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quarta-feira, 27 de março de 2013

Protecionismo acadêmico


Meu amigo Thales chamou atenção para a seguinte reportagem da Veja (não é uma reportagem polêmica da Veja, calma...): segundo a revista, a Universidade de São Paulo (USP) pretende abrir escritórios em Londres, Boston e Cingapura. A ideia é facilitar o intercâmbio acadêmico, tanto de alunos quanto professores.

Acredito que a ideia é correta, mesmo que devamos pensar nos custos incorridos. Mesmo que os custos sejam altos, acredito que o contato com o exterior, mais do que proporcionar agradáveis viagens a alunos e professores, é fundamental para termos pesquisa de ponta no Brasil. Evidentemente, pesquisa de ponta depende de recursos, mas uma forma de reduzirmos o gap na liderança científica é estarmos em contato com o exterior.

Em particular na economia (e nas ciências sociais em geral), o intercâmbio com o exterior é ainda mais necessário. Por décadas tivemos uma academia que, voltada para si mesma, pouco inovava - ou, se inovava, ignorava o que o resto do mundo fazia. Em parte, até barreiras linguísticas foram problemas - parte da academia brasileira nem ao menos tem fluência no inglês. Acompanhar a literatura na fronteira então fica fora de questão, à exceção de alguns poucos que puderam estudar no exterior ou lutaram contra as estruturas.

Se isso era reflexo do alto grau de fechamento da economia brasileira, ainda é uma tese a ser desenvolvida. Assim como na nossa economia era possível termos uma indústria voltada para o mercado interno, era possível na nossa academia publicar artigos e livros apenas para o público brasileiro aproveitando-se das economias de escala de termos um país populoso. Também como na nossa economia, o contato restrito com o exterior impedia inovações de ponta, aproveitando pouco as externalidades de conhecimento  que possibilitariam avanços maiores. Pessoas muito inteligentes talvez tenham deixado de fazer maiores contribuições à literatura por conta dessa estrutura que dava poucos incentivos.

Esta é apenas uma reflexão aparentemente não-testável, mas não é um discurso anti-protecionismo e diminuidora de nossa capacidade intelectual. Meu posicionamento, assim como o de muitos estudos, é de que a economia brasileira era fechada demais. Talvez ainda seja. E assim como nossa economia, a academia brasileira certamente ainda é fechada demais. Isso nada tem a ver com ortodoxia ou heterodoxia. Enquanto não tivermos perspectivas qualificadas de fora do nosso meio, seja de outras formas de pensamento ou outros países e culturas, é impensável avançarmos cientificamente como um todo. O pensamento torna-se viciado e redundante, cria-se uma seita cujas contribuições tornam-se limitadas. Sen mostrou isso muito bem nesse texto, em que ele comenta o avanço da matemática e a relação entre indianos, árabes e europeus. 

Por todos esses motivos, elogio a iniciativa da USP em estreitar relações com o exterior. Acho que isso inclusive valoriza meu diploma. 

Um comentário:

Humberto disse...

O Sen viajou. Os algarismos não foram contribuições árabes, mas sim persas. Foi um iraniano chamado Kwarizmi (ou al-kuarism, em árabe) quem concebeu o sistema de algarismos usado até hj. Se quisermos ser rigorosos, deveríamos dizer algarismos indo-iranianos
. Mas como a obra de Kwarizmi chegou na Europa escrita em árabe, ficou esse negócio de falar "algarismos arábicos"