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E as distorções do Qualis continuam

Recebi um parecer de uma revista estrangeira da área de Economia, qualificada como B1 pelo Qualis da CAPES. Na sua área específica, ela é considerada uma revista top: no caso, a Journal of Economic History. No entanto, sua nota no Qualis é similar às revistas brasileiras de maior nota. Meu ponto é que as distorções do Qualis da CAPES ainda persistem e talvez tenham sido até acentuadas.

De maneira alguma questiono a qualidade das revistas brasileiras. Acho que as revistas brasileiras hoje qualificadas como B1 são boas revistas, a saber: Revista Brasileira de Economia, Estudos Econômicos, Revista de Economia Política e Revista da ANPEC. Eu mesmo tenho artigos publicados em duas dessas revistas. No entanto, ao receber os pareceres da revista estrangeira que mencionei no parágrafo anterior, percebi o tamanho do abismo que ainda separa as publicações brasileiras das revistas estrangeiras top. Isso não é demérito das revistas brasileiras, é apenas uma questão de concorrência: essas revistas estrangeiras têm muito mais impacto do que as nossas e são procuradas pelos melhores acadêmicos do mundo. A dificuldade de publicar nessas revistas estrangeiras é absurda, os pareceres chegam a ser impressionantes de tão qualificados. O aprendizado que obtive lendo esses pareceres foi enorme, apesar da inegável frustração de receber uma rejeição (embora fosse uma rejeição esperada). Tenho também uma experiência anterior com outra revista estrangeira qualificada como B2. Um patente absurdo a Economic History Review ser apenas B2, onde encontramos artigos clássicos da história econômica internacional.

Não estou aqui pregando que as revistas brasileiras não devem ser B1. Mas se isso acontecer, diversas revistas estrangeiras precisam subir de ranking. Publicar em, por exemplo, Journal of Economic History, Economic Development and Cultural Change, Journal of Latin American Studies, Economic History Review ou World Development é muito mais trabalhoso e pouco recompensado pelo nosso sistema Qualis. 

Emito essa opinião mesmo tendo respeito pela comissão responsável pela definição do Qualis, que contou com gente muito qualificada. Eles devem ter mais argumentos para sua escolha, mas a minha experiência, ainda que pequena, me passa a impressão de que o sistema distorce bastante os incentivos. Não acho que o fortalecimento de revistas nacionais, cujo conteúdo é majoritariamente em português, seja o objetivo que devemos perseguir. A necessidade de dialogar com o resto do mundo acadêmico é imperiosa e, portanto, políticas protecionistas a revistas nacionais não se justificam. Isso não melhora o nível de nossa academia e não se trata aqui de um argumento neoliberal. Quando estivermos academicamente no nível deles, podemos pensar em revistas brasileiras no cenário internacional - mas o caminho ainda é longo até chegarmos lá. 

Comentários

Anaximandros disse…
Concordo com você, mas a tese dominante é ainda mais radical para baixo, querem revistas brasileiras publicadas em português e com baixo fator de impacto como A por área temática da economia e querem resolver isso usando a regra da maioria. Temos também a cota por periódicos ideológicos que cria distorções insuportáveis que repercutem em poder e distribuição de recursos, tudo muito lamentável. abraços do s.

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