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terça-feira, 29 de maio de 2012

Descentralização na Rússia czarista

Desde a minha dissertação, a questão da descentralização administrativa e financeira ganhou minha atenção, principalmente devido a seus efeitos - na teoria ambivalentes - sobre a oferta de serviços públicos. Tentei aplicar para o caso do Brasil algumas ideias que encontrei em Lindert, Goldin e Katz, e Bardhan e Mookherjee. Um pouco disso é fácil encontrar aqui, mas evidentemente minha análise ainda é insuficiente para a educação brasileira.

Símbolo da Rússia Imperial
Em edição da European Review of Economic History do ano passado, me chamou a atenção a aplicação dessas ideias à Rússia czarista. Steven Nafziger, do Williams College e com PhD em Yale, estudou a fundo uma instituição de governo local,  o zemtsvo. Essa instituição teria sido responsável por um significativo aumento da provisão de bens e serviços públicos na Rússia até sua Revolução em 1917. Com uma extensa base de dados, Nafziger consegue encontrar evidências de que a estrutura eleitoral do zemtsvo afetaram as taxas de impostos cobrados e o gasto, uma vez que permitiu, pelo menos, que algumas demandas camponesas fossem atendidas. Como isso aconteceu não se sabe, porque o voto direto parece não ter sido o canal. De qualquer forma, apenas haver uma estrutura em que os camponses participavam pode ter influenciado as decisões de alguns agentes menos conservadores dentro do zemtsvo. A educação parece ter feito parte do processo: Nafziger tem um novo paper sobre a economia política da educação na Rússia czarista que será apresentado no WEHC 2012, na sessão em que estarei participando.

Para o Brasil, faltam dados e maiores estudos sobre a questão do voto e da descentralização/centralização -  que podem ter influenciado significativamente as políticas sociais (educacionais e de saúde, por exemplo). Entender isso é crucial para explicar nosso atraso. Inclusive talvez ainda faltem estudos sobre descentralização de governança local para o Brasil atual ainda - acho que não há muitos estudos, embora existam, sobre orçamento participativo, p. ex. Infelizmente, ainda temos um longo caminho a percorrer e espero que, na sessão do WEHC, isso seja entendido. De qualquer forma, o negócio é trabalhar até julho.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Minha relação com China e Cuba

Minha ausência nas postagens nesta semana deve-se à viagem que farei à China do dia 7 ao di 16 de junho. Estarei em uma reunião da Comission of the Churches on International Affairs (Comissão das Igrejas em Assuntos Internacionais) do Conselho Mundial de Igrejas. Para entender o que nós fazemos e porque economistas participam desse tipo de reunião, é só clicar aqui. Infelizmente, o processo de retirada de visto é um pouco complicado. Mas agora encaminhei toda a documentação. O Leo andou postando aqui e acolá sobre China. Vale a pena.

Outra notícia é que tivemos o nosso paper sobre Cuba aprovado na ANPEC-Sul. A versão no site da ANPEC-Sul é antiga, mas aqui temos a versão que, com ligeiras modificações a serem feitas ainda, deve ser apresentado no World Economic History Congress em Stellenbosch (em meados de julho!).
O Leo também andou postando sobe Cuba e um paper novo que saiu na Journal of Economic History: check it out.

Minha relação com China e Cuba por enquanto é apenas essa. Um dia conversamos sobre os países.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Considerações e clippings para meus alunos sobre a crise europeia

A crise na Europa tem gerado um bom debate acerca de políticas monetária e fiscal. No Twitter, Roubini e Rodrik discutem a questão de soberania e liberdade de políticas:

Trichet proposes EU's full takeover of fiscal policy of bankrupt countries. It totally undermines national sovereignty
Monetary union requires fiscal union, which requires political union. As simple as that.

I fully agree. EZ needs fis/pol union Monetary union requires fiscal union which requires political union. As simple as that
Conversely, fiscal union without political union means bye-bye democracy.

A Europa não seria exatamente uma área monetária ótima segundo o trabalho clássico de Mundell - embora o próprio Mundell tenha sido favorável à moeda única na Europa. Isso certamente está relacionado aos dilemas de política econômica na Europa. Regimes de câmbio fixo, em particular uniões monetárias, impedem a existência de políticas monetárias autonômas em países muito diferentes. Agora Trichet propõe o fim da política fiscal autônoma. Isso faz sentido se pensarmos em uma união política, como disse Rodrik. Discussão importante da relação entre democracia e políticas econômicas.

Sobre os gregos, o conhecido historiador econômico Kevin O'Rourke discute o programa de austeridade e, na linha de Krugman, acredita que o fracasso é evidente e que os gregos têm boa razão para votarem do jeito que estão votando.

Também sobre o tema da crise europeia, uma das melhores coisas que li recentemente foi esse artigo do Eichengreen - que postei anteriormente. Ele compara a atual situação com o que aconteceu na Grande Depressão.  E aqui tem mais alguma coisa sobre a crise.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Clipping: diversos

Reúno aqui três links que postei recentemente no Facebook:



quarta-feira, 9 de maio de 2012

Por que HPE pode ser útil? Samuelson e a equalização dos preços dos fatores

Recentemente, expliquei para os alunos a lógica do Teorema da Equalização dos Fatores, um dos resultados mais fortes das teorias de comércio internacional - desenvolvido principalmente por Paul Samuelson. Claro, não vemos de fato o comércio entre países equalizarem os salários entre países no mundo. Sempre ouvi inúmeras críticas a respeito, como se fosse um total absurdo acreditado apenas por míopes economistas neoliberais. Mas por que esse teorema até hoje é ensinado?

Em primeiro lugar, Paul Samuelson não era neoliberal - defendia políticas keynesianas em vários aspectos e talvez seja o maior economista do século XX em termos acadêmicos. Um de seus resultados em teorias de comércio, publicado como "International Trade and Equalisation of Factor Prices" na Economic Journal em 1948 (ver link direto aqui), reconhece vários problemas dos teoremas derivados do modelo Heckscher-Ohlin. Um dos principais é que, para o teorema da equalização dos preços dos fatores valer, precisa-se assumir funções de produção iguais entre os países (ou seja, mesma tecnologia):

There remains a third, and perhaps more fundamental, reason why factor prices need not be equalised: the Ohlin proportions-of-the-factors analysis of international trade has  fundamental inadequacies and limitations. The Ohlin analysis explains much; but there is much that it fails to explain; and if adhered to inflexibly, there is much that it can obscure. […] Is it reasonable and useful to set up the hypothesis that production functions are the same the world over? (Samuelson, 1948, p. 181)

Ele não fala ainda em capital humano (teríamos que esperar Becker e Schultz na década de 60), mas reconhece que há muitas diferenças até entre trabalhadores (mas não apenas) que podem afetar produtividade e tratar dois países como iguais só porque têm proporção de fatores iguais não é suficiente - seja por diferenças em conhecimento, cultura e vários outros aspectos do "ambiente", segundo minha interpretação do seguinte trecho:

When we turn to the question of defining significantly comparable categories of productive factors, we run into similar difficulties."A man's a man for a' that," but is a jungle pigmy to be equated to an Eskimo? An illiterate "hill-billy" to his cousin  working  in  the Detroit  factories  and "broken" to an industrial regime? Even if we are sympathetic to the eighteenth-century view of the plasticity of human nature, so that all men (and women) are regarded as potentiallyalike, we must not overlook the important environmental differences that have conditioned their industrial effectiveness (Samuelson, 1948, p. 182).

Seguindo a tradição de Friedman (1952), talvez a maioria dos economistas diga que aprova um modelo por seus resultados (será mesmo?), sem questionar suas hipóteses, mas Samuelson já antevia os evidentes problemas empíricos devido às hipóteses excessivamente simplificadas. Leontief talvez apenas tenha confirmado a ideia em 1953 - ao menos é o que parece segundo esse trecho do mesmo texto:

We may conclude by saying that factor proportions explain only part of the facts of international economics. We must still set up hypotheses of differences in international production and productivity, differences in effectiveness which are to be accepted as empirical facts even if not simply explainable (Samuelson, 1948, p. 182-3).

Mas os economistas querem chamar atenção da importância da dotação de fatores - e é por isso que continuamos com modelos com proporções de fatores: hoje mais complexos, é claro.  

Ou seja, grandes economistas como Samuelson sabiam das virtudes e limitações de seus modelos. Depois os livros-texto espremeram tudo e a grande riqueza de artigos seminais como esse se perdeu. É evidente que os manuais devem ser lidos - não se pode esperar que alunos aprendam apenas lendo papers ou manuais de história do pensamento econômico. Os manuais são de utilidade inestimável, mas não podemos contar apenas com eles, porque muitas vezes os manuais perdem os detalhes. A história do pensamento pode ter um papel complementar importante. E quem fica na superfície - onde eu estava nesse assunto antes de começar a estudar seriamente o tema - acaba dizendo que esse teorema é uma grande besteira sem mais nem menos, como se Samuelson fosse estúpido. Ninguém é obrigado a concordar com teorias, mas é importante ponderar sobre as virtudes e limitações de modelos antes de desqualificá-los - como os próprios criadores das grandes teorias ponderaram acerca de suas próprias criações. 


terça-feira, 8 de maio de 2012

Quem são as elites?

Olha o Robinson aí
Acredito que este post recente do blog do Acemoglu e do Robinson (Why Nations Fail) é um bom instigador de debates. Uma vez que Acemoglu e Robinson trabalham muito com o conceito de elite, é preciso saber se todos os grupos organizados com poder político podem ser considerados como parte da elite. É uma questão difícil, porque, como os autores, eu tendo a pensar em elites como grupos organizados como proprietários de terras ou grupos do sistema financeiro. No entanto, outros levantam que mesmo sindicatos podem estar influenciando a política de tal maneira que podem se tornar elites extrativas! Vale a pena ler o post. 

Achei aqui um conceito de Amsden, DiCaprio e do próprio Robinson de elite nessa newsletter da UNU-WIDER:


É um bom tema de discussão.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Quão rico eu sou?

Quer saber em que parte da distribuição da renda brasileira você está? Então utilize esse aplicativo aqui. 

Se você é escraviário, digo, estagiário ou bolsista de IC, não vale. Alguém provavelmente te sustenta. Põe o salário dessa pessoa no lugar do teu rendimento pra entender o quão rico tu és.