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sexta-feira, 27 de junho de 2008

Mudanças na península

Segundo o NY Times, há mudanças ocorrendo na península:

North Korea Destroys Nuclear Reactor Tower, South Korea's MBC Reports

SEOUL, June 27 (Reuters) -- North Korea on Friday brought down a cooling tower at its Soviet-era nuclear plant, said South Korean broadcaster MBC, which has a crew at the site.

The move was part of a process of dismantling the state's nuclear program in return for easing its international isolation.

Pyongyang on Thursday handed over an account of its nuclear program, fulfilling a key requirement in six-nation talks on halting North Korea's nuclear weapon program and creating a nuclear-free zone on the Korean peninsula.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Amigos administradores

Aos visitantes administradores, levem na esportiva.

Carta de Eugênio Gudin para o ministro da Educação Gustavo Capanema, após passagem pela Universidade de Harvard, onde encontrou os professores do departamento de Economia para perguntar sobre a criação de uma faculdade de Economia no Brasil:


Perguntamo-lhes [aos professores de Economia de Harvard] também sobre a conveniência ou não de separar as duas faculdades, a de economia e a de administração. Eles nos levaram à janela para mostrar-nos, do outro lado do rio, a faculdade de administração, admiravelmente instalada aliás, e nos recomendaram que se não tivéssemos um rio, abríssemos um canal [...] para separar as duas faculdades.

Carta de Gudin a Capanema, 21/8/1944. GC 38.09.17 doc 22, série G.



In Schwartzman, S.; Bomeny, H.M.B.; Costa, V.M.R. Tempos de Capanema. 2 ed. São Paulo: Paz e Terra: FGV, 2000, p. 240.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Sobre os males da desigualdade - parte 2

Em sua resposta ao meu último post nos comentários, Joel do Terra à Vista defende que o poder político, seja lá de quem for, seja diminuído, porquanto poder político seria a influência de grupos de pressão sobre o Estado em relação à alocação de recursos. Tais interferências estatais distorceriam o funcionamento natural do mercado, levando a uma situação injusta no sentido procedimental. Richard do "Depósito de", claro adepto de concepções deontológicas, advoga o mesmo e vai além: "é altamente recomendado que países com grande desigualdade social não busquem diminuir tal desigualdade através de programas estatais".


Do mundo ideal sem Estado advogado pelos neo-austríacos, a passagem para o mundo real é normalmente problemática. É difícil conceber uma situação de extrema desigualdade de recursos econômicos sem que a parcela privilegiada da sociedade utilize desses recursos para criar instituições que lhe favoreça. Uma vez que o poder político momentâneo dessa parcela, derivado de sua renda muito maior, pode desaparecer no período seguinte, é natural que ela crie instituições políticas que permitam a persistência dessa distribuição de poder, que posteriormente beneficiá-la-á economicamente. Afinal, por que a parcela com muito mais recursos que a outra não criaria um Estado que os favorecesse? Talvez porque seja eticamente errado. Difícil. Embora ética possa influenciar o comportamento humano, dificilmente chegaria a esse ponto.

Quando os libertários querem falar do real, acabam tomando posições viesadamente conservadoras na minha opinião (e no mau sentido). Richard afirma que o Bolsa-Família não é um programa de redistribuição de renda, uma ilusão, uma vez que pelo outro lado, o governo estaria distribuindo benesses aos já privilegiados. De fato, isso ocorre no Brasil. Mas o ponto fundamental é que, apesar do desenho insuficiente dos programas assistenciais do governo, melhor com eles do que sem eles. Sem esses programas destinados aos pobres, só teríamos os privilégios. Não quero entrar no mérito do Bolsa-Família. Mas falo de programas redistributivos buscando menor desigualdade em geral. Dizer que programas estatais não devem ser utilizados para diminuir a desigualdade é absurdo na prática da sociedade, uma vez que a elite não costuma deixar de pedir pela manutenção de seus privilégios. Eu sei perfeitamente que tanto Joel quanto Richard são contra qualquer tipo de redistribuição via Estado - tanto pró-elite quanto pró-pobre. Todavia, a minha posição é de que não devemos pensar em uma sociedade ideal e compará-las com a nossa. Nossa noção de justiça não deve ser transcendental, como nos ensina Sen ( "What do we want from a theory of justice", Journal of Philosophy, 2006). Esse vai ser um ponto fundamental do seu livro sobre justiça a ser lançado em breve, contrariando tanto Rawls quanto os libertários.


A pregação da ausência do Estado é irreal e é uma noção transcendental de sociedade. O livre mercado obtém excelentes resultados em termos de eficiência, mas o ótimo de Pareto independe da distribuição. É possível obtermos resultados eficientes com nada para um dos lados e tudo para o outro. O libertário pode até considerar isso justo. No entanto, não pode esperar que um Estado não surja em primeiro lugar nessa situação, nem pode esperar que haja estabilidade política automática. Esquecer a política é tratado teológico. Nesse caso, recomendo "A Cidade de Deus" de Agostinho.

* Perdão pela minha ácida ironia nesse post. Prezo muito o debate com meus amigos Joel e Richard.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Sobre os males da desigualdade - parte 1

Joel do Terra à Vista escreveu há algumas semanas acerca das benesses da desigualdade social, contrariando a moda reinante. Em resposta, seguirei um pouco mais a tendência popular a ver com maus olhos a desigualdade.

RawlsÉ evidente que Joel tem razão quando afirma que um certo grau de desigualdade é necessário para sabermos que setores estão sendo mais remunerados, orientando a oferta para os setores em que a demanda mostra-se relativamente excessiva. É o próprio mercado que cria essas desigualdades. Nenhum economista negaria que essa desigualdade em níveis razoáveis é positiva.

Aliás, são poucos os teóricos igualitários que desconsideram esse ponto. O Princípio da Diferença advogado pelo liberal-igualitário John Rawls em sua influente obra "Uma Teoria de Justiça" permite que haja desigualdade quando ela favorece a parte da sociedade menos avantajada em relação a uma situação de igualdade estrita. Assim, Rawls não defende a igualdade estrita, uma vez que ela acabaria com os incentivos, como ocorreu em muitos países de economia socialista. Defender a igualdade estrita é um patente absurdo devido a questões de eficiência, mesmo para boa parte do igualitarismo.

AcemogluQuando reclamamos da desigualdade, não estamos reclamando de pequenas desigualdades. Joel temerosamente afirma que "só com uma mudança radical de foco conseguiremos, quem sabe, formular medidas que ajudem nossa população a sair da pobreza. E quando isso acontecer, mesmo que 10% continuem a concentrar 75% da riqueza, estaremos todos muito melhor". De fato, estaremos todos muito melhor. O problema é que a manutenção de uma distribuição tão desigual acirra os conflitos sociais e impedem a cooperação para um bom desempenho econômico como dizem North (1990) e Acemoglu e Robinson (2004). Recursos econômicos distribuídos de forma muito desigual geram distribuição desigual de poder político de facto. A tendência é que os grupos com maior poder criem instituições políticas elitistas, gerando desigualdade na distribuição de poder político de jure. Posteriormente, essas instituições influenciam na futura distribuição de recursos e na performance econômica de forma negativa.

James RobinsonFelizmente, o institucionalismo tem aproximado a ciência politica da economia. A análise do Terra à Vista é puramente econômica, o que pode ser limitante para tratarmos fenômenos reais. Com isso, não estou afirmando que entender a economia pura com clareza é inútil. Muito pelo contrário: embora não encontremos no mundo real estruturas concorrenciais puras, o conhecimento do modelo de concorrência perfeita é essencial para que possamos entender modelos mais complexos e mais próximos da realidade. Max Weber criou tipos ideais para que pudéssemos analisar os fenômenos com mais clareza, apesar de ter ciência do fato de que a realidade apresenta uma mistura de características de vários tipos ideais. Da mesma forma, a economia não pode prescindir da ciência política para entender as implicações da desigualdade.

Em post posterior, discorrerei sobre a questão da tributação e do gasto social relacionando-as à produção e à desigualdade.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Considerações sobre educação pública

A comunidade universitária costuma debater em termos de "público vs. privado" quando se fala de educação superior. Muitos economistas costumam dizer que os países prósperos investiram em educação primária primordialmente, tendo ocorrido o contrário no Brasil. Assim, economistas são considerados como aqueles que querem acabar com a universidade pública.

Não obstante alguns economistas realmente queiram acabar com universidades públicas, não é exatamente esse o ponto do argumento quando analisamos empiricamente. O problema não é a universidade ser pública e o Estado gastar recursos em sua manutenção. Quando se soma isso à falta de gastos no primário é que é preocupante. Muitos países prósperos também investiram em universidades públicas, mas não existe país próspero que não tenha investido maciçamente em educação básica.

Lindert (2003, p. 325-6) propõe algumas medidas para detectarmos quando as políticas educacionais estão claramente favorecendo a elite: (1) taxa de suporte ao ensino primário = (fundos públicos para ensino primário/total de crianças com idade para cursar o primário) dividido por PIB per capita; (2) Taxa relativa de suporte ao ensino terciário = suporte público para a educação terciária por aluno dividido pelo numerador de (1).

A segunda medida não vê problemas em investir em educação superior, desde que o ensino primário tenha prioridade. Ou seja, isso não significa que queremos "acabar com a universidade pública". Significa apenas que o ensino primário é prioritário, pois possibilita maior igualdade real de oportunidades. Como diz o mesmo Lindert (2003, p. 327):

"The calculated social rates of return are lower for tertiary education than for primary, and there is no clear externality argument in favor of subsidizing higher education more than primary education in a lower income setting".

Infelizmente no Brasil, é bem provável que observemos taxas bastante "elitistas" devido à falta de investimentos no ensino fundamental, o que certamente contribui para a persistência da desigualdade no país.

Lindert, Peter H. (2003). "Voice and Growth: Was Churchill Right?" Journal of Economic History, 63 (2), June.


segunda-feira, 2 de junho de 2008

Resposta ao Diego: ética e crenças

Diego Rodrigues falou de seu posicionamento favorável acerca das pesquisas com células-tronco embrionárias. Se pudéssemos votar nessa questão, nossos votos coincidiriam. No entanto, Diego disse coisas com as quais discordo profundamente e achei que valeria a pena postar meu comentário por aqui também. Quem quiser entender a discussão, leia o texto dele e leia a minha resposta abaixo:

Diego, vou ter que discordar profundamente de ti em algumas questões. Até agora, tenho sido a favor das pesquisas, embora considerando que a decisão não é simples.

No entanto, a forma que tu atacou o pensamento religioso não faz muito sentido quando tu quer falar sobre ética. Ética tem a ver necessariamente com nossas concepções de mundo, sejam elas religiosas ou não. Podemos atribui-las a Deus, a filósofos ou a quem quer que seja.

Tu dizes que "o ético não pode ser confundido com a crença, com a bíblia, com os valores e ideologias que sustentam concepções de mundo e de vida". Mas o ético trata justamente de valores e de crenças: é nisso que consiste a ética. Se as pessoas baseiam seus valores na Bíblia, em Nietzsche ou em Marx não interessa. Elas têm o direito de defender suas posições. Tu pode perfeitamente discordar das concepções católico-romanas (como eu também discordo muitas vezes), mas nem por isso vou dizer que basear concepções éticas na religião é algo proibido pelo simples fato de que tal proibição não faz o menor sentido.

Deixando bem claro: uma coisa é discordância de crenças ou concepções de mundo (sejam elas seculares ou religiosas). O que tu disse ali em cima não foi isso. Tu disse que o ético não pode ser confundido com o religioso. Mas isso é absurdo pra alguém que professa alguma religião, uma vez que suas concepções estão necessariamente ligadas à religião. E mais, muitas (ou quase todas) das tuas próprias concepções éticas, uma vez que tu vive na sociedade brasileira, provêm da religião - principalmente da católico-romana.

Ora, se os católicos são contra as pesquisas com células-tronco embrionárias, eles que sejam. Discorde deles à vontade. O que caracteriza a sociedade democrática é a tolerância, não o sepultamento das idéias ditas conservadoras ou coisa parecida. Bem, os conservadores são moralmente contra a homossexualidade. Eles podem ser, desde que sejam tolerantes. Eu não concordo com várias atitudes, nem por isso acho que as pessoas que as tomam devam ser desprezadas. na verdade, muito pelo contrário.

Abraços,
Thomas