Pular para o conteúdo principal

Salário mínimo gera desemprego?

A polêmica está ocorrendo nos Estados Unidos: Krugman afirmou que não há evidência de que a política de salário mínimo afete o nível de emprego, baseado nesse survey. De fato, a questão não é fechada, mas um bocado de gente argumentou sobre os problemas da política de salário mínimo, incluindo o Mankiw e o Steve Landsburg.

No facebook, eu iniciei essa discussão, levantando reações interessantes do Guilherme Stein, do Felipe Garcia, do Ely Mattos e também do Prof. Sabino. Resumindo a discussão, desde os trabalhos de Card e Krueger, suspeita-se que haja pouco efeito do salário mínimo sobre o nível de emprego, mas outros estudos encontram resultados diferentes. A questão é empírica, uma vez que a teoria pode gerar diversos resultados, como bem coloca o Hugo Jales na introdução de um trabalho seu sobre os efeitos da política de salário mínimo no Brasil:

"In a simple one-sector competitive markets model economic theory predicts that there will be some unemployment effects as long as the minimum wage is higher than the market clearing wage. If there is some market power from the employer, then the introduction of minimum wage can lead to both employment and wage increases. In an economy with a large informal sector, where some employers do not comply with the minimum wage legislation, minimum wage might not generate unemployment effects even in the absence of market power from the employer. [...] the task of understanding the effects of minimum wage becomes mostly empirical".

Como professor, acho importante mencionar os estudos existentes acerca do tópico, ao invés de somente mostrar a teoria de políticas de preços no modelo básico de oferta e demanda (isso evidentemente deve ser mostrado, mas não apenas). É fundamental que os alunos entendam as restrições de um modelo de equilíbrio parcial em concorrência perfeita. Pode muito bem ser verdade que o salário mínimo cause desemprego, como pode ser que não. Ademais, pode ser que o salário mínimo esteja abaixo do salário de equilíbrio do mercado de trabalho. De qualquer maneira, há outras questões interessantes relacionadas:

  • mesmo que haja aumento de desemprego, devemos pensar cuidadosamente na prescrição de política. Se a redução da desigualdade salarial for desejada, pode-se pensar em mecanismos compensatórios.
  • pode ser que outras políticas (como as transferências de renda) sejam melhores (em termos de eficiência e eficácia) no combate à pobreza e à desigualdade do que a política de salário mínimo. 

Talvez essas sejam questões mais importantes do que a inicial: se salário mínimo gera ou não desemprego. 


Comentários

Thales disse…
Para contribuir:

If the long-run effect of minimum wages is substantial, why then don’t we see this effect? Isaac argues it is because there have been very few long-run changes in the minimum wage in the United States, so evidence on their effects is scant.
Fonte: http://blog.supplysideliberal.com/post/43482772288/isaac-sorkin-dont-be-too-reassured-by-small-short-run
Chutando a Lata disse…
Questão relevante para o Brasil. Por aqui o salário mínimo , principalmente na gestão petista, tem recebido uma boa dose de estímulo e pouco impacto no emprego temos percebido. Numa primeira avaliação, considero a política do salário mínimo muito ligada à questão da exploração escancarada. Há, no Brasil, uma certa hipocrisia no debate sobre escravidão e trabalho desumano. Para piorar, temos observado um inchaço nas cidades, acolhendo "paraíbas" de todos os gêneros, em degradação urbana acelerada. De outro lado, temos a informalidade que acolhe os desamparados. Nesta salada de eventos, me ocorre considerar que o salário efetivo de mercado pode não estar bem definido e a política de reajuste dos salários mínimos não ter, de fato, efeito prático. De qualquer forma, creio que temos muito que pesquisar para chegar a um entendimento pleno da questão.

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.
O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.
O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero t…

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas.

Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre).

Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55), lis…

A busca pelo ótimo de Pareto

Depois de um jogo entre São Paulo e Palmeiras, nada melhor do que uma conversa sobre Economia. Com uma caminhada de 45 minutos pela frente, eu e meu colega Richard, um especialista em Escola Austríaca e torcedor do porco, discutimos inúmeros assuntos, inclusive o famoso ótimo de Pareto.

O ótimo de Pareto (Vilfredo Pareto foi economista e sociólogo italiano da Escola de Lausanne) é um conceito fundamental na ciência econômica. Em muitas análises, busca-se chegar nesse ótimo, o que acontece quando melhorias de Pareto não são mais possíveis. Uma melhoria de Pareto é a melhora na situação de um sem piorar a dos outros. Quando se exaurem todas as melhorias paretianas, estamos no ótimo: só é possível melhorar a situação de alguém piorando a de outrem.

A pergunta é: embora o ótimo de Pareto esteja em muitas análises na Economia do Bem-Estar, não é esse ótimo um juízo de valor arbitrário?

Evidentemente, a resposta é sim. No entanto, sabemos que poucas pessoas achariam (em princípio) ruim melhora…