Pular para o conteúdo principal

Aumento salarial dos parlamentares

Alguém leu o texto que postei na quinta-feira passada? Tudo que eu escrevi sobre o Judiciário agora pode ser aplicado ao Legislativo, que legisla acerca de seu próprio aumento sem qualquer restrição. Alguma dúvida de que algo está errado na estrutura institucional?

Confesso que minha própria inércia e falta de capacidade de indignação me surpreende. Tenho que praticamente forçar uma indignação, porque emocionalmente já estou acostumado demais com esse tipo de comportamento de nossas elites políticas e econômicas. Ao mesmo tempo, fica difícil votar nos partidos de ultra-esquerda (com hífen, sem hífen?), aparentemente os únicos que votaram contra o aumento (pelo menos no RS).

Na minha época de graduação, tive que ler partes do livro "Desigualdade e Pobreza no Brasil", editado pelo Ricardo Henriques do IPEA. O livro é de 2000 e várias coisas mudaram desde lá, mas aprendi que a estrutura tributária brasileira é muito regressiva na disciplina do Prof. Flávio Comim na UFRGS, assim como também a estrutura de gastos - pelo menos até então. Lembro do Prof. Ário Zimmermann também chamar a atenção disso na cadeira de Economia do Setor Público. Não prego aqui necessariamente a progressividade dos impostos, podemos discutir a questão. Se fosse progressiva a tributação, esse aumento obsceno já seria uma afronta à sociedade. Mas regressividade e este tipo de aumento são uma afronta ainda maior aos pobres - situação moralmente mais grave ainda na minha concepção.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero.
O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente.
O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero t…

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas.

Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre).

Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55), lis…

A busca pelo ótimo de Pareto

Depois de um jogo entre São Paulo e Palmeiras, nada melhor do que uma conversa sobre Economia. Com uma caminhada de 45 minutos pela frente, eu e meu colega Richard, um especialista em Escola Austríaca e torcedor do porco, discutimos inúmeros assuntos, inclusive o famoso ótimo de Pareto.

O ótimo de Pareto (Vilfredo Pareto foi economista e sociólogo italiano da Escola de Lausanne) é um conceito fundamental na ciência econômica. Em muitas análises, busca-se chegar nesse ótimo, o que acontece quando melhorias de Pareto não são mais possíveis. Uma melhoria de Pareto é a melhora na situação de um sem piorar a dos outros. Quando se exaurem todas as melhorias paretianas, estamos no ótimo: só é possível melhorar a situação de alguém piorando a de outrem.

A pergunta é: embora o ótimo de Pareto esteja em muitas análises na Economia do Bem-Estar, não é esse ótimo um juízo de valor arbitrário?

Evidentemente, a resposta é sim. No entanto, sabemos que poucas pessoas achariam (em princípio) ruim melhora…