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domingo, 29 de abril de 2012

Sobre vantagens comparativas

Para evitar o que muitas vezes se diz sobre vantagens comparativas, resolvi escrever esse post. Há alguns equívocos, na minha opinião, no que ouvimos por aí a respeito dos modelos de comércio internacional baseados em vantagens comparativas. 

  • Os modelos baseados em vantagens comparativas canônicos (Ricardo e Heckscher-Ohlin) não são necessariamente teorias normativas. Elas só mostram (tentam explicar logicamente) os ganhos estáticos da abertura ao comércio internacional entre dois países. E é óbvio que, em termos estáticos, em que não há variações de produtividade, há ganhos gerais de comércio para ambos os países envolvidos (lembrando que os modelos pressupõem dois países).
  • Os teoremas derivados do modelo Heckscher-Ohlin devem ser interpretados dentro de suas hipóteses. O modelo Heckscher-Ohlin puro pressupõe que os países tem tecnologias iguais (mesma produtividade). As vantagens comparativas provêm da dotação relativa de fatores. Logo, os teoremas de Heckscher-Ohlin, Stolper-Samuelson, Equalização dos Preços dos Fatores, Insensibilidade dos Preços dos Fatores e Rybczynski partem do pressuposto de produtividades iguais entre países. E os países do mundo não tem produtividades iguais. No entanto, os teoremas não perdem a validade enquanto teoremas. Apenas precisamos saber que existem outras forças além dessas operando quando dois países estão fazendo comércio. Não é à toa que os modelos-padrão de comércio incorporam a produtividade (dotação efetiva de fator).
  • O modelo Ricardiano pressupõe apenas trabalhadores. Logo, os ganhos de comércio vão para os trabalhadores. Em modelos com mais de um fator de produção, o comércio pode gerar ganhadores e perdedores - embora o país como um todo ganhe no curto prazo.
  • Por fim, há novas teorias de comércio baseados em concorrência monopolística e economias de escala. Elas não pressupõem necessariamente vantagens comparativas. É em parte por essas teorias que o Paul Krugman ganhou o Nobel. Acreditar que a teoria de comércio internacional acaba em Heckscher-Ohlin não é bom mesmo.
  • De qualquer forma, vantagens comparativas explicam em parte o aumento e a diminuição de setores em países com comércio. Isso não é necessariamente bom ou ruim, ou seja, a questão normativa fica para depois. Não que seja possível sempre separar o ser do dever ser, mas é importante tentar entender as teorias de comércio sob o ponto de vista da explicação e não da defesa política de certas políticas. Ainda me falta ler um paper velho do Corden sobre as questões normativas no comércio internacional!

Era isso. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Mais sobre educação

Interessante artigo do Pastore no Estadão do dia de ontem fala sobre a questão educacional. Vale a pena dar uma lida!

Relacionado ao artigo do Pastore, a história econômica dos Estados Unidos mostra como foi formado o capital humano norte-americano. Entre as diversas referências, um livro recente de Claudia Goldin e Larry Katz se destaca (e do qual já falei muitas vezes aqui): The Race Between Education and Technology. Aliás, há um artigo-resenha do Acemoglu e do Autor sobre o livro. E aqui, uma entrevista da VoxEu com o Katz.

Mas sobre educação nos EUA, é preciso ler Albert Fishlow, Bob Margo, Sandra Black e Kenneth Sokoloff, Sun Go e Peter Lindert, entre outros.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Clipping: Seminários, Coreia do Norte e papel higiênico

  • Prof. Jorge Araújo, que sabe muito de economia matemática e um dos melhores professores que tive,  para o deleite dos que não gostam de modelagem, afirmou quea abstração na economia prometeu muito mais do que trouxe. Isso foi em um seminário da FEE. De qualquer maneira, ele também não invalidou o uso da matemática evidentemente: ele afirmou que a matemática traz mais rigor e explicita os canais. Ainda estou com Krugman e Sen nessa (em ambos os links, eles falam de teorização). Evidentemente, precisamos melhorar nossas análises empíricas.

  • Seminários podem ser realmente úteis. Como eu anunciei no post passado, o Felipe Garcia apresentou nosso paper e recebemos excelentes comentários, em particular dos professores Marcelo Portugal e Sabino, além do Marcos, colega de FEE e de república em São Paulo. 
  • O diálogo de hoje no Tweeter é o seguinte:

: Like Dani Rodrik and Jeff Sachs often do, Paul Farmer refers to me as "some economist"
: @bill_easterly I do? Often?

  • A dica do Shikida do De Gustibus: os gulags norte-coreanos. Acho que muito pior do que qualquer país que você possa imaginar, mas eu evidentemente sou suspeito para falar. 

  • E para quem não lembra de minha aula de bens inferiores, aí está o papel higiênico do Chuck Norris (agradeço à minha aluna Ana Clara pela dica):


terça-feira, 17 de abril de 2012

Clipping: Banco Mundial, IPEA e seminário do PPGE/UFRGS




sexta-feira, 13 de abril de 2012

Definição de Oikomania

Ao digitar erroneamente o nome do meu próprio blog, o Google me indicou a existência do vocábulo "oikomania". Segundo o Free Dictionary, "oikomania" é definido como uma "an abnormal attachment to home", ou seja, uma espécie de fixação pelo lar. Talvez seja um mal que todo gaúcho sofre e, curiosamente, me identifico um pouco com o significado original por ser muito ligado à minha cidade e ao meu estado. A escolha do nome do blog foi totalmente ao acaso - pensando em Economia e no meu gosto pelo assunto. Há outras definições mais completas por aí do vocábulo (google it!). 

Como todo economista sabe, oikos (οἶκος) de fato significa casa e, portanto, juntando isso com nomos (νόμος), temos a origem do termo economia, que é literalmente a "administração da casa" (assim, entende-se porque "economizamos" ao comprar algo barato). Ou seja, estamos falando da administração de nossos recursos: como dizem os livros-texto, estudamos a alocação de recursos escassos. E como a alocação dos recursos hoje em dia é basicamente feita via mercado, estudamos o mercado (e também o papel do governo no mercado). Não estamos, portanto, tão longe da administração como deram a entender certa vez os professores de Harvard em conversa com Eugênio Gudin - pelo menos na origem etimológica. 

Apenas um detalhe fundamental: quando falamos de alocação de recursos, referimo-nos à eficiência. Mas muitos economistas também estudam a distribuição dos recursos. Portanto, definir economia apenas como a ciência que estuda "alocação de recursos" é talvez demasiadamente estreito - embora seja crucial estudar eficiência alocativa por uma questão técnica. Como bem disse Sen em "Sobre Ética e Economia", a eficiência pode "vir quente do inferno" (Sen citando Shakespeare na p. 48). Discutir justiça e distribuição é importante, porque nem sempre a eficiência necessita ser prioritária quando há um trade-off entre eficiência e equidade, embora ninguém negue a importância da eficiência. Nem sempre há esse trade-off de acordo com alguns economistas - é o que a moderna literatura de instituições e crescimento de longo prazo a la Acemoglu e Robinson anda dizendo. Ou ainda, a literatura em história econômica do estilo Engerman e Sokoloff ou Peter Lindert.  Para ver isso com clareza, recomendo essa resenha do Jeff Williamson na última Journal of Economic History (você vai precisar do acesso via Capes ou sua universidade)

P.S.: Oikos também serve para entendermos palavras como ecologia ou ecumenismo. Em tudo isso, estamos falando de algo em comum que temos - seja em onde vivemos ou na unidade religiosa (sendo ecumenismo utilizado para falar da unidade de diferentes igrejas cristãs ou ainda, em um significado mais amplo, na unidade entre religiões).  Mas isso tudo é outra história. 


terça-feira, 10 de abril de 2012

EconAcademics e blogosfera

Recebi hoje um email de alguém do Fed de St. Louis (que tem esse interessante banco de dados) dizendo que este blog está na versão em português do EconAcademics.org. A única coisa que fiz, aparentemente, foi postar um link para algum artigo da EconPapers, RePEc ou dos blogs do NEP. Provavelmente o Erik do Moral Hazard também recebeu o email, que começa assim:

Dear Blogger,

Congratulations, you made the list!

The Federal Reserve Bank of St. Louis is lauching a blog aggregator, 
EconomicAcademics.org, to highlight and promote the discussion of 
economics research. Your blog is part of this effort. This email explains 
why and how you can help promote the discussion of economic research in 
the blogosphere.


A blogosfera está aumentando e muito. Quem escreve sobre isso, e muito bem, é o Drunkeynesian. Como já falei pro Shikida e pro Cristiano, nosso próximo evento deveria ser junto com esses caras aqui:




sexta-feira, 6 de abril de 2012

Resenhas de Why Nations Fail

Acho que essas resenhas sobre o aclamado livro de Aemoglu e Robinson, Why Nations Fail, podem ser interessantes (veja o blog do livro aqui). Em partiular, gostei muito da resenha do Bill Easterly, cuja crítica básica é que o livro é mais anedótico do que consistente do ponto de vista de mostrar evidências de causalidade - teria havido exagero na tentativa dos autores em tornar o livro acessível a um público maior do que os economistas. 

Por outro lado, a resenha de Clive Crook (são duas na verdade, mas vou me concentrar nessa aqui, a outra resenha está aqui), chama atenção para o uso do termo "instituições inclusivas" - termo  que para ele serve mais para vender a ideia do que dar certa precisão ao argumento. Para melhorar isso, Crook resolve voltar para Mancur Olson e seu conceito de "market-augmenting government". Um ponto duvidoso da resenha de Crook é seu certo ode ao "individualismo" que ele faz no final. Esse termo talvez seja tão problemático quanto "instituições inclusivas" (se é que isso é tão problemático quanto diz Crook). A dicotomia "individualismo vs. coletivismo" me parece pouco útil - melhor continuar com "direitos individuais", uma vez que cooperação, termo que parece não combinar tanto com individualismo, para o próprio Olson e também para North, é uma das chaves para o crescimento de longo prazo.

Thomas Friedman já tinha uma resenha interessante aqui. Também vale a pena checar a resenha de Paul Collier, bastante favorável ao livro. Não esquecer da resenha do Francis Fukuyama, para quem a visão de instituições inclusivas/extrativas de Acemoglu e Robinson é semelhante ou igual à ideia de North, Wallis e Weingast quanto a "open/limited access socieities" (e, na minha opinião, a resenha do Fukuyama é a mais interessante dentre todas que mencionei). Há ainda outras resenhas na internet, é só ver nessa lista dos próprios autores do livro.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Protecionismo na América Latina e na Ásia

Continuando a discussão do post passado e desses outros posts de outros blogs aqui e acolá, temos aí mais resultados novos. Recebi o seguinte email do meu amigo Thales, historiador econômico, que leu o último paper de Clemens e Williamson (2012) na Revista de História Económica/Journal of Iberian and Latin American Economic History. O artigo desses autores, que na minha opinião são insuspeitos (é só olhar o Lindert e Williamson (2003), em que os autores são em geral favoráveis à globalização), levanta dúvidas acerca do papel do livre comércio. A discussão é muito difícil e é preciso entender se América Latina e Ásia cresceram por conta do livre comércio ou apesar do livre comércio (como costuma dizer o Nye) - quando cresceram. 

Citando o Thales, em email pessoal para mim:
" [...] acho que o último paper do Williamson e do Clemens sobre America Latina pode te ajudar no debate sobre protecionismo. Está na última RHE:

'Latin America had the highest tariffs in the world before 1914; Asia had the lowest. Heavily protected Latin America also boasted some of the most explosive belle e´poque growth, while open Asia registered some of the least'.


Após a década de 1930, inverte-se, a Asia em média teve tarifas mais altas que a América Latina. Eles concluem com:


' [...] any claim that liberal trade policy lies at the heart of recent growth performance in these two regions must also explain why high tariffs did not dampen growth or industrialisation during the Latin American belle e´poque and why low tariffs did not ignite growth or industrialisation in Asia before 1914' .

É um bom debate."

Para outros talvez tenha havido excesso de proteção comercial, mesmo de acordo com gente da própria CEPAL! (é só ver Macario, Santiago. “Protectionism and industrialization in Latin America”. Economic Bulletin for Latin America. 9, 1964, p. 61-101.4). Sobre esse assunto, ver um post meu de 2008 que talvez contradiga este atual - para ver como a discussão é antiga por aqui.