedade agindo com poder de polícia sobre os outros.
Anônimo disse…
Excelente texto !!!
Thomas H. Kang disse…
Oi Humberto,
Acho que sim. Não seria exatamente uma virtude da Reforma e admito certa interferência de meu protestantismo no que escrevi. Talvez, como sugeriste, talvez a Reforma tenha dado essa ignição gerando consequências não intencionais.

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.
O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.
O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero t…

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas.

Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre).

Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55), lis…

Exogeneidade em séries de tempo

Mais um texto de quem tem prova de econometria na segunda-feira. Quem não é economista não deve de forma alguma ler esse texto. Não digam que eu não avisei.

Quando falamos de exogeneidade na econometria clássica, estamos falando da chamada exogeneidade "estrita", que nada mais consiste no fato de uma variável x não ser correlacionada com qualquer erro. Nas séries de tempo, no entanto, trabalha-se com três tipos de exogeneidade, dependendo do fim proposto.

Na busca de resultados em inferência estatística (modos de estimar parâmetros e formulação de testes de hipótese), utiliza-se, em séries de tempo, o conceito de exogeneidade fraca. Para isso, precisamos 'fatorar a função de distribuição em duas partes: distribuição condicional e distribuição marginal . Define-se que uma variável é fracamente exógena em relação aos parâmetros de interesse se, e somente se, houver um certo tipo de reparametrização e atender duas condições: a variável de interesse precisa ser função de apena…