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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Radicalismos

Radicalismos podem conter uma série de equívocos: a principal delas é a incapacidade de ver que outros podem ter um pouco de razão. E geralmente, embora seja papo de boteco, pessoas radicais em um aspecto da vida (digamos, posição política), costumam ser também ser radicais em outras áreas da vida.

A despeito das possíveis explicações genéticas e sociológicas para explicar os radicalismos, com todas as suas ramificações psicológicas, o radicalismo pode conter algo de bom. O seu grande defeito, a incapacidade de perceber as razões que motivam o outro lado, também guarda a virtude: se eles são tão radicais, em algum ponto eles podem estar certos.

Na questão política, o radicalismo libertário - apesar de todo seu exagero quanto ao papel da opressão estatal, em boa parte por conta dos absurdos traumas gerados pelas ditaduras totalitárias do século XX, mostra que a liberdade de consciência, por exemplo, é um aspecto fundamental a ser respeitado. O indivíduo não pode ser esquecido. Por outro lado, o radicalismo socialista/comunista mostra que existe de algo fundamentalmente errado em sociedades extremamente individualistas, que não protegem os mais vulneráveis e que geram desigualdades políticas e econômicas. A comunidade também não pode ser ignorada. 

As soluções advogadas pelos radicais justamente cometem erros por desconsiderarem um desses lados. Uma sociedade com Estado mínimo tende a deixar tudo ocorrer naturalmente - onde obviamente os fortes terão vantagens sobre os fracos. A existência de um Estado maior não garante a nivelação dos fracos com os fortes, mas nesse caso a questão não é se deve haver Estado, mas sim que tipo de Estado deve existir. Por outro lado, é evidente que um Estado totalitário ou autoritário passa por cima de liberdades individuais, que foram sendo paulatinamente conquistadas desde a Reforma, passando pelas revoluções liberais na França e nos Estados Unidos. O Estado excessivamente grande é também uma ilusão como solucionador dos problemas: oprimir com o poder econômico é suficientemente grotesco, quanto mais com o poder político de jure nas mãos. O Estado, nesse caso, não deixa de ser uma aplicação de uma lógica de selva. Estado ou Mercado não são panaceias. Esse conflito é um mito.

Lendas liberais ou socialistas continuam inspirando pessoas. Não é ilegítimo. Mas muitos deles, no afã de fazer prevalecer suas visões, permitiram derramamento de sangue. Às vezes me assusto quando esses estão acima de exemplos como Gandhi ou Martin Luther King, pessoas na minha opinião, muito mais inspiradoras.

3 comentários:

Humberto disse...

Não estou certo sobre ver a Reforma como iniciadora dos processos de expansão das liberdades; Talvez tenha sido por ela começar um novo tipo de vínculo entre Estado e Igreja, menos interferente; O norte da Europa teve bem mas sorte do que o sul neste aspecto; Mas mesmo nesse processo de assegurar liberdade religiosa e laicidade estatal, requereu um organismo na sociedade agindo com poder de polícia sobre os outros.

Anônimo disse...

Excelente texto !!!

Thomas H. Kang disse...

Oi Humberto,
Acho que sim. Não seria exatamente uma virtude da Reforma e admito certa interferência de meu protestantismo no que escrevi. Talvez, como sugeriste, talvez a Reforma tenha dado essa ignição gerando consequências não intencionais.