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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Contrafactual

Contrafactual para um historiador é praticamente um pecado. Conjecturas sobre o que teria acontecido caso um fator x ou y não tivesse existido são comumente mal vistas. O historiador, mesmo o econômico, não deveria tratar do que não aconteceu, afinal isso não é história.

William Summerhill resolveu falar sobre os contrafactuais hoje. Enquanto ele falava, eu, Felipe e o Prof. Renato apenas trocamos olhares. Recentemente discutíramos a respeito do tema lendo um texto clássico de Robert Fogel, Nobel em Economia de 1993*. Para mim ficou evidente lendo aquele texto a falácia da negação do contrafactual. Como afirma Fogel, sempre que afirmamos que um fator x foi de crucial importância para a ocorrência de tal processo histórico, estamos dizendo implicitamente que, sem aquele fator, as coisas teriam ocorrido de forma significativamente diferente. A única diferença então é que alguns, conscientes de que estão sempre fazendo suposições contrafactuais, explicitam isso. Outros, aqueles que pregam o erro do uso de contrafactuais, usam-nos implicitamente.

É um assunto longo que precisa ser mais debatido. Summerhill falou em Fogel e confirmou nossas idéias a respeito. É muito melhor explicitar os contrafactuais, pois assim possibilitamos que nossas hipóteses possam passar pelo crivo dos outros pesquisadores que lêem nossos trabalhos. Explicitar os contrafactuais é deixar claro nosso argumento, que fator estamos dando maior importância na explicação de certo fenômeno empírico, mesmo que não pertença àquilo que chamamos de história econômica.


* Fogel, R. W. (1967). "The Specification Problem in Economic History". The Journal of Economic History, 27 (3), Sept., p. 283-308.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Atraso econômico e "pecado original" (não é teológico)

Hoje iniciou um mini-curso em história econômica com o Prof. William Summerhill, do Departamento de História da UCLA. O curso trata especificamente do crescimento de longo-prazo e do atraso latino-americano. A primeira aula foi interessante: ele discutiu algumas das teorias para o atraso baseado em instituições.

Depois de Summerhill apresentar extensivamente o trabalho de Acemoglu, Johnson e Robinson (2002) e criticar alguns de seus aspectos, alguns de nós começamos a discutir acerca do determinismo dessas teorias. Todas elas buscam uma explicação no começo da colonização para o surgimento das subseqüentes instituições que teriam levado ao atraso latino-americano.

Afinal, é pelo início da colonização que se explica o atraso? A sensação geral é de uma idéia de "pecado original" e que, portanto, não é possível melhorar muito a situação. Até que ponto ou qual a proporção do atual atraso que podemos atribuir a fases iniciais da colonização?

Apenas uma questão para os leitores refletirem.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Ética e mentiras

Como acontece com muita gente, cresci ouvindo de meus pais que havia claramente o certo e o errado. Preto no branco. Uma questão de princípio. Balizas. Limites intransponíveis. Mentir é errado, por exemplo. Parece-me que para crianças, ensinar leis dessa forma é algo apropriado. Apenas depois é que temos condições de refletir melhor e avaliar as situações.

Acredito que todos aqui já mentimos por questões consideradas nobres. Obviamente também já mentimos apenas para satisfazer nossos interesses mais egoístas. Entretanto, eu justificaria algumas das mentiras que já disse por aquilo que considerei ser um bom motivo.

A mentira é apenas um exemplo entre tantos outros, mas bastante ilustrativo. Posso até afirmar categoricamente que a mentira é sempre algo ruim. O problema é quando a conseqüência de não mentirmos é algo pior do que a própria mentira. Imaginemos a situação em que dizer a verdade resulta na morte de alguém. Embora mentir seja ruim, podemos considerar a morte de alguém muito pior (acho que isso é razoável). Quando a escolha é entre o mal e o mal, recorrer somente a princípios não nos leva a lugar algum. Os princípios são importantes, mas não podem ter prioridade absoluta em uma decisão. Afinal, não mentir pode levar a um mal ainda pior. Se os princípios se tornam prioridades absolutas, desconsideram-se os verdadeiros dilemas e não existem respostas satisfatórias para as situações concretas que vivenciamos. Mentir quase sempre é um erro, mas podem existir situações (poucas) em que mentir seja necessário.

Esse debate ético é a discussão que ocorre entre aqueles que advogam uma ética baseada em princípios e aqueles que defendem uma ética conseqüencialista. Em termos técnicos que talvez não sejam familiares a muitos leitores (ou seja, passem por cima das próximas duas frases se quiserem), conseqüencialismo não é o mesmo que utilitarismo, embora todo utilitarista seja conseqüencialista. O utilitarista em geral desconsidera princípios, enquanto que certas vertentes conseqüencialistas consideram princípios como um tipo de conseqüência. Tendo a me inclinar a essa última idéia e acredito que ela é mais próxima daquilo que a ética cristã ensina. Afinal, "o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado" (Mc 2.27).

Entendo, no entanto, que nem o conseqüencialismo nem os princípios respondem corretamente a todas as questões. Apenas Deus tem conhecimento acerca do bem e do mal, e nós seres humanos não podemos ter a pretensão de saber isso - não sabemos de todas as conseqüências possíveis, afinal não podemos prever com 100% de exatidão o futuro. É essa pretensão que nos tira da comunhão com Deus, que nos afasta dEle em vez de cumprir suas ordens. É na relação com Deus e na obediência que podemos tomar as atitudes de fato corretas. Como se relacionar com Deus é outra questão, que precisamos trabalhar muito mais.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Sobre o mestrado

Estou há cerca de um ano e meio em São Paulo devido a meus estudos em nível de mestrado na FEA-USP. Recentemente, um visitante deste blog questionou-me acerca das possibilidades que a USP oferece para um doutorado no exterior. Além disso, perguntou-me se tive um bom curso. Aí vai a minha resposta.

O doutorado no exterior é cada vez menos incentivado pela política governamental. Segundo tenho ouvido, as verbas destinadas a bolsas integrais de doutorado fora tem diminuído como fruto da constatação de que os doutorados nacionais estão fortes o suficiente. Tenho visto muitos cartazes sobre bolsas-sanduíches: aquelas que financiam o estudante que faz o doutorado no Brasil durante um período fora em alguma universidade no exterior. Uma alternativa bem mais barata para o governo. Não obstante, ainda há gente sendo mandada ao exterior evidentemente e a FEA-USP tem excelentes professores que podem indicar pessoas ao PhD fora. Da turma anterior a minha, que não tem um perfil muito acadêmico (poucos tentaram o doutorado fora), uma foi mandada para Yale, outro para UMass. Da turma de dois anos atrás, sabemos pelo menos de um em Columbia e de outro indo pra LSE agora (não conheço os outros). Ademais, acredito que a FEA-USP tem boas cartas de recomendação para Yale, Chicago, LSE, UCLA e algumas outras pelo menos.

Quanto ao curso, minha turma teve um curso bom, apesar de que vi alguns problemas pequenos. Acredito que esses problemas foram sanados neste ano com a nova turma. Econometria é uma das áreas mais fortes, mas temos também times muito fortes em Macroeconomia, Microeconomia Aplicada e Economia Regional e Urbana. Para aqueles que desejam quem sabe ir para o exterior, a FEA-USP me parece ser uma boa alternativa, assim como PUC-Rio e EPGE. A PUC-Rio tem uma tradição forte em mandar gente pra fora, mas acho que, se alguém quiser e mostrar serviço, a FEA tem boas cartas. Não sei dizer se as escolas do Rio estão mais fortes ou não nisso, é preciso ver com quem estuda lá.

A vantagem da USP continua sendo seu corpo de professores mais plural e diversificado em relação a áreas de estudo. Praticamente todos os campos têm gente muito boa para orientar, sejam eles da geração antiga ou dos "novos doutores", sejam eles das alas heterodoxas ou dos ortodoxos (que predominam).

Aqueles que quiserem mais detalhes, sintam-se a vontade para comentar ou até me mandar um e-mail. É só dar uma olhada no meu perfil. De qualquer forma, mantenham IPE-FEA-USP entre suas opções pra ANPEC e ponderem com calma se conseguirem passar entre os primeiros.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Economia bíblica

Até mesmo no Israel do Antigo Testamento se conhecia bem a lei da escassez. A história abaixo é sobre uma fome que houve em Samaria devido a um cerco feito pelos siros e a posterior abundância com o fim do sítio (2 Reis, cap. 6 e 7):

"Houve grande fome em Samaria; eis que a sitiaram, a ponto de se vender a cabeça de um jumento por oitenta siclos de prata e um pouco de esterco de pombas por cinco siclos de prata." (2 Reis 6.25).

"Então, disse Eliseu: Ouvi a palavra do Senhor; assim diz o Senhor: Amanhã, a estas horas mais ou menos, dar-se-á um alqueire de flor de farinha por um siclo, e dois de cevada, por um siclo, à porta de Samaria" (2 Reis 7.1)

"Então saiu o povo e saqueou o arraial dos siros; e assim, se vendia um alqueire de flor de farinha por um siclo, e dois de cevada, por um siclo, segundo a palavra do Senhor". (2 Reis 7.16)


Nas notas de rodapé de minha Bíblia de Estudo, está escrito o seguinte para ajudar os não familiarizados com o raciocínio econômico que o autor do livro bíblico acreditava não ser necessário explicar: "A queda dos preços era sinal de abundância; assim o profeta anunciava o fim do cerco".